A saga de Beatrice- A aprendiz de vampiro
30 Novas preocupações
Ficamos todos em estado de alerta. Sr. Crepsley se adiantou e se colocou a minha frente junto com Vancha. Harkart veio para o nosso lado.
—Que bom que ainda se lembra de mim, Beatrice! –disse com um sorriso indecifrável.
—Não digo que gosto disso! –respondi.
—Oh! –levou a mão ao peito e fingiu estar chocado com a afronta –Acho que começamos com o pé esquerdo!
—O que quer, Tino? –perguntou Sr. Crepsley.
Sr. Tino passou os olhos vagarosamente de mim para Larten e respondeu.
—Ora, eu não quero nada, só estava passando e resolvi dar um olá para vocês, crianças!
—Sei... –disse Vancha.
—Não acredita em mim?
—Eu não disse nada! –respondeu Vancha.
Desmond o encarou com um olhar furioso e logo sua expressão se suavizou.
—Eu só estava passando por aqui e resolvi dar um oi aos meus velhos conhecidos e os parabéns à Beatrice! –sorriu malignamente.
Crepsley o encarava desconfiadíssimo e eu não achei muito normal ele aparecer assim e me dar os parabéns, pois ele melhor do que ninguém sabia que vampiros não comemoram esse tipo de evento. O que ele queria!?
—Não consigo acreditar que veio para isso, Tino! –disse Sr. Crepsley em seu tom frio habitual. –Se quer dizer algo diga logo, estamos de partida!
—Insolente como sempre, Larten! –espetou Desmond –Mas tem razão, pois não vim só para isso! –olhou-nos vagarosamente e continuou. –Vim como um bom amigo avisar-lhes de algo que será relevante para vocês!
—Avisar-nos de algo! –exclamou Harkat –Está ficando estranho... –sussurrou para Vancha que concordou.
—Sim, vim dizer-lhes que logo começaram uma busca e que devem procurar Evanna se resolverem aceitar a busca!
—Fala de uma busca, não sabemos de nada disso! –disse Vancha.
—Não ainda!
—E como assim ‘’se resolvermos aceitar’’? –perguntei.
—Oh, claro, vocês podem se negar! –explicou simplesmente.
—E o que acontece se nos negarmos? –perguntou Crepsley.
—Ora, só saberão se negarem! –Respondeu Des Tino. –Mas –retomou o discurso -Muita coisa estará em jogo, o clã, o final da guerra...
—E que busca seria essa? –perguntei.
—Larten! –exclamou Sr. Tino em tom de reprovação –Ainda não contou às crianças?
Crepsley olhou-o com fogo nos olhos cristalinos e não disse nada.
—Do que ele está falando? –antecipei-me.
—Explicarei quando for o momento! –respondeu ríspido sem tirar os olhos de Des Tino.
—Parece que a comunicação ainda é um problema entre vocês... –disse Tino com um sorriso perverso –Mas isso não é da minha conta! –fez um reverência –Oh, Beatrice!
—O que é? –perguntei começando a ficar irritada com a demora dele em ir embora.
—Vai encontrar um amigo na casa de Evanna e eu gostaria que, se aceitarem a busca, levasse-o com você!
—Por que eu faria isso?
—Pense como sendo um pedido de desculpas pela nossa ultima conversa e, acredite, vai precisar dele!
Antes que eu pudesse perguntar ou dizer qualquer coisa ele sumira.
—O que é que ele quis com isso tudo? –perguntei.
Vancha, Harkat e Larten se entreolhavam como se conversassem mentalmente e não dando importância à minha pergunta começaram a ponderar entre si.
—Acabei de sair de uma missão anunciada por esse louco e fui o único que sobrevivi, por que será que essa história fede? –disse Vancha.
—Querendo ou não, que escolha temos? –perguntou Harkat.
—Ele disse que podemos recusar, mas tem muita coisa em jogo! –lembrou Larten.
—E se levarmos em consideração que Des Tino é o Des Tino, creio que isso de ‘’podermos recusar’’ é algo muito subjetivo! –Disse Harkat.
—Cheio de truques esse intrometido! –bufou Larten.
—Acha que tem relação com aquele assunto? –perguntou Vancha.
—Quase não sabemos nada sobre aquele assunto, receio que seja bem possível! –respondeu Larten.
—O que é que está acontecendo? –perguntei apenas para ser a voz clamando no deserto.
—Mas isso implicaria na veracidade daquele rumor e então voltar à montanha seria a melhor opção! –disse Harkat.
—Talvez, mas temos que lembrar que desde que falamos de uma trégua os ânimos estão inflamados por lá. Não sei se voltar com essa notícia que ainda não temos certeza se é real seria o melhor a fazer. –disse Vancha.
—Que notícia? –indaguei.
—De qualquer forma, penso que falar com Evanna é a única coisa que nos resta agora! –disse Larten.
—Ei! –gritei.
Eles me olharam assustadíssimos e Larten me lançou aquele seu olhar terrível de reprovação.
—Eu gostaria encarecidamente de entender o que está acontecendo aqui, se não for pedir muito! –falei.
—Problemas, Beatrice! –disse Larten –Depois explicarei tudo!
—Mas...
—Beatrice! –falou alto com impaciência. Eu vi que não adiantaria insistir, mas não escondi minha insatisfação.
Eles seguiram viagem eu e Ofídio fomos atrás em silêncio. Eles conversavam de vez em quando entre si. Decidiram que deixaríamos Ofídio no circo antes de seguir viagem até a casa da tal Evanna.
Estava prestes a amanhecer quando eles decidiram parar em um cemitério antigo desses de filmes retros com criptas velhas e horrorosas. Sr. Crepsley e eu já havíamos passado por lugares daquele tipo antes, mas eu não me lembro de ter lhe dito que gostei do ambiente! Fiquei calada, embora muito chateada.
Dormimos todos numa cripta, eu levantei muito cedo, para vigiar enquanto eles dormiam. Fazia parte do meu “trabalho como assistente’’. Ainda não tinha amanhecido direito e eu fiquei lá fora, olhando os muitos túmulos esquecidos em volta e as árvores sinistras que rodeavam aquela área.
—Também perdeu o sono? –alguém me pegou de surpresa assim que me sentei sobre uma lápide.
—Harkat! –quase dei um salto –Me assustou!
—Desculpe, não tive a intenção!
—Tudo bem, quem sentar?
Ele aceitou e se sentou ao meu lado. Fiquei em silêncio tentando segurar minha pergunta dentro da boca, mas ele foi mais rápido!
—Quer saber por que eu falo, não é? –sorriu com sua boca disforme, com a máscara abaixada.
—Oh, bem, como...
—É o que está querendo saber desde que nos conhecemos. Bem, eu fui criado pelo Des Tino com a habilidade de falar, pois isso serviria aos seus propósitos e me ajudou a descobrir quem eu era!
—Como assim quem você era?
—Sou um pequenino, ou pessoinha, e nós somos como que ‘’fantasmas’’ vamos assim dizer.
—Não liguei os pontos ainda!
—Pois bem, todos nós já fomos alguém antes que morreu de maneira pouco honrável, e então nossas almas ao invés de voarem para o paraíso foram para o lago das almas. Sr. Tino é como um guardião desse lugar e ele trás alguns de nós, usando nossa essência ou restos mortais de volta para esse mundo nessa forma que você está vendo agora, a fim de que terminemos alguma missão e que possamos voltar ao lago e pescar nossa alma para descobrir quem somos.
—Que história estranha e macabra! –disse ainda incrédula e sem assimilar tudo com clareza –E o que acontece depois que descobrem quem são?
—Bem, normalmente depende muito do acordo que fizemos com Tino. Alguns de nós pode voltar com sua forma original e ter uma nova chance, outros só tem a alma liberada direto. Eu voltei como uma pessoinha!
—Oh, mas por quê? –perguntei sem entender.
—Foi uma escolha tomada pelo meu ‘’eu’’ antigo, é difícil de explicar, mas decidimos que ele já havia tido muitos momentos aqui e que eu deveria ter uma nova chance.
—Ah...
—Digamos que eu não tinha sido muito exemplar na minha antiga forma e decidi ficar com essa mesmo!
—Entendi, mas o que aconteceu com a outra forma?
—O fragmento da alma nela voou ao paraíso!
—Hum...Como uma libertação?
—Sim!
—E quem você foi?
—Um vampiro chamado Kurda Smalth.
—Sério? Você foi um vampiro!?
—Sim, um vampiro que se tornaria príncipe se Felipe não o desmascarasse antes!
—Principe! –repeti, maravilhada com a história –Mas Felipe não foi o príncipe que morreu na luta contra Juan, o mestre dos vampixiitas?
—Ele mesmo, meu amigo!
—Agora eu me perdi! –disse analisando tudo –Se ele te desmascarou, como vocês eram amigos e o que você fez?
—Bem, digamos que Tino me disse que Felipe era a chave para eu descobrir sobre meu passado e viajamos juntos há anos na primeira vez em que ele esteve na montanha. Nos tornamos inseparáveis e nessa época ele foi obrigado a passar pelas provas mortais para provar que era digno de ser um vampiro e também para livrar Vincent, seu mestre, da morte por tê-lo transformado tão jovem. Mas ele falhou e Kurda para salvá-lo da execução o fez fugir, porém na fuga ele descobriu que Kurda estava mancomunado com os vampixiitas e que havia um grupo deles escondido na montanha. Depois de um tempo Felipe voltou a montanha e desmascarou Kurda no dia de sua investidura.
—Uau! –eu estava atônita –Então você chegou a se conhecer antes de morrer! Que coisa mais... Sei lá!
—Sim, eu, Kurda no caso, foi executado em seguida pelos príncipes!
—E todas as pessoinhas sabem falar?
—Não, na verdade ainda não conheci nenhuma que soubesse! –disse ele.
—Hum... É que conheço uma que gosta de, digamos, me seguir por aí e já me ajudou muitas vezes, mas eu não sei o motivo e ela nunca proferiu uma só palavra!
Harkat ficou sério.
—Tem nome? –perguntou.
— Tawer Clesfek.
—Talvez... –se deteve.
—O que foi?
—Não quero arriscar dizer nada ainda! Mas caso aconteça com vocês o que me aconteceu, acho que devo dizer-lhe que meu nome era uma das pistas para saber quem eu era! Harkat Mulds vira Kurda Smalth!
—Oh... –fiz um quebra cabeças mental –Verdade! Que incrível!
—Assustador...
—Mas espera, você disse que Felipe teve que passar por provas mortais para provar que era digno de ser vampiro e livrar seu professor da execução? –perguntei subitamente.
—Sim!
—Mas... como assim?
—Ele era muito jovem, uma criança como você, quando foi convertido por Vincent. E isso vai de encontro com as leis dos vampiros, a pena para quem desobedece essa lei é a morte! –disse sombriamente e aparentando certo cuidado ao tocar no assunto comigo. –Larten não chegou a te explicar isso?
—Na verdade não. –respondi -Eu notei que havia alguma coisa sobre eu ser muito jovem e tudo mais, mas não sabia que era assim tão sério! Ele está em apuros não é mesmo?
—Talvez, mas Larten Crepsley é um vampiro muito respeitado e querido, vamos dar um jeito! –ele se levantou e se despediu. Sumiu antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa.
Eu fiquei apavorada com a ideia de que Larten poderia ser condenado à morte! Tínhamos nossas diferanças, mas ele era tudo que eu conhecia de fato, tornou-se quase que a minha família, embora eu jamais admitisse isso, eu gostava dele!
LONGE DALÍ
—Eu não consigo acreditar que ela fez isso comigo! –dizia o garoto com ódio. –Éramos amigos!
—Pelo visto só você era... –disse Tino.
—Eu sofri e os nossos amigos e a família dela toda... Eu... –chutou um objeto longe.
—Controle-se! –ordenou o vampixiita –Guarde sua fúria para o momento apropriado! Por que veio trazer essa notícia Tino?
—Oh, eu quero ver como isso vai acabar! –sorriu maliciosamente e os deixou.
—Eu juro que vou me vingar de Beatrice e Crepsley nem que seja a última coisa que eu faça! –gritou o garoto.
—Sim, mas não agora! –disse o Vampixiita –Só depois que estiver pronto Jhonatan!
NO ANTIGO CEMITÉRIO
Larten acordou cedo e reclamão como sempre, Vancha era uma ótima companhia, mas eu estava aproveitando meus minutos com Ofídio. Falei pra ele da conversa que tive com Harkat e ele me aconselhou a conversar a sós com Crepsley. Disse também que ia tentar falar com Tawer quando chegasse ao circo. Eu não queria que a gente se separasse, mas era perigoso que continuasse conosco. Depois que o deixamos no circo, Gavner se juntou à nós e partimos. No meio do caminho vi uma oportunidade de tentar conversar com Larten. Ele estava ao meu lado caminhando em silêncio e os outros iam à frente.
—Sr. Crepsley!
—Hum? –respondeu sem prestar muita atenção.
—Estamos correndo perigo não é mesmo?
—Estamos sempre em perigo, Beatrice, faz parte de ser o que somos!
—Eu não falava disso tudo, falava de nós dois!
Ele parou e me olhou nos olhos.
—O que quer dizer?
—É verdade que pode morrer por ter me convertido em sua assistente? –fui direta.
—Quem lhe disse... –pareceu furioso e logo se conteve –Eu fui de encontro com as nossas leis e estou disposto a pagar pelo que fiz! –disse calmamente como se aquilo fosse me deixar tranquila.
—Então quer dizer que morrerá?
—Quero dizer que serei julgado!
—Por que não me falou isso antes?
—Porque não era a hora!
—E quando seria a hora?
—Quando eu achasse que fosse a hora, Beatrice! E que diferença faria?
—Toda diferença, poderíamos pensar em algo ou...
—Não precisa ficar tão desesperada assim, não quero que fique assim!
—Não quero que morra! –admiti. Ele me olhou parecendo surpreso e eu mudei de assunto –O que está acontecendo aqui?
—Há rumores de uma nova profecia que diz que alguém se levantará para impedir os planos de paz entre os clãs e que só uma pessoa pode impedir esse alguém! O problema é que muitos se levantaram e se levantarão contra a paz e não sabemos de onde sairão essas pessoas...
—E o que significa essa ‘’busca’’?
—Ainda não sabemos, saberemos de mais coisas na casa de Evanna.
—Precisaremos ir até a Montanha?
—Talvez... –ele suspirou.
—Se formos eles o irão julgar, não é?
—Sim!
—Mas e se eles o condenarem à morte?
—Eu aceitarei meu destino!
—Não! –repliquei.
—Sim, Beatrice, aceitarei sim!
—Mas Felipe e Vincent tiveram uma saída, podíamos...
—Está sabendo de muitas coisas... –disse com seus olhos claros demonstrando impaciência –Coisas que eu não lhe contei...
—Que bom que alguém contou, não é mesmo? –disse petulante.
—Pois bem, espero que ‘’alguém’’ lhe tenha dito que Felipe fracassou e quase morreu nos Ritos de passagem, e se você acha que eu permitiria que você, sem treinamento ou instrução suficiente, participasse das provas está muito enganada!
—Se o senhor, meu mestre, acha que eu cruzarei os braços enquanto te matam está muitíssimo enganado! –falei com raiva e saí batendo o pé.
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