A nova vida de uma alma sem lembranças
8 Capítulo 8 - A doença matadora de crianças.
Notas iniciais
Meus pais estão discutindo.
Eles não estão bravos um com o outro, mas é possível sentir uma certa tensão no ar.
Eu sou o motivo da discussão.
Parece que eu estraguei tudo de alguma maneira.
— Estou dizendo, querido, se não enviarmos ele agora, com essa quantidade enorme de energia, ele pode colocar a vila em risco.
— Ele é nosso filho! E ainda não tem nem 3 anos de idade.
— Eu sei, eu sei. Eu também estou preocupada com ele, afinal, eu sou a mãe dele, mas da maneira que está é arriscado demais, ele é muito perigoso.
— Presta atenção no que você está falando, Miena. Que exagero! Você está dizendo que seu próprio filho é perigoso.
— Mas eu vi aquilo! Com meus próprios olhos. Veja!...
Depois de dizer isso minha mãe pegou outro balde d'água e me pediu para fazer novamente o encantamento.
Eu já não lembrava direito, então pedi para me ensinar novamente.
Enquanto isso meu pai parecia ficar cada vez mais estressado com a situação.
Então eu fiz o encantamento novamente.
Logo depois de começar a dizer as palavras comecei a sentir minha mão formigar e minha energia ser sugada de dentro de mim.
Eu abri os olhos e vi minhas mãos brilhando como lâmpadas elétrica.
Chegava a ser difícil olhar diretamente para elas.
— Não pare agora, continue recitando o encantamento. — Disse minha mãe quando reparou que eu havia aberto os olhos.
Meu pai já não estava nervoso, ele estava espantado e boquiaberto.
Só que eu parei o encantamento naquele momento.
Eu senti que energia parou de ser sugada de mim.
Mas eu queria testar uma coisa.
Por algum motivo imaginei que o encantamento não fosse necessário.
Eu continuei a imaginar a sensação de ter minha energia sugada, junto com a vontade de aquecer a água.
Minha intenção era tentar replicar o movimento que a energia fez dentro do meu corpo novamente, só que sem dizer nada.
Aparentemente deu certo, pois em instantes a água começou a borbulhar e o vapor começou a sair de dentro do balde.
— O que você fez? Como que você continuou sem o encantamento? — Minha mãe também estava espantada.
— Não só isso. Esse encantamento, por mais poderosa que seja a pessoa, não deveria ferver a água. — Meu pai também estava indignado.
Uma semana se passou depois daquilo.
Eu não pude mais sair de casa.
Eu sentia o afeto de minha mãe, mas agora estava misturado com um sentimento de ansiedade e medo.
Meu pai disse "Eu vou resolver isso" e saiu do vilarejo para procurar por alguma coisa desde aquela noite.
Eu estava bastante preocupado com o que poderia acontecer a seguir.
Mesmo ansiosa, minha mãe tentava me acalmar.
O que será que acontecerá comigo?
Naquela noite meu pai voltou para casa.
Ele estava acompanhado.
Havia uma velha senhora com ele.
Ela não se parecia conosco.
Ela não deveria ser uma Elfa.
Definitivamente, ela era uma humana.
Depois de quase 3 anos nesse mundo, finalmente eu vi alguém da raça humana.
Uma senhora de idade aparentemente entre 60 e 70 anos.
Ela segurava um cajado e usava-o para se manter em pé.
Mas ela não parecia uma pessoa do bem.
Era definitivamente uma bruxa.
Tinha todos os aspectos da aparência comum de uma bruxa.
Seu cabelo era escasso e grisalho, e sua pele era enrugada e sugada como de uma múmia.
Meu pai a apresentou, Mayi era o seu nome.
Ela era uma estudiosa de magia.
Vestia um robe branco que cobria quase todo o corpo, incluindo um capuz para sua cabeça.
Em lilás havia várias letras escritas em partes do robe.
Letras que eu nunca vi, mas que eu tenho certeza de que eram o que eu buscava.
No topo do cajado dela havia algo esférico que parecia ser cristal, mas por dentro desse cristal parecia haver uma nuvem branca, deixando a esfera um pouco opaca.
O conteúdo no interior da esfera parecia um líquido que se movimentava lentamente por dentro da esfera.
Minha mãe me apresentou à Mayi.
Eu estava deslocado com a presença dela por vários motivos.
Primeiro de tudo, eu não havia visto uma pessoa de idade avançada até agora.
Todos no vilarejo pareciam ter no máximo 30 anos.
Deve ser por serem todos Elfos.
Todos eram muito saudáveis, embora também fossem muito magros.
Meu pai era o único que não era magro em todo o vilarejo.
Mayi se aproximou de mim.
Seus olhos pareciam esbranquiçados.
Talvez ela não conseguisse enxergar muito bem, ela parecia ter alguma doença ocular.
Mayi se abaixou e aproximou seu rosto de mim, resmungou algumas coisas e aproximou o topo do cajado de mim.
Então ela me pediu para encostar minhas mãos na esfera do cajado.
Sua voz era rasgada, como o que seria comum de uma senhora de idade avançada.
Um adulto não conseguiria colocar as duas mãos na esfera, pois ela era muito pequena para isso, mas com minhas pequenas mãos de bebê eu conseguia.
Quando cheguei perto, minhas mãos pareceram serem puxadas pela esfera como se fosse um imã e a cor do interior da esfera começou a mudar.
Eu senti minha energia ser sugada pela esfera e ela começou a se tornar cinza e ficando cada vez mais escuro, até que em um momento ela passou a mudar para outras cores, vermelho, azul, verde, amarelo.
Enquanto isso acontecia, a cara de espanto dos meus pais só aumentava.
Em seguida o cristal começou a ficar mais claro, ficando branco com um brilho bem intenso até que senti o cristal se quebrar, mas isso não aconteceu, pois no mesmo instante que eu tive essa sensação a senhora Mayi tirou o cajado de perto de mim.
Ela olhou com uma cara bastante séria para os meus pais e disse.
— É Estil! Ele precisa começar o treinamento mágico agora mesmo, caso contrário o corpo dele não aguentará. Ele também precisa comer uma fruta de Kojo pelo menos uma vez por dia.
— Mas ele não fez nem 3 anos ainda, ele poderia participar do treinamento mesmo nessa idade? — Perguntou meu pai.
— Ele pode ter 3 anos, mas a quantidade de magia no corpo dele é maior do que a de um adulto, por algum motivo ele também tem afinidade com água. Se ele não começar agora ele poderá causar uma sobrecarga multi-elementar, e se isso acontecer ele varrerá essa vila da face de Oriohn, talvez até parte da floresta e da montanha. — Então Mayi suavizou um pouquinho a seriedade do rosto e concluiu. — Eu mesma irei tratá-lo e treiná-lo.
— O que está acontecendo? O que vai acontecer comigo? — Eu estava ficando impaciente.
Minha mãe me pegou no colo.
Fazia tempo que ela não me pegava no colo, uma vez que eu já conseguia andar sozinho e não dava trabalho para ela.
Seus olhos estavam cheios de lágrimas.
Ela me disse que iria me explicar e me levou para o meu quarto.
Então minha mãe me explicou que quando nós completamos 12 anos, nós somos enviados a uma cidade próxima para praticar magia, pois a partir dessa idade a quantidade de magia dentro de nosso corpo começa a ficar instável, então nós treinamos o controle e usamos o excesso de magia para não correr o risco de causar algum acidente.
Aparentemente eu já estava transbordando magia e por sorte nós descobrimos isso antes do pior acontecer.
Quando eu perguntei sobre, foi me explicado que a Fruta de Kojo tem a característica de absorver magia, suas minúsculas sementes saem em nossas fezes com essa magia e então brotam uma nova planta com uma velocidade bem maior do que as plantas normais.
Essa fruta pode fazer um adulto ficar sem conseguir usar magia se comida em certa quantidade e é usada para tratar pessoas que não conseguem controlar bem a própria magia.
Como ninguém nunca havia precisado dela no vilarejo, ninguém sabia sobre o sabor.
Por sorte, como Mayi estava sempre preparada para esses casos, ela possuía algumas com ela.
Basicamente o formato da fruta madura era idêntica a um morango, mas suas sementes eram brancas e o fruto tinha uma cor escura, com um leve tom de roxo, muito próximo a cor de uma amora.
O sabor era horrendo.
Desde que eu nasci em Oriohn foi o pior sabor que eu já havia experimentado.
Como eu não lembrava do sabor de nada de minha vida anterior, não há nada a se comparar, mas é certo dizer que só se comia essa fruta em caso de necessidade, pois não haveria motivos para comer caso contrário.
Não havia maneira de apreciar o sabor dessa fruta.
E eu teria que passar a minha vida toda comendo isso?
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