A princesa de Krósvia
10 Aspirante a Lady Di 2
Notas iniciais
— Emma espera.
— O que foi? — Meu tom foi de irritação. De propósito.
— A música. Eu traduzi a letra, e coloquei especialmente para você.
— Por que? — Meu coração estava a mil e Lacey estava voltando.
— Queria que soubesse como me sinto, achei que a música falaria por mim.
***
Antes que eu pudesse responder qualquer coisa para Regina, Lacey apareceu tirando Regina do carro, eu fiquei lá dentro por alguns minutos, tentando digerir o que tinha ouvido. Precisava procurar um psiquiatra, pois estou achando que estou ouvindo coisas.
Tia Ariel apareceu me tirando do transe, o que foi ótimo, pois estava quase correndo e perguntar para Regina se ela tinha dito mesmo aquilo.
— Emma! Que bom que chegaram!
Trocamos um abraço caloroso, eu equilibrando o pacote de brigadeiros. Ela também cumprimentou Regina e Lacey, mas foi minha mão que ela segurou e foi a mim que conduziu para dentro da casa em estilo colonial que abrigava o orfanato.
Depois que sai do carro, fiz questão de ignorar meus dois acompanhantes. Estar apaixonada não é sinônimo de ser otária. Duas coisas eu não faria de jeito nenhum: mendigar atenção de Regina enquanto ela estivesse com Lacey e bater de frente com a mesma, mais conhecida como Nome de Cachorro. Eu podia sofrer, podia chorar rios de lágrimas, mas não daria esse gostinho a nenhuma delas. Regina e Lacey que se aguentassem. Pelo menos ali.
Minha mãe sempre me avisou que homens não gostam de mulher grudenta. É diretamente proporcional: quanto mais elas agarram, mais eles se afastam. Tenho tanto pavor de me tornar uma pessoa assim que acabei distante até demais dos caras. Resultado: não sou nem um pouco fácil, mas também não tenho grandes experiências amorosas para listar. Sei que Regina é mulher, mas acho que nesse caso, essa regra vale pra ela também.
Segui com tia Ariel até uma sala pequena, onde uma freira colava cartazes numa parede revestida de azulejos amarelos. Lembrou minha antiga escola lá em São Paulo, onde estudei minha vida inteira. As freiras do colégio adoravam pregar mensagens e imagens nas paredes, deixando o ambiente, além de bonito, muito aconchegante.
A irmã, que usava um hábito claro, assim que notou nossa presença, deixou de lado o serviço e caminhou até nós com um sorriso angelical no rosto. Elas sempre têm, não é? Digo, as freiras e os sorrisos angelicais. Marca registrada.
— Irmã Isobel , esta é a Emma, minha sobrinha. Ela veio nos fazer uma visita e conhecer as meninas do Lar.
— Claro! Acompanhei a história dela na televisão. — Como minha tia nos apresentou em inglês, a irmã de caridade deve ter presumido que eu não falava krosvi, pois respondeu na mesma língua. — Seja bem-vinda, Emma. Tenho certeza de que as meninas vão ficar alvoroçadas quando conhecerem você.
Não querendo ficar para trás nem passar por menos importante, Lacey deu um pequeno passo à frente, fazendo-se notar. No entanto, ficou calada, pois queria receber a honra de ser apresentada à Irmã Isobel assim como eu fui.
Então, tia Marieva lembrou-se dos outros dois visitantes e tratou de incluí-los na conversa.
— E esta é a Lacey, Irmã. Ela é filha do senador e namorada da Regina, enteada do meu irmão David.
Todos se cumprimentaram, Regina mais amistosa do que a polida Lacey.
Não imaginei que a irmã trataria Regina e Emma tão bem, devido ao fato delas serem namoradas, mas acho que isso não era importante pois ela continuou com o mesmo sorriso angelical e acolhedor.
— Eu trouxe uns doces para as meninas, Irmã Isobel — anunciei, estendendo o embrulho na direção dela. — Não sei se fiz bem. Elas podem comer doces?
Realmente, eu não havia pensado nisso antes.
— Claro, minha filha. Elas vão adorar. E espero que sobre um pouquinho para mim, pois o aroma está delicioso.
Irmã Isobel e tia Ariel nos guiaram pelos cômodos da casa, que estavam estranhamente vazios. Eu esperava encontrar crianças e seus barulhos, mas tudo era calmo demais. Até chegarmos a um pátio, no interior do prédio. Lá, a algazarra era geral. Meninas de várias idades corriam e brincavam pelo espaço, observadas por outras duas freiras e uma mulher “à paisana”, isto é, que não usava hábito.
A princípio, nenhuma delas notou nossa presença. A diversão parecia das boas e um parquinho colorido devia ser bem mais atraente do que cinco adultos plantados na entrada do pátio. Até que tia Ariel bateu palmas. Isso foi suficiente para que as dezenas de pares de olhinhos se voltassem em nossa direção.
Vou contar uma coisa a vocês: foi amor à primeira vista. Assim que pus meus olhos sobre aquelas garotinhas órfãs, meu coração derreteu dentro do peito. Não porque elas fossem bonitinhas — e eram mesmo. Tinham as características do povo eslavo: cabelos e pele claros, olhos variando entre verde e azul, carinhas de anjo. Mas o que me pegou de jeito foi outra coisa. É duro encarar um monte de crianças aparentemente alegres sabendo que elas não têm pai nem mãe. Dá vontade de levar todas para casa e dar tudo para elas, tudo mesmo.
Irmã Isobel fez um gesto com as mãos e, num piscar de olhos, as meninas se juntaram a seu redor, embora os olhares estivessem fixos nas figuras estranhas que quebraram a rotina delas, ou seja, Regina, Lacey e eu. As outras mulheres adultas também se aproximaram e tia Ariel apresentou-as para nós, enquanto Irmã Isobel fazia um pequeno discurso em krosvi para as garotas.
Eu era a única que não estava entendendo nada. E acho que Regina percebeu meu desconforto, pois parou a meu lado e traduziu tudo o que a freira disse, que foi mais ou menos assim:
— Meninas, hoje estamos recebendo aqui na nossa casa uma pessoa muito especial. Ela se chama Emma e veio do Brasil para colorir ainda mais nosso lindo país.
Que fofa!
Uma menininha de uns 7 anos levantou a mão.
— Pois não, Aleksandra? — Regina repetiu as palavras de Irmã Isobel, em inglês e bem baixinho, com a boca quase colada à minha orelha. Mesmo perto de todas aquelas pessoas, senti minhas pernas fraquejarem. Eu estava no limite de me tornar patética.
— Eu sei quem ela é! — a menina chamada Aleksandra falou e Regina traduziu. — Eu vi na TV, lembra, Irmã Catia? Nós vimos juntas! — Ela parou um pouquinho para fazer suspense. — Ela é a princesa Emma da Krósvia.
Gritos agudos dominaram o ambiente. Não eram vaias nem exclamações de espanto, mas de reconhecimento. Subitamente, todas as garotas puseram-se a falar e a gesticular ao mesmo tempo, mas permaneceram sentadinhas no chão, muito disciplinadas.
As freiras pediram calma e tia Ariel assumiu o posto de porta-voz. Mesmo de costas, pude ouvir Lacey bufar. Quem dera ela resolvesse dar meia-volta e se mandar dali! Não me importaria nem um pouco se voltasse a pé para Perla.
— Meninas, vou falar em inglês porque sei que vocês são capazes de entender. E também precisam treinar, não é verdade? — incentivou tia Ariel.
— Siiiiim — responderam elas, em coro. Na verdade foi yeeeessss.
— Muito bem. A Emma é isso mesmo, Aleksandra. Nossa princesa. Mas também é uma moça muito inteligente e legal. Ela até fez uns docinhos de chocolate para vocês.
— Oba! — Podemos comer agora?
— Chocolate ao leite ou meio amargo?
— Quantos eu posso comer?
— Ela vai falar com a gente?
Se eu tinha achado a coletiva de imprensa no dia da cerimônia um festival de perguntas, bombardeio mesmo faziam as meninas do Lar Irmã Celeste. Só não cheguei a ficar tonta como na outra vez. Acho que estava me acostumando.
— Calma, garotas. Vocês vão ter tempo para comer os doces e também para conversar com a Emma. Ela vai passar um tempinho aqui com a gente, certo?
— Siiiiim — de novo.
Então, minha tia explicou minha história de forma bem resumida e disse que eu estava preparada para responder às perguntas, contando que cada uma das meninas esperasse sua vez. Elas foram organizadas por Irmã Catia e quase não podiam se conter de tanta ansiedade.
Confesso que estava nervosa. Sentia o suor brotar na palma das mãos e me segurei para não secá-las na calça jeans.
Resolvi me juntar às garotas no chão e me sentei entre elas. Foi minha melhor decisão das últimas horas. Fizemos uma grande roda no pátio e o bate-papo soou bem mais informal do que eu esperava. Ficamos um bom tempo por lá e o assunto entre nós fluiu espontaneamente, como se já fôssemos velhas conhecidas.
De cara, constatei que, embora nenhuma daquelas crianças tivesse família, elas não mostravam olhares tristonhos nem pareciam insuficientemente amadas. Isso me deixou feliz e acabou acelerando uma decisão que eu vinha formatando em minha cabeça desde que entrara no Lar: eu trabalharia ali pelo restante de meus dias na Krósvia. Se tia Ariel, que era casada, tinha um emprego e filhos e dava conta disso, por que não eu, uma desocupada de marca maior?
Claro que primeiro eu teria que convencer meu pai de que ficaria tudo bem. Traduzindo: eu precisaria garantir que não seria atacada nem sequestrada por nenhum maníaco ou terrorista. E eu tinha meus métodos de persuasão.
Quando dei por mim, Lacey já tinha sumido do mapa. Acredito que não aguentou me ver no centro das atenções enquanto ela era jogada para escanteio. Aposto que durante sua vida inteira ela sempre fora a estrela principal. Engula essa, Nome de Cachorro.
O legal foi que Regina permaneceu no mesmo lugar e não deu a mínima para os chiliques da namorada. Eu preferiria não ter que pensar nisso, mas era inevitável. Regina fazia parte da maioria de meus pensamentos durante o dia e de todos os meus sonhos à noite. E depois da declaração no carro, tudo estava mudando.
Eu não quis encará-la muito, mas deu para notar o olhar de aceitação dela sobre mim. Tinha um quê de orgulho e admiração, como se eu tivesse me revelado outra pessoa, bem mais digna de sua aprovação. Melhor não se empolgar, dona Emma.
Assim que a conversa com as meninas terminou, seguimos para o refeitório, onde os brigadeiros foram servidos. Para cada garota havia um lugar específico, por ordem de idade, percebi. Na hora, me lembrei daquele desenho Madeline, cujas histórias se passam na França. A menininha que dá nome à série também vive num orfanato, coordenado pela bondosa freira Senhorita Clavel, se não me falha a memória. Fiquei esperando a famosa oração que as internas proferem antes das refeições:
"Nós amamos nosso Deus, nós amamos nosso pão, mas acima de tudo nós amamos de coração."
É claro que não rolou, quero dizer, não assim, com essas palavras. Porém, antes de caírem matando sobre o brigadeiro, as meninas juntaram suas mãozinhas e agradeceram pelo alimento, numa prece sussurrada para Deus e para si mesmas.
Constatei que somos seres muito ingratos. A maioria dos seres humanos comem bem e com fartura e são incapazes de agradecer por isso. Já as garotas do Lar Irmã Celeste provavelmente tinham uma alimentação regrada e ainda diziam “obrigada”. Mais uma lição para minha vida.
— Tia Ariel, estou encantada — confessei, assim que me despedi de todo mundo, prometendo repetir a visita. — Elas são fofas e educadas e muito alegres também.
Atrás de mim, ressurgida de algum esconderijo misterioso, Lacey deu uma bufadinha, que eu interpretei como: “Deixa de ser puxa-saco,garota!”. Nem liguei.
— É verdade — concordou Regina, reforçando minhas palavras. Será que ela podia deixar de ser legal para que eu pudesse voltar a odiá-la? — São meninas muito espertas.
— Até chegarmos aqui, foi um trabalho longo e difícil — tia Ariel revelou, ajeitando uma mecha dos cabelos impecavelmente ruivos atrás da orelha. — Muitas meninas vieram completamente desamparadas, num estado terrível de fragilidade. Mas hoje as coisas são bem diferentes. Ainda bem e graças às irmãs que vivem aqui e se doam integralmente.
Aproveitei a deixa para expor minha ideia:
— Sabe, tia, estive pensando... será que eu poderia trabalhar como voluntária aqui no Lar? Eu poderia fazer qualquer coisa, tipo brincar com as meninas ou ler para elas.
Lacey me olhou como se eu fosse uma desvairada, mas Regina sorriu de um jeito encantador. Tia Ariel pareceu refletir, talvez considerando as possibilidades, e acabou dizendo:
— Ler para elas é uma ótima ideia. O problema é que não temos um acervo muito grande e os livros que temos já foram todos lidos.
— Se esse for o problema . — Regina interrompeu, assustando a todos, e continuou. — creio que esteja resolvido. David tem uma biblioteca enorme, ele não vai se importar.
Por um instante, todo mundo ficou mudo, olhando para Regina como se ela fosse uma ET e tivesse acabado de dizer que converso com animais. Tia Ariel chegou a abrir a boca, mas desistiu no meio do caminho.
— Você acredita que David vai dar corda para essa ideia maluca, Regina? — Lacey meio que debochou, mas sem ser muito explícita para não pegar mal, para ela, claro.
— Bom, tudo é negociável — Regina rebateu, parada diante de tia Ariel e eu. — Não é, Ari?
— Acho que pode dar certo — profetizei. — Aquele castelo vai acabar virando um museu se alguma coisa produtiva não for feita o mais rápido possível. Quem precisa de tantos livros se ninguém lê? Ou melhor, ninguém lia, né.Agora que eu estou aqui na Krósvia, pelo menos dei uma oxigenada naquela sala abandonada.
Nunca alguém apoiou uma sugestão minha com tanta veemência. Normalmente, eu só escuto: “Péssima ideia, Emma”.
— Concordo com isso — tia Ariel completou. — E as meninas vão poder sair do ambiente delas e ter acesso a uma outra realidade. Emma, se você não conseguir convencer o David...
— Eu convenço — Regina prontificou-se.
— O que? — Eu e Lacey dissemos em coro.
— Ah, não acredito que você vai entrar nessa, Regina! — Lacey bateu na perna, num gesto de extrema impaciência.
— Lacey, é o mínimo que eu posso fazer — ela se defendeu, dando uma banana para os protestos da namorada cachorra. — E ainda estou me envolvendo pouco. Queria ter a metade da coragem da Emma para assumir uma responsabilidade dessas para mim. E é por isso que vou convencer David, mas com uma condição. — Regina olhou para tia Ariel com suplica e continuou. — Eu quero trabalhar aqui também. Não todos os dias, mas o máximo que eu conseguir.
E eu que sou a corajosa? Mas isso, vindo de Regina, foi música para meus ouvidos apaixonados.
— Muito bem, então — tia Ariel concluiu. — Acertamos tudo com o David, depois combinamos com a Irmã Isobel. Mas vou sugerir que vocês fiquem com um grupo de meninas mais velhas. São as mais concentradas. Tudo bem assim?
— Tudo ótimo.
— Maravilha! — Fui abraçada por tia Ariel, que me deixou sem fôlego. — Você pode ter demorado a aparecer, Emma. Mas, sem dúvida, é uma de nós. Estou muito orgulhosa, querida. E de você também, Regina.
Como não lido bem com elogios, especialmente em público, corei dos pés à cabeça. Devo ter ficado parecida com um morango.
No trajeto de volta ao castelo, depois de beijos e despedidas, a voz de Ana Carolina dominou novamente o ambiente interno do carro. A raiva de Lacey era quase concreta, enquanto Regina plantava no rosto uma expressão de desdém que me fez ter até dó da garota. Bom, mais ou menos, né?
Eu, de meu lado, optei por ficar quieta, na minha. Se me fingisse de morta, talvez conseguisse escapar ilesa daquela briga iminente. Graças ao bom Deus que sou fã da Ana Carolina. Falar era impraticável, mas não li nenhum cartaz avisando que estava proibido cantar. Então eu cantei:
Sinto dizer que amo mesmo
Tá ruim pra disfarçar
Entre nós dois
Não cabe mais nenhum segredo
Além do que já combinamos
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