A represa

2 Huntsville


Eu. Huntsville. Sozinho. Sem conhecer ninguém. Poderia ser outra pessoa. Poderia inventar uma história qualquer de que meus pais me abandonaram quando eu era criança e que descobri que tenho um parente distante aqui. Mas esse era exatamente o oposto de porque vim à essa cidade. Eu abandonei meus pais naquele carro. Eu fugi para cá porque quero ficar longe de parentes meus. Acho que eu não poderia usar bem o termo "fugir". Acho que "me mudar" seria o termo certo.

Estacionei meu carro no lugar mais próximo de movimente naquela cidade e sai andando. Peguei outro cigarro no bolso e o acendi. Suspirei aquele ar gelado de fim de inverno e sussurrei para mim mesmo.

— Tenho 500 dólares na minha carteira que eu tinha guardado em minha poupança. Preciso de um lugar para morar. Preciso de um emprego.

Eu fazia isso, falar comigo mesmo, quando minha cabeça estava girando de tantas ocupações, eu tentava organizá-la falando alto.

Percebi que na minha viagem eu já tinha fumado praticamente todos os meus cigarros. Só havia 3 na caixa agora. Entrei em um mercadinho no meio da rua para comprar mais e logo dei de cara com uma placa "TEMOS VAGAS".

Não pensei duas vezes. Uma hora depois saí de la segurando uma ficha com meus documentos e só deu para ouvir o meu novo chefe gritando:

— Começa segunda!

Hoje era uma tarde fria e cinzenta. 30 de Janeiro, sábado. Exatamente, segunda, dia 1 eu começava meu novo emprego, e em dois dias terei de arranjar um lugar para morar e me matricular na nova escola. Meu objetivo nesse momento não era exatamente aprender o valor de PI ou valores semânticos de discursos. Mas é lei que qualquer criança ou adolescente estude. Isso me chateia. Quase no centro da cidade avistei um prédio com 2 andares, dois apartamentos em cada andar, e eu estava em um dia de sorte. Tinha um para alugar. As pessoas dessa minúscula cidade preferiam ter uma casa do que morar em prédios. Parecia que ter uma casa, não importa o quão pequena seja, já era simbolo que você tem dinheiro. Outro motivo de eu querer morar em um prédio.

O que mais me assustava nessa cidade é que ela era incrivelmente pequena. Quatro mansões já dava o tamanho da cidade. Eu poderia percorre-la dez vezes inteira, e ainda não estaria cansado. Bom, o apartamento mais luxuoso da cidade contia uma sala juntamente com a cozinha, um quarto com uma cama e um pequeno armário e um banheirinho. Perfeito para mim. Não sou do tipo que gosta de ficar em casa. Paguei o aluguel, no caso me impressionei, que era 350 dólares. Acho que eles chamam isso de riqueza.

Depois de arrumar minhas coisas em meu novo lar, fui direto para EMH — Escola Municipal de Huntsville. Me matriculei e me deram uma caixa com todos os materiais precisos. Era uma escola pública então eles tem de dar o básico ao aluno.

Domingo. Finalmente, domingo. Parecia que ontem o relógio não andava, mas por fim, andou. Fui conhecer a cidade e achei um lugar bem interessante. Era uma represa e havia rochas inclinadas, para se sentar. Foi ali mesmo em que fiquei, das 5h da tarde até 8:30h. Vi o pôr-do-sol e o nascer das estrelas. Eram muitas estrelas. Quando me levantei para ir embora percebi que havia uma garota um pouco atrás de mim e mais para o lado. Levei uma pontada no coração. Ela deve ter vindo ver o pôr-do-sol, assim como eu. Mas ela não estava olhando as estrelas, nem mesmo o reflexo delas nas águas cristalinas da represa. Estava olhando para mim. Quando eu levantei ela desviou o olhar, não consegui ver o rosto dela pois estava usando uma touca cinza de lã e sua franja de lado estava cobrindo a sua cara. Simplesmente a ignorei e fui embora. No dia seguinte eu tinha de ir à escola e depois ao trabalho. Me dei o mínimo de respeito de ser um ser humano e sussurrei, abaixando a cabeça:

— Boa Noite.

Acho que a intenção dela era não ser notada. Bom, acho que não deu muito certo. Dei um sorrisinho e fui embora. Garanto que ela retrucou o sorriso. Era aqui, nessa represa, em que descobrirei minha missão de vida.