A nova vida de uma alma sem lembranças
75 Capítulo 75 - O cão covarde.
Notas iniciais
— Você não vai pegar um cavalo? — Assim que pisamos para fora dos muros da capital imperial Khonar me questionou.
— Não...Desculpe, esqueci de dizer antes. Eu uso magia de vento para me impulsionar e correr mais rápido. Assim eu consigo correr na mesma velocidade de Huskie. — Eu respondi acariciando a cabeça do meu parceiro canino.
— Que legal! Eu não conheço essa magia. Então eu já vou levantar voo.
Khonar abriu suas asas.
Foi a primeira vez que eu vi as asas dele dessa maneira.
Elas eram enormes, devia ter uns 5 ou 6 metros de ponta a ponta.
O Elfo abaixou e pulou, usando as asas para se impulsionar.
Com uma grande força seu corpo foi jogado para o alto e ele começou a planar.
Ao bater mais uma vez suas asas, ele subiu ainda mais de altitude.
— Venha, Huskie, me acompanhe! — Eu dei o comando que geralmente usava para que ele começasse a correr comigo.
De fato, Khonar voava muito rápido.
Ele passava um bom tempo planando antes de precisar bater novamente as asas.
Quando ele começava a perder velocidade, era necessário apenas uma ou duas batidas de asas e ele ficava mais rápido que eu.
Para pegar velocidade ele começou a voar bem no alto, mas agora que ele já estava na mesma velocidade que eu e Huskie, ele voava em uma altura próximo a nós.
Eu não sei dizer direito, pois sem um equipamento para isso é bem difícil calcular com precisão, mas eu devia correr por volta de 50km/h.
Claro, só por conta da magia de vento que me impulsionava.
Mas nós não podíamos passar o tempo todo correndo nessa velocidade, pois tanto Huskie quanto eu nos cansaríamos.
Corremos por volta de 10 minutos nessa velocidade e eu já comecei a ficar ofegante.
Khonar também parecia cansado.
Nós paramos para tomar água e recuperar o fôlego.
Huskie ainda estava bem, mas ele também precisava parar um pouco, pois ele não conseguiria fazer o percurso todo de uma vez.
Depois de uma pausa de 4 a 5 minutos, nós voltamos a correr.
Um pouco menos de 10 minutos e precisamos parar novamente para hidratar.
Ficamos um pouco mais de tempo parados dessa vez.
Depois de correr e parar mais 2 vezes nós chegamos na fazenda.
Khonar subiu um pouco mais sua altitude para verificar a área.
Quando ele estava lá em cima eu senti o Elfo usando uma magia.
Então o Elfo alado pousou.
— Por Ovath! Você é rápido! — Disse Khonar assim que pousou, ofegante como eu. — Eu nunca vi alguém correr tão rápido assim!
— Eu também... Nunca vi um Elfo voar... — Eu disse enquanto recuperava o fôlego. — Deve ser tão bom poder ver essa vista quando quiser.
— Como assim? — O Elfo enxugava seu suor.
— A vista lá de cima, é tudo tão lindo. — Só depois que eu terminei de falar foi que eu percebi que eu podia ter ficado quieto.
— Você já voou? — Khonar me encarou bem sério.
— Bem... Sim... Eu já voei uma vez. — Não quis falar que foi em um dragão logo de cara, pois seria difícil de explicar.
— Como? — Seus olhos azuis pareciam me perfurar.
— É complicado de explicar tudo, mas eu já voei nas costas de um dragão. — Eu dei um sorriso forçado.
— Ah! É verdade né! Os Elfos Negros são amigos dos Dragões. — Ele sorriu também. — Gostaria de conhecer um Dragão algum dia.
— Eu posso providenciar isso, se você quiser. Eu sei onde mora um.
— Que legal! Por favor, eu adoraria. — Khonar parecia bem feliz.
Era engraçado o fato de ele não questionar muito as coisas como os outros faziam.
Não sei se é porque ele ainda é jovem ou pelo fato de ser um Elfo do Céu, mas ele parecia não ter ideias formadas sobre as coisas e simplesmente não parecia estranhar com as coisas que eu contava.
Nós tomamos mais um pouco de água e então entramos na fazenda.
Era uma grande fazenda, protegida por uma cerca de madeira e arbustos.
Ela parecia muito bem cuidada, pois os arbustos estavam bem aparados, mas era tudo muito simples.
Depois de andar por algum tempo, nós chegamos a uma casa.
Era uma pequena casa de campo, toda de madeira e pedra e bem rústica.
Próximo à casa, existiam algumas outras construções.
Uma delas parecia ser o local onde dormiam os animais e era bem maior que a casa.
Também era bem rústico e todo de madeira.
Quase todas as construções eram de madeira e pedra.
Mas havia uma que se destacava, pois ela era muito bela.
Acho que era o armazém, pois ele era feito de outro material.
Ele era claro, parecia ser de cerâmica, mas aquilo devia ser uma tinta especial.
Eu podia sentir uma fraca magia naquela construção.
E a arquitetura dessa construção era diferente.
Definitivamente aquilo foi construído por Elfos da Planície, pois era muito parecido com a arquitetura que se via na capital.
Nós batemos à porta da pequena casa.
Uma mulher nos atendeu.
Ela também possuía uma bela pele escura, com cabelos cacheados e grandes olhos castanhos.
Era incrível perceber que a íris cada olho humano parecia diferente, enquanto a dos Elfos eram como se fossem idênticos.
Ela não era jovem, parecia ter entre 40 e 50 anos, e parecia bem cansada, parecendo ter trabalhado muito durante sua vida.
Mas ela não era magra e parecia levar uma boa vida, sem faltar nada.
Seu nome era Muria.
Muria tinha uma expressão facial suave e tranquilizante, e ficou muito contente ao ouvir que éramos da Guilda.
A mulher parecia ter um pouco de medo de Huskie. Quando eu percebi isso eu posicionei Huskie atrás de mim.
— Venham comigo, vamos nos encontrar com o meu marido. — Ela começou a andar calma e suavemente em direção às construções da fazenda. — Ele está no estábulo.
— Faz muito tempo que vocês vivem aqui? — Para não ficar um silêncio chato, eu comecei a puxar assunto.
— Faz mais de 30 anos, desde quando me casei com Tacio. — Ela respondia enquanto sorria, parecendo relembrar um bom momento do passado.
— E só vivem vocês dois?
— Sim. Quero dizer... Não, nós temos o Habat, meu cachorrinho, mas ele tem medo de estranhos, então ele fica escondido em casa quando temos visitas. — Essa frase ficou engraçada, porque Habat era um nome comum para animal de estimação, mas também significava "corajoso". — E tinha a nossa filha também, mas ela está morando e trabalhando na capital hoje.
Eu queria perguntar mais algumas coisas, mas nós já estávamos na porta do estábulo.
Muria entrou na construção de madeira enquanto ficamos esperando para fora, então ela saiu com um homem humano, da mesma etnia que ela.
O homem devia ter a mesma idade que ela, mas ele era bem mais magro.
Tacio era forte, como um fazendeiro que coloca a mão na massa seria.
Ele parecia estar trabalhando desde o raiar do sol, então aproveitou a pausa para se hidratar também.
— Dessa vez foi bem rápido. — Ele comentou com uma expressão séria, depois que Muria já havia se afastado de nós. — Geralmente leva meses para ser atendido pela agência.
— Como podemos ajudá-los? — Khonar falou por mim dessa vez.
— Olhem... Eu já estou perto de me aposentar e estou vendendo a fazenda para me mudar para Trucia, então eu queria melhorar a proteção ao redor da fazenda para impedir os ataques de Kobolds. — O fazendeiro nos encarou um pouco antes de continuar. — Mas eu não esperava crianças para fazer esse serviço, e até onde eu sei, Elfos do Céu não podem usar magia de terra.
— Está tudo bem, eu consigo usar a magia Parede de Pedra sem problemas. — Eu respondi sorrindo para ele.
— Eu imagino que sim, mas é uma área bem vasta, vai levar um bom tempo. — Ele devia estar pensando que eu teria que descansar para recuperar energia.
— Certo, só que... Eu nunca vi um Kobold. Qual o tamanho deles e qual altura ideal para o muro?
— Bom... Infelizmente nós fomos atacados recentemente e eu acabei matando um deles antes de conseguir espantá-los. Eu vou te mostrar o corpo dele — Tacio parecia confiar um pouco mais em mim agora.
O fazendeiro nos levou até o armazém, de onde ele tirou o corpo de um pequeno réptil humanoide de dentro.
Ele tinha a pele marrom avermelhada, ficando branco apenas no peito e no pescoço.
Usava roupas de pele e armaduras de couro para proteger e esconder partes do corpo.
Seu focinho parecia um pouco mais com o de um dragão, ou de um crocodilo, que o de Zijaq, com pequenos chifres na parte de trás da cabeça.
O pequeno ser estava com um grande corte no peito e seu sangue vermelho manchava partes da sua roupa.
Tacio nos mostrou as pequenas armas que estavam com ele.
Era feito de madeira, couro e pedra.
Parecia que eles ainda estavam na idade da pedra polida.
O fazendeiro encarava o corpo do Kobold com um olhar de pena.
— Eles não são muito bons em pular por muros humanos, então acho que o dobro do tamanho dele já deva servir. — Comentou o fazendeiro.
— Entendo... Pode me mostrar onde serão feitos os muros? — Eu perguntei.
— Venha, vou te mostrar.
Tacio nos mostrou o caminho que o muro percorreria.
Basicamente era o mesmo que a cerca de madeira e arbustos dele seguia, mas ele parecia gostar dos arbustos e pediu para deixá-los no lugar e fazer o muro para fora da atual cerca.
Depois de nos mostrar todo o percurso, eu disse que ele poderia deixar comigo e se não precisasse ficar me acompanhando eu poderia fazer enquanto ele retomava seu trabalho.
O fazendeiro deu uma pequena encarada, mas concordou comigo e voltou para o seu serviço.
Eu comecei por onde estava mais próximo da casa e eles poderiam nos ver trabalhando.
Assim, se eu fizesse algo errado ele já poderia me corrigir e se estivesse certo eles poderiam se tranquilizar.
Eu precisei dar uma olhada no meu caderno, pois eu não lembrava mais o encantamento.
Por conta da grande quantidade de magias que eu estava aprendendo e pelo fato de não precisar usar o encantamento, eu passei a anotá-los, para quando eu precisasse relembrar.
Eu anotava mais ou menos o que eu pronunciava, ninguém parecia saber como se escrevia as palavras, mas aquelas anotações era o suficiente para eu me lembrar depois.
Eu usei o encantamento, porém no fim eu acabei regulando a altura e o comprimento da parede da maneira que eu faria sem o encantamento.
Khonar pareceu ficar impressionado, pois eu fiz uma grande seção do muro de uma só vez.
Mesmo assim, a área que seria construído seria bem grande e levaria algumas horas para terminar.
Eu teria magia o suficiente para fazer o muro todo, mas ficar andando debaixo da Khadji por tanto tempo me fez parar várias vezes para me hidratar.
Khonar me acompanhava, mas às vezes ele também voava e me falava como estava ficando, além de dar uma olhada ao redor para se não havia nenhum monstro ou Kobold por perto.
Eu estava sem minhas armas, acho que por isso Khonar ficou com a sua lança o tempo todo.
Quando era próximo do horário do almoço, Muria se aproximou de nós calmamente e nos chamou para comer.
Eu tentei recusar, mas ela insistiu e eu acabei aceitando.
A comida dela era deliciosa, parecia comida de uma avó que cozinha muito bem.
O interior da casa deles era bem simples, me lembrava a simplicidade de Khuma, mas de uma forma mais humana.
O fogão e forno a lenha feito de tijolos, os armários onde ficavam guardados os utensílios, até a mesa e as cadeiras, essas coisas me pareciam familiar de alguma maneira, talvez eu tenha visto alguma coisa assim na minha vida passada.
Depois de um curto descanso pós almoço, eu voltei a construir o muro.
— Você trabalha muito bem, estou impressionado. — Tacio se aproximou silencioso de nós e quase me assustou quando começou a falar. — Desculpa ter sido rude com você mais cedo.
— Não tem problema, eu realmente tenho uma aparência fraca. — Eu sorri, mostrando que não ligava para o que tinha acontecido.
— Mas me diga. O que um Elfo Negro está fazendo por aqui? Eu nunca ouvi falar de um de vocês se registrando na agência antes.
— É... Eu sou estranho mesmo. — Cocei a nuca com um sorriso antes de continuar. — Diferentes dos outros de Khuma, eu gosto de viajar e conhecer coisas novas.
— Aah! Você é de Khuma. É aqui perto, né? — O fazendeiro mostrou uma expressão mais feliz pela primeira vez.
— Sim! Eu nasci lá. — Eu respondi, mas voltei a encantar a magia logo em seguida.
Tacio ficou um tempo olhando, mas agora ele parecia um pouco admirado.
Logo ele voltou ao seu serviço.
Um pouco antes das 3 horas da tarde, ou às 6 Sizen como era dito em Oriohn, terminei de construir o muro.
Eu achava que levaria um pouco mais, mas no fim deu tudo certo.
Tacio analisou vários pedaços do muro, empurrando-o para ver se não cairia.
O muro devia ter meio metro de espessura e uns 2 metros de altura.
Se comparado com o planeta terra, era um muro grosso e baixo, mas para Oriohn e para proteger de Kobolds, era o necessário.
Era bem rústico também, nada parecido com o serviço de um Elfo da Planície.
O fazendeiro sorriu e me parabenizou pelo trabalho.
Ele me entregou um papel, dizendo que eu teria que entregar na Guilda para confirmar o término do serviço.
— Isso foi incrível. Se fosse um humano comum levaria uns 3 dias para ele terminar. Só os Elfos da Terra conseguem criar muros dessa qualidade tão rapidamente. — Agora Tacio estava animado. — Tinha momentos que parecia que o muro surgia sem você falar nada!
— Muito obrigado, vou levar isso como um grande elogio. Fico feliz que esteja contente com o meu serviço.
— Venha, deixe-me servir um suco para vocês, como agradecimento. — Tacio ofereceu para entrar novamente em sua casa.
Eu queria recusar, mas os olhos de Khonar brilharam quando Tacio ofereceu o suco e eu não tive como não aceitar.
Fale com o autor