A realidade ofuscante de uma mente sem esperança

3 Capitulo 3 - Muito além da imaginação


90 dias antes

Samsara é o termo usado para algo que esta sempre a se repetir. É tido como o ciclo de vida e morte de todos os seres, que inevitavelmente irão passar pelos 4 sofrimentos da vida. Nascimentos, envelhecimento, doença e morte. Onde, apenas O Iluminado poderia cessar seu próprio ciclo de Samsara.

No dia à dia comecei a notar não apenas o macro Samsara, mas também o micro. Acontecimentos pertinentes a uma única pessoa que se repete por toda sua vida. Um casal que mesmo sabendo que ira brigar e ter crise tendem a voltar toda vez, e mesmo sabendo o seu futuro, o repetem. Uma família onde todos seus descendentes morrem por infarto. Uma mulher na calada da noite, sempre sai com homens de um mesmo perfil e no dia seguinte se pergunta "Por que ele não ficou?".

Na minha vida, não era diferente. O meu ciclo era tênue e parecia imutável. Todo dia acordava as nove horas da manha, passava água no corpo, vestia uma camisa social branca, uma calça social preta, um sapato preto, pegava o crachá e ia para o trabalho. E após isso, voltava, passava tomava um banho, vestia um uniforme feito pela turma, uma calça jeans, e ia para faculdade. E sempre no fim de semana estava em algum oppen bar, procurando preencher de alguma forma este vazio existencial.

Em minha mente eu gostaria que algo acontece-se, eu gostaria de me destacar em algo, em ser reconhecido em alguma coisa. Porem, por mais de tudo que eu fizesse, estava muito longe disto acontecer.

O escritório era grande, cabia 3 mesas, cada uma tinha um computador da Intel, modelo 2009, tela fina, cor preta, todos iguais, e uma única impressora para todos usar. Sempre tinha café pronto, volta e meia vinha uma funcionaria trocar o café e se ele estava bom. Gentilmente respondíamos que sim e logo voltávamos a trabalhar.

Em algum canto da galaxia...

A terceira grande guerra já havia terminado, a tecnologia usada permitiu que planetas se enfrentassem diretamente em um campo de batalha que ficou conhecido como Sherwood. Sem um grande vencedor final, foi formado o Governo Intergalático para prevenir futuros desentendimentos planetários e intermediar relações diplomáticas e comerciais, além da criação da Frota Única de Defesa.

—Já temos uma possível localização do antigo líder do exercito revolucionário, iremos mandar tropas de espionagem para verificar.

—Entendido Comandante Thy.

Naquela mesma noite, no planeta Terra.

—Tudo certo para fim de semana? Pergunto, enquanto espero um Capuccinosair da maquina, que parecia sofrer de tão velha para cumprir uma simples função.

—Um café preto. Pede ela, enquanto tira dinheiro da bolsa, com cuidado para não deixar cair, enquanto vira para mim e responde. -Me passa pegar as 23:00.

A faculdade havia proibido os trotes e no lugar colocaram "Trote Solidário" que consistia em levar um quilo de alimento em troca de horas curriculares. Então, não havia trote e os alunos, diferente de qualquer filme americano, não se importavam em faze-los.

A coisa mais emocionante que poderia acontecer, era alguém chegar do bar da esquina bêbado e ir para assistir a aula... o que digo de passagem, não era raro. Além de bebidas em garrafas de aguá e um cigarro e outro, não havia muito o que fazer, e até onde eu sabia não tinha regra contra tais atitudes. Todos já eram de maiores e sabiam cuidar de sua vida... ou tentavam.

As vezes eu pensava que se alguém abrisse um comercio de cordas, cadeiras e ventiladores de tetos iria lucrar bastante aqui na cidade.

Naquele dia, uma aluno entrou mais depressiva que o normal, comentando que o namorado de sua prima havia se matado após uma briga. Pegou o carro e começou a dirigir bêbado e simplesmente não desviou do poste.

—Ele estava mal, todos sabíamos que ele estava mal, mas ninguém ofereceu carona, ninguém perguntou como ele estava, apenas deixaram ele ir. Comentou ela.

—É, acontece todo dia... Comento e todos olhares se voltam para mim... acho que falei demais.

—Digo, todo dia tem alguém mal, a pessoa ta mal, mas o que fazemos? Ignoramos, não adiante agora chorar, não ira trazer ele de volta...

A sala fica em silencio por algum tempo e ela responde.

—É, você tem razão, apenas tentamos não fazer parte disso, não ser parte da culpa. E assim o assunto se encera.

Voltando para casa Luana comenta. -O clima é bastante tenso na nossa sala, é sempre assim?

—Costumávamos ser unidos, fizemos camisa logo no primeiro semestre, sempre era marcado churrascos onde a maioria comparecia, até mesmo a galera vegetariana, tinha pão de alho para eles. Porem, com o tempo foi formando panelinhas e intrigas, e agora marcar algo com a turma, apenas um e outro comparecem. Não sei o que houve, pois me deixaram de fora da briga deles. As vezes vou em um grupo e outro, porem só escuto falarem mal uns dos outros.

Assim se despedimos, cada um foi para sua casa, e coloco-me a fazer mais trabalhos da faculdade. É algo que você não pode parar para refletir "Por que estou fazendo faculdade? Por que estou fazendo este trabalho? Por que ainda faço todas estras drogas? Por que não largo a faculdade e saiu por aí sem rumo? A vida é só isso?". Então, apenas evitar pensar, colocar uma música no alto e começar a estudar.

Minha professora havia dado dicas de como estudar para provas, e uma delas é exatamente não colocar musicas, sentar numa cadeira com a coluna reta, com o VadeMecun do lado e o caderno do outro, fazendo anotações. Porem, neste momento eu estava ouvindo Born To Die da Lanal Del Rey, enquanto devorava o caderno de cabo a rabo, até cair no sono.