A professia de Kilgarrah
2 Século 15?
Notas iniciais
O lugar tinha um cheiro úmido. Árvores. Natureza. Era um cheiro bom. Jessifer gostou desse cheiro. Havia algo diferente no ar. Ele parecia mais puro. Talvez sentisse isso porque estava em uma mata.
Mata? Não era isso que ela lembrava. Não, ela lembrava de um apartamento, um lugar pequeno, confortável, e de algo brilhante... prateado. Um anel. Joseph.
Ela abriu os olhos. Estava cercada de árvores, todas muito úmidas. Jessifer havia sentido o cheiro de terra molhada, a terra em que se encontrava deitada. Ela se levantou aos poucos. Estava um pouco tonta. Mentira, estava muito tonta. Pensou em se sentar, mas achou que se sentasse, a tonteira iria piorar. Então ficou parada, se apoiando em uma árvore, enquanto tentava se lembrar do que havia acontecido na noite passada.
Ela se lembrava de um vento forte e de algo caindo no chão. Ela caindo no chão. A janela se abrindo repentinamente, mesmo lacrada. Um par de olhos, amarelos e brilhantes, encarava-a de frente. Mais que isso, ela não conseguia lembrar.
Depois de um tempo parada, ela se separou da árvore e foi andando pela mata. Como tinha parado naquele lugar? Lembrava-se de estar em seu apartamento, não na mata. Na verdade, não estava nem perto de uma mata. Será que era algum tipo de brincadeira? Alguma surpresa que Joseph havia feito? Não, Joseph não faria algo assim.
Será que tinha sido sequestrada? Ela se lembrava de ter sido desacordada, afinal. Derrubada. Mas não foi por alguém, foi pelo vento. O vento, que magicamente abrira a janela trancada. Mas aquilo era impossível. Será que havia alguém na janela e ela não tinha percebido? Será que a desacordaram sem que ela tenha percebido? Não acreditava muito nisso, mas tinha que considerar a possibilidade.
Então, sem conseguir se conter, gritou para a mata vazia.
– Olá? Tem alguém ai? – Mesmo que ninguém respondesse, ela gritou de novo. – Isso é um sequestro? Se é, eu não tenho muita coisa para te oferecer!
Ainda sem resposta.
– Ou isso é uma brincadeira de mau gosto? James, foi você? – Assim que perguntou pelo seu amigo, percebeu que ele não faria isso. James poderia ser bem idiota ás vezes, mas nunca faria algo assim. – Ok, isso é algum ritual? Tipo algo cristão ao alguma coisa assim?
Quando passou-se mais um longo momento de silêncio, Jessifer suspirou, frustrada pela sua noite ter sido desperdiçada. Andou para a frente, não sabendo onde o caminho iria levar. Só tinha esperanças de sair dali e chegar na cidade, se tivesse alguma por perto. Pelo que ela sabia, poderia nem estar em Nova Iorque.
Então, lembrou-se de uma coisa. Ela ainda tinha o celular na bolsa. Tirou-o de lá, ligou-o e percebeu que não tinha sinal. Claro que não tinha, provavelmente estava no meio do nada.
Continuou andando. Parecia que aquela mata era interminável. Nem sabia que tinha algum lugar assim perto de Nova Iorque. Andou o dia todo, e o sol estava quase se pondo quando viu uma vila. Ela esperava achar uma cidade, mas talvez naquele lugar tenha sinal. Ou pelo menos podia saber onde estava.
As ruas não estavam tão cheias, mas as pessoas na rua eram muito estranhas. Para começar, todas eram estranhamente pálidas. Ela sempre se achou pálida, mas com aquelas pessoas ela não se achou tão estranha. Todos lá eram brancos, não tinha nenhum moreno ou negro. Eles se vestiam de jeito esquisito. Os homens vestiam roupas largas, camisetas rasgadas e calças sujas e longas. As mulheres vestiam vestidos compridos, estilo medieval. Também tinham cabelos gigantes, e não usavam maquiagem. Na verdade, não usavam nada. Todos lá tinham um estilo meio... deprimente? Eles eram sem graça. Incrivelmente magros. Tudo lá era cinza, triste. Ela quase quis voltar à mata. Lá parecia ser mais aconchegante.
Ela pegou o celular. Ainda estava sem sinal. Explorou um pouco o lugar, mas não pegava nem sinal nem nenhuma rede de wi-fi. Nem o relógio estava funcionando direito, ela agora tinha percebido. No seu celular estava falando que era três horas da manhã, quando provavelmente eram seis horas da tarde.
Todos lá a olhavam com um olhar estranho. Provavelmente porque ela era uma mulher vestida de jeans e camiseta, com delineador e lápis preto nos olhos e batom vermelho nos lábios e cabelo curto com uma mecha azul em cada lado dele. Mesmo assim, foi timidamente em direção a um homem. Ele não era diferente de todos os outros habitantes do lugar, e também olhava para ela desconfiado e julgador.
– Ei, com licença – ela disse, meio tímida. – Você pode me dizer onde estou? Acho que me perdi.
Ele a olhou carrancudo.
– Fique longe de mim – Ele tinha um sotaque britânico, rude e meio antiquado. Foi andando apressadamente em direção a uma casa.
– Você sabe onde eu posso conseguir sinal? – ela perguntou a ele, mas o homem a ignorou. – Wi-fi? Qualquer coisa?
Ele entrou apressado na casa. Jessifer deu de ombros. Talvez ele tivesse algum trauma, ou problemas sociais. Foi em direção a uma mulher. Ela parecia evitar olhar para ela, mas ela era a única que não a encarava como se estivesse a julgando.
– Oi, moça? – Jessifer falou. A mulher ainda evitava encará-la. – Eu não sei onde estou. Você poderia me dizer? Ou pelo menos onde eu posso pegar sinal. Ou qualquer outra coisa.
– Eu não falo com prostitutas – a mulher respondeu.
– O quê? – disse Jessifer, abismada pela afirmação da outra, mas decidiu ignorar o seu último comentário. – Olha, eu só preciso saber onde estou. Ou se tem qualquer jeito de eu me comunicar com alguém. Onde posso pegar sinal, ou wi-fi?
– Você é louca? – perguntou ela, olhando para Jessifer pela primeira vez. – O que é wi-fi? O que você quer dizer com sinal, e que... sotaque é esse?
– Eu... quer dizer, o quê? – Jessifer franziu a testa, confusa. – Nós estamos em Nova Iorque?
– Não, você está Hefie.
Jessifer franziu a testa ainda mais. Nunca havia ouvido falar daquele lugar.
– Ok – ela disse. – Pelo menos estamos nos Estados Unidos?
– O quê? – a mulher olhou para ela confusa, mas depois seu rosto pareceu se clarear. – Ah, você quer dizer Reino Unido.
Jessifer sorriu.
– Não, Estados Unidos. Sabe, EUA, Estados Unidos da América.
– América? – A mulher sacudiu a cabeça, negando. – Não, aqui é a Inglaterra.
Jessifer arregalou os olhos, surpresa ao ouvir a afirmação. Sua respiração falhou e uma sensação de pânico a preencheu. Em que tipo de confusão estava?
– Inglaterra? – ela falou, sua voz falhando. – Não, isso é impossível. Eu estava nos Estados Unidos. No meu apartamento. Não é possível que eu tenha ido para outro continente...
– Outro continente? – a mulher interrompeu. Não parecia estar com tanto medo naquele momento. – Onde é esse “Estados Unidos”?
– O que você é, uma mulher das cavernas? – Jessifer perguntou, abismada. – Como pode nunca ter ouvido falar dos Estados Unidos? Que esquisita.
– Eu sou a esquisita? – a mulher perguntou, frustrada. – Não sou eu que venho falando sobre um lugar imaginário, usando um sotaque esquisito, com cabelo azul e roupa de homem.
– Roupa de homem? – Jessifer riu. – Em que século você acha que estamos?
– Século 15.
A risada de Jessifer parou, e de repente seu rosto ficou sério.
– O quê?
– Estamos no século 15.
– Não, estamos no século 21.
– Século 21? Você só deve ter fugido de um hospício garota.
Jessifer encarou-a continuamente, até que seu sorriso se abriu de novo.
– Isso é algum tipo de brincadeira, não é? É para isso que me trouxeram aqui?
– Brincadeira? – a mulher jogou a cabeça para trás e suspirou impaciente. – Eu vou parar de falar com você. Nem deveria ter te dado atenção em primeiro lugar.
A mulher caminhou até uma cabana, onde um garotinho chamava sua atenção.
– Espera, não vá! – Jessifer gritou, mas a mulher não parou. – Merda.
Ela olhou em volta. O sol estava se pondo. Logo iria escurecer, e ela não tinha nenhum lugar para ir. Não poderia ficar naquele lugar, não com todos aqueles olhares estranhos. Poderia voltar para a mata, mas o que encontraria quando fosse lá? Poderia ter animais selvagens lá, que a atacariam e comeriam sua carne no meio da noite. Ela estremeceu. Sempre pensava no pior.
Ao invés disso, resolveu andar pela vila. As pessoas não a olhavam mais. Estavam todos dentro de suas casas. Mal havia escurecido. Aquilo era realmente estranho. Jessifer estava acostumada a viver em Nova Iorque, a cidade que não dorme. Aquela visão, da vila esvaziada tão cedo, era algo estranho para ela.
Jessifer sentou-se e observou a vila. Século 15? Não podia ser. Era impossível. Ela nunca havia duvidado em viagem no tempo. Na verdade, sempre fora bastante viciada nessas coisas, de física, de tecnologia. Sempre fora meio nerd. Ficção cientifica e fantasia a fascinavam.
Mas era impossível que ela tenha viajado pelo tempo. Sem ter percebido, sem nenhuma cerimônia. Só um vento. E aqueles olhos, os olhos amarelos que a encaravam pela janela. Será que eles a haviam trazido para aquele lugar? Bem que eles pareciam faróis, brilhantes daquele jeito. Talvez uma nave. Mas de onde ela teria vindo? E por que a teria levado?
Jessifer suspirou frustrada ao perceber que estava pensando loucura. Aquele não era o século 15. Mas também não era uma brincadeira. Não havia sentido em ser uma brincadeira. Então o que seria? O que era aquele lugar?
Ela deitou. Estava cansada. Esse fato era ridículo, já que parecia ser umas sete horas. Mas mesmo assim se sentia exausta. E, antes que pudesse fazer qualquer coisa, como se misturar ás árvores da mata ou tentar se esconder das casas da vila, adormeceu.
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