Havia se passado uma semana desde que Emma havia chegado em Manchester. Sua vida se resumia em ler casos antigos para o TCC e ir segunda e terça ao escritório da mãe em Carrington. Só saia do prédio para isso. Tinha medo de encontrar alguém conhecido e reviver algo do passado.

Quando fechava os olhos, Emma poderia jurar que conseguia sentir cheiro de fumaça e ouvir as músicas que tocava na noite que virou o seu pesadelo.

Emma havia deixado algumas mensagens para o seu pai implorando para que pudesse voltar a Londres, mas ele não respondeu nenhuma. Falou com seu padrasto, que estava a ajudando a convence-lo, mas Matteo também não teve sucesso. Ela começou a se perguntar se havia feito alguma coisa para o seu pai para ele faze-la voltar para lá.

Os únicos que parecia querer saber dela era Ryan e Brian. O último sempre estava conversando com ela querendo saber se estava bem e ela apreciava a atenção.

Já a mãe parecia está ansiosa com alguma coisa. As vezes ouvia Elena e Ryan discutindo sobre um homem e que ela não queria que o irmão falasse. Emma acreditava que deveria ser algum novo namorado, mas ela também se importava com a vida amorosa da mãe.

Naquele dia Emma acordou cedo e logo se arrumou para sair. Era quarta-feira e não era dia de ir ao clube, mas se inscreveu nas aulas de Pilates.

Tentaria deixar sua rotina a mais parecida com a de Londres. Às terças e quintas ajudava sua mãe no jurídico do Manchester United (ou apenas fazer figuração) e na sexta feira seria sua sessão de terapia com a sua psicóloga por vídeo chamada. Mesmo com o TCC, ainda sobrava muito tempo, então se matriculou em um estúdio de Pilates no bairro ao lado. Iria 3 vezes na semana, uma a mais do que era acostumada a fazer.

Ela colocou sua roupa branca de ginástica e prendeu o cabelo em um rabo de cavalo, passando apenas um hidratante labial com um pouco de cor e máscara de cílios a prova d'água. Pegou sua bolsa e se despediu de Tiger.

Encontraria o irmão no shopping depois do treino, então pediu para ele não se esquecer. Não sabia o que Ryan tinha dito para mãe para conseguir sair com ele, mas deu certo.

No horário reservado só tinha ela de aluna. Como Emma havia pedido.

Os 40 minutos dá aulas demoram uma eternidade para passar. Por mais que o treino havia sido pesado para o primeiro dia, amou a professora. Pelo menos por àqueles minutos, Emma conseguiu se concentrar que não fosse o desprezo da mãe, e o medo do julgamento das pessoas assim que coloca o pé para fora de casa.

Emma tomou um último gole de água antes de fechar sua bolsa. Conferiu o celular, e mandou uma mensagem para o irmão avisando que a sua aula já havia terminado. Quase deixou seu aparelho celular cair no chão, quando esbarrou em algo sólido.

— Opa! — O impacto quase a fez perder o equilíbrio, mas mãos firmes seguraram seus braços.

— Você por aqui? — A voz grave, carregada de familiaridade, a fez erguer os olhos surpresa.

— Kojiro Hyuga? — piscou algumas vezes. — O você por aqui?

— Sim, eu moro aqui. O clube recomendou esse bairro. — Kojiro ajeitou melhor a sacola do mercado na mão. — Dizem que é um bom lugar pra ficar longe do caos da cidade.

— E o que acha? — Emma colocou o celular no bolso.

— Ainda estou me acostumando. Mas... é melhor do que eu esperava.

— E você? Treinando pra alguma competição secreta? – disse reparando na roupa que ela usava.

— Apenas pilates. Tenho que manter a formar. — — Emma sorriu de leve, exibindo um dos braços bem definidos.

Kojiro arqueou uma sobrancelha, claramente segurando um comentário.

— O quê foi? Não ria dos meus músculos. Pode não parecer, mas eu sou super forte.

Kojiro soltou um leve riso pelo nariz.

— Nada, não. Só que eu acho que você deveria fazer outra atividade se quisesse ficar realmente definida.

Emma fingiu exageradamente que estava chocada.

— Você está dizendo que eu não estou em forma?

— Nada disso. Você é linda...

Emma notou que ele a olhava com um brilho sutil nos olhos. Ou talvez fosse apenas coisa da sua cabeça.

— Emma, você demorou! Eu estou morrendo de fome.

Emma e Kojiro se viraram ao mesmo tempo e viram Ryan se aproximando, ajeitando a mochila nas costas e mexendo no celular.

— Ryan, você demorou. – disse Emma cruzando os braços.

— Você mandou mensagem dizendo que sua aula acabou. Achei que já tava indo pro shopping. Estou te esperando a meia hora. — Ryan devolveu, lançando um olhar curioso para o homem ao lado da irmã. — Hyuga. Te vi no outro dia, mas nem deu tempo de falar direito.

Ryan olhou para Emma e ela entendeu o recado.

— E aí — respondeu Kojiro, sem muita formalidade.

Ryan sorriu.

— Você sabia que eu comprei o seu passe no meu time do FIFA.

Kojiro riu baixo, surpreso com a abordagem direta.

— Espero que esteja jogando bem com meu boneco, então.

Ryan abriu um sorriso.

— Está jogando melhor do que na Juventus.

— Ryan! – Emma o repreendeu.

Kojiro ergueu uma sobrancelha, mas, ao invés de se incomodar, sorriu de leve. Gostou do jeito direto dele.

— Justo. Mas agora eu estou no United. Vou melhorar.

— Vamos torcer para isso. Se errar muito do Manchester, eu te vendo no modo carreira.

Emma bufou. Se já não bastasse Ryan jogar vídeo game o dia todos, agora ele encontrou alguém para falar também.

Kojiro riu baixo.

— Justo. Vou tentar manter meu valor de mercado fora do jogo também.

Ryan abriu um sorriso satisfeito e então olhou para Emma.

— A gente não ia almoçar? – perguntou Ryan.

— Sim, claro.

— Hyuga, vem com a gente.

Emma franziu a testa.

— Ryan.

— Que foi? O cara acabou de chegar na cidade. Se ele tiver compromisso, ele que diga.

— A verdade é que eu não posso. Tenho alguns amigos que vão chegar e eu preciso organizar melhor a mudança.

Emma soltou um suspiro resignado.

— Que pena. Seria uma ótima ideia.

— Fica pra próxima — Kojiro disse, ajeitando a sacola do mercado na mão.

Emma assentiu. Os dois viram Kojiro se afastar.

— Ele gosta de você.

Emma franziu a testa.

— O quê? Do que você tá falando?

— Você acha que eu não vi você no carro com ele naquele dia no restaurante?

— Ele só me deu uma carona.

— E você pagou com um beijo? — Ryan arqueou uma sobrancelha. — Se continuar assim, vai arranjar problema com o Cruyfford.

— Brian é meu amigo, Ryan.

— Pode até ser, mas ele quer algo a mais com você. E não é de hoje. — Ele a encarou, sério. — E não finge que não sabe.

Emma abriu a boca para rebater, mas desistiu. Apenas desviou o olhar.

— Mas não há nada — disse, por fim.

Ryan ergueu as mãos em rendição.

— Então tá bem. Eu finjo que acredito. Agora vamos finalmente almoçar?

Emma balançou a cabeça, aceitando.

"Ele só foi simpático", tentou se convencer.

Ok... ela o achou bonito, mas não queria se envolver com ninguém. Não pretendia ficar em Manchester por muito tempo, então era melhor não arriscar. Além do mais, cedo ou tarde, Kojiro ouviria falar sobre ela.

Foi um dia divertido que Emma conseguiu passar com o irmão. As vezes ela ficava olhando hipnotizada para Ryan enquanto ele falava. Ele estava tão mudado. Seus traços de menino estavam quase inexistentes. Emma conseguia ver uma leve barba que já nascia e era aparada cuidadosamente. Estava parecendo bastante com o pai deles.

Ryan falava de jogos de videogame, dos amigos do skate e até Emma conseguiu captar um leve interesse em uma garota alemã que ele havia conhecido em um desse jogos online. Foram quatro anos de ausência e as vezes pensavam que eles nunca mais teriam aquela conexão de antes, mas parecia que nesses anos Ryan também pensava nela.

Emma não queria perguntar do que aconteceu na cidade naqueles quatro anos que esteve fora. No que ele passou com sua ausência e o que ele ficou sabendo sobre ela, ou até visto, depois da sua ida. Talvez tivesse medo de perguntar.

Também queria perguntar sobre a mãe. Como ela estava. Se aquelas conversas que eles tinham, que mais pareciam brigas, era sobre algum relacionamento com algum homem de Ryan não gostava. Mas Emma resolveu guardar esses perguntas para outro momento.

Já de noite, depois de saírem do cinema, os irmãos chegam em casa cansado. Ryan vai para o quarto dele e Emma se joga no sofá, exausta. Tiger pula nela para receber carinho.

A velha governanta avisa que Emma tem uma surpresa no seu quarto.

Ela estranha. Se levanta, com Tiger nos braços e vai até o quarto. Seus olhos nem acreditam quando vê a figura deitada em sua cama, com os longos cabelos vermelhos espalhados pelo travesseiro, com um livro aberto.

Por um instante, Emma ficou paralisada. Mas então a amiga ergueu os olhos do livro, lançou lhe um olhar e fechou o volume com um estalo suave.

— Eu estava começando a pensar que tinha vindo ao endereço errado. — disse

Anne, cruzando as pernas com a mesma elegância estudada de sempre.

Emma deixou Tiger descer dos seus braços e no instante seguinte já correu para abraçar a amiga.

— Eu não acredito que você está aqui! — Emma apertou Anne com força. — Você não faz ideia do quanto eu precisava de você aqui!

— Talvez eu faça, sim. Sua vadia ingrata. – Anne retribuiu o abraço. — Quando soube que a minha melhor amiga estava em Manchester, vim direto para cá.

Os olhos de Emma estavam marejados. Era tão bom tê-la perto.

As duas se afastaram um pouco, se analisando. Anne estava diferente, mas não tanto. Talvez um pouco mais séria, um pouco mais madura, com uma presença ainda mais firme do que Emma se lembrava. Mas o olhar afiado, a postura impecável e o jeito sério ainda estavam lá.

— Você não mudou nada — Emma afirmou, como se estivesse tirando uma dúvida.

Anne ergueu uma sobrancelha.

— Isso foi um elogio ou uma crítica?

— Um fato.

Anne soltou um sorriso curto e passou os dedos nos olhos endireitando a maquiagem que sabia que deveria ter borrado um pouco.

— E você? Como está sendo seu glorioso retorno à sociedade?

Emma revirou os olhos e se jogou na cama, abraçando Erin contra o peito.

— Uma merda.

Anne se sentou ao lado dela.

— Eu imaginei.

Emma queria dizer tantas coisas.

— Achei curioso você ter deixado essa foto do lado da cama. E ainda ter essa boneca.

Emma olhou para o que Anne havia pegado em cima do criado mudo.

— Achei essa foto dentro de uma agenda antiga.

Anne riu se lembrando da época.

— A minha fica na minha mesa de estudos e da Mei fica também em um porta retrato ao lado da cama, igual essa.

— Sinto falta de nós três juntas.

— Ela está vindo para cá, com o namorado. Foi ela que me avisou que você estaria aqui. Disse que tem uma surpresa.

— Você sabe o que?

Anne gesticulou com as mãos abertas na altura dos seios.

— Mentira! – Emma arregalou os olhos, entendendo o recado. – Mei não me disse nada?

— Ela também não me disse antes. Só quando estava conversando com ela com uns dias atras.

— Nós precisamos conversar. – Emma se separou um pouco para olhar para amiga de infância.

— Não precisamos.

— Precisamos sim. – Emma soltou um suspiro, passando as mãos pelo cabelo. – Tenho pensado tanto na vida que eu deixei aqui.

— Emma, porque você... – Ryan colocou a cabeça para dentro do quarto e paralisou quando viu Anne.

Anne, com sua pose naturalmente impecável, ajeitou-se sobre os travesseiros como se fosse a dona do lugar. Um leve sorriso curvou seus lábios enquanto ela cruzava as pernas e acenava para o rapaz.

O garoto ficou imóvel por um instante, como se tentasse processar a informação. Seus olhos se arregalaram um pouco antes de ele disfarçar, colocando as mãos dentro dos bolsos da calça.

Emma mordeu a parte interna da bochecha para conter o riso.

— Estamos falando alto, né?

Ryan apenas assentiu, sem conseguir tirar os olhos de Anne.

— Eu... Vou fechar a porta pra vocês ficarem à vontade.

E então ele se virou rapidamente, saindo antes que Emma ou Anne tivessem chance de dizer qualquer coisa.

Emma soltou um riso abafado e olhou para a amiga, que ainda mantinha aquele pequeno sorriso nos lábios.

— Ele ainda é apaixonado por você.

Anne olhou para a porta fechada por um instante, como se refletisse sobre a constatação da amiga.

— É. — comentou, ajeitando-se contra os travesseiros, como se estivesse apenas constatando um fato. — Ele está uma gracinha.

Emma riu.

— Mas não muda de assunto. Temos muito o que falar. – Anne olhou bem dentro dos olhos da amiga. Emma sabia que precisava ter aquela conversa.

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Kojiro havia passado o dia anterior inteiro organizando suas coisas na casa nova. A qualquer momento chegaria Wakashimazu e sua namorada. O quarto que eles ficariam naqueles dias já estava arrumado.

O apartamento era amplo e iluminado, um pouco maior que o da Itália. Era um edificil novo e moderno, localizado em um ótimo bairro. O clube queria garantir que sua adaptação fosse a melhor possível.

Além disso, duas vezes na semana, uma equipe de limpeza viria cuidar do apartamento, deixando-o impecável. O United também disponibilizou um carro de trabalho da patrocinadora para que ele pudesse se locomover e um motorista para os primeiros dias, caso precisasse.

Quando ele começou a preparar o almoço, o interfone tocou e liberou a entrada dos convidados.

— Até que enfim. Vocês demoraram.

Kojiro abriu a porta, deixando os amigos entrarem. Ken o cumprimentou com uma batida nas costas.

— Tive que busca-la em Londres. – apontando com o polegar a pessoa que estava atras dele. — Onde posso colocar as malas?

— Deixa no quarto de hóspedes. — Kojiro apontou para a primeira porta no corredor. — E você, Wakabayashi?

Mei revirou os olhos.

— Você nunca vai superar isso, né?

— Ele nunca vai esquecer, Mei. — Ken riu, pegando as malas e levando até o quarto.

— Porque você não veio direto para Manchester e se encontraram aqui.

— Não posso carregar peso.

May, com um pouco mais de cuidado, se sentava no sofá. Ken, ao voltar para a casa, ajudou a namorada a abaixar.

— Você tá bem? — Kojiro franziu a testa.

Mei suspirou e jogou os cabelos para trás, pôs se sentar.

— Eu estou operada.

Ken apontou para a altura do peito. Kojiro piscou, confuso.

— Eu coloquei silicone. Pode parar de tentar adivinhar.

— Ah, então foi isso.

— Sim e eles estão ótimos, obrigada por perguntar.

Ela assentiu, relaxando mais no sofá, enquanto Ken ria ao lado.

— Esse bairro é ótimo. — Mei olhou ao redor, analisando os detalhes do lugar. — Minha mãe cresceu aqui. Ainda tenho alguns parentes na cidade.

— Foi o clube que indicou. — Kojiro deu de ombros e voltou para a cozinha aberta, para terminar o almoço. – Vocês vão ficar quantos dias?

— Três dias aqui e depois a gente vai pra Portugal.

Mei sorriu e se ajeitou, apoiando-se no peito dele, enquanto Ken passava um braço por cima dos ombros dela.

— Vou ficar com o meu amor, antes das minhas aulas recomeçarem em setembro.

Kojiro olhou para aqueles os dois com uma expressão levemente incomodada.

— Vocês vão fazer isso na minha frente mesmo?

— Qual é, Kojiro? Nunca viu um casal apaixonado? — Mei beijou o namorado. – Acho que Maki está fazendo falta. Aliás... e a Maki? Ela vem pra Manchester também?

— Ainda não sei... Acho que ela deve aparecer no próximo mês. Talvez.

Mei espera que a resposta dele fosse tão indiferente. Não que se importasse. Ela nunca amiga de Maki.

Kojiro suspirou e mudou de assunto com a primeira coisa que veio na sua cabeça:

— Mas e Manchester? Você conhece a cidade?

Mei assentiu.

— Sim, morei aqui alguns anos.

— Sério?

— Ainda tenho família na cidade. Posso te mostrar alguns lugares.

— Ótimo, assim você aproveita pra conhecer a cidade — Ken acrescentou.

— Mas já aviso. – falou Mei. – Meu eu roteiro inclui lojas de roupa e cafés charmosos.

— Não sei se sou o público-alvo.

— Você sobrevive — Mei brincou.

— Isso vai ser bom. — Kojiro pensou por um instante. — Na verdade eu não conheço nada além do CT e do caminho para casa. Talvez não fosse má ideia.

— Ótimo. Mas antes preciso rever umas amigas antes de viajar com o Ken.

Kojiro apenas assentiu, finalizou a comida e convidou ele a se servirem.

— Ah, e tem um restaurante japonês aqui que é incrível para quando bater saudade da comida lá do Japão. Podemos ir lá.

— Restaurante japonês? E o que você conhece de comida japonesa? — Kojiro começou a perturbar a garota. – Você nem é japonesa de verdade, Wakabayashi.

— Vou te mostrar o que a metade do meu DNA japonês faz.

Ken conseguiu segurar a mão da namorada, antes que ele arrebentasse os pontos da cirurgia porque arremessou um hashi em Kojiro.

Continua...