A nova vida de uma alma sem lembranças
59 Capítulo 59 - Nascimento.
Notas iniciais
Minha mãe quase gritou quando me viu.
Ela me abraçou e começou a chorar.
Me soltando quando eu disse que ainda estava machucado e ainda doía.
Meu pai não demorou para falar.
— Querida, eu sinto muito. — Meu pai se desculpou, enquanto minha mãe olhava com raiva para ele.
— Você... — Minha mãe começou a falar, mas eu interrompi.
— Não! Não é culpa do pai. Ele não poderia controlar as minhas ações. — Eu falei às pressas para que eles não brigassem.
— Mas ele não devia ter levado você para lá. — Minha mãe falou, ainda brava.
— Desculpe, mãe, mas eu iria mesmo se vocês não permitissem. — Quando eu falei, minha mãe me encarou espantada. — Veja. Deixe-me explicar o que aconteceu, você vai entender.
Então nós entramos, descarregamos nossas coisas e fomos para a mesa.
Não colocamos nenhuma comida na mesa dessa vez.
Eu expliquei para Miena sobre a batalha e como que, no calor do momento, eu me joguei no meio dos Renegados para tentar proteger todos os outros caçadores, sem pensar duas vezes, achando que poderia lidar com eles sozinho.
Como eu fui nocauteado quando avancei para atacar um deles pelas costas e como fui capturado depois que todos os outros caçadores já tinham sido derrotados.
Eu falei de uma maneira que parecia ser um pouco arrogante, mas tentando fazê-la perceber que eu estava tão apto quanto qualquer outro caçador a estar lá e que eu teria ido de qualquer maneira.
— No fim, a culpa é minha por subestimar os Renegados, mesmo já sabendo sobre eles. — Então eu sorri sinceramente para concluir. — O importante é que eu estou aqui, não é?
Eu falei isso, mas doeu meu coração por outros 3 caçadores de Khuma não terem voltado para casa conosco.
Outros 3 caçadores de Khuma e 1 caçador de Maali não podiam sorrir como eu e dizer que estavam vivos.
Outras 4 famílias estavam chorando a morte de seus entes queridos.
Então minha mãe se levantou.
Com bastante dificuldade, já que sua barriga estava enorme e parecia ter grandes dores nas costas.
Ela foi até meu pai, abraçou-o e começou a chorar.
— Obrigada por voltarem vivos. — Ela falou enquanto chorava. — E me desculpe.
— Está tudo bem, querida. Você não tem culpa. — Meu pai abraçou-a de volta, também chorava. — Está tudo bem...
Depois de um tempo, nós começamos a nos arrumar.
Eu precisava refazer meus curativos e minha mãe insistiu em me ajudar.
Ela queria analisar meus ferimentos também, já que ela tinha um pouco de experiência.
Tenho certeza de que Miluce estaria bastante ocupado agora, então eu tentei não precisar dele para nada.
Quando minha mãe tirou meus curativos da cabeça, já olhando para meu cabelo todo cortado, ela se assustou e deixou os curativos caírem no chão.
— Filho... Sua orelha... O que aconteceu com sua orelha? — Ela perguntou espantada.
— Minha orelha? — Eu não entendi, então eu coloquei minha mão na orelha esquerda que antes estava enfaixada.
Faltava um pedaço da minha orelha.
A parte de cima, mais pontuda, que difere com as orelhas humanas não estava lá.
Uma grande parte do topo da minha orelha havia sido arrancada, aparentemente com a boca de algum Renegado.
Eu fiquei em choque.
Mas eu reparei que minha mãe poderia passar mal com o choque, então eu pensei em aliviar a tensão o mais rápido possível.
— Está tudo bem. Isso é só uma cicatriz... Não é importante. — Quando eu falei, sua expressão relaxou um pouco.
— O quanto você sofreu? — Ela suspirou, ainda triste.
— Eu não posso dizer que sofri, pois eu não me lembro. — Eu respondi, tentando acalmá-la. — A única coisa que eu tenho são os machucados, que logo estão curados. Assim como meu cabelo crescerá.
Então minha mãe acalmou-se novamente, ou então ela se forçou a acalmar.
Ela me ajudou com meus curativos, nós comemos enquanto falávamos das coisas boas da caçada e ficamos em silêncio em respeito aos que não sobreviveram.
Eu fui dormir em casa novamente, depois de parecer ter passado uma eternidade.
No dia seguinte eu acordei mais disposto, mas ainda cheio de dores.
Khuma parecia já querer voltar à normalidade.
Os caçadores que estavam bons já voltaram a caçar sem fazer rodeios.
Meu pai também estava muito machucado ainda e ficaria afastado da caça por um tempo.
Aproveitei o primeiro momento para preparar um chapéu improvisado.
Minha mãe ajudou, já que eu só tinha um braço bom.
Nós fizemos uma boina de couro, com a aparência que eu me lembrava da terra.
Ainda não havia visto algo assim em Oriohn, talvez eu tenha sido o pioneiro.
Eu usaria isso para esconder minha careca e meu cabelo curto enquanto ele crescia.
Durante o dia eu não queria ficar parado.
Eu ajudava minha mãe com os afazeres de casa, mesmo com ela insistindo para eu descansar, mas ela estava no final da gravidez e não podia fazer tanto esforço também.
Meu irmão mais novo poderia nascer a qualquer momento.
E foi assim mesmo que aconteceu.
Na noite daquele dia minha mãe entrou em trabalho de parto.
Metz buscou Miluce às pressas, enquanto eu e meu pai ficamos com minha mãe.
Era aproximadamente meia noite quando o parto aconteceu.
Eu ajudei Miluce com água quente e panos.
O parto de um Elfo é idêntico ao dos humanos.
A única diferença foi que a minha mãe não deu leite para os seus filhos.
Meu pai se desesperou e nós o deixamos esperando fora do quarto.
Então, enquanto eu segurava a mão da minha mãe, o choro de um recém-nascido tomou conta do quarto.
— Parabéns, Miena. Você "deu à luz" à uma menina saudável. — Miluce falou, mostrando o bebê para a minha mãe. — Vocês já decidiram o nome?
— Mayika. Sim, seu nome será Mayika. — Disse minha mãe com um sorriso cansado, por fazer muita força.
Miluce lavou o bebê com a minha ajuda e então entregou-a para minha mãe.
Eu não conseguia parar de sorrir.
O parto.
A biologia é incrível.
Por mais que esse mundo exista magia, nada é mais mágico que o nascimento de uma vida.
Mayika era o nome da minha irmã mais nova.
Eu entendi a homenagem.
Minha mãe queria homenagear Mayi, por ter salvado minha vida.
Talvez essa decisão houvesse sido tomada a muito tempo.
Se fosse menino, talvez ele se chamasse Mayirio.
E eu achava que ela daria o nome de Dinas, pela minha falecida irmã gêmea.
Assim que eu pude, eu peguei Mayika no colo.
Claro, com ajuda de Miluce, pois eu só tinha um braço bom.
Meu pai foi chamado e ele também pegou Mayika no colo.
Umbaku também veio, assim como Metz.
Apesar das tristezas, o sorriso voltou para essa casa com o nascimento da minha irmã.
Miluce logo nos deixou e voltou para seus afazeres.
Ele estava extremamente ocupado ultimamente.
Minha mãe levou 3 dias para se recuperar 100%.
Eu aprendi a fazer a bebida que daríamos à minha irmã.
Era de uma planta muito parecida com um mamão.
Mas o interior dela era branco bege.
Nós tirávamos suas sementes pretas, batia com uma outra fruta que parecia um abacate amarelo e adicionávamos água.
Aquelas duas frutas possuíam todos os nutrientes para o crescimento inicial da criança.
A água nunca poderia ser mágica, devia ser colhida na natureza.
Essas frutas nós já comíamos normalmente em nossas refeições também, mas não dessa maneira.
Eu não me lembrava deles preparando isso para mim quando eu era bebê, mas talvez por não prepararem na minha frente.
Depois de 6 dias do nosso retorno, meu pai voltou a caçar, mas eu ainda estava me recuperando.
Meu corpo havia ficado duro, a tensão de tudo que eu passei apareceu no fim das contas.
A exaustão muscular era grande, e eu sabia que ela era necessária para minha recuperação.
Aos poucos eu comecei a fazer algumas atividades físicas como se fosse fisioterapia.
Eu entendia um pouco como funcionavam os músculos e o que eu não podia exagerar, então eu sabia os movimentos que eu poderia fazer.
E assim eu passei os dias em Khuma, com o cabelo raspado, uma boina, uma parte da minha orelha esquerda faltando e uma irmã mais nova, enquanto eu tentava me exercitar para me recuperar.
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