A princesa de Krósvia

8 Um baile real. Parte 1


Notas iniciais
Falem se eu não sou a pessoa mais legal do mundo? Vim aqui pela segunda vez HOJE fazer vocês felizes... Na verdade, vim deixar vocês com um pouco de raiva, bora? Música: http://www.vagalume.com.br/leona-lewis/i-see-you.html

Ouvi inúmeras reclamações, mas senti que, de certa forma, eles estavam satisfeitos. A notícia era quente e eu fiquei parada diante deles por tempo suficiente para que fizessem fotos e mais fotos.

— Só mais uma pergunta! — ouvi alguém gritar. — Emma, você e a Regina Mills são irmãs ou namoradas?

***

A água de minha banheira tinha a temperatura ideal, tanto para relaxar meu corpo quanto para aliviar as dores musculares. Do ombro aos dedos do braço direito, tudo latejava de tanto acenar para as pessoas na rua. Meus músculos faciais ficariam uns três dias sem voltar para o lugar, pois eu grudara no rosto um sorriso que não me abandonara ao longo de todo o trajeto pelas ruas de Perla.

Aconteceu também de, a certa altura, eu ficar com enjoo. Sou um pouco intolerante a passeios em veículos automotores que durem mais de meia hora e não atinei que deveria tomar um Dramin antes de me enfiar no conversível que nos levou para cada canto daquela cidade. Mas consegui me segurar e não vomitei, o que teria sido o fundo do poço para mim.

Mas nem tudo foi um martírio. Confesso que quase cheguei às lágrimas mais de uma vez — bem mais, aliás — em diversos momentos:

1. Na sacada do palácio: tive medo de levar uma pedrada ou um tiro de escopeta assim que encarei a população krosviana, a imprensa e os turistas do alto da sacada do Palácio de Perla. Depois do episódio da coletiva com os jornalistas, quando fiquei na maior saia-justa devido à pergunta ordinária que um repórter fez (falo mais sobre isso depois), achei que todo o restante seria um desastre. Portanto, qual não foi minha surpresa ao enxergar a multidão acenando para mim, aos gritos, como se eu fosse uma celebridade das mais amadas! Tinha gente abanando lencinhos e a maioria empunhava com o maior orgulho a bandeira da Krósvia, daquelas feitas de papel e palito de madeira. Não fui apedrejada. Pelo contrário. Recebi sorrisos, lágrimas, beijos enviados ao vento, tudo isso entremeado por um coro arrepiante: “E-mma! E-mma! E-mma!”. Foi lindo e mágico. Mais tarde, vi a cena com olhos de espectadora — baixei um vídeo no Youtube — e a classifiquei como surreal.

2. No centro de Perla: quando o príncipe William da Inglaterra se casou com a plebeia Kate Middleton, eu nem quis ligar a TV para não ser mais uma brasileira a dar ibope a uma história que não era nossa, mas que estava sendo tratada como se fosse. Achei ridícula toda a atenção que a imprensa mundial dispensou ao fato e, deliberadamente, tive um ato de rebeldia. Durante a transmissão, passei o dia estudando e trabalhando, como se nada estivesse acontecendo. Para mim, não estava mesmo. Mas não pude ignorar os flashes que passaram mais tarde no telejornal noturno, nem as fotos que saíram em todos os periódicos do dia seguinte. E pensei que o tchauzinho armado de Kate, enquanto desfilava de carro pelas ruas de Londres, fora, no mínimo, artificial. Mas, coitada, como fui preconceituosa! É difícil ser natural numa situação dessas. Embora as câmeras tendam a focalizar o objeto famoso — no caso, Kate —, por trás delas, há milhares de pessoas com um único objetivo: demonstrar sua aprovação e respeito por aquela que está no veículo. Foi o que eu vi de meu ponto de vista e isso me emocionou de verdade. Não sei se meu tchau saiu artificial ou não, mas garanto que meus sentimentos foram 100% sinceros.

3. No estacionamento do palácio: após duas horas de tchaus e sorrisos, nosso conversível finalmente estacionou nos fundos do palácio. Foi um alívio. Nada se compara ao que senti assim que desci do carro e pisei no chão firme: leveza, sensação de dever cumprido, êxtase. David, Killian, Regina e eu fomos recebidos por uma salva de palmas dos funcionários do Palácio de Perla, que entregaram um buquê de rosas para mim. Tive que chorar — de novo.

4. Na sala de estar do Palácio Sorvinski: fui recebida com honras de... bom, de uma princesa ao retornar para casa. Não só por minha querida família brasileira e minha melhor amiga, mas também por tia Ariel e seus filhos e Henry, o lindo e encantador filho do Killian, além dos empregados do castelo. Minha mãe e minha avó choravam copiosamente, mas quem me surpreendeu mesmo foi Cora. Com lágrimas nos olhos, ela me abraçou e disse que me considerava uma filha e que gostaria de me dar um presente muito caro e maravilhoso, mas tudo o que tinha era uma cesta de pães de queijo e mousse de chocolate meio amargo. Derreti.

***

Saí do banho e me enrolei num roupão. O baile para convidados especiais estava marcado para as 9h da noite. Então, eu tinha um tempo só para mim. Se bem que Ruby não tardaria a aparecer, pois só tinha ido tomar um banho também. Minha avó e minha mãe retornaram ao hotel, mas estariam de volta na hora do baile. Adivinha quem ficou de trazê-las? Isso mesmo: Regina.

Conectei-me à Internet e fui à caça de notícias sobre minha cerimônia de apresentação. Nem me dei ao trabalho de procurar os sites de notícias da Krósvia. Entrei direto nos brasileiros, rezando para as coisas estarem na maior calma e que a notícia de que uma brasileira era princesa na Europa fosse só uma brisa.

Ô ilusão! Minha foto estava na primeira página de todos os sites, em vários ângulos e cenários diferentes. As manchetes:

“Rei da Krósvia apresenta filha brasileira” — no terra.com.br

“Princesa brasileira encanta população de país europeu” — no globo.com “

Universitária paulista é filha do rei David Marcov, da Krósvia” — no em.com.br

“Princesa brasileira esbanja simpatia e bom gosto na Krósvia” — na caras.uol.com.br

Bom gosto? Eu? Tive que rir. Mas fiquei realmente muito chocada com a quantidade de matérias sobre mim. Eram tantas que não consegui ler todas. Algumas publicaram até uma minibiografia, revelando informações que passavam longe da realidade, tipo, que eu era muito popular na faculdade e que meu pai me achara com a ajuda de um detetive. Bom, só se o Facebook tivesse mudado de nome.

Fiquei apreensiva ao ver minha mãe na boca da mídia também. Por um lado, era até uma divulgação positiva para o buffet. Em compensação, alguns veículos de comunicação pegaram pesado, referindo-se a ela como se fosse a bruxa má na história da princesa. Sacanagem. David teria que reparar isso.

— Amiga — Ruby disse, entrando em meu quarto —, já recebi um monte de mensagens e ligações do pessoal de SP. Está todo mundo passado!

Segui o exemplo dela e chequei meu celular. Estava entupido de mensagens e ligações perdidas.

— Estou ferrada, não estou? — resmunguei, deixando o computador de lado.

— Emma, só você para achar isso ruim — ela disse, desaprovando. — Tudo é tão incrível!

— Não se as pessoas ficam inventando coisas a seu respeito e deturpando a história toda! — Virei o computador para que Ruby pudesse tomar conhecimento do que eu havia acabado de ler.

— Sinistro, né? — ela admitiu, depois de um tempo. — Mas sem desespero. Isso tudo é de menos. Achei a cerimônia maravilhosa e você estava linda, serena, simpática, apesar de meio tímida. O povo te adorou e a imprensa foi à loucura. Ou seja, está tudo perfeito. Nada de pânico. Querendo ou não, Emma, você vai ter que se acostumar com a mídia, aqui ou no Brasil. É melhor lidar com essa sua nova realidade numa boa.

— Eu sei. Não estou reclamando. O David é um pai maravilhoso e tem feito por mim tudo o que está ao alcance dele. Acho que, com o tempo, acabo me acostumando — concordei.

— E aquela pergunta no final da coletiva? — Ruby levantou uma sobrancelha, desviando completamente o assunto. — Você já pensou na resposta?

— Ridículo aquele cara. Onde já se viu soltar uma dessas e sair impunemente? Ele merecia uns bons tapas na cara.

— Não concordo. Acho que ele merecia um troféu pela coragem de fazer aquela pergunta. Emma, você tinha que ver sua cara. E a da Regina também.

— Fala sério, Ruby! De que lado você está, afinal de contas? Não quero ficar falando da Regina, não quero imaginar coisas a respeito dela e nem quero que você faça isso. Não existe nada entre nós, nem agora, nem nunca. Eu vou voltar para o Brasil e ela vai ficar aqui. Regina tem a Lacey. Sou a filha perdida do rei e a enteada dele não lida bem com isso. Quer mais algum motivo para parar de falar nela ou já basta? — Terminei meu discurso quase gritando.

— Já acabou? — indagou Ruby, nem um pouquinho abalada, verificando concentradíssima as cutículas das mãos. — Pois para mim isso tudo é notícia velha. Você só não quer admitir, mas está caidinha pela Regina. Pode tentar enganar todo mundo, até você mesma, mas não a mim, queridinha, que te conheço desde sempre.

— Ô Ruby...

— Não, calma aí que é minha vez de falar — cortou ela, ficando de pé na minha frente, com as mãos na cintura. — Essa Lacey deve ser uma... uma... idiota, por falta de adjetivo melhor. Ou pior, tanto faz. E aposto que a Regina nem olha pra essa tal namorada do jeito que olha pra você. Emma, larga mão de ser lerda, ela só falta te comer com aqueles olhos. Agora reconheça para si mesma que está louca pela Regina. Tenta, Emma. Você vai se sentir mais leve depois.

— Ha, ha, ha! Muito engraçado — desdenhei. Começava a sentir frio só com o roupão. — Ruby, presta atenção. Se eu estivesse... Preste atenção que eu não estou admitindo nada, só levantando uma hipótese, tá? Caso eu estivesse apaixonada pelo Regina, se isso fosse verdade, eu seria a garota mais triste do mundo, porque, além de ela ter namorada, a Lacey é, digamos, um mulherão, e eu não sou páreo para ela. Além disso, elas estão juntos há bastante tempo e não vejo problemas no paraíso das duas. Aliás, não vejo nada, porque eu pouco encontro com ela. Então, não queira me juntar com a Regina, porque vai dar merda.

— Emma, se vocês ficarem 10 segundos sozinhas, vai dar merda. De um jeito ou de outro. Com namorada ou sem namorada. Até sua mãe percebeu algo estranho.

— Do que você está falando?. — Perguntei com o coração na mão.

— Provavelmente ela e seu pai vão falar com você sobre isso, já que depois da cerimônia vi eles cochichando algo a respeito.

— Ai Deus, eu estou ferrada.

E estava mesmo.

***

O que um vestido de alta costura não faz por uma mulher! De tanto comprar minhas roupas do dia a dia na C&A e na Renner, para mim elas eram o que havia de melhor. Como eu estava enganada! Uma peça de grife modifica o corpo — para melhor, óbvio.

Kristof voltou e caprichou no penteado. Ele criou uma coisa meio doida, jogada de lado, para parecer despenteado, mas eu sei que deu o maior trabalhão para fazer. Ficou sofisticado.

Nem sob ameaças eu apareceria sozinha no salão de baile do castelo. Não naquela noite. Peguei Ruby no quarto dela e a fiz de minha acompanhante. Se dependesse de Irina, eu teria uma entrada triunfal. Faria uma parada estratégica no topo da escadaria e a música daria uma pausa nesse momento. As pessoas exclamariam “ohhh” e só então eu começaria a descer os degraus, um a um, quase em câmera lenta.

Onde foi mesmo que já vi essa cena, hein? Ah! Em quase todos os filmes bregas.

Bom, se eu achava que isso não aconteceria comigo, estava enganada... mais uma vez. Irina, Ruby, David, todos insistiram para que eu chegasse após todos os convidados, e como não estava a fim de argumentar, resolvi aceitar.

Assim que todos chegaram, Irina avisou que eu poderia entrar, mas antes, teria que parar no inicio da escada para que os fotógrafos pudessem tirar as fotos. Caminhei até a o salão e parei no inicio da escada, como Irina pediu. Eu não sei dizer se era o cansaço, mas eu não estava nervosa, apenas parei lá como me disseram, e esperei que os flashs terminassem.

De repente, o nervosismo bateu. Quando os fotógrafos pararam com os flashs e todos estavam me olhando, o DJ colocou uma música e eu fui descendo cada degrau pausadamente, assim como Irina insistiu que eu fizesse. Eu achei besteira, mas obedeci. Irina queria tudo impecável. Antes de chegar no final da escada, meu coração parou e depois começou bater tão forte, que achei que fosse sair do peito.

Ela estava parada e em meio a tantas pessoas, eu consegui localizar seu rosto, qual me olhava intensamente, eu poderia estar delirando, mas também havia paixão no olhar. Tanta gente, e eu só conseguia ver Regina.

Walking through a dream
I see you
My light and darkness breathing hope of new life
Now I live through you and you through me
Enchanted

Talvez Ruby tivesse razão. Talvez se eu tantasse admitir, tudo ficaria mais leve.

I see me through your eyes

Breathing new life flying high

Your love shines the way into paradise

So I offer my life as a sacrifice

I live through your love

Eu só precisava ter coragem.

You teach me how to see

All that's beautiful

My senses touch your world I never pictured

Now I give my hope to you

I surrender

Quando cheguei ao final da escada e o DJ trocou a música para algo mais dançante, meus olhos que ainda estava, cravados em Regina não gostou nenhum pouco do que viu. Ao seu lado, surgiu quem eu menos gostaria. Lacey.

Se a palavra translumbrante existisse, seria pouco para defini-la. O que fazer quando seu pior pesadelo surge num vestido longo de cetim amarelo, agarrado ao corpo do busto às panturrilhas, com uma fenda traseira que terminava a poucos centímetros do bumbum (isso eu vi depois, mas já estou descrevendo)? Como se não bastasse, a parte superior do vestido era de uma renda finíssima e transparente e só um top cor da pele evitava que a bendita estivesse nua na frente de todo mundo.

— Emma. Acorda. — Ruby me beliscou nas costelas. — Já que não admitiu até hoje que sente algo pela Regina, deixa pra depois, tá? Agora não é hora de dar bandeira. As pessoas estão olhando.

É por isso que adoro minha amiga. Está sempre me livrando de enrascadas.

Desviei o olhar, esquecendo o que estava sentindo a poucos segundos e desejando nunca ter visto Regina na minha vida. Por que a existência dela tinha que mexer tanto com a minha? Não acreditava que estivesse apaixonada por ela. Não ainda. Mas havia alguma coisa, uma conexão, caso contrário eu não ficaria tão abalada cada vez que a visse. E nem sentiria tanto ciúme por causa de Lacey.

— Olha ali as duas perdidas. — Ruby disse, apontando para mamãe e vovó.

Nós quatro nos juntamos numa rodinha e eu me deixei levar pelos comentários em português que elas faziam sobre o evento. Minha mãe já sabia sobre as notícias sensacionalistas e não se deixou abalar. Contou que passou a noite recebendo telefonemas do Brasil, entre eles de jornalistas ávidos por uma entrevista exclusiva.

— Até a Sônia Abrão me ligou — disse. — Já pensou, Emma, eu sentada no cenário dela, com um ou dois comentaristas, contando nossa história e me submetendo a perguntas invasivas em favor da audiência?

— Uhg! — Só de imaginar a cena, tive náuseas. — Mãe, você está proibida de dar entrevistas. Aliás, as três estão. Vamos evitar a urubuzada, por favor. A não ser que seja uma coisa séria. Não vamos fazer disso tudo um circo de horrores. Combinado?

— É claro, filha. Essa hipótese não está sendo nem mesmo cogitada — garantiu mamãe. — E, a propósito, você está lindíssima. Como eu nunca consegui fazer você usar um desses antes? Aposto que é obra da Irina.

Engraçado. Era para eu ficar feliz com o elogio, mas acabei fazendo comparações, vocês sabem com quem. De repente, meu Dior Couture se transformou numa roupinha sem graça.

— E deve ter custado uma fortuna — completou vovó, admirada. — O David faz tudo por você, não é mesmo?

— Sim. — Não consegui evitar uma olhada na direção dele. Demonstrava estar tão feliz. — Ele é demais, vó. Mãe, você foi uma boba. É difícil encontrar um homem como meu pai no mercado, sabia?

Ela fez uma careta

— E eu não sei? Por que você acha que estou solteira até hoje?

A conversa terminou quando David me pegou para desfilarmos juntos pelo salão. Hora de fazer um social. Fomos andando de mesa em mesa, dando atenção aos convidados, que, afinal de contas, estavam ali para me prestigiar. Mas que trabalhinho cansativo! Se antes minhas bochechas doíam, agora gritavam. Não é fácil manter um sorriso na cara por mais de 15 minutos.

E eu conheci gente para caramba, de tudo o quanto é lugar. Mas não me perguntem quem era quem que eu levaria uma vida para reconhecer todos.

Foi numa dessas andanças pelo salão que topamos com o Casal 20: Regina e Lacey. Pretendia ignorá-los por pelo menos mais uma ou duas horas. Contudo, me dei mal.

— Emma — ela disse de forma polida.

— Regina — fiz o mesmo.

— Majestade. — Já Lacey era só sorriso, mas um daqueles bem falsos. — Sua festa está linda. E, Emma, acompanhei tudo pela TV e posso garantir que você foi muito bem.

— Seu vestido estava um arraso — continuou ela. — E esse também é demais. Você está uma graça.

Entendi a estratégia dela. Lacey preferia gastar elogios comigo a deixá-los para a namorada. Ela falava, Regina ficava calada. Garota esperta.

— Obrigada — murmurei. E me obriguei a retribuir: — O seu também é ótimo.
Não sei o que diabos aconteceu, mas Killian apareceu, tirando Regina e David de perto e me deixando sozinha com a "Nome de cachorro".

Um silêncio pesado pairou sobre nós, daqueles que são difíceis de administrar. Eu não tinha a menor vontade de trocar amenidades com Lacey ou falar do tempo, muito menos saber da vida pessoal dela. Só uma curiosidade martelava minha cabeça: se ela fazia planos de sumir do mapa a curto prazo. Mas isso eu não me arriscaria a perguntar. Nem morta, né, gente?

Foi a própria Lacey quem quebrou o silêncio.

— Pretende ficar muito tempo na Krósvia? — Pelo jeito a mesma dúvida que eu tinha também atormentava Nome de Cachorro.

— Planejei passar seis meses aqui — esclareci casualmente. — Devo voltar para o Brasil depois do Carnaval.

— Carnaval? — ela repetiu. — Aquela festa em que as pessoas, bem... se liberam?

Enruguei a testa, preparando-me para defender nossa mais tradicional comemoração, embora eu mesma tenha um pouco de resistência a ela — não aos dias que fico de folga, que fique claro. Mas não era essa a verdade? Dizer que o povo se libera é até eufemismo. Todo mundo solta as frangas, isso sim.

— Acontece em que mês? — Lacey quis saber, sem me dar tempo para responder à pergunta anterior.

— No ano que vem vai cair no meio de fevereiro. É que ela varia de ano para ano — expliquei, crente que estava agradando.

— Então, ainda está longe.

Que bela oportunidade para soltar uma frase de duplo sentido! Para qualquer um, soaria como se Lacey estivesse se referindo ao Carnaval. Mas não para meu sexto sentido. Tudo me levava a crer que ela estava lamentando o tempo que ainda faltava para eu partir para longe e de vez.

— Passa rápido. — Adorei minha ironia. De vez em quando eu adoro usar uma.
Novo silêncio. Por que eu não aproveitava para dar o fora dali? Meus neurônios começaram a processar uma desculpa com a qual eu pudesse escapulir

Foi aí que Lacey deixou a máscara sair do lugar.

— Emma, se me permite ser sincera — Lacey assumiu uma postura felina, como se a qualquer momento fosse enfiar as garras em minha cara —, sei que tem passado muito tempo com a Regina. O fato de vocês terem o rei David em comum acabou forçando uma proximidade, que eu considero próxima até demais.

Meu sangue sumiu de repente. Será que Nome de Cachorro estava concluindo que eu queria alguma coisa com a namorada dela? Alguma coisa como querê-la para mim? Que viagem! Né?

— Vocês têm ficado muito tempo juntas, mas eu sei que é porque o David confia na Regina e Killian não está ficando muito por aqui. — Lacey tratou de justificar seu comentário. Notei que ela desejava me alfinetar e demarcar claramente seu território, mas sem parecer possessiva e ciumenta. Afinal, para que perder tempo com uma garota como eu? — A Regina tem faltado ao trabalho, mas também tem dias que ela fica até tarde no escritório para compensar as ausências. Você já deve saber que ela é uma arquiteto muito requisitada e esses sumiços soam mal para a carreira dela.

Que feio, Lacey! Usar o trabalho da namorada para disfarçar seu ciúme. Isso eu só pensei, mas não seria o máximo jogar na cara dela?

— Bom, eu só aceitei essa situação porque meu pai insistiu e, se me permite dizer, Lacey, a ideia foi da própria Regina. Imaginei que ela devia saber o que estava fazendo, afinal ela é uma mulher adulta. — Falei bem devagar, pisando em ovos, de modo que ela não tomasse minhas palavras como uma afronta. Embora fossem.

Ela riu.

— A Regina nunca sabe o que está fazendo, Emma. Ela vive querendo ajudar as pessoas, mas acaba se prejudicando. Sempre foi assim e eu já fiz de tudo para abrir os olhos dela.

— Então deve ser por isso que ela namora você. — Deus me perdoe por essas palavras, mas eu queria dar pulinhos depois de cuspir elas na cara dessa "Nome de Cachorro" que o apelido agora seria, cadela.

— Sobre o que vocês duas tanto conversam?

Regina. Sempre oportuna!

A máscara de cachorra boazinha de Lacey voltou para o mesmo lugar de antes. Eu que não consegui recolocar a minha, digo, não consegui recuperar meu humor, que, se antes não estava bom, pelo menos não era negro. Tremia de cima a baixo e deveria estar até abatida. Discussões sempre acabam comigo, sejam elas veladas ou não.

— Nada que valha a pena você saber.

Deixei as duas, doida para fugir do baile e chorar sozinha no meu canto.

Notas finais
Acharam mesmo que a Lacey ia deixar barato? HAHAHA fala sério, uma namorada igual a Regina ninguém quer perder... Não me matem, nem tudo que a Lacey faz é benéfico hehehe ... Gente, eu to desenvolvendo a história entre Regina e Emma, desde o inicio da fic minha intenção não era colocar elas logo de cara num romance, temos que desenvolver né? Enfim, espero que tenham "gostado" quando vocês menos esperarem, eu volto com a parte 2 , BEIJOS