A saga de Nina: O Muiraquitã Branco
3 A árvore de fogo
A noite havia chegado, todos no orfanato dormiam serenamente, Nina estava curiosa sobre o conteúdo do livro, mas não havia tido a oportunidade de lê-lo então o escondera embaixo de seu colchão com a folha dourada entre suas páginas, ela precisava pensar em como esconde-lo melhor no futuro, mas naquele momento era o único lugar possível.
Ela queria folhear o livro e ler cada página e descobrir a relação entre ele e a folha, mas o quarto estava escuro e ela não tinha uma lanterna. Nina saiu do quarto com cuidado andando pelo longo corredor frio, ao lado de fora chovia como se o mundo fosse acabar, os trovões soavam como se o céu fosse desabar e a deixava um tanto quanto apavorada. Um raio caiu próximo a casa clareando todo o escuro corredor, ela começou a contar para ouvir o estrondo, sempre fez isso, calcular o tempo em que o raio caia e o estrondo do trovão a fizera perder o medo dos dias de chuva. Caminhou lentamente com cuidado para não acordar ninguém e entrou no banheiro, desceu a tampa da privada amarelada e sentou-se sobre ela, fechou a porta da cabine e começou a ler o livro.
O livro era escrito a mão de forma que a caligrafia o deixava mais difícil de ser lido, a encadernação, os desenhos, a fita dourada que marcava as páginas, tudo parecia vir de um trabalho artesanal de muitos anos atrás, as folhas pareciam ser recicladas por isso eram mais grossas, na lateral o título do livro brilhava como se tralhado em ouro amarelo. Todo o acabamento fazia com que ele parecesse mais com um diário de viagem ou coisa do tipo. Não havia prefácio, prologo ou agradecimentos e começava com os seguintes dizeres:
"Se você está lendo esse livro, é porque você faz parte de algo muito maior do que seus olhos vêm.
Você teve a sorte de estar aqui, mas poderia também ter a sorte de estar lá.
Você tem o passaporte, mas só poderá usá-lo quando ela te der o visto"
Nina não entendeu bem aqueles dizeres, imaginou que fosse uma poesia, ou talvez o início de um livro de contos sobre algum mundo mágico. Queria entender quem seria ela e o que aquelas palavras queriam dizer.
Ela virou a próxima página do livro, mas ouviu pequenas risadas, por um momento imaginou que estava delirando, olhou para cima, abriu levemente a fresta da porta da cabine, mas não viu nada, se pós a ler novamente.
"Creio que nesse momento você está se preparando, ansioso para sair do mundo sapiens, ao qual por algum motivo se perdeu nele, e está à procura de um livro que te guie no mundo de Andurá, ou se preferir Ibitemi entre os vários nomes que deram a aquelas terras... "
Nina novamente ouviu risadinhas, mas dessa vez sabia que não estava alucinando, olhou para cima e nesse exato momento, um balde de água a atingiu, várias das garotas que a haviam seguido começaram a rir a sua volta. Carla havia subido na privada da cabine ao lado, e a observado planejando silenciosamente com as outras garotas de deixa-la encharcada.
—Ops! O balde escorregou da minha mão me desculpe! -Carla disse enquanto as outras garotas riam.
Nina segurou fortemente o pequeno livro e respondeu.
—Não é novidade, você sempre foi desastrada.
As expressões das garotas ao redor mudaram de sorrisos estridentes a uma surpresa furiosa, ao mesmo tempo começaram a fazer barulho em conjunto, incentivando uma briga.
A expressão de Carla se fechou.
—Você se acha esperta não é Nina? — Carla se aproximou de Nina, e se abaixou levemente até que seus rostos estivessem frente a frente — Mas não passa de uma garota estranha que todos rejeitam -Ela disse tomando o livro da mão de Nina.
Carla levantou o livro o jogando para Taís, uma baixinha ruiva do tamanho de Nina que vivia seguindo Carla. Nina avançou até Taís, mas ela lançou o livro novamente para Carla. Taís agarrou Nina com a ajuda de Juliana, uma garota morena que servia como faz tudo ao grupo.
Carla abriu o livro, mas sua expressão ficou surpresa, ela começou a folhea-lo, como se procurasse algo.
—Meu deus! — Carla riu -Você é mais louca do que imaginava, está lendo um livro em branco, não tem uma palavra sequer escrita aqui.
Todas as garotas riram acompanhando Carla.
—Me devolva, ou juro que ....
Nina foi interrompida.
—Ou jura o que? Que me fará uma limpar o rolimã com você? Ou que vai tentar me bater? -As risadas aumentaram.
A folha dourada estava parcialmente para fora do livro, mas ninguém notara a mesma, era como se tudo aquilo fosse invisivel aos seus olhos.
—Mas não se preocupe, com um livro velho como esse, ninguém vai querer rouba-lo de você. Mas eu tenho uma solução para transforma-lo em novinho em folha. -Carla abriu a pequena janela do banheiro. -Podemos aproveitar a água da chuva.
—Tente isso e você será uma garota morta! -Nina gritou, sua voz rouca alcançara o tom mais alto que já conseguira, e imaginava que a essa altura todos do orfanato haviam acordado e partido em direção ao banheiro.
—Vou correr o risco. — Carla deu um leve sorriso e jogou o livro pela janela
Nina explodiu em raiva, se soltou dos braços de Tais e Juliana, e partiu para cima de Carla, as duas caíram no chão e começaram a brigar, pela primeira vez Nina não apanhava, mas sabia que isso não duraria muito tempo pois em breve as meninas ajudariam Carla.
Tia Zelu a cozinheira baixinha de cabelos grisalhos foi a primeira a chegar na porta separando a briga, e afagando Carla que fazia Nina se passar por a encrenqueira da vez.
Nina com raiva voltou até o quarto, as outras garotas que haviam permanecido no quarto olharam assustadas. Por um pequeno momento ela trocou um olhar com Laura que estava sentada na cama apreensiva. Se dirigiu até a cama de Carla pegando seus lençóis e roupas e os jogando-os pela janela, ela continuou partindo para a cama de Juliana e Taís. Tia zelu assustada com a atitude de Nina do qual nunca presenciara antes, correu pelas escadas chamando a diretora Augusta e os vários professores e adultos que encontrava pela frente.
—Sua louca você me paga por isso! — Carla gritou e saiu correndo escada abaixo atrás de seus pertences.
Nina estava assustada, não sabia qual seria o seu castigo, chegou a imaginar que não a aceitariam mais ali, e a mandariam para um orfanato do interior, cujo a administração era terrível. Não que a do Orfanato Santa Marta fosse o melhor lugar do mundo, mas dispunham de um espaço verde enorme e uma biblioteca que realmente funcionava, era tudo limpo e era uma local grande, além de árvores frutíferas e plantações de verduras e legumes que os alimentavam.
Laura a observava em choque sem saber o que dizer.
Nina sabia que não tinha mais nada a perder, mas que poderia recuperar o livro da biblioteca mesmo que a esse ponto já fosse inutilizável ou talvez a folha dourada que seria como achar uma agulha em um palheiro. Ela disparou por entre as garotas que se acumulavam na porta observando-a, desceu pelas escadas quase caindo, suas roupas ainda encharcadas a fazia deslizar levemente pelo piso, chegou a porta de entrada que estava aberta pois alguns dos professores foram buscar as roupas das meninas que ficaram esperando na porta.
Nina acelerou e passou zunindo por entre as garotas antes que elas dissessem algo.
—A Nina fugiu! Dona Augusta! A Nina fugiu! — Carla gritou sabendo que Nina seria punida, e que poderiam aumentar seu castigo.
Haviam muitos trovões e raios, e chovia como se o mundo fosse acabar, as luzes do prédio dos meninos se acendiam rapidamente e vários deles se acomodavam na janela tentando ver o que acontecia no prédio feminino. Nina foi para a parte de trás do orfanato, onde ficava a janela do banheiro. Havia apenas um pouco de grama e um muro pequeno que levava a um enorme jardim botânico que ficava ao lado do orfanato. Ela sabia que seria fácil escalar a parede, na verdade já fizera isso antes, juntamente com outras garotas quando era mais nova, por isso a diretora chegara a proibir a ida ao local, mas a chuva e os raios a deixavam com certo medo, porém era preciso, e assim ela enfrentou e subiu o muro, ao descer sua mão escorregou sobre a parede e ela caiu, suas pernas e palmas da mão ficaram arranhadas, seu sangue escorria se misturando com a agua da forte chuva. Ela se colocou novamente em pé e caminhou pelo escuro sendo iluminada somente pelos raios e seus clarões repentinos, enquanto o vento a empurrava, a obrigando a apertar seus passos para que não acabasse caindo novamente.
Ela viu um pequeno feixe de luz dourado que iluminava tudo ao redor, se aproximou dele e logo notou que era a folha dourada. Correu até ela, mas o vento a soprou, fazendo-a flutuar por entre as árvores. Nina seguiu a folha que parou sobre o tronco de uma enorme árvore solitária, na verdade ela não sabia dizer se essa seria uma ou duas árvores entrelaçadas, os troncos que saiam da terra se enrolavam como se tentassem se abraçar, suas folhas estavam amareladas, algo estranho pois era verão.
Nina pegou a folha sobre o tronco da enorme arvore, e novamente ficou verde em sua mão. Um som começou a tocar, Nina não sabia de onde ele vinha, mas era o mesmo que ouvira na biblioteca no dia anterior, o "som das emoções", como ela o nomeara mentalmente. Por um momento ela achou que estivesse imaginando coisas, mas o som vinha da enorme árvore a sua frente, ela estremeceu ao imaginar novamente que algum fantasma poderia estar sobre seus galhos, mas ela não sabia se era pior imaginar que era um fantasma ou se a arvore estivesse cantando, de qualquer forma ela sabia que se dissesse isso a alguém, provavelmente achariam que ela estava louca.
Um raio caiu iluminando tudo e depois emitindo logo após um trovejo extremamente forte, o que assustou Nina, então ela notou um pequeno feixe de luz na raiz fixa da árvore, ela se aproximou e notou que era fogo. Com os pés descalço e sujo de lama ela tentou o apagar, antes que o jardim todo se incendiasse, levando junto tudo o que estava ao seu redor. A tentativa de apagar o fogo foi falha, pois em menos de minutos a árvore inteira havia se incendiado. Ela tentou se mover, mas não conseguia, estava muito chocada e suas pernas estavam bambas, de olhos fechados ela rezou para que a chuva apagasse as chamas, e continuou tentando se mover, mas suas pernas não se moviam. Mais um raio, acompanhado de um trovão, fizera Nina desmaiar, ou entrar em sono, era difícil dizer, pois por mais que ela estivesse com medo não havia motivo para que ela desmaiasse, mas ela caíra ali em sono profundo ao lado da árvore.
Havia uma caverna completamente fechada, sentia tudo ao seu redor, o cheiro do lodo, a umidade das paredes, o chão escorregadio. Ela caminhou lentamente, adentrando a caverna que ficava cada vez mais escura. No fundo, havia um ponto branco, ela imaginou que fosse a saída, e correu ao seu encontro, mas quanto mais se aproximava, mas notava que aquilo não era luz e sim um corpo. Sentado de cócoras abraçado as pernas, era um menino que não tinha mais do que 8 anos, albino de pele e cabelos brancos como luz, chorava, um choro triste e suplicante como se estivesse se perdido. Ela se aproximou na intenção de acolher o pequeno. Ele se levantou, sua pele era clara como papel quase como uma fonte de luz no escuro gélido da caverna, ela não conseguia olhar em seus olhos, enxergava seus lábios que se abriam em um sorriso, mas era como se os seus olhos estivessem cobertos por uma sombra negra. O desespero a consumia, a respiração dela ficava mais forte, e ofegante semelhante a sensação de correr uma maratona, porém sem estar cansada, der repente ela parou, literalmente ela parou de respirar e começou a se sufocar, como se houvesse algo que sugasse todo o ar de seus pulmões. Ela olhou desesperadamente para todos os lados como se o ar fosse material e pudesse toca-lo e voltar a respirar, sua vista começou a escurecer, mas pode identificar claramente a luz de volta no mesmo lugar, caiu ao chão em uma tentativa desesperada de se arrastar até o ponto brilhante, e antes que sua vista escurecesse completamente ela viu na luz o que se parecia com um cervo albino.
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