A princesa de Krósvia

15 Meu mundo caiu.


Notas iniciais
Oi gente. Desculpem a demora, mas voltei, ainda não tive tempo de responder os comentários do capitulo anterior que foram muito positivos, mas do que pensei que seria então obrigado e juro responder logo, enfim, não vou prolongar as notas porque não to no clima, sei que vão querer me matar nesse capitulo mas espero que se lembrem de algo muito importante: Não existe arco ires sem tempestade, ok? comentem ai e até logo, amo vcs :D

Acordei no início da manhã, ainda bem cedo. Apesar de meu corpo estar meio moído, sentia-me muito feliz, realizada e completa. Minha primeira vez fora surreal. Ou eu deveria dizer primeiras vezes? Sim, porque, com a tempestade, tivemos que passar a noite inteira na Ilha de Zelena. Portanto, tivemos tempo de sobra para realizar todas as minhas fantasias — no bom sentido, pelo amor de Deus — Regina.

Valeu a pena esperar. Eu sempre fora criticada por minhas amigas porque adiara ao máximo a perda de minha virgindade, enquanto a maioria preferira seguir pelo caminho do “deixa rolar”, muitas vezes com qualquer um. Ainda na época da escola, vira muitas meninas de minha sala esconderem cartelas de anticoncepcionais em bolsos falsos da carteira para não serem flagradas pelos pais.

Não porque tivessem um namorado, mas porque estavam sempre na expectativa de uma aventura nos finais de semana.

Numa dessas, uma garota acabou engravidando. Ela só tinha 15 anos. E sabem quem era o pai? Um universitário que namorava outra menina havia séculos.
Por essas e outras, sempre tive muito medo. Assim, optei por me preservar. E não me arrependo. Eu não poderia ter escolhido uma pessoa mais perfeita para ter minha primeira vez, nem um cenário mais ideal que o daquela noite.

Saí da cama com cuidado para não acordar Regina. Devido à chuva, o clima estava bem frio. Enrolei-me numa manta e fui até a cozinha, pé ante pé. Meu estômago exigia comida. Também, depois de tanto esforço...

Sorri ao repassar na mente cada momento, desde a chegada de Gina ao chalé, quando me dera o maior susto, até o último suspiro da noite, ou melhor, do final da madrugada. Lembrei-me de termos perdido a razão a ponto de eu não diferenciar meus gemidos dos dela. Acho que a sincronia foi perfeita.

O mais impressionante de tudo foi a pergunta que Gina me fez, enquanto ainda vestíamos parte de nossas roupas. Fiquei completamente desconcertada.

— Emma, o que fez com aquela sacola enorme de lingeries?

— O quê? — ofeguei, com o rosto enterrado em um de seus ombros.

— As lingeries novas. Eu vi a sacola da Victoria’s Secret naquele dia da orgia consumista.

Meu rosto quase entrou em combustão espontânea. Ela não podia estar falando sério. Apoiei-me nos cotovelos e a encarei.

— Eu não saio por aí com meus conjuntos lindos e novinhos, principalmente se for para ajudar na faxina de um chalé abandonado.

Regina gargalhou e desceu os olhos para as peças desencontradas que eu estava usando. Seu olhar me queimou.

— Garanto que elas não foram estreadas do jeito certo. Temos que providenciar isso. Não vejo a hora de desvendar os segredos de Victoria.

Rimos juntas. Realmente, minhas belezuras de renda e cetim mereciam uma plateia, mesmo que fosse de uma pessoa só.

Meu estômago chiou mais uma vez e enfiei a cara na cesta de piquenique, intocada desde que fora colocada sobre a mesa. Ataquei logo uns três pãezinhos de mel e pulei as frutas sem a menor sensação de culpa. Já tinha perdido calorias demais naquela noite. Mastiguei um pão olhando perdidamente pela janela da cozinha. Ainda chuviscava, mas o pior da tempestade já havia passado. Ainda bem que David não estava na Krósvia. Como explicaria a ele o fato de não ter dormido em casa? Mesmo assim, estremeci. Teria que me explicar de qualquer forma. Todos notariam a mudança de clima entre mim e Regina.

Num dos intervalos da madrugada, comentei com Regina sobre essa minha aflição. Ela disse que se encarregaria de conversar com meu pai.

— Pode deixar comigo, Em. Eu mesmo quero falar com o David. Como já negamos uma vez, var ser esquisito admitir o contrário. Mas ele vai entender se eu explicar.

Não fiquei muito tranquila, não. Sabia muito bem que minha hora chegaria. Meu pai não perderia a oportunidade de me fuzilar com perguntas.

— Outra coisa está me incomodando, mas não tem nada a ver com o David — Regina disse, com a cabeça apoiada numa mão, enquanto a outra fazia carinho em minha barriga. Quase perdi a concentração. — Essa sua certeza de ir embora. Por que não fica mais? Um ano, pelo menos. Depois a gente pensa numa outra solução.

— Não posso ficar eternamente de férias, Gina. Preciso terminar meu curso, voltar a trabalhar, dar um jeito na vida.

— Não dá para fazer tudo isso aqui mesmo?

— É complicado. Muita coisa me prende ao Brasil.

— E aqui? Nada?

Dei um beijo na ponta de seu nariz e suspirei.

— Não me torture desse jeito. Não é justo me pedir para escolher. Eu estou presa dos dois lados. Mas, antes de definir minha vida, preciso acabar o que comecei. Me formar é muito importante pra mim.

— E a gente?

— Não quero pensar sobre isso agora. Temos tempo pra achar uma solução.

— Então, venha aqui e me faça esquecer.

***

Bebericava um suco de caixinha sabor pêssego quando os braços de Gina envolveram minha cintura e me puxaram de encontro a seu corpo, coberta apenas pela blusa.

— Não gostei de acordar sozinha — reclamou, com a boca torturando minha nuca. — Por que já está de pé?

Apontei para a cesta de piquenique.

— Fome.

Regina riu, presunçosa, orgulhosa por ser o motivo de meu apetite voraz. Rodou-me em seus braços para que pudéssemos ficar frente a frente.

— Matou a fome?

— Quase.

Sorrimos uma para a outra. Joguei os braços sobre seus ombros e fiquei na ponta dos pés para beijá-la. Nunca fora muito descolada com ficantes ou namorados, mas com Regina eu ficava muito à vontade. Se bem que ela estava longe de ser apenas um garota.

— O que tem debaixo dessa manta? — quis saber, os olhos carregados de segundas intenções.

— Meu corpo do jeito que vim ao mundo.

Era isso mesmo. Perto de Regina, eu não tinha um título real, não me lembrava de ser filha de um rei e nem morava num castelo de verdade.

Ela me agarrou e recomeçamos todo o processo de amassos, que não teria sido interrompido caso uma terceira pessoa, estranha e deslocada no contexto, não tivesse surgido através da vidraça da cozinha e acionado o botão de uma câmera fotográfica, flagrando Regina e eu, agora sim, numa posição para lá de comprometedora.

Dei um pulo para trás, com o coração aos pulos, e puxei a manta até o queixo, perplexa demais para reagir de outra forma. Regina se colocou na minha frente, encobrindo-me com seu corpo. Sua expressão mudou instantaneamente de sedutora para irada.

Mas o fotógrafo não se acanhou. Pelo contrário! Ficou ainda mais confiante quando outros dois apareceram não sei de onde e fizeram o mesmo: nos fotografaram sem parar.

Tive a impressão de que ia desmaiar. Eu não podia passar por toda aquela especulação outra vez, principalmente porque agora o fato seria respaldado pelas malditas fotos! E, pelo amor de Deus, como aquele bando de urubus chegara à ilha, ou, melhor dizendo, a mim e Regina?

E então, como se tivesse lido meus pensamentos, um dos paparazzi disse, caprichando no inglês, de modo que não houve chance de eu não entender:

— Pronto, Regina. Tarefa cumprida. Fizemos do jeito que você combinou.

Levei uns dez segundos para processar aquelas três frases. Até que a compreensão me atingiu em cheio e dilacerou meu coração em milhares de pedaços: eu havia sido enganada da maneira mais sórdida e repugnante possível. Caíra num joguinho ordinário, que provavelmente fora orquestrado com bastante antecedência por Regina e a nojenta da Nome de Cachorro. Meu Deus, quantas noites aquelas duas deviam ter passado arquitetando minha humilhação e rindo da minha cara! E eu, toda boba e apaixonada, agora prestes a ser ridicularizada na frente do mundo inteiro.

Retesei o corpo e me agarrei à borda da pia para não cair. Regina tentou me amparar, mas me afastei bruscamente. Até quando continuaria fingindo?

Enquanto isso, os flashes não paravam de pipocar. Meu estômago deu uma cambalhota, anunciando um enjoo horroroso.

— Sumam daqui! — Regina gritou. Pura encenação. — Desapareçam, senão vou processar vocês!

— Processar? Mas por que, se foi você que nos contratou?

Corri para o banheiro, desesperada, e me agarrei ao vaso sanitário. Vomitei os três pães de mel e o suco de pêssego. E mesmo quando não tinha mais nada no estômago, continuei tendo espasmos. Senti minha energia indo embora.

Regina disparou atrás de mim e se agachou a meu lado. Suas mãos seguraram meus cabelos para que não se sujassem, mas, tão logo recobrei a consciência, rejeitei-as com tapas histéricos.

— Não me toque! Não ouse colocar essas mãos imundas sobre mim! — berrei. Lágrimas desciam feito cachoeiras por meu rosto, nublando minha visão.

Chorei convulsivamente. Mais uma vez, Regina tentou me segurar, mas eu a impedi. Ela tinha estraçalhado meus sentimentos, minha confiança.

— Emma, para com isso. Me escuta. Eu não sei quem são esses caras. Não tenho nada a ver com essa loucura. Por favor, olha para mim!

— Se você falar que é coincidência eles estarem aqui, eu não respondo por meus atos. — Levantei com vontade de sumir do mapa. Mas antes precisava vestir minhas roupas e dar um jeito de escapar dali. — Você jogou sujo, Regina, e agora eu vejo há quanto tempo você e a safada da Lacey andam armando para mim! — gritei.

— Não viaja, Emma! Eu não fiz nada disso. Pelo amor de Deus, depois de tudo, da noite maravilhosa que tivemos, você não pode estar falando sério!

Fulminei-a com o olhar. As lágrimas ainda caíam e não davam sinal de que iam cessar tão cedo.

— Não acredito que confiei em você! Não acredito que tive coragem de confessar o meu...

Cobri o rosto com as mãos e desabei. Não conseguia nem falar, nem olhar para ela. Regina agarrou meus ombros, sem me dar chance de escapar, e suplicou:

— Emma, não faça isso. Por favor, não entre nessa paranoia. Tem alguma coisa errada nessa história. Você precisa acreditar em mim. Eu te amo!

Usando uma força sobre-humana, soltei-me dos braços de Regina e passei por ela, tendo o cuidado de manter a manta que me cobria ainda mais fechada.

— Regina, eu vou sair daqui. Sozinha. Não me siga, não me procure, nem me peça para ouvir sua versão, porque não vou cair na besteira de acreditar em você novamente. Porque eu acreditei totalmente. Confiei cegamente nos seus sentimentos, a ponto de me entregar a você.

— Emma... — Ela engasgou. Seus olhos castanhos, antes tão lindos e sedutores, agora me eram estranhos. Estavam encharcados de lágrimas, assim como os meus.

— Não fala nada. Eu não mereço ouvir suas desculpas. Me poupe disso. Não acredito no seu amor. Pode voltar para a Nome de Cachorro e comemorar o sucesso do planinho sórdido de vocês. E prepare-se para se explicar ao David. Ele, sim, vai querer entender cada detalhe.

Enxuguei o rosto e saí na direção do quarto. Só parei para completar, soltei:

— Difícil vai ser revelar o que nós duas ficamos fazendo aqui na ilha a noite inteira. Não quero estar no seu lugar.

Então, entrei no quarto de Zelena, tranquei a porta com chave e caí na cama, ainda impregnada do cheiro de Regina e com marcas dos momentos que tivéramos ali. Queria extravasar minha dor, mas não tinha tempo para isso. Precisava sair da ilha o mais rápido possível e resolver o que faria de minha vida. Uma coisa era certa: minha imagem estava acabada. Para sempre eu seria lembrada como a princesa que dormiu com a quase-irmã comprometida. A princesa apaixonada que se prestou ao papel de ser a outra.

Vesti rapidamente minhas roupas, calcei minhas botas e respirei fundo antes de correr rumo à porta e escapar para a areia da praia, molhada demais por causa da chuva.Regina não tentou me deter. Apenas olhou para mim com uma expressão derrotada, recostada na mureta da varanda.

Não vi os fotógrafos. Ainda bem. Senão, teria sido capaz de agredi-los fisicamente, o que só pioraria minha situação.

Havia duas lanchas no cais: a que levara Regina até a ilha e a dos paparazzi. Mesmo sem nunca ter pilotado uma antes, dei partida no motor. Só queria sair dali e me esconder do mundo.

***

Fazer sozinha o trajeto de volta foi complicado. Só sei que girei a chave na ignição e guiei a lancha meio que no piloto automático. Por sorte, a distância entre a ilha e a praia do castelo era curta e bastava dirigir em linha reta.

Ao chegar ao cais, larguei a lancha aos cuidados do piloto que havia me transportado no dia anterior. Ele me olhou com espanto, talvez assombrado por minha expressão nada amistosa ou pelo fato de ter voltado sozinha. Não sei. Também não dei chance a ele de me perguntar nada.

Atravessei a areia sem olhar para os lados e irrompi castelo adentro, preocupada apenas em chegar a meu quarto e me fechar para o mundo. Sabia o que teria que enfrentar mais tarde, mas precisava me concentrar antes de receber a chuva de críticas e reprovações.

Arranquei depressa as roupas de meu corpo e deixei o chuveiro lavar os vestígios de minha vergonha. Só lamentava não poder voltar no tempo e apagar outras coisas, como as lembranças dos lábios de Regina percorrendo minhas costas e suas mãos apertando-me contra ela.

Encostei a testa no azulejo e chorei de novo. Como resolveria esse problema? Se ao menos pudesse evitar a publicação daquelas fotos ordinárias... Por que não exigi que os fotógrafos me entregassem as câmeras, ameaçando mandar meu pai atrás deles ou, sei lá, assassinos de aluguel para liquidar de vez com a raça dos filhos da mãe?

O que eu faria agora?

Resolvi telefonar para minha mãe. Alguém tinha que me apresentar uma solução, e quem poderia ser melhor do que ela?

O celular dela chamou até cair na caixa postal. Só então me dei conta de que, no Brasil, ainda era o final da madrugada. Deixei uma mensagem de voz que revelava exatamente o tamanho de meu desespero:

— Mãe, por favor, atende o telefone. Preciso falar com você. Me meti numa encrenca enorme.

Tive a sensação de que demorou uma eternidade para ela me retornar. Mas foram só alguns minutos — um milagre, considerando o fuso horário de cinco horas a menos lá em São Paulo.

— Filha, o que aconteceu? — mamãe quis saber, bastante preocupada.

Caí no choro. Outra vez. E fiquei assim, quase afogada em lágrimas, enquanto minha mãe me metralhava com perguntas. Só quando me acalmei um pouco fui capaz de responder:

— Cometi o maior erro da minha vida, tanto de julgamento quanto de atitude. Estou muito encrencada, mãe.

Então, contei tudo, desde o princípio. Falei de minha paixão por Regina, da química que tínhamos, de meu sofrimento silencioso. Depois, respirei fundo e admiti o restante, desde o momento elétrico na Caverna do Pirata até o fatídico fim da noite anterior. Não escondi nada. Apesar de Regina ser uma mulher, mamãe era mente aberta e não me julgaria. Pelo menos não naquele momento.

— Mas, Emma, como é que você tem certeza de que a Regina está envolvida com os paparazzi? Porque eu a conheci e não acredito que ela tenha um caráter tão doentio.

— Os fotógrafos deixaram isso bem claro. E, mesmo que eu estivesse na dúvida, só o fato de eles terem aparecido na ilha já é um comprovante da culpa dela. Quem mais sabia que estávamos sozinhas lá? Ninguém, a não ser a Cora e as outras empregadas, e elas não teriam motivos para armar essa palhaçada para mim!

— E por que a Regina teria? — minha mãe questionou, tentando me fazer raciocinar com imparcialidade. Só ela mesmo para me ajudar a entender o ocorrido, em vez de me crucificar por ter dormido com a Regina.

— Você não viu como ela me olhou quando me conheceu, mãe. Cheia de desconfiança, de acusações veladas. Depois, começou a se aproximar, toda legal, mas agora percebo as verdadeiras intenções dela. Ela me usou para provar para meu pai que eu não valho nada.

— Não fale assim, Emma — ela me repreendeu. — O que você fez não foi pecado. Você estava apaixonada e acreditava que era correspondida. O David vai entender. Quanto aos paparazzi, deve haver uma forma de impedi-los de publicar as fotos. Seu pai tem poder para isso. Mas você vai ter que se abrir com ele.

— Eu sei. O problema é que ele não está na Krósvia e eu não quero ter essa conversa por telefone. Vai ser difícil esfregar na cara do meu pai o mau caráter que a enteada querida dele tem. Nem imagino como começar...

— Do mesmo jeito que fez comigo. Seja sincera.

Outra onda de lágrimas ameaçou cair, mas dessa vez eu a segurei. Não queria ficar desidratada.

— Eu quero voltar para o Brasil, mãe. Quero voltar para casa. Acho que não consigo mais viver aqui.

— Faça isso, filha. Volte depressa. Não vou deixar você sofrendo longe de casa. Converse com seu pai e venha. Chega de deixar sua vida à mercê desses fofoqueiros krosvianos sem noção. Acha que consegue partir ainda hoje?

— Vou tentar. Quero acabar logo com isso.

— Ótimo. Dê notícias. Estamos te esperando.

Funguei. Uma caixa de lenços de papel não seria nada mal agora.

— E, mãe... Desculpa. Não planejei te decepcionar.

— Não fale assim. Não estou decepcionada, Emma. Estou agradecida por ter confiado em mim. Sei que não é moleza admitir para sua mãe que se apaixonou por uma menina. E quanto a falta de privacidade, também passei por isso, esqueceu?

É mesmo. Que grande ironia do destino!

— Agora, vá procurar seu pai. Ele também vai apoiar você. Não tenha medo.

— Te amo, mãe. E obrigada.

***

Não foi fácil localizar meu pai. Tive que pedir ajuda a Irina e ser muito persuasiva. Disse que o caso era sério, mas não abri o jogo. Queria falar o mínimo possível sobre a enrascada em que tinha me metido.

David participava de um congresso na França. Eu sentia muito por ter que incomodá-lo, mas não sossegaria enquanto não conseguisse me explicar para ele. Como eu tinha a intenção de sair da Krósvia quanto antes, contentei-me em conversar com meu pai via Skype. Pelo menos, não foi por Whatsapp. Eu precisava olhá-lo nos olhos de modo que ele visse o tamanho de minha culpa e, assim, quem sabe, conseguisse me perdoar.

Estava decidida a fazer isso até que David apareceu diante de mim, através da tela do computador. Ao vê-lo, minhas mãos ficaram suadas e senti o sangue sumir. Tive vontade de desistir e sair correndo, largando as explicações por conta de qualquer outra pessoa que não fosse eu.

Depois de quase sugar todo o ar do ambiente de tanto inspirar, soltei a bomba toda de uma vez. Devo ter gastado uns dez minutos ininterruptos para resumir a história inteira e falei até sobre a última conversa que tivera com minha mãe. Enquanto relatava os fatos, não tirei os dedos de meu colar de diamante.

Durante a confissão, não consegui segurar as lágrimas. Havia chegado a meu limite e, àquela altura, eu estava prestes a desabar de vez.

David ouviu o relato. Ficou calado o tempo todo. Parecia uma estátua de pedra, sem demonstrar uma mísera expressão. Mas podia muito bem estar pensando: O que fui arrumar para minha vida? Por que não deixei essa filha pirada para trás?

Quando terminei, um longo silêncio pairou entre nós. David abaixou a cabeça e deixou o tempo passar. Pensei que não quisesse mais falar comigo e usasse esse gesto para me dispensar.

Mas aí, assim que eu desisti de esperar, ele falou, num tom até bem calmo para quem havia acabado de receber uma batata quente nas mãos:

— Eu não acredito que a Regina esteja envolvida nessa confusão.

Um “o” redondinho se formou em minha boca. Eu esperava ouvir de tudo — que eu não merecia ser sua filha, que podia pegar minha trouxa e dar no pé —, menos aquilo, uma defesa tão convicta da inocência da enteada.

— Aquela menina sempre teve um caráter impecável. Nunca deu trabalho para ninguém, mesmo na adolescência. Emma, eu ponho minha mão no fogo por ela. A Regina não contratou os fotógrafos.

— Se não foi ela, então quem foi? Porque, apesar de você avalizar a conduta da sua enteada, eu não consigo enxergar outra hipótese. Eu sei o que ouvi, pai. Não é viagem da minha cabeça, pode acreditar.

— Para mim, foi uma armação. Ou não. Também pode ter sido uma desculpa de última hora que os fotógrafos deram para justificar a presença deles na ilha. Não adianta, Emma. Não vou crucificar a Regina.

— Ok — murmurei, arrasada. Quem dera eu pudesse acreditar na inocência dela assim como meu pai estava fazendo!

— Filha, por mais que eu esteja com vontade de torcer o pescoço dela por ter te colocado nessa posição vulnerável, para não dizer coisa pior, estou do lado da Regina.

— E contra mim? — gritei, mal acreditando no que meus ouvidos tinham escutado.

— Não estou contra você, Emma, embora não tenha engolido essa história de você e a Regina terem dormido juntas assim tão depressa. Nesse ponto, as duas são culpadas.

— Pai! — exclamei, chocada. — Só falta você me acusar de ter pedido para ser fotografada pelos paparazzi só porque... por isso. Aconteceu, não consegui evitar.

— Bom, o que eu posso dizer, então? Você já é adulta e sabe o que faz. Mas agora o mais importante é tentar impedir que as fotos sejam publicadas. Vou entrar em contato com meus advogados. Se pelo menos soubéssemos para qual veículo de comunicação esses caras trabalham...

— É — concordei, desanimada. — Mas isso é fácil de resolver. Pergunte para a Regina.

David incorporou uma postura tensa e me chamou a atenção:

— Emma, eu sei que está encucada e que os fatos te levaram a pensar mal dela. Mas eu acho que está se precipitando. Vou descobrir o que aconteceu e então teremos a prova da inocência da Regina. Aí, sim, vocês poderão namorar e aproveitar essa paixão toda.

— Acontece, pai, que decidi voltar para o Brasil — disse de uma vez, para não perder a coragem. — Não consigo mais ficar aqui depois disso tudo. Desculpe.

Ele só ficou me olhando, confuso, como se não acreditasse no que havia acabado de escutar. Fiquei com pena — não apenas de meu pai, mas de mim mesma também. Se eu tivesse sido uma boa menina, comportada e menos passional, ainda poderia desfrutar de mais uns meses na Krósvia, no maior bem-bom, sem me preocupar com absolutamente nada. Mas não, eu tinha que estragar tudo e jogar para o alto toda a confiança e as regalias que David Markov, o impressionante rei de uma feliz nação europeia, havia dado de bandeja para mim.

— Quero voltar, se possível, hoje mesmo. Já conversei com mamãe e ela concorda que essa é a atitude mais certa agora. Sinto muito se te decepcionei. Você não merece passar por isso.

Emocionado, além de bastante contrariado, David tentou argumentar:

— Que absurdo, filha! Isso não é motivo para sair correndo do país, como uma pessoa não grata. Também não estou decepcionado. Você não vai embora assim, de jeito nenhum.

— Eu preciso, pai. Preciso dar um tempo, deixar a poeira baixar. É uma questão de autopreservação. No momento, é o melhor a ser feito. Não fique chateado comigo. Eu vou voltar. Um dia, eu sei que vou.

Então ele balançou a cabeça, meio que resignado, e se calou. Assim que se despediu, pediu que eu ao menos o esperasse voltar da França, pois queria estar comigo pessoalmente antes de minha viagem.

Saí do Skype e fiquei encarando o computador em estado catatônico. Meu celular não tocou nem uma vez, o que indicava que Regina não havia entrado em contato. Melhor assim.

Chequei meus e-mails só para constatar a mesma coisa: nada de mensagens. Dela, quero dizer. Porque havia outras. Inclusive a resposta de Ruby para minha declaração aflita no dia anterior. Meu Deus! Só havia passado um dia mesmo?

Deixei o computador de lado e puxei minha velha mala pink de uma das prateleiras do closet. Joguei-a sobre a cama e tratei de organizar minha bagagem. Pelo menos, ocupava a cabeça com algo produtivo.

Enchi-a com as roupas que trouxera do Brasil, mas resolvi deixar tudo o que comprara na Krósvia para trás. Não fora uma garota exemplar, a filhinha com a qual todo pai sonha. Portanto, não tinha o direito de ir embora com tudo o que David me dera enquanto acreditava que eu era um doce, um anjo de candura.

Passei a tarde inteira nessa função de fazer as malas. Na hora do almoço, pedi na cozinha que fizessem o favor de levar minha comida até o quarto. Não estava disposta a interagir com ninguém. Sendo assim, evitei as pessoas deliberadamente, inclusive Irina e Cora.

Felizmente, as fotos feitas pelos paparazzi na manhã daquele dia ainda não haviam sido publicadas. À noite, quando meu pai chegou, ele informou que seus advogados trabalharam duro e acabaram conseguindo uma liminar na justiça que impedia a divulgação das imagens até a próxima quinta-feira, ou seja, dois dias depois. Fiquei mais tranquila.

Então ele quis saber se eu realmente estava decidida a ir embora, se não tinha desistido da viagem.

— Infelizmente, não, pai. Está mais do que na hora de eu ir. Preciso respirar um pouco.

— Vamos sentir muito a sua falta. Você trouxe alegria e cor para este castelo, qualidades que há muito tempo estavam perdidas. Vai ser difícil me acostumar com a sua ausência — declarou, todo emotivo. — Eu sei que não fui um pai muito presente, que deixei você meio de lado, aos cuidados de outras pessoas, mas você é tudo para mim, Emma. Não nos conhecemos desde sempre, mas eu te amo como se tivéssemos vivido juntos desde o começo.

Abracei-o com força, enterrando meu rosto manchado de lágrimas em sua camisa de linho.

— Também vou sentir sua falta, papai. Muita. Ou melhor, vou sentir saudades. Gostaria de ter sido uma filha melhor, menos exigente, menos reclamona, mais amorosa.

— E quem disse que não foi? Que não é?

David pediu que eu dormisse mais uma noite na Krósvia e deixasse para viajar na manhã seguinte. Atendi a esse último pedido e fui me deitar.

Com a cabeça no travesseiro, fiz um balanço de minha vida pós-garota comum. Em poucos meses, deixara minha pacata existência de universitária para morar num castelo, ser apresentada para o mundo inteiro como a única princesa da Krósvia, ser perseguida por paparazzi e ter fotos comprometedoras divulgadas na imprensa. Ah! Também fora entrevistada pelo Fantástico.

Mas nada disso, nem uma mísera pontinha, fora mais difícil do que meu último ato no país de meu pai: dormir com a mulher de meus sonhos e acordar com a pior versão da rainha má.

Notas finais
Me desculpem? haha prometo que essa tempestade vai passar !!!