A princesa de Krósvia
12 Papa-Paparazzi
Notas iniciais
Ai. Meu. Deus!
Eu queria sumir! Mas primeiro queria matar Regina. Juro mato essa mulher! Não fosse por ela, não estaríamos nessa enrascada internacional. Como eu sairia dessa agora?
Eu deveria ter ficado no castelo com as meninas e só saído para ir à praia particular. Mas não. Tinha que ter dado ouvidos a Regina. Por que não fincara o pé e dissera que não íamos? Não havia jeito de voltar no tempo, de apertar o botão de retrocesso dos aparelhos de DVD, que fazia tudo retornar a um ponto qualquer da história?
Desculpem o termo chulo, mas eu estava ferrada. Uma palavra mais bonita não amenizaria a situação.
Depois do episódio do peixe pescado por Karol na Caverna do Pirata, recolhemos os equipamentos e voltamos para a van, que estava estacionada na estradinha que terminava na praia. Regina entrou primeiro e se sentou lá no fundo. Levando em conta que eu queria ficar o mais longe possível dela, sentei-me no banco da frente, ao lado do motorista.
Não trocamos uma só palavra desde nosso deslize na caverna (melhor chamar de deslize o que não tinha explicação). Eu ficara sem graça, Regina ficara sem graça, portanto evitar uma a outro se mostrou a única saída. Pelo menos, ela não quis justificar nada.
No trajeto de volta ao castelo, as meninas queriam ouvir Regina, queriam comentar sobre o sucesso da pescaria e se certificar de que haveria próximas vezes. Tagarelaram durante todo o percurso e eu aproveitei para fechar os olhos e cochilar. Foi bom, pois assim a viagem pareceu mais rápida.
Regina e eu fomos deixados no castelo e as meninas partiram de volta para o Lar Irmã Celeste, não sem antes nos despedirmos com abraços, beijos e promessas de repetir a dose.
Paradas sozinhas na entrada do palácio, na maior sem-gracice do planeta, Regina e eu parecíamos duas completas estranhas. Nunca o silêncio entre nós havia pesado tanto. Preparei-me para dizer “tchau, até logo” e cheguei a abrir a boca, mas Regina se adiantou e disse:
— Emma, sobre aquilo que aconteceu na caverna...
Meu rosto começou a esquentar. Eu não estava preparada para esclarecimentos, por isso usei toda a minha força de vontade para interrompê-la:
— Regina, você não precisa me explicar nada, certo? Vamos fingir que não houve coisa alguma. E não houve mesmo, né?
— Como assim, não houve? — Regina segurou meu pulso sem a menor delicadeza e me fez encará-la. — Então, por que está tão vermelha?
— Eu não estou vermelha! — quase gritei, enrubescendo ainda mais. — Você só estava me ensinando a maneira certa de pescar!
Regina soltou um suspiro profundo e bagunçou os cabelos com a mão. Parecia nervosa.
— Jura que quer acreditar nisso? — questionou ela, com a voz mais controlada.
— É a única verdade para mim — respondi, de olho na ponta de meus tênis.
— Ok. Então, é a única para mim também.
Quase voltei atrás e gritei que era mentira, que eu só estava com medo de confessar a verdadeira verdade. Mas me contive. Lógico que Regina estava me testando. Ela não era apaixonada por mim. Apenas se deixara levar pelos hormônios.
Nem vi que direção Regina tomou depois. Só sei que eu corri direto para meu quarto e me enfiei na banheira quentinha, pedindo a Deus para deixar de gostar de Regina e acabar com meu martírio.
Até que relaxei bem, considerando as circunstâncias. Fiquei imersa até a água começar a esfriar e meu corpo parar de tremer feito vara verde, consequência do deslize na caverna. Vesti um pijama, sabendo que teria que tirá-lo na hora do jantar. Mas, já que eu pretendia passar umas horinhas pendurada à Internet, nada melhor do que uma roupa confortável.
Meu navegador abre direto na página do Google. Costumo checar meus e-mails antes de me aventurar pela web e dessa vez não fiz diferente. Em minha caixa de entrada havia muitas mensagens, algumas enviadas havia muitos dias. Por isso, fiquei mais de uma hora lendo e respondendo a cada uma delas. Não tinha interesse em perder contato com os amigos do Brasil, principalmente porque meu tempo na Krósvia tinha prazo de validade.
Assim que terminei a socialização, abri meu perfil no Facebook. Eu perdera o costume de atualizá-lo, logo, pensei que meu mural houvesse se tornado artigo de museu. Ledo engano. Nem sei quantas postagens novas estampavam minha página, todas publicadas por gente que eu nem conhecia. Pelo menos, não pessoalmente.
Decidi deletar meu perfil e me livrar daquele lixo eletrônico quanto antes. Exposição de menos não fazia mal.
Só atrasei minha decisão uns minutinhos para fuçar no perfil de Regina. Entretanto, descobri que ela era uma daquelas mulheres reservadas, que evitavam as redes sociais.
Mas não me dei por vencida. Como uma fã fanática, digitei o nome de Regina no espaço de busca do Google só para saber o que andavam falando sobre ela. Logo de cara, apareceram inúmeros links. Teria sido um fim de tarde interessante ficar lendo informações a respeito de Regina se, no primeiro item da lista de opções, não estivesse escrito:
“Princesa Emma Swan Markov e Regina Mills têm dia de pescaria com meninas do Lar Irmã Celeste”.
E, como se não bastasse, uma foto — está certo que meio desfocada — abria a notícia, dada em primeira mão pelo maior jornal do país.
Um paparazzo filho da mãe estivera o tempo todo um passo atrás de nós. Como tínhamos deixado esse detalhe passar?!
***
— Vocês só podem estar de brincadeira.
Com sua voz moderada, mas nem por isso menos assustadora, meu pai olhava de mim para Regina enquanto nos submetia a um interrogatório digno de um tribunal. Eu estava vivendo a hora mais tensa de minha vida. Desde o momento em que encontrara minha cara toda granulada — mas, ainda assim, minha — pipocando nos sites de notícia da Krósvia, do Brasil e sabe-se lá de onde mais, um bolo se formara no meu estômago e não dava sinais de que pretendia ir embora.
Fiquei grudada na cadeira, esperando pensar em outra coisa, tipo, sei lá, que havia seres humanos em Marte. Nem isso me surpreenderia tanto. E não consegui ser a primeira a comunicar a bomba para meu pai. Acho que a assessoria de imprensa do governo foi mais rápida que eu. Só sei que, de repente, meu quarto foi invadido por uma tropa — e eu de pijama de flanela —, encabeçada por David e com uma Regina para lá de desconcertada no meio do fogo cruzado. Bem feito para ela. Quem mandou me arrastar até aquela canoa furada?
— Quem explica primeiro?
Estremeci diante do tom incisivo de meu pai. Anotação mental: David é um sujeito tranquilo, mas é melhor não mexer com ele, não.
Não era o fato de eu ter sido fotografada na Caverna do Pirata curtindo uma tarde de pescaria com Regina e as meninas que estava deixando meu pai possesso. Ele até sabia que a gente tinha saído porque eu tivera que pedir autorização para tia Ariel. E ela só concordara mediante o ok do irmão. Quem dera fosse só isso.
O problema todo se resumia a um pormenor, um detalhezinho de nada: Regina e eu naquela posição, tão grudadas que parecíamos uma só. Dá para acreditar?
Por que, Senhor? Por quê? O que eu havia feito para merecer essa humilhação pública? Não podiam publicar apenas as imagens inocentes, valorizando meu gesto altruísta? Não dava para destacar meu engajamento numa causa nobre?
— David, o que você acha que estávamos fazendo? — perguntou Regina, ganhando tempo.
— Você não quer que eu descreva, não é? — Meu pai deu um suspiro tão profundo que pensei que fosse engasgar.
— Pelo amor de Deus, eu só estava ensinando a Emma pescar. O fotógrafo aproveitou a posição para vender mentiras por aí.
Boa, Regina! Continue afirmando isso. Quem sabe essa mentira deslavada vire verdade...
— É, pai — fiz coro. — Foi uma foto infeliz, uma ilusão de ótica que esses paparazzi sabem projetar como ninguém. O que você acha que poderia estar acontecendo, afinal?
David se sentou na poltrona perto da lareira, mas não tirou os olhos de mim e de Regina. Deu a entender que queria ler em nossa cara se havia ou não intenções não reveladas.
— Regina, você tem ideia da repercussão de tudo isso? Ilusão ou não, é o assunto da vez. A imprensa vai especular.
Aparentemente menos tensa, Regina andou um pouco pelo quarto, mas sem sair do campo de visão de meu pai.
— Eu sei. Mas quero que fique claro que não planejei isso, David. Estou disposto a contradizer a versão dos jornalistas publicamente.
Estremeci. Ouvir aquele espetáculo de voz afirmar que não planejara me assediar — para não dizer apalpar — doeu, viu?
David negou com a cabeça a proposta de Regina.
— Nada disso. Falar só vai ouriçar ainda mais esse bando de urubus. Vamos ignorar.
— Não sei se é a melhor atitude, David — um cara interveio. — Talvez devamos divulgar nossa versão.
— Derek, o assessor de imprensa é você, mas tenho que discordar. Quero todos em silêncio — exigiu meu pai. — Já passei por situações piores e não me pronunciar fez a poeira baixar mais rápido.
Com um gesto e poucas palavras, David dispensou os invasores de meu quarto, mas pediu que Regina ficasse. Preparei-me para uma bronca pesada.
— Pai, eu não vou poder mais me encontrar com as meninas do Lar? — indaguei, sem coragem de olhá-lo nos olhos.
— Eu não disse isso, disse? Quero conversar em particular com vocês porque vou entender caso queiram modificar a versão que contaram na presença dos outros.
Fiquei imóvel, uma verdadeira estátua de pedra, temendo a resposta de Regina, mas desejando que ela dissesse que, na verdade, era louca por mim e não aguentava mais esconder seus sentimentos, mesmo que essa declaração me custasse a paz e o posto de queridinha do papai.
Infelizmente, querer não é poder.
— David, não existe outra versão, tá? Contamos o que aconteceu de verdade — Regina garantiu, tão segura e tranquila que me deixou irritada.
Porque eu não estava louca. Não imaginei as mãos dela acariciando meus braços e segurando minha cintura, muito menos sonhei com o nariz de Regina traçando um caminho sedutor através de meus cabelos. Mentirosa de uma figa!
— Ótimo. Então, não há com que me preocupar. — O tom alegre e despreocupado voltou à voz do meu pai. — Mas você vai ter um trabalhão para convencer sua namorada da sua inocência, minha filha.
Tomara que a Nome de Cachorro fique transtornada e decida terminar o namoro e depois viaje para bem longe e fique um bom tempo fora da Krósvia, pensei. Se possível, lá na Sibéria.
— Nem me diga — Regina murmurou.
— E você, Emma, só por precaução, tente permanecer no castelo. Não quero ver seu nome sendo sequer mencionado pela imprensa marrom.
— Eu não gosto de ficar trancada — reclamei. — Preciso ter o controle de meus passos outra vez, pai. Levo uma vida normal em São Paulo e não pretendo me esconder para sempre. Não sou uma celebridade de Hollywood.
— Sei disso, mas é minha filha e quero você segura. Ainda estou devendo aos jornalistas uma entrevista coletiva com você. Talvez, depois dela, eles fiquem mais sossegados.
Quase chorei de frustração.
David se aproximou e deu um beliscão em minha bochecha, como se eu fosse uma menininha pirracenta.
— Não fique triste, Em. Tudo passa.
— Não sei. Minha vida está tão devassada que tive que excluir meu perfil no Facebook.
Regina soltou uma risadinha e nem tentou esconder. Pelo contrário, enfiou o dedo inteiro na ferida.
— Verdade, sua página estava parecendo um muro pichado. É sério, nunca vi tanta mer... digo, tanta mensagem sem noção no mesmo lugar. Eu teria feito o mesmo se fosse você.
Alguém mais percebeu o que eu percebi? Sem querer, Regina tinha acabado de confessar que bisbilhotara a minha página. Levando em consideração que ela não é tão curiosa como eu, acreditei então que deveria haver um porquê para Regina ter me bisbilhotado. Teria ficado animada se não estivesse possessa com seu desdém.
David conservou o sorriso no rosto e retomou o controle da conversa:
— Vou marcar logo a coletiva de imprensa e tentar conduzi-la de um jeito que desvie o foco dos jornalistas de cima desse último episódio. Enquanto isso, é melhor cada uma ficar no seu canto. Não queremos mais esse tipo de publicidade.
Entendi o recado nas entrelinhas. Meu pai, sutilmente, exigiu que Regina e eu parássemos de nos encontrar. Só que ele se esqueceu de um detalhe: não fosse com sua permissão — e insistência —, nós nunca teríamos nos aproximado e talvez eu não tivesse me apaixonado por sua enteada.
Mas, antes de sair e me deixar sozinha em meu quarto, David concluiu sua fala de um modo inesperado:
— Eu me refiro a encontros públicos — ele acrescentou, apontando o indicador alternadamente para mim e para Regina. — Aqui dentro, vocês duas estão liberadas.
Então ele nos largou no quarto, a sós.
Confesso que não compreendi a frase final de meu pai. Afinal, estávamos liberadas para quê? Regina demonstrou não ter entendido também e pousou seus olhos castanhos penetrantes nos meus, esverdeados e sem graça. Houve um momento fugaz de pura química e eletricidade. Entretanto, cedo demais o instante se desfez, levando Regina consigo, além de meu coração, que já não me pertencia havia um bom tempo.
***
Por alguns dias, a imprensa ficou ruminando meu suposto affair com Regina. Os jornalistas, principalmente os especializados em fofoca — mas não apenas estes —, perderam horas e horas com suposições e conjecturas, afirmando categoricamente que tudo indicava que Regina e eu éramos um casal.
Chegaram a publicar reportagens completas com fontes autenticando a versão sensacionalista de um relacionamento fictício. E, pelo jeito a notícia era quente, uma vez que a mídia custou a largar o osso, inclusive a brasileira. Fui procurada até pela produção do Fantástico, o único programa no qual meu pai permitiu minha participação.
Então, as portas do Palácio Sorvinski foram abertas para receber a reportagem do Fantástico. Foi gostoso contar como minha vida havia virado do avesso da noite para o dia e a repórter se divertiu quando contei que tanto Ana Maria Braga quanto o Facebook foram os maiores responsáveis pela reviravolta. Ela quis que eu explicasse melhor, então eu disse:
— Minha mãe estava no Mais Você preparando uma das receitas maravilhosas dela e, sem querer, meu pai assistiu ao programa e soube que ela tinha uma filha. Ele ligou os pontos e recorreu ao Facebook para chegar a mim.
A pergunta que gerara o verdadeiro interesse do programa finalmente acabou sendo feita e não me importei quando o assunto foi abordado, pois não suportava mais ouvir todos os boatos e invenções de boca fechada.
— E então, Emma, o que há entre você e a Regina Mills? Você sabe que a comunidade LGBT é a que mais te adora agora, por você ser uma princesa aparentemente lésbica.
Antes de responder, acabei suspirando inconscientemente.
— Absolutamente nada, e eu não sou lésbica — afirmei com toda convicção. Porque era a verdade, gostasse eu ou não.
Desde o fatídico — mas excitante — dia na Caverna do Pirata, não tivera mais nenhuma notícia de Regina. Ou seja, ela ignorara a ressalva de David sobre estarmos livres para passar nosso tempo juntas desde que dentro dos limites do castelo. Portanto, o que mais eu poderia dizer? A única resposta possível era que não tínhamos um relacionamento. Ela não queria nada comigo e uma pessoa sozinha não formava um casal. Simples assim.
Soube que Nome de Cachorro havia armado a maior tempestade quando tivera acesso às fotos do paparazzo — que, aliás, estava lucrando horrores às minhas custas. Irina comentou que fora um barraco daqueles, com direito a quebra-quebra no apartamento dela. Como ela soubera disso? Não me perguntem, mas tenho um palpite: David Markov.
Lacey ameaçara terminar o namoro, mas Regina acabara dominando a situação. Conclusão: gostava mesmo da garota, pois a deixa não poderia ter sido melhor.
Depois dessa, caí num processo meio depressivo. Não havia solução para meu amor platônico. No castelo, ninguém entendia meu abatimento, embora quase todo mundo apostasse que a causa fosse a privação de liberdade à qual fui submetida.
As meninas do Lar Irmã Celeste mantiveram suas visitas e só não me deixei embalar totalmente pela melancolia por causa delas, que se tornaram pessoas muito especiais em minha vida. Elas iam até o castelo pela leitura, mas sempre escapávamos para um passeio pelos arredores, às vezes acompanhadas por Pongo, de vez em quando por Irina e até por Killian, tia Ariel e suas crianças.
Esse meu novo lado altruísta também foi explorado na entrevista ao Fantástico. Consequentemente, passei a ser comparada a Lady Di, a princesa do povo, dos pobres. Para dizer a verdade, detestei a comparação. Não por Diana, é claro. Só achei uma baita forçada de barra, uma vontade louca de me rotular de uma forma ou de outra.
Mais uma injeção de desânimo.
E o tempo, senhor soberano de nossos destinos, foi passando, empurrando-me para a segunda metade de minha estadia na Krósvia, fato que me consolava, mas também alimentava minha angústia. A situação passou a ser a seguinte: num dia, eu desejava voltar para casa; no outro, chorava só de pensar nisso. Êta hormônios desajustados!
No final de novembro, consegui pagar a promessa de preparar e oferecer uma feijoada a tia Ariel e sua família. O clima contribuiu, pois estava frio, ou melhor, gelado. Escrevi uma listinha de ingredientes e pedi a Daniel que fosse ao mercado de importados. Lá, ele achou tudo, inclusive farinha de mandioca torrada. Eu estava disposta a caprichar, a fazer com que meus convidados krosvianos jamais se esquecessem do famoso prato brasileiro.
Expulsei todo mundo da cozinha e implorei a Cora que não aparecesse para bisbilhotar. E fiz mais: convoquei-a para o almoço, não como cozinheira, mas como convidada de honra. Olha, ela chiou, viu? Debulhou um monte de desculpas, mas eu não quis nem saber. O dia era meu, assim como o fogão.
Por estar concentrada no preparo da feijoada, não vi o momento exato em que tia Ariel entrou no palácio, mas logo soube da chegada, pois consegui escutar os gritinhos de meus primos. Ninguém foi me cumprimentar, já que deixara ordens expressas para nenhum ser humano aparecer na cozinha.
Distraí-me completamente temperando e cortando as carnes, fritando as costelas, os paios, os pedaços de lombos, as fatias de bacon. Cozinhei o feijão preto, descasquei as cebolas e os alhos e piquei a couve com uma precisão cirúrgica. O ambiente foi sendo impregnado pelos odores da culinária brasileira. Se o sabor da feijoada estivesse tão bom quanto o cheiro, calorias subiriam naquele dia.
Em outra panela, refoguei o arroz do jeito que aprendera com minha mãe. Primeiro, coloquei um filete de óleo de canola e fritei os grãos. Só depois temperei com uma colher de sal com alho, mexendo bem para espalhar o tempero. O segredo para deixá-lo soltinho era colocar água previamente fervida sobre o arroz frito e cozinhá-lo em fogo baixo.
Descasquei e fatiei laranjas frescas, refoguei a couve e, antes de servir meus convidados, separei um vidro de pimenta malagueta, um tesouro que Daniel trouxera para mim do mercado. Pronto: a hora da verdade havia chegado.
Uma empregada surgiu para me ajudar a levar a comida para a mesa, que já estava divinamente posta. Por um instante, vacilei. Meu cheiro não estava adequado para a ocasião, muito menos minha aparência. Uma manhã inteira dando uma de Tia Anastácia acabava com o charme de qualquer um. Mas tomar um banho era um luxo que eu não poderia me dar naquele momento. Estavam todos me esperando.
Eu só não esperava que entre todos Regina estivesse no meio. Semanas sem vê-la não foram suficientes para que eu a esquecesse, nem para que minha paixão diminuísse. Pelo contrário. Quando nossos olhos se encontraram — ela, sentada em frente à grande mesa da sala de jantar, e eu, carregando um caldeirão de feijoada —, senti meus músculos se contraírem dentro do peito e uma vontade louca de pular no pescoço dela e beijar aquela boca sensual quase me dominou.
Ainda bem que Nome de Cachorro não fazia parte do grupo. Caso contrário, acho que seria capaz de entornar o caldo de feijão na cabeça dela.
Só desviei meu olhar de Regina porque palmas entusiasmadas chamaram minha atenção. Com certeza elas não tinham nada a ver com minha beleza — ou com a falta dela naquele momento. Aposto que a comoção foi motivada pelas barrigas roncando.
Cora me olhou com timidez, pois acredito que nunca na vida já estivera sentada naquela cadeira, desfrutando da posição de servida e não de servidora. Irina era só sorrisos e aprovação. Eric, o marido de tia Ariel, parecia um cachorro raivoso, pois quase pude ver uma baba escorrendo nos cantos de sua boca. Eca!
— Servidos? — perguntei, de repente muito inibida e insegura.
Meu pai, com cara de esfomeado, suspirou:
— Já era tempo!
E como se fôssemos uma família comum, daquelas que a maioria das pessoas tem, atacamos a feijoada, falando e gesticulando, atropelando uns aos outros, fazendo brincadeiras, enfim, deixando nos levar por uma sensação de bem-estar até então inédita para mim desde que chegara à Krósvia. Nada de criados fazendo as honras de servir um a um, nada de formalidades desnecessárias. Éramos apenas nós, uma família muito barulhenta e animada, empolgadíssima com o prato de domingo.
— Menina, suas mãos são mágicas. — O elogio foi feito por Eric. — Esta feijoada está divina!
Agradeci polidamente.
— É verdade, querida. Até as crianças comeram — completou tia Ariel, admirada com o apetite dos filhos, normalmente chatos para comer.
— Você vai ter que aprender a fazer isso, Cora — avisou meu pai, já no terceiro prato. Notei que ele havia não só aprovado a farinha de mandioca, mas consumido boa parte dela.
— É. Quando a Emma for embora... — Irina começou a falar, mas deixou a frase morrer. De repente, ninguém sorria mais.
— Emma, você vai embora? — indagou minha priminha Laxie, com uma carinha que só as crianças sabem fazer quando se decepcionam. Senti meu coração partir.
Todos me encararam, na expectativa de minha resposta. E eu preferia ter que comer milho cru a discutir aquele assunto à mesa do almoço.
— Daqui a uns meses, lindinha. Ainda vai demorar um pouquinho. — Quis parecer despreocupada e sorri para autenticar a fachada tranquila.
— Por que você não pode ficar para sempre? — Foi a vez de Neal questionar.
Lá se foi a alegria do almoço. Por que Irina tivera que abrir a boca?
— É complicado, Neal — murmurei, apoiando o garfo no prato. — Gostaria de poder ficar mais, mas deixei minha mãe para trás, meus avós, minha faculdade...
— E quando você se for, vai deixar o tio David, minha mãe, a gente — ela apontou para si e para as irmãs — o Killian, a Regina. Não dá no mesmo?
Aquele, sim, era um argumento e tanto. Menino danado, me deixou numa sinuca de bico! Ouvi meu pai fazer um barulho com a boca, como se dissesse: “explica essa agora, Emma”. Relanceei o olhar para Regina, cuja expressão me desafiava a prosseguir.
— Sim, vai ser muito triste partir — admiti. — Quando eu voltar para o Brasil, vou sentir muita saudade de todos vocês. Muita, muita, muita saudade.
Como já era costume entre nós, conversamos em inglês. Mas a palavra saudade eu fiz questão de pronunciar em minha língua-mãe, para expressar com exatidão o que sentiria ao deixá-los para trás.
— Saudade? — tia Ariel repetiu, com uma pronúncia engraçada. — Como assim?
— Sempre ouvi dizer que saudade é uma palavra exclusiva da língua portuguesa. Quando dizemos que estamos com saudade, significa que sentimos uma falta tão imensa de alguém que a dor queima no peito. É como se a alma ficasse meio perdida sem a proximidade das pessoas de quem temos saudade.
Todos me escutaram com atenção, até as crianças. Acredito que estavam processando a explicação que dei e procuravam entender a dimensão do tal sentimento. Regina me olhava de um jeito novo. Parecia melancolia misturada com alguma outra coisa, algo intenso e meio irracional. Mas não consegui identificar o que era.
— Saudade é ruim — Neal concluiu.
— Dependendo do ponto de vista, sim. Ela só é boa quando sabemos que podemos matá-la, ou seja, quando reencontramos quem não está por perto.
— Então, por que você não fica na Krósvia, Emma? E vai ao Brasil só para... matar a saudade? — sugeriu Lexie, com toda a sua inocência infantil.
— Bom, acho que daqui para a frente vou viver sentindo e matando saudade, de uma forma ou de outra.
Tia Ariel assentiu. Seus olhos brilhavam, acho que de emoção.
— Crianças, não deixem a Emma triste. Claro que ela vai estar sempre conosco, sempre que puder vir, não é, querida?
Balancei a cabeça, concordando. Mas não queria falar mais. Se fizesse isso, correria o risco de engasgar, levando em consideração quanto meu peito doía. Falar de saudade era tão ruim quanto sentir. Mas pior ainda era sentir saudade de alguém que provavelmente não retribuiria esse sentimento. Portanto, quando a falta de Regina apertasse de meu lado do Atlântico, seria a saudade mais solitária do planeta.
***
Tivemos aquele momento deprê durante o almoço, mas ele passou. Com um jogo de cintura digno de uma contorcionista, tia Ariel driblou a saia justa. O assunto feijoada voltou ao topo das conversas e nós nos deixamos levar pela letargia provocada pela barriga cheia.
Acabamos todos esparramados nas espreguiçadeiras do terraço, com clima frio e tudo, enquanto saboreávamos um cafezinho, indispensável depois de uma comilança daquelas.
O final da tarde chegava lentamente, colorindo o céu de rosa, um indicador incontestável da noite gelada que se aproximava. Já com o repertório de assuntos meio esgotado, passamos a falar de música. Ao afirmar que era fã de Bon Jovi, Regina abriu um sorriso cheio de intenções obscuras e soltou essa:
— Já vi que não sabe que os caras vão dar um show aqui em Perla na próxima sexta-feira. — Ela balançou a cabeça. — Está desinformada, hein?
— Como é? O Bon Jovi, aquele Bon Jovi lindo, maravilhoso, espetáculo, vai fazer um show aqui?
Regina franziu as sobrancelhas, com cara de nojo.
— Lindo, maravilhoso, espetáculo, tudo isso é por sua conta — desdenhou ela. — Mas o show vai acontecer mesmo. Estão montando um palco na praia, em frente ao meu prédio.
Abri a boca e me esqueci de fechar. Nunca tinha ido a um show de Bon Jovi. Na última apresentação da banda no Brasil, minha mãe não me deixara ir. E agora lá estavam eles, ou melhor, ele, Jon Bon Jovi, em Perla.
Encarei meu pai na esperança vã de que ele permitisse minha ida ao show. Mas nem cheguei a pronunciar um pedido. David foi mais esperto:
— Nem me peça para ir. Imagine você, em público? Não faz o menor sentido.
— Paaaiii... — Fiz beicinho, não para comover, mas porque estava mesmo disposta a implorar. — Por favor. Eu me disfarço, coloco um boné, pinto o cabelo de roxo, visto uma burca. Mas não me impeça de ir. Eu amo o Bon Jovi!
Meu apelo só serviu para provocar uma gargalhada grupal. Acho que mencionar a burca foi meio demais.
— Não vamos negociar isso, Emma. Fim de papo.
Droga, droga, droga, droga! Quero a minha vida de volta!
Saí da espreguiçadeira num pulo, preparada para fazer uma retirada teatral, puxando a capa num gesto dramático (se eu estivesse de capa, digo).
— David, é claro que a Emma não pode assistir ao show no meio do público. — Nem acredito que Regina teve a coragem de concordar com meu pai na minha cara. Que cretina! — Mas da minha varanda tudo bem, concorda?
Da varanda dela? Como assim?
— Da sua varanda...
— É. Vou ter uma visão privilegiada. O palco está na frente do meu prédio. Pensei em reunir uns amigos lá em casa e assistir ao show da varanda ou da cobertura. E, se você deixar, levo a Emma comigo.
Aquela mulher existia, gente? Ela era de verdade? Porque não parecia. Agora, mais essa. Ir para a casa dela. Ficar com ela na casa... dela. Ouvir Bon Jovi gritar Always da casa dela. Céus, vocês estão me enviando um sinal? Era o que parecia.
Depois, lembrei que Regina dissera algo sobre reunir os amigos. Isto é, não estaríamos sozinhas. Melhor admitir que a oferta era por caridade. Mesmo assim, eu não recusaria. Ah, não! Em que outra vida eu teria a oportunidade de ver Jon Bon Jovi de perto — ou quase — e escutar suas músicas ao vivo? Talvez nunca mais.
Fiz cara de desesperada para David. Tive medo de falar e comprometer o efeito da expressão desolada.
— Gina, que amigos vão estar lá? — meu pai quis saber.
Apertei a mão de tia Ariel com força. Uma súplica velada.
— Alguns, só os mais chegados e confiáveis, David. Ninguém vai tirar pedaço da Emma. Prometo.
Bom, se ela quisesse tirar não só um, mas vários pedaços, eu não me oporia.
— E a Lacey? Depois daquele episódio...
Meu pai tinha que se lembrar de Nome de Cachorro?
— Ela já está mais calma — assegurou Regina. — Pode ficar sossegado, David, eu tomo conta dela, ok? Ninguém vai se aproximar da nossa Emma, nem sequer encostar um dedo nela.
Dois insensíveis mesmo. Nenhum dos dois se preocupou em pedir minha opinião! E aquela coisa de nossa Emma? De onde Regina tirou essa? Se ela quisesse mesmo ter algum direito sobre minha pessoa, era só pedir. Não deveria ficar fazendo insinuações levianas. Afinal, eu não tinha sangue de barata.
Entretanto, David disse sim. Não sem antes desfiar um terço de recomendações na cabeça de Regina e listar uma infinidade de poréns relacionados a meu bem-estar. Eu era muito sortuda mesmo. Vivera minha vida inteira fazendo quase tudo que queria e agora, com quase 21 anos, eu dependia do consentimento de meu pai para tudo.
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