A quinta janela
2 Capítulo 2: A Porta que respira
O corredor parecia mais longo do que antes. Lara sentiu que seus pés afundavam no assoalho a cada passo, como se a casa estivesse tentando absorvê-la, centímetro por centímetro. A porta no fim — aquela que não constava na planta — pulsava com uma luz âmbar, agora um pouco mais intensa, como se soubesse que ela se aproximava.
Ela esticou a mão.
A maçaneta estava morna. Não metálica — quase... orgânica.
Ao tocá-la, sentiu um leve tremor. E então, a porta respirou.
Um som úmido e cavernoso saiu pelas frestas, como se algo do outro lado tivesse inalado o ar da casa inteira. Lara recuou instintivamente. Mas algo nela — orgulho, talvez, ou pura curiosidade — a fez avançar de novo. Apertou a maçaneta. Ela cedeu com um clique que soou como osso quebrando.
Do outro lado, havia um quarto.
Mas não qualquer quarto.
O espaço era amplo, como um salão antigo de palacete, com paredes cobertas por papel de parede vermelho-sangue. Cadeiras viradas, brinquedos infantis da década de 60 espalhados pelo chão, um tapete redondo ao centro, sujo de algo escuro e coagulado.
Mas o mais estranho eram as janelas.
Cinco delas. Perfeitamente alinhadas. Todas com cortinas esvoaçantes, embora nenhuma brisa soprasse. Todas abertas. E cada uma parecia mostrar uma paisagem diferente.
Uma mostrava a cidade em ruínas, com um céu vermelho. Outra exibia o quintal da casa... mas com uma figura parada no portão, imóvel. A terceira revelava um corredor de hospital abandonado, com luzes piscando. A quarta era um espelho que refletia Lara — só que ela não se movia, mesmo quando virava a cabeça.
E a quinta…
Ela estava coberta por um pano preto. Tremia levemente. Como se houvesse algo vivo do outro lado.
Lara se aproximou, hipnotizada.
Ao estender a mão para tocar o pano, um ruído baixo invadiu o quarto. Como uma canção de ninar. Mas distorcida. Crianças cantando em uníssono, em uma língua que ela não conhecia — mas que entendeu. As palavras queimaram sua mente:
"Cinco janelas, cinco olhos, cinco almas para acordar..."
"A casa vê, a casa lembra, a casa vai respirar."
Lara recuou.
Mas tarde demais.
Do outro lado do pano, alguém a tocou de volta.
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