II



No dia seguinte, no primeiro dia do mês de novembro, o nosso desvalorizado guerreiro de inúmeras batalhas perdidas estava sentado desconfortavelmente numa cadeira de estofamento azul na recepção do Hospital Clementino de Jesus, o temível "Socorrão II", esperando a vez para ser atendido e encaminhado para algum lugar. Os funcionários chegando para mais um dia de trabalho com pacientes impacientes. Ao lado dele um rapaz que caíra e torcera alguma coisa urrava de dor cada vez que se mexia. A sala de espera ainda parcialmente vazia.
— Ei! Menina por que tu não atende o meu telefonema? Perguntou uma senhora para a atendente de verde sentada por trás do balcão azulejado.
As quatro e meia da manhã em ponto, ele despertou-se e levantou-se bruscamente da cama e foi para o banheiro fazer a sua toilette. Um atendente displicente lia um jornal de noticias popular. Uma medica no seu impecável jaleco branco e uma mascara cirúrgica fazia a triagem dos pacientes perguntando-lhes qual era o seu problema. Ela entra no gabinete e chama uma senhora magrinha com a menina que passou a noite toda com febre.
— Mas faça logo a ficha dela — Ordenou de dentro do gabinete.
As dores ciáticas começaram a castiga-lo impiedosamente
— Amanhã é dia de finados — diz uma outra funcionaria conversando ao celular. O atendente com feições seria com a pachorra de todo funcionário publico municipal digita os dados num computador do segundo paciente. Minuto depois que fez a sua ficha ele foi atendido pela doutorazinha que o encaminhou para o Ortopedista de plantão, um gigantesco medico que após preencher todos os formulários mandou-lhe para o Centro Cirúrgico.Depois de percorrer vários corredores apinhados de pacientes deitados ou sentados nas macas tomando soros. Outros algemados. Chegou finalmente a porta do Centro Cirúrgico. Um guarda de segurança abriu-lhe uma banda, ele entrou e caminhou-se para uma enfermeira que estava sentada atrás de uma mesa cheia de planchetas. Entregou-lhe a requisição e a chapa, ela anotou alguma coisa e o mandou que esperasse na outra sala. Ao entrar nessa ficou estarrecido, parecia que estava na ante-sala do inferno. Eram feridos de todos os tipos a espera de sua cirurgia. Macas espalhadas no chão, sangue no ladrilho e murmurio abafados de dor. Un nervosismo básico bateu-lhe nas entranhas. Um paciente com o braço enfaixado andava de um lado para outro como se tivesse dopado. Outro deitado numa maca coberto por um lençol clorido pedia ao guarda que chamasse seu pai no corredor.

— Eh! Eh! Seu guarda chama meu pai ai no corredor, um senhor moreno.

E finalmente o nosso poeta das ilusões perdidas entregou-se aos pensamentos de que realmente estava só, sozinho naquela fria sala de espera, rodeado de pessoas estranhas todas sofrendo a mesma angustia. Um rapaz nu da cintura pra cima com o braço esquerdo enfaixado conta a sua historia para o seu vizinho do lado. Ele faz bico de segurança e dois assaltantes tomaram a sua arma e o alvejaram uns tiros, infelizmente atingiram somente o seu braço. Meio acanhado, sentou-se no grande banco apinhado de feridos deitados.

Um enfermeira com uma plancheta na mão entrou na sala e chamou em voz alta:

— Quem é Constantino?

Com um pouco de esforço levantou-se e acena com a cabeça.

— Que dia foi isso?

— Ontem as onze horas da manhã — respondeu e sentou-se novamente e a enfermeira saiu da sala.

Aos poucos o ambiente estava lotado e os gemidos continuava. Uma paciente que estava do lado dele, reclama de dores e a enfermeira tentou movê-la para aplicar-lhe uma injeção, ela dar um grito. Ela esta dois dias esperando a cirurgia. Um rapaz com braço quebrado reclamou que faz também dois dias que nem almoça e nem janta somente a espera da maldita operação. "Já perdi as esperanças de almoçar, talvez jantar, passarei o dia todo aqui a espera da boa vontade de um cirurgião ortopédico que nunca cumpre a sua carga horaria" - Pensou desanimado com a situação. As dores ciáticas o afligia. Quando de repente um enfermeira branca, de óculos e jaleco verde rompe no ambiente com uma bermuda na ma mão direita

— Seu Constantino?

— Sim — Confirmou levantando- a mão

— Vista essa bermuda e siga para a sala cirúrgica 3 e rápido.

Ele levantou-se rapidamente e caminhou na direção da mesma apanhou a bermuda e foi para o banheiro. trocou-se, guardou as suas roupas na mochila deixou o toilete e seguiu a enfermeira por corredor bem limpo e iluminado até a sala de cirurgia, onde outros enfermeiras estavam a sua espera. Ele deitou-se na leito cirúrgico. Uma enfermeira aplicou uma injeção de anestesia misturado com soro no braço direito, No mão esquerda duas enfermeiras lavavam o ferimento com bastante rigor. Um jovem cirurgião simpático falava no celular enquanto era assediado por duas enfermeiras ... Ele fechou os olhos e rezou.

Quando ele acordou, o dedo estava enfaixado. Ele respirou aliviado. Obrigado, meu Deus ele disse baixinho. Ficou mais alguns minutos deitado sob observação de uma enfermeira morena sentada na porta, onde um auxiliar de serviço gerais passava-lhe uma cantada. Depois deitado numa maca o levaram para a sala de recepção, não havia leito disponível. Almoçou e começou a ler um livro. A enfermeira cismou de sua cara por besteira. Ele estava doido para sair e a mesma alegava que não podia fazer nada enquanto o medico que lhe operou não desse a sua alta. As duas hora outra enfermeira entrou e disse que o mesmo poderia sair. Foi um alivio. E sem perder um minuto levantou-se da maca ainda um pouco atordoado e caminhou-se para a portaria. Quando ele viu o sol e a avenida sorriu feliz.

Apanhou um ônibus numa parada próxima e teve a sorte de encontrar uma cadeira vaga atrás do motorista. Sentou-se aliviado.

O transito na Avenida Guajajara no bairro do São Cristóvão estava um inferno, um engarrafamento monstro tipico das vésperas de feriados estendendo-se até o retorno próximo ao aeroporto. O Motorista estressado pela lentidão que vinha se arrastando em outro engarrafamento na Avenida dos Franceses, causado por um acidente fatal envolvendo um infeliz motoqueiro cujo o corpo jazia sem vida no asfalto molhado em frente ao Uniceuma. Irritou-se com umas passageiras que insistiam em descer antes da parada, começando assim um bate-boca amenizado quando o mesmo abriu a porta traseira e elas desceram xingando-o.

Depois de quase quatro horas no transito confuso e desordenado, finalmente Constantino aos trancos e barranco chegou em casa, para o alivio da preocupada cunhada. O dedo enfaixado latejando e a ciática perturbando-o. Com uma sede homérica bebeu quase cinco copos cheios de água para o espanto de sua compadecida cunhada que o bombardeava de perguntas, depois ela pediu-lhe cinco reais emprestado, o que fez de pouco grado pois a grana começara encurtar e o pior não tinha como repor, pois passaria quase um mês inativo. Banhou-se com o maior cuidado evitando molhar a mão esquerda. Jantou uma buchada de boi que a cunhada preparou com muito esmero .Para amainar as dores tomou duas pilulas Infralag e ditou-se no seu pequeno sofá favorito para assistir um pouco de tv. Lembrou-se da visita do filho no dia anterior. A cunhada sentada na cadeira de macarrão preparava numa bacia a mistura que distribuiria para os seus animais enquanto via as cenas da novela das seis. As sete horas da noite vencido pelo cansaço e pelo sono levantou-se cambaleando do sofá e recolheu-se no aposento que durante um certo período dividiu com a sua falecida mãe.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!