A princesa de Krósvia
19 Premonição?
Notas iniciais
A ventania agitava meus cabelos de uma forma com a qual eu não estava sendo capaz de lidar. Os fios açoitavam meu rosto e, quanto mais eu tentava prendê-los com as mãos, pior ficava a situação. Mas não me importava. As mensagens persistentes de Regina eram suficientes para reter meus pensamentos.
"Emma, preciso falar com você depressa. Entre em contato assim que der. Beijo."
"Emma, por que não responde? O assunto é urgente"
Claro que era urgente! Como não seria? Mas, para meu completo azar, meu celular não estava conseguindo completar ligação alguma, embora não tivesse problemas em receber os torpedos enviados por Regina.
Sendo assim, como não havia outra forma de chegar mais rápido a Perla, debrucei-me sobre a mureta da balsa que me levava de volta para casa — depois de dois dias participando de um evento beneficente — e rezei. Pedi a Deus que não fosse nada de mais. Ou, pelo menos, não tão grave. Quem sabe a urgência de Regina devesse á saudade louca que sentia de mim? Sim! Devia ser isso! Não gostávamos de ficar longe uma da outra, nem mesmo por apenas 48 horas.
Essa possibilidade me acalmou um pouco e eu pude respirar, finalmente. Com a mente avoada, voltei a observar o oceano com benevolência. Eu estava em Osijev, um distrito de Perla, isolado numa ilha, um dos pontos turísticos mais visitados de Krósvia.
Aproveitando a boa vontade — e o dinheiro, principalmente — dos visitantes, o prefeito de Perla resolveu promover um leilão de antiguidades em beneficio das crianças órfãs da capital. Como meu pai estava numa conferência internacional, sobrou para mim marcar presença no evento.
"Emma, estarei esperando você no porto."
A nova mensagem de Regina não só me tirou dos devaneios como fez a preocupação voltar. Mil coisas passaram por minha cabeça: uma nova ação de paparazzis mal intencionados, problemas com a horrenda da Lacey, incidentes envolvendo membros da minha família, como vovó ou vovô, por exemplo, que não andava com a saúde muito boa.
Não queria imaginar besteiras, mas era inevitável. Se minha namorada quisesse me envolver num joguinho de sedução, teria deixado seu objetivo um pouco mais claro.
Comecei a bater a sola do sapato no piso da balsa, tamanha minha ansiedade. Estava prestes a assumir o lugar do piloto quando avistei o porto de Perla. Ufa! Fossem noticias boas ou ruins que me esperavam em terra firme, preferia recebê-las o quanto antes.
Pareceu que levou três dias, mas a balsa, em poucos minutos atracou. Avistei Regina no cais, com as mãos enfiadas nos bolsos da calça jeans e a cabeça baixa com os cabelos sobre o rosto, sua veia na testa estavam mais exaltadas ainda. Ela não demonstrava estar feliz.
Meu coração se apertou, preparando-me para o pior. Porque, se não antes, a certeza de que uma tragédia estava para ser anunciada me acertou em cheio ao vê-la.
Assim que me enxergou, Regina abriu os braços, para onde corri sem pensar duas vezes. Embrulhada por seu calor, deixei escapar as lágrimas que segurava sem perceber.
– Estou com medo do que vai dizer. — admiti. Minha voz saiu embargada, uma vez que apertei o rosto no peito da minha namorada.
– Em... — Ela hesitou. Senti quando sua respiração foi interrompida por algo semelhante a um soluço. Ergui o olhar para encará-la.
– Por favor, Gina, diga de uma vez.
Seus lindos olhos castanhos estavam vermelhos, como se ela tivesse chorado. Então eu soube sobre quem eram as más noticias. Ah, Deus, não!
– Minha linda, seu pai... O David...
Ela parou e inspirou com força. Eu teria desmaiado naquele momento se não estivesse tão curiosa por saber.
– Ele sofreu um acidente e...
Mais uma pausa.
– Não resistiu.
***
– NÃO!!!
Acordei arfando, desorientada. Meus olhos custaram a processar o cenário revelado diante deles. Segundos antes eu estava na Krósvia, recebendo a pior noticia do mundo. No entanto, na verdade, eu me encontrava numa quarto de hotel, aconchegada entre colchas macias, curtindo dias de tranquilidade ao lado de Regina.
Aliás, assim que gritei, apavorada com o pesadelo, foram as mãos dela que me ampararam.
– Ei, Em, calma. Você estava sonhando.
Comecei a chorar, um choro de alívio misturado com medo. Porque, ao mesmo tempo em que é ruim demais sonhar com a morte de alguém tão importante, acordar e descobrir que a realidade é bem diferente é um conforto e tanto.
– Regina me abraça- pedi, aconchegando-me a ela, a unica pessoa capaz de acalmar meus ânimos completamente. Desde que nosso namoro vingou, há dois anos e meio, Regina tem sido meu porto seguro, minha âncora nas terras do meu pai. Afinal, não foi fácil me descobrir da noite para o dia, a única herdeira da coroa da Krósvia, uma pequena e bem resolvida nação do Leste Europeu. — Sonhei com a morte do meu pai.
Regina me apertou um pouco mais.
– Dizem que é vida para a pessoa — disse ela, numa tentativa de me consolar.
– Eu sei, mas foi muito ruim.
Comentei com Regina os detalhes do pesadelo. Prática do jeito que é, não fez muitos comentários a respeito, a não ser que ficar repetindo "Está tudo bem".
Fechei os olhos e procurei me concentrar no abraço quente de Regina. Seria plausível se o namoro tivesse caído num clima morno, já que o nosso lance deixara de ser recente havia um bom tempo. Ainda bem que continuávamos como no principio, quando éramos guiadas pela adrenalina da descoberta dos sentimentos uma pela outra. Nós nos amávamos, no entanto a chama da paixão continuava acesa. Não à toa, passávamos aquela semana num hotel aconchegante na Praia do Forte, em Salvador. Rotina era uma palavra inexistente em nosso vocabulário.
– Por que não liga pra ele? — Regina sugeriu. — Não é vergonha nenhuma pra uma mulher de quase vinte e três anos sentir saudades do papai.
Regina bagunçou meus cabelos, como se faz com garotinhas travessas, e piscou para mim. Desde que compreendera o sentido da palavra "saudade", ela nunca deixava de usá-la. Achava essa mania bem fofa, se querem saber.
– Estou mesmo com saudade dele — admiti, fazendo um beicinho que eu só me permitia armar quando ficava sozinha com Regina. Morro de vergonha de ficar pagando de apaixonada na frente das pessoas. Ruby diz que eu sou um caso sério e incurável.
Regina se apoiou no cotovelo, pegou o celular em cima da mesinha de cabeceira e o estendeu para mim.
Abri um sorrisão, sabendo que, em poucos segundos, estaria ouvindo a voz do meu amado pai.
***
Sempre me esqueço de que o fuso horário da Krósvia em relação ao do Brasil é de cinco horas a mais para o país do meu pai. Foi por isso que levei um susto quando David disse "Alô" do outro lado da linha. A voz dele parecia a de um moribundo á beira da morte. Ainda bem que tive a sacada de verificar as horas no rádio-relógio antes de tirar conclusões precipitadas.
– Oi, papai. — Cumprimentei, aliviada.
– Em, minha querida, aconteceu alguma coisa?
Está pra nascer uma criatura mais doce do que David Markov, rei da Krósvia e, por sorte do destino, meu amado pai. Faz pouco mais de dois anos que nos conhecemos, mas, desde então, agimos como se estivéssemos nos relacionado a vida inteira. Ele perdeu toda a minha infância e adolescência, mas por outro lado, fez de tudo para que eu me sentisse bem assim que pôs os olhos em mim e me amou desde o principio, o que acabou estreitando nossos laços, antes inexistentes.
– Só estou com saudade — respondi, em krósvi, como há tempo já fazia.
Regina se espichou sobre mim e se meteu na nossa conversa:
– Sua filha está doida para correr de volta para o papai.
Dei um tapa desengonçado no ombro dela, meio sem graça com a possibilidade de David ter concluído em que situação nos encontrávamos naquele instante — sozinhas, no maior bem bom, num quarto de hotel brasileiro. Por mais que meu pai levasse numa boa meu relacionamento com Regina, era sempre melhor não entrar em detalhes.
– Levando em consideração o horário, acredito mesmo que não veja a hora de voltar. — David sorria. Deus para perceber o tom de gozação em sua voz.
– Desculpa... É que sonhei com você — admiti. Puxei o lençol que cobria minhas pernas e coloquei uma ponta na boca.
Regina deu um sorrisinho e se levantou, presenteando-me com uma visão da qual eu não me fartava nunca: ela, apenas de calcinha e sutiãs brancos, a personificação dos sonhos de consumo de muita gente. E era toda minha.
Eu ainda a encarava feito cachorro diante de uma vitrine de frango quando meu pai perguntou, tirando-me do transe:
– Sonho bom ou ruim?
– Eu... não me lembro — menti. De repente, revelar a David o assunto do pesadelo me pareceu muito cruel. Colocando-me no lugar dele, não gostaria que alguém me contasse que havia sonhado minha morte.
Meu pai deu uma gargalhada e me fez imagina-lo em seu quarto no Palácio Sorvinski, observando o mar enquanto a manhã chegava de mansinho.
Eu agradecia a Deus todo os dias por ele ser tão jovem e bem disposto e por amar o que fazia. Ser a princesa já não era lá muito fácil... Imagine, então, o que implicava o cargo de rainha. Pensar nisso me dava medo.
– Em... Conheço você muito bem. Não estaria me ligando a esta hora se não tivesse um bom motivo. — Óbvio. Por que ele tinha que ser tão perspicaz? Ás vezes nem minha mãe reparava tanto em detalhes, e olha que a gente morou sob o mesmo teto por mais de vinta anos. — O que está acontecendo, filha?
Suspirei profundamente. Regina se balançava devagar na rede da varanda, pelo jeito não prestava a menor atenção em mim.
– Você está bem? Vai viajar por esses dias? Algum encontro com adversários?
David riu outra vez. Pena que sua descontração não estivesse me contagiando.
– Emma, por acaso seu sonho tem a ver com meu bem estar? Ou com a falta dele?
– Com a falta dele — confessei, baixinho. Cobri meus olhos com o braço e fui admitindo o resto. — Liguei porque queria ouvir sua voz e constatar, com meus próprios ouvidos, que está tudo bem por ai. É horrível, pai, falar sobre meu sonho, já que, nele...
– Nele? — David me encorajou.
– Nele descubro que você... morreu.
– Em, eu estou bem, nada de ruim vai acontecer comigo, eu prometo ok? Aproveite sua ultima noite de férias com Regina, logo estaremos juntos.
– Você promete, pai?
– Sim, minha filha.
***
Naquela ultima noite em Salvador, Regina e eu resolvemos jantar no próprio hotel, sabendo que a comida pesaria no estômago a ponto de nos derrubar fácil na cama.
– Porque você nunca preparou moqueca pra nós? — Regina me questionou, não se importando em engolir antes de falar. — Bem melhor que o peixe que a gente come na Krósvia.
– Quase tudo aqui é melhor que a comida da Krósvia, Gina. E, se eu nunca fiz moqueca, é porque não sei.
– Bem que podíamos levar a receita para a Cora né? — sugeriu minha namorada, gemendo de prazer.
Era uma boa ideia. A Cora tinha mãos de fada. Se eu não segurasse o pé, viveria lutando contra a balança. Bastava estar de bobeira no castelo que me enfiava na cozinha com ela. Minha sina: Estar rodeada de artista da culinária.
Balancei a cabeça para Regina, concordando com ela, mas minha mente estava um pouco longe dali. A todo momento meu cérebro me levava de volta a conversa com meu pai e eu tivemos. Enquanto não voltasse para a Krósvia e o visse com meus próprios olhos, eu não me sentiria completamente aliviada.
– Emma, você está no mundo da lua — Regina observou, segurando minha mão em cima da mesa. — O que houve?
Suspirei. Olhei para aqueles olhos castanhos profundos e sorri.
– Bobagem.
– Ainda preocupada com o David. — Não foi uma pergunta. — Você sabe que está esquentando a cabeça á toa, não sabe?
– Meu pai disse quase a mesma coisa. — admiti.
– Então desencana. É assim que vai querer passar a nossa última noite aqui?
Foi a partir daí que esqueci de vez o pesadelo com David. No momento em que Regina deixou clara sua intenção de encerrar o nosso passeio, minha mente tratou de aproveitar os novos — e mais satisfatórios — tipos de pensamentos que passaram a preenchê-la.
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