A raposa e a pega

1 Raposa curiosa e Pega corajosa


A raposa e a pega

A raposa vermelha andou pela mata novamente, em busca de alimento para os filhotes, levantou o focinho e se pôs a farejar o ar em busca de algo fácil e rápido de captura, seus filhotes choravam fazia tempo, e a última coisa que queria era um chacal na porta de casa, notou apenas odores fracos, em baixo de si, apenas ratos australianos, o que faziam esses roedores ali? Ignorou isso, suas orelhas pontudas levantaram para cima, sua única calda tão vermelha quanto ela se abanou, seus olhos se direcionaram para frente, ela farejou algo. Andou tranquilamente pela mata, desviando de várias árvores pelo caminho, tento encontro com algumas formigas no decorrer do trajeto, ponderou consigo se deveria matá-las ou não... Talvez não fosse o melhor momento para ser a mais forte, formigas não manteria seus filhotes vivos, pássaros, era um bom mantimento, filhotes eram frescos logo no começo, ela própria era também quando era uma simples e jovem raposinha, inexperiente na arte da caça, andou novamente, o barulho ficando mais forte, avisou uma pequena árvore, podia ser chamada de uma árvore de um galho só, era fina, o tronco podia ser facilmente partido ao meio, mesmo por suas presas finas, se surpreendeu quando notou várias pegas no topo dos ramos, eles pareciam nem terem se dado conta da presença de um caçador ali, baixou suas orelhas e se arrastou para mais perto, não podia perder a chance, e já estava escurecendo, até voltar seria noite, ou ela voltava com uma caça ou não voltava.

Ficou se arrastando calmamente, fazendo o mínimo de barulho possível, não queria alarmar o jantar, viu um pedregulho pequeno, algumas poucas pedras ao redor, um espaço aberto, ela resolveu apenas grunhir alto, e se virou rápida, ficando de barriga para cima, sua calda baixa, e suas orelhas também, ficou de boca aberta para uma visita, talvez a última da pobre e tola pega que resolvesse adentrar em sua residência.

Não demorou muito até que uma pega a avisou, e vendo sua língua para fora, voou em direção a ela, ficando em cima das pedras primeiramente, olhando aquilo que parecia ser apetitoso pra ela. Levantou um leve voo e cravou as finas pernas no focinho dela, que estava de olhos esbugalhados, a pega mordiscou a língua da raposa uma vez, e no instante seguinte, só conseguiu ver a mandíbula da raposa se fechando com sua cabeça dentro dela, uma morte esmagadora e limpa, rápida, tudo o que a raposa precisava para manter os filhos vivos, mas apenas um não era o suficiente para manter três filhotes vivos, talvez mais um, quem sabe?

Foi o que decidiu fazer, nenhuma das outras pegas parecia interessada ou parecia ter notado a falta de uma nos galhos, a raposa vendo que dessa vez as pegas estavam demorando a dar atenção para sua língua, resolveu estreitar as orbes e observar, ela viu que no galho direito da árvore, havia uma única pega, que estava isolada, parecia querer se manter sozinha, enquanto na outra havia certamente dez delas, seria onze, mas uma ela já tinha dado conta.

‘’- Me pergunto a razão dessa querer ficar sozinha, será que não gosta de seus semelhantes? – pensou consigo mesma, fechando um pouco a mandíbula, resolveu optar para a mesma tática de antes, grunhiu alto, alto o suficiente para apenas aquela isolada a ver. ‘’- Ótimo, venha aqui como a sua amiga peguinha.’’

Curiosamente, a raposa não se deu conta que ela não havia sumido com o pequeno corpo da primeira pega, estava do seu lado, com o pequeno crânio esmagado. Só se tocou nisso quando viu a pega olhando fixamente para o ponto onde a outra estava morta, a raposa pensou que estava acabada, quando estava desistindo, pronta para se virar e ir embora com seu pequeno e único prêmio, eis que a isolada levantou voo no ar e desceu, parando no mesmo lugar que a outra parou antes, a raposa dessa vez, apenas ficou a fitando, não deixou sua língua a mostra, sabia que ela não iria cair nessa. Mas a pega ficou apenas alternando seus pequenos olhos entre a outra pega, e a raposa, que só se encontrava fitando ela curiosa, como todas as raposas são interiormente, não sabia o que fazer.

- O que está esperando raposa? – perguntou a pega pra ela – Abra a boca, me leve com a pega que você matou.

Aquilo pareceu ter deixado a raposa em um estado de estupor, e de fato havia deixado, nunca uma presa se entregou a morte sem um motivo forte, como por exemplo dar uma chance de sua própria cria sobreviver, isso era algo maternal, ela faria a mesma coisa se assim o destino quisesse, mas essa pega estava se entregando sem proteger nada.

- Você é idiota... – disse a raposa, de cabeça para baixo, apenas a olhando com um sorriso perverso, as presas peroladas bem a mostra, para ilustrar o perigo, que a pega estava muito bem ciente. – Quer morrer a troco de nada?

A pega não se ofendeu muito, apenas inflou o peito, para mostrar sua coragem, que aos olhos da raposa vermelha parecia algo cômico, mostrar coragem ao se entregar para a morte, mesmo que ela desistisse e levantasse voo, seria tarde, suas presas envolveriam o corpo dela e faria alguns bons buracos nela, mas a pega parecia não estar preocupada com isso.

- Não é a troco de nada, em minha opinião estou me entregando a uma causa nobre. – respondeu ela, isso fez a raposa rir baixo, para não fazer as outras levantarem voo, duas pegas loucas, uma foi idiota, e uma está sendo agora.

- E que causa nobre além de proteger alguém pode ser vista nessa situação, não vejo nenhuma plausível. – disse ela, lasciva, adorando provocar a pega, dessa vez se virando lentamente, e ficando de barriga para o chão, as pernas apoiadas firmes na terra, pronta para um salto caso a outra mudasse de ideia.

- Por que você está caçando? – perguntou á pega, os olhos negros e miúdos brilhando em seriedade. – São por outros, não é?

- Sim... – respondeu a raposa, confusa, não entendo onde a pega queria chegar, estava perguntando coisas inúteis enquanto o predador estava em sua frente.

- Então vou me entregar para eles... – respondeu a prega, abrindo as asas levemente, indicando que queria voar para dentro da boca da outra. – São seus filhotes, eu presumo.

- Sim... – a essa altura, confirmar era a única coisa que a raposa podia fazer, não estava entendendo mais nada agora, estava sendo um dia estranho pra ela.

- Abra a boca, vou entrar. – disse isso apenas, voando ao redor dela ficou esperando ela abrir, mas isso não aconteceu, e ela voltou para a pedra novamente, confusa. – Por que não está abrindo a boca? Estou te ajudando!

- Por que está fazendo isso? – perguntou o que estava martelando sua cabeça, as orelhas ficaram altas, apenas para ter certeza de que ouviria bem á resposta da pega.

- Por que não faria? – perguntou em forma de resposta, para a pega não havia motivos para não ajudá-la, ela estava fazendo isso por outros, não por ela, era uma morte nobre ajudar quem precisava de ajuda.

- Você não tem medo de morrer? – exclamou um pouco mais alto, nada que alertasse as outras pegas. – Não tem filhotes como eu?

- Você deve ter notado que eu me mantenho sozinho. – disse ela, fazendo a raposa se lembrar, e era verdade, ela estava afastada dos demais. – Não tenho família, então logo não tenho motivos pra viver.

- Isso está errado, viver é algo bom. – colocou seu ponto de vista em debate, os olhos ficando sérios, a boca se abrindo levemente, rugindo levemente, ou rosnando, não era um leão, mas tinha o orgulho de um.

- Você está caçando porque seus filhotes precisam. – exclamou com razão a pega, abrindo as asas novamente, mas não voando. – Então acho que alguém sozinho como eu, poderia ajudar crianças de uma forma melhor.

- Você é a primeira presa que se entrega pra mim sem correr em desespero, e provavelmente vai ser a primeira a não querer fugir quando meu dente atravessar seu pequeno corpo. – comentou a raposa, talvez mais pra ela do que para a pega, mas ela a ouviu mesmo assim e concordou.

- Provavelmente sim, sempre gostei de ser o primeiro em várias coisas. – respondeu ela, abrindo totalmente suas asas. – Agora me mate logo, quero ser lembrado por alguém, e espero que esse alguém seja você, raposa vermelha.

E então, a raposa abriu a boca completamente, a língua ficando para fora como um tapete vermelho, exclusivamente posto para a pega colocar as finas pernas, e foi o que fez, e quando fez isso ela só pode pensar que os filhotes da raposa não iriam passar fome, logo sentiu a escuridão em volta de si, e a língua a arrastou para as bordas, onde ela foi esmagada.

A raposa apenas a mordeu o suficiente para se certificar de que a pega havia morrido, pegou a outra com a boca, e foi para seu próprio caminho, as demais só nesse momento se deram conta da presença dela ali, foi triste. Dois companheiros morreram, apesar dela ter a certeza de que as demais só se lembrariam da primeira, mas tudo bem.

Ela se lembraria da última pega que ela entregou a seus filhotes.

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