Chegamos ao circo por volta de umas sete da noite, e quando avistei as luzes do acampamento tive a estranha sensação de estar voltando para casa. Nunca pensei no circo assim na realidade, mas depois de quase morrer acho que algumas coisas ganharam um valor a mais.

Sr. Tall já sabia que voltaríamos e avisou ao pessoal que nos recebeu de forma acalorada e, oh, os torresmos do Sancho... Não sabia que eu os amava tanto!

Mas legal mesmo foi rever Ofídio. O garoto-cobra esteve preocupadíssimo e pelo que me disseram não deixou Gavner em paz.

—Você não tem ideia do susto que me deu. –disse Ofídio quando estávamos na tenda. –Não seja sequestrada nunca mais!

—Sim senhor! –sorri. Estava pegando minha toalha, Truska disse que eu poderia tomar banho na sua tenda.

—Se não fosse seu admirador me avisando que você...

—Admirador? –perguntei confusa.

—Sim, Tawer! –Ofídio deu um sorrido zombeteiro –Ele viu você correndo em direção à ponte e veio me acordar.

Achei aquilo muito estranho, então Tawer estava prestando atenção em mim! Mas por qual motivo? As pessoinhas não são servas de Des Tino? Então por que Tawer tentaria me salvar de seu mestre? Não fazia o menor sentido!

Distraí-me enquanto pensava sobre isso e fui chamada de volta ao mundo por Ofídio cantarolando algo sobre a grande história de amor entre Tawer e Beatrice.

—Devia se apresentar de palhaço! –joguei-lhe o travesseiro na cara.

—Vai estar na apresentação hoje? –perguntou-me.

—Sr. Tall me liberou, mas quero ir! –respondi determinada –Trabalhei duro esses dias todos para o inicio dessa temporada de apresentações para não participar!

—Vai ficar onde?

—Nos bastidores ajudando vocês. Mas agora eu vou tomar banho!

—A pupila da Truska... –zombou.

—Invejoso... –sorrimos e eu saí.

Chegando perto da tenda de madame Truska eu a vi na entrada dando uns tapas num homem alto que usava peles rochas como roupa e tinha cabelo verde.

Aproximei-me para ver a cena e não parecia nada sério.

—Eu só ia dizer que... Ai!

—Anda muito abusado!

—Você tem um sotaque tão lindo e... AI AI!

Ela o estava surrando, mas estavam se divertindo. Começaram a fazer barulhos estranhos que mais parecia a conversa entre duas focas, mas quando me notaram pararam.

—Hã... se quiser eu volto depois... –disse para Truska com medo de estar incomodando.

—Beatrice, não, chegou na hora exata! –disse e lançou ao homem um olhar acusador.

—Chegou mesmo! –ele disse para mim –Essa mulher iria me matar aqui e agora!

Eu tentei não rir da situação e logo foquei no homem. Tinha a pele num tom avermelhado que parecia queimadura solar. Estava descalço e tinha várias cicatrizes como as de Sr. Crepsley e Gavner. Mas é claro, ele deveria ser um vampiro, mas não qualquer vampiro. Era Vancha March , um príncipe vampiro! Não tínhamos sido apresentados, mas eu já sabia que ele ajudara a me salvar e agora eu não tinha ideia de como me portar!

—Está melhor, criança? –perguntou-me.

—Sim, alteza! –respondi sem saber direito se era dessa forma que os vampiros se dirigiam aos príncipes.

—Pode me chamar de Vancha, Beatrice! E é um prazer conhecê-la sem ter que te colocar pra dormir e te amarrar.

—Oh... Igualmente. Eu acho! –era um jeito estranho de dizer que sentia prazer em conhecer alguém, mas ele não parecia muito normal também.

Ele deu uma forte risada e perguntou se eu sabia onde Larten estava. Eu disse que ele estaria na tenda provavelmente, e Vancha disse que iria falar com ele.

—Com sua licença! –disse e virou-se para ir embora, mas voltou no mesmo instante, agarrou Truska e roubou-lhe um beijo. Deixando-a atônita e saiu correndo e sorrindo.

Aquilo tinha sido engraçado com toda certeza, mas tentei me conter. Truska perguntou várias coisas e me arrumou roupas novas. Ela estava se aprumando para a apresentação mais tarde, e tinha um carinho maternal comigo, isso não podia negar.

Meus cortes e machucados estavam melhorando rapidamente por causa do meu sangue de vampiro e também porque Sr. Crepsley usou sua saliva para curar alguns. Eu tinha um enorme hematoma na altura do estômago dos vários socos que o babaca do Larry me dera e um dos cortes nas costas viraria cicatriz certamente. Malditos vampixiitas!

Enquanto me arrumava, Truska me contou que antes de ir para o circo ela tinha um marido e uma filha que foram mortos por ‘’maus pescadores’’. Disse que seu povo vivia dentro d’água , eram como as sereias –imaginei –e que, provavelmente, se sua filha estivesse seríamos parecidas. Eu entendia agora o motivo dela ser sempre tão atenciosa e agradeci. Sentia falta da minha mãe e Truska lembrava um pouco essa figura.

—E Larten? –perguntou .

—O que tem ele?

—Não lembra um pai?

—Oh, eu... –aquilo me pegou desprevenida. Eu não conheci meu pai e o pai do meu irmão tinha se separado da minha mão quando Nick era pequeno –Eu não tive muitos exemplos de figuras paternas...

—Hum... –assentiu compreensiva.

Houve um silencio meio estranho, mas eu resolvi quebrá-lo.

—Mas, pensando bem, ele até parece um pai sim... Mas não conta que eu te disse!

Ela sorriu e concordou.

—Ele já não é fácil, se souber disso...

Saí da tenda de Truska e me dirigi até a minha. Ofídio estava preparando a Bipo, pois a apresentação se aproximava.

—Crepsley vai se apresentar hoje?

—Não sei ainda. –respondi –Vou até a tenda dele agora pra saber!

—Ei, tenho que te dar uma coisa! –disse Ofídio procurando algo perto da sua bateria. –Aqui! –pegou um envelope pequeno e me estendeu. –Quase esqueci...

—O que é isso? –peguei o envelope e o examinei. Tinha o meu nome e o remetente, era de Daniel.

—Encontrei pendurado em uma árvore lá perto daquele riacho no bosque hoje. Eu fui procurar alguns bichos para as pessoinhas e achei. –disse Ofídio.

—Ah sim! Ele deve ter ficado me esperando ontem lá...

—Ontem? Você já disse...

—Ainda não! Mas logo iremos embora então não nos veremos mais!

—Faz sentido! Não vai ler?

—Não... Agora não! -notei uma pontada de decepção no rosto de Ofídio. Ele estava curioso pra saber o que estava escrito ali, mas algo me assustava.

Deixei Ofídio e fui até a tenda de Sr. Crepsley saber se ele iria se apresentar e o que eu deveria fazer caso precisasse de mim. Quando cheguei ouvi algo estranho...

—Não quero ser príncipe! –disse Sr. Crepsley.

NA TENDA DE LARTEN

—Larten, entendo que não queira fazer parte disso! –disse Gavner. –Apesar de não entender o motivo.

—Tivemos essa conversa há anos, Gavner. –disse Larten –É a minha vontade e espero que a respeitem! Algo me dizia que a visita não era somente saudade...

—As coisas estão tensas, apesar de termos matado o maldito lorde vampixiita. –interferiu Vancha –Perdemos muitos dos nossos, Larten, o clã precisa de você!

—Pensei em partir para a montanha quando o festival dos não-mortos estivesse chegando, pois daria tempo de treinar Beatrice para viver sem mim. –disse Crepsley chateado –Mas Vancha é um príncipe e pode dar o veredito agora.

—Não vou julgar você agora! –retrucou Vancha –Resolveremos a questão de Beatrice na montanha com Mika, Arrow e o conselho!

—As coisas não serão tão difíceis,-endossou Gavner – temos Felipe e Vincent como um antecedente e...

—Colocarão Beatrice para enfrentar os rituais de passagem. –Larten cortou-o –Pensei que seria uma opção e por isso quero treiná-la.

—Eu já lhe disse que com sua assistente as coisas se resolverão! –disse Vancha –Mas venha conosco. Dois grupos deles se formaram a nordeste daqui, é uma emboscada e ninguém melhor do que você para esse tipo de tarefa.

Houve um longo período de silêncio. Larten serviu-se de wisky e sentou-se em sua poltrona.

—Irei e ajudarei vocês. –disse finalmente –Mas não quero ser príncipe!

DO LADO DE FORA

Eu fiquei sem entender o que tinha escutado e pensei que talvez tivesse ouvido mal. O mais estranho foi o silêncio que se seguiu.

Não queria que eles descobrissem que eu estava ali e achassem que estava xeretando a conversa, e comecei a fazer barulho enquanto andava para parecer que eu tinha acabado de chegar despreocupada e bati na porta.

—Entre! –disse Larten.

—Com licença! –entrei e vi meu maestro sentado em sua poltrona e parecia pensativo e atordoado. Vancha sentado em cima do ataúde de Larten e Gavner mantinha-se de pé. –Eu só queria saber se o senhor vai se apresentar hoje e se vai precisar de algo. –perguntei um tanto constrangida com o silêncio.

—Não vou me apresentar hoje, Beatrice. Mas foi bom ter vindo!

—Precisa de algo?

—Sim. –respondeu abandonando aquela expressão atordoada e levantou-se –Quero que avise Sr. Tall que não poderei me apresentar hoje. Diga que peço desculpas, mesmo sabendo que ele já está por dentro do assunto...

—Sim, senhor.

—E mais uma coisa!

—Sim?

—Pretendo voltar hoje ainda e espero encontrar você viva!

Sério? Sermão depois de tudo!

—E por isso quero que vá descansar e nem pense em imaginar sair do acampamento. Estamos de acordo? –ele me examinava com seus olhos frios.

—Claro! –não tinha muito o que responder.

Despedi-me dos três e fui em direção aos bastidores do show para auxiliar os artistas e falar com Sr. Tall.

Era incrível ver como as coisas no show de horrores funcionavam por trás das cortinas. Os artistas entrando e saindo, o desespero da plateia com a performance do homem-lobo, madame Truska, Ofídio e todo o resto... Faltou o número de Sr. Crepsley e madame Octa, tive que admitir que eles fizeram falta. Foi quando me toquei de que desde que me tornei assistente de Larten passei a evitar ao máximo o contato com Octa. Eu a culpava em parte pela reviravolta em minha vida o que era estupidez, pois eu a tinha sequestrado e não o contrário. Resolvi dar uma olhada na aranha solitária depois do show.

Sr. Tall não demonstrou surpresa quando eu lhe passei o recado de Sr. Crepsley, o que já era de se esperar. Hibernius Tall era um homem curioso, com habilidades curiosas... Ele parecia ser capaz de mover-se rapidamente sem que ninguém percebesse, –às vezes me dava uns sustos – mas o que me intrigava era o fato de parecer sempre saber de tudo. Tinha certeza que Sr. Tall podia ler mentes e até desconfiava que ele às pudesse controlar, porém me sentia meio ridícula de pensar assim. Uma coisa era certa: eu não fazia a menor ideia das proporções dos poderes de Sr. Tall, mas ele era imortal com certeza! Não estava mentindo quando dizia que o circo estava em turnê há quinhentos anos e Sr. Crepsley o conhecia há muito tempo.

Depois do show havia uma comemoração na qual as pessoas que assistiam ao espetáculo podiam falar com os artistas. Eu não estava muito disposta, ainda sentia dores pelo corpo inteiro e queria dar uma olhada em madame Octa.

Entrei na silenciosa tenda e vi a gaiola da aranha coberta por um pano em coma de um criado mudo. Fiquei pensando se devia importuná-la, eu só a olhava por míseros segundos quando a alimentava e não sabia se ela me reconhecia realmente.

Tirei o pano finalmente, e lá estava a enorme e multicolorida aranha. Imóvel como costumava ficar, com os olhos vidrados em um ponto fixo. Olhei para aquela pequenina e mortal criatura e então lhe disse, sem ligar se ela entendia ou não:

—Oi, Octa! Sabe quem eu sou né? Eu só queria me desculpar por ser hostil com você sem um motivo justo e dizer que espero que tenhamos uma boa convivência, já que passaremos um bom tempo juntas... –acho que fiz uma parada como se esperasse alguma resposta –Que bom que concorda! –disse e levantei-me –Boa noite!

Saí da tenda de Sr. Crepsley e caminhei em direção a minha tenda, estava exausta. Deitei na minha cama e respirei fundo, Ofídio ainda não tinha chegado e eu resolvi ler logo o bilhete que Daniel mandara. Era um pequeno, mas objetivo, recado :

Acho que você está me evitando por algum motivo,

se eu fiz algo errado pode me contar!

Eu fiquei te esperando como disse que ficaria

e por algum motivo você não apareceu!

Devo dizer que gosto muito da sua presença

e que não quero que vá embora sem se despedir, ou deixar

pelo menos o seu email ou telefone... Então

eu quero te convidar para ir a um show diferente de

um circo que está se apresentando na cidade. Um tal de Cirque Du Freak. Comprarei

dois ingressos para sexta feira e te espero perto de onde nos conhecemos as 22:00 em ponto.

Até logo, Beatrice!

Daniel.

Li aquilo umas três vezes em silêncio e então me veio o pânico. Ele queria me levar ao circo onde eu morava! O que eu faria agora?