A saga de Beatrice- A aprendiz de vampiro
17 Adeus a Lua amarelada.
NO CIRCO
–Larten ainda não voltou e já vai anoitecer! –disse Vancha à Gavner. –Vou atrás dele.
–Irei contigo. E se não foi Tino quem sequestrou a menina e sim algum vampixiita querendo retaliação?
–Por que sequestrariam a assistente de Larten? Ele quase não participou da guerra.
–Amizade entre vocês. O fato de ele ter uma grande reputação entre os nossos primos de pele roxa também...
–Tinha me esquecido dessa fase de Larten por um instante, mas seja qual for o motivo vou ajudá-lo. Se for por minha causa é o mínimo que posso fazer!
–Vamos esperar que o pior não tenha acontecido!
–Você acha que eles já mataram a menina?
–Não disse isso, mas não acho que ela sobreviveria a torturas, não estava bem ontem e pelo o que Ofídio disse hoje...
–Vamos, Gavner! Vou tentar rastrear Larten mentalmente. –Vancha pegou seus shurikens (que tanto presava) e saiu seguido de Gavner tentando rastrear Crepsley.
Ele sentiu sua presença nos limites do Estado em que estavam, numa área totalmente florestal que separava o Estado em que estava o circo de outro Estado já pertencente a outro país. Após aquela floresta o território era do país vizinho, mas Larten estava por lá ainda e então Vancha conseguiu conectar-se com o vampiro mentalmente: “estamos por perto, não saia de onde está” , foi o que Vancha comunicou a Larten.
Depois de quase meia hora eles se encontraram.
–Por que diabos vocês demoraram tanto? –perguntou Larten surgindo atrás de Gavner e Vancha de repente.
–Talvez por que tudo nessa floresta é igual! –espetou Gavner. –Alguma pista da menina?
–Nada ainda, quase não consigo sentir sua presença. –disse Larten preocupado, mas mantendo seu tom controlado.
No segundo mês em que Beatrice e Larten estavam juntos ele explicou a ela como funcionava o vínculo mental e concordaram em estabelecer um, mas agora ela estava ou muito distante para ser rastreada com clareza, ou muito fraca. Larten tinha certeza que o problema da conexão era a segunda opção.
–Já é noite e ela foi levada de manhã. –disse Vancha . –Larten, deve se preparar caso...
–Eu ainda a sinto! Ela não está morta. –cortou Larten com certa aspereza. Vancha entendeu completamente, embora o vampiro não admitisse, o que o amigo estava sentindo e não disse mais nada.
–Então, para onde? –perguntou Gavner.
–Noroeste! –disse Larten depois de alguns segundos –Sinto sua presença a noroeste.
Os três começaram a flitar, parando as vezes para que Larten pudesse checar melhor a conexão mental e dando uma olhada ao redor para ver se encontravam alguma coisa. Numa dessas paradas, quando já estavam chegando perto de algum rio eles encontraram uma coisa que os fez ter uma ideia de quem passou por ali.
–Corpos! –disse Gavner sério enquanto voltava da sua pequena busca por provas. –É um homem de meia idade e um rapaz e foram mortos hoje, provavelmente no início da tarde.
–Dois corpos, dois vampixiitas! –disse Vancha. –Eles devem estar com Beatrice. Larten?
–Ainda posso senti-la, mas estou começando a perder o rastro! –disse escondendo ao máximo sua aflição.
Larten estava se sentindo responsável pelo o que acontecera, arrependeu-se do que dissera a Beatrice na noite em que saiu do acampamento e até de tê-la convertido. Jurou a si mesmo que se ela estivesse morta ele encontraria os responsáveis e os faria sofrer muito antes de matá-los.
–Vamos seguir o curso contrário do rio. –disse Crepsley. –Chegando a queda de cristal tem algumas grutas até onde eu me lembro. Tenho quase certeza de que a encontrarei lá!
Os três seguiram com sua busca em direção as grutas. E chegando onde o rio tinha uma queda de quinze metros eles resolveram esperar entre as árvores para ver se havia algum movimento. Não vendo nada decidiram entrar na gruta que ficava abaixo da queda, bem atrás da cortina de água que se formava antes da água seguir a correnteza. A lua já aparecia e iluminava o lugar deixando a água prateada, por isso aquele ponto era conhecido como a ‘’queda de cristal’’ por quem morava por ali, e os três entraram na fria e úmida gruta da cachoeira cautelosamente esperando encontrar vampixiitas e talvez uma menina morta.
Era uma gruta imensa. Cheia de formações estranhas criadas pala água. Algumas pareciam estacas no teto e no chão. Eles viram que ela estava vazia e quando resolveram seguir procurando Vancha viu algo que mostrou que não entraram lá a toa.
–Vejam isso! –disse o príncipe de cabelos verdes puxando uma corrente. Ela estava atada a uma formação que saia do chão e parecia a ponta de uma flecha e ao lado havia outra formação igual. Nela também havia uma corrente. –Acho que encontramos uma sala de tortura quase natural!
–Sangue no chão... –disse Gavner ,sujou a ponta do dedo e levou até a boca. –É de vampiro!
Os dois olharam para Larten que parecia examinar o lugar e parou olhando para o chão de repente.
–Larten? –perguntou Vancha.
Larten abaixou-se e pegou uma blusa no chão rasgada e com sangue.
–Beatrice estava usando ela! –disse como se falasse consigo mesmo.
–Não faz sentido! –disse Gavner. –Por que a trariam para cá para torturá-la e não a matariam aqui?
–Parece vingança! –disse Vancha. –Mas depois do lunático do Juan e a entrada dos tais vampicotes, os vampixiitas mudaram muitos métodos!
–Malditos! –bradou Larten assustando os amigos com a mudança radical de comportamento. –Estão brincando conosco! –deu um soco na parede que ecoou na gruta.
–Querem que a encontremos! –disse Gavner apontando uma trilha deixada por manchas de sangue no chão.
–Seria uma armadilha? –disse Vancha.
–Eu não duvidaria! –disse Larten examinando a trilha macabra. –E ainda não estou convencido de que Tino está metido nisso.
–Larten, é melhor prestarmos atenção! –disse Gavner. –As coisas ainda estão em um clima pesado, mesmo após a morte do líder deles. Se for uma armadilha devemos...
–E deixar que fiquem com Beatrice por mais tempo? –perguntou Larten. –Não precisam vir se não quiserem...
–Calma aí, Larten, viemos porque quisemos! –cortou Vancha –Não vamos a lugar algum!
–Desculpe! –disse Larten reconhecendo que estava pegando pesado. –Mas Beatrice é minha responsabilidade e não vou me permitir falhar com ela!
–Não vai falhar! –disse Vancha acariciando seus shurikens. –Vamos dar uma surra nesses sujos e recuperar a menina.
Os três então começaram a seguir a trilha com máxima cautela e com planos em mente.
MAIS CEDO NA GRUTA
O dia foi de longe o pior da minha vida, sempre que eu voltava de um desmaio parecia pior, pois significava que eu ainda estava viva e nas mãos de Lerry e Victor. A morte nunca pareceu tão distante, acho que foi por que eu nunca a desejei tanto.
Não sabia que haviam tantas formas de se torturar alguém, mas naquele dia eu vi que essa arte é bem vasta. Perdi a consciência pela primeira vez depois de uma hora e meia levando chicotadas e socos no estômago. Acordei com um cheiro forte de álcool e logo voltaram a me torturar.
Ficavam falando sobre vários períodos da história e dos diversos métodos de tortura usados ao longo do tempo. Lerry disse que apesar de não gostar dos nazistas na época ele aprendeu algumas coisinhas com eles e perguntou se eu queria ver o que ele tinha aprendido.
Eles tinham um aparelho estranho e parecia bem velho. Ele colocou preso aos meus dedos e o ligou. Eu achei que não tinha mais voz para gritar, mas nunca ouvi minha voz tão clara como naquela gruta. Eles riam e ficavam me fazendo perguntas sobre como eu queria morrer, se eu preferia o chicote ou o aparelho de choque, as facas ou as agulhas e na verdade eu só queria morrer!
Não sei nem quantas vezes eu desmaiei depois do aparelho de choque. Acordei em um momento e eles estavam bebendo água e rindo. Senti sangue escorrendo pelo meu nariz e minha boca. Minha respiração me molestava e eu tremia sem parar, provavelmente por conta das descargas elétricas, mas eu sentia certa dormência nos braços e pescoço. Apesar de não ser agradável achei até bom, dessa forma os cortes que eles fizeram nos meus braços não doíam tanto. E as pontas dos dedos também não. Como eu fui tonta de achar que estavam acabando...
–Olha só, ela acordou! –disse Victor e veio na minha direção com a garrafa de água. –Você está com sede? –ficou balançando a garrafa na minha frente e então entornou a água toda no chão. Passou a mão na minha bochecha secando uma lágrima e segurou meu rosto me obrigando a olhar ele nos olhos. –Você sabe por que está aqui, Beatrice?
–Por que eu sou assistente... –comecei a dizer com dificuldade. –... de Larten Crepsley e vocês dois... acham que vão... atingi-lo comigo... –tossi bastante e depois ri amargamente. –...Mas ele estava querendo livrar-se de mim.... Há tempos... –ri outra vez. –Perderam tempo seus idiotas!
–Você é corajosa... –disse ele e tirou uma mecha de cabelo que estava caída no meu rosto. –Mas ele virá sim querida!
–Como tem tanta certeza? –perguntei-lhe, pois na verdade eu não acreditava mais que ele fosse aparecer.
–Porque Larten Crepsley não leva desaforo para casa! –disse Lerry atrás de Victor. –Ele nunca deixaria para lá o sequestro de sua assistente...
–Olha só como ela é bonitinha, Lerry... Podíamos nos divertir com ela mais intimamente...
–Não, Victor! Já está ficando escuro e quero passar para a parte mais interessante do nosso plano!
–É uma pena, seria muito divertido! –nesse momento ele apertou meu rosto e beijou meus lábios com força. Que nojo! Ele riu e soltou meu rosto.
Começaram a soltar minhas pernas e braços e eu caí no chão. Eu estava sentindo frio e tinha até me esquecido que estava sem a minha blusa. O short que eu usava, antes verde água, agora parecia tingido de vinho. Eu tinha perdido, e ainda perdia muito sangue, talvez por isso o frio. Lerry puxou-me pelo braço deixando-me em pé rapidamente e tudo escureceu.
–Você gosta da Lua, Beatrice? –perguntou com tom sádico.
–Por que não me matam logo? –perguntei.
–Não achou que eu seria capaz de te matar numa gruta escura, achou? –perguntou sorrindo ironicamente. Eu não disse nada e continuei olhando para ele. –Não sou um monstro e você terá um cenário lindo antes de morrer minha querida, eu prometo!
Eu pensei em responder àquilo, mas para quê? Eu já estava morta mesmo... Victor pegou a mochila e guardou o material que usaram ao longo do dia para me torturar e quando ia tirar as correntes de onde estavam atadas Lerry lhe disse para deixá-las lá, pois ele queria que Crepsley às visse. Eu pensei comigo ‘’perda de tempo, ele me odeia e talvez eu tenha dado motivo para que não me procure’’, mas não disse nada, não adiantaria! No fundo no fundo eu queria que ele me encontrasse, ou que pelo menos, mesmo que não pudesse me salvar fosse me procurar e achasse aquelas correntes. Eu queria que ele soubesse qual foi o meu fim, pelo menos isso. Tive medo de que achasse que eu tinha fugido dele. Talvez fossem esses desejos e sentimentos que me mantinham viva ainda.
Meus braços ainda estavam dormentes dos choques e não senti tanta dor quando Victor cortou minha mão para que, como ele disse, meu sangue indicasse o caminho ao Larten.
–Podemos ir! –disse Victor, e nesse instante Lerry exalou seu gás entorpecente em meu rosto. Se fosse numa situação normal eu, como semi-vampira, teria apenas ficado tonta, mas eu estava muito fraca e então desmaiei.
Eu acordei e fitei um céu lindo e cheio de estrelas. Era uma noite clara e a Lua estava crescente. Fiquei um tempo olhando para o céu, deitada no chão um pouco confusa sobre onde eu estava e o que tinha acontecido. Mas aí então comecei a ouvir vozes que foram ficando mais claras com o tempo, lembrei-me dos dois vampixiitas com quem eu dividiria os últimos momentos da minha vida e notei que ainda não tinha morrido. Fingi estar apagada ainda para ouvir o que estavam conversando.
–Ele vai ficar ocupado tentando salvar a garota e então nós o matamos. –era a voz de Lerry.
–Mas eu pensei que ele encontraria a menina morta e...
–Não! Quero que ela veja o mentor morrer assim como vimos os nossos! –Foi aí que entendi a vingança dos dois. Eu não sei como, nem porque, mas achavam que Sr. Crepsley tinha matado os mentores dos dois e queriam se vingar matando nós dois. Eu não tinha certeza se Larten estaria atrás de mim, mas eu não queria mais que ele chegasse. Eu não queria vê-lo morrer e tinha que dar um jeito de estragar aquela vingança, mesmo que eu morresse, eles não teriam tudo o que queriam naquela noite.
–Acha que ele virá acompanhado? –perguntou Victor.
–Por isso que eu chamei os vampicotes! Vão chegar aqui com a gasolina logo! –disse Lerry. E eu fiquei pensando, ‘’que diabos era um vampicote?’’. –São quatro e estão bem armados, vai dar tudo certo. O maldito general Larten Crepsley morre essa noite!
Eles riram e eu ouvi o sim de uma camionete chegando. Era a minha deixa, eu tinha que fazer algo naquele momento. Eles me deixaram no chão e quando olhei para o lado pude ver que estávamos ao lado de onde a cachoeira começava. Pelo barulho que eu ouvia era uma queda de no mínimo dez metros e foi aí que eu pensei que se eu corresse conseguiria me jogar Dalí. Eu morreria, mas se Larten chegasse ali eu não seria uma distração. Pedi desculpas a ele mesmo sabendo que ele nunca iria saber disso, respirei fundo e a determinação me deu força naquele momento, então eu levantei rapidamente e corri o mais rápido que pude até a ponta da cachoeira ,disse adeus a Lua amarelada e me joguei!
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