A nova vida de uma alma sem lembranças

50 Capítulo 50 - O pequeno príncipe.


Notas iniciais
Postagem: 2021/01/31 20:24 Revisão: 2025/12/11 15:40

No dia seguinte eu acordei com um cansaço muscular enorme nos braços.

Parecia que eles cairiam.

Mesmo tomando um banho quente antes de dormir e com o chá relaxante de Necifran, não consegui fugir da exaustão nos braços.

Eu não saberia como eu faria para estudar hoje, mas eu fui mesmo assim.

Hoje eu finalmente contei sobre Umbaku.

Eu contei que o "Misterioso" salvou o dragão e depois de chegarem em Fargath o "Misterioso" foi embora com o dragão e não apareceu mais.

Como não houve nenhum conflito importante depois de Fargath, eu achei que seria legal encerrar a história do meu Alter ego nesse momento.


— Então ele não está aqui em Vegúrlia? — Mika perguntou.

— Eu ouvi dizer que ele está em Vegúrlia sim. — Eu respondi com um sorriso no rosto. — Até onde eu fiquei sabendo, ele está treinando a arte da espada com Necifran.

— Com Necifran!? — Quase gritou uma das crianças humanas. — Que maneiro.

— Vamos começar a aula crianças? — A professora nos colocou em ordem e começamos a estudar.


Depois desse dia, eu passei a contar histórias que eu me lembrava do meu mundo anterior.

Histórias como Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve e esses contos.

Disse que eram histórias que minha mãe e meu pai inventaram para me contar para que eu dormisse, já que eu era muito agitado.

Eles adoravam as histórias, não tanto quanto as aventuras com o grupo de Louyi, mas eles ficavam muito interessados nelas.

Percebi que até a professora prestava atenção no que eu contava enquanto estava trabalhando e arrumando as coisas antes das aulas.


Os treinos com espada continuaram como o de costume, avançando aos poucos conforme eu me acostumava com as bases, movimentos e posturas.

Eu aprendi a defender ataques, me esquivar e só então eu comecei a aprender a atacar.

As técnicas de ataque de Necifran eram potentes e geralmente determinavam o fim de um combate com apenas um golpe.

O estilo dele era basicamente estudar seu oponente enquanto se defende e se esquiva de seus golpes, procurando por uma brecha ou abertura para um ataque decisivo;

Em último caso ele forçaria uma abertura com um ataque falso ou com uma defesa específica que desorientava o oponente.

A maior parte das técnicas era para combate contra oponentes que sabiam lutar, mas existiam muitas técnicas que eram ótimas para usar contra monstros.


O dia da visita de Mayi finalmente chegou.

Eu estava tomando café da manhã, despreocupado, pois era dia de descanso e eu não teria aula, só teria treino de tarde.

Ela apareceu na Sereia-Tímida.

Ma'am ficou muito animada com a visita.

Como muitos, ela já conhecia Mayi, mas não apenas por histórias e fama, mas porque Ma'am, nos seus 10 anos, foi uma das alunas de Mayi.


— Estou feliz em ver que você ainda está saudável. — Ma'am disse para Mayi.


Mayi perguntou por mim pra Ma'am, embora eu estivesse lá no refeitório já.

Acho que Mayi realmente tem a visão debilitada já.

Ma'am sorriu como quem já esperava por isso.

Então Mayi veio até mim.


— Bom dia, menino Dinus. Tudo bem?

— Quanto tempo Mayi. Bom dia. Estou ótimo e como está você? — Eu não usava "senhora" para Mayi porque ela não gostava de ser chamada assim.

— Bom. Eu posso dizer que estou bem. — Ela se sentou na minha frente pedindo licença. — Eu consegui conversar com a rainha e consegui convencê-la a usar a sua ajuda. Mas eu preciso testar a sua técnica primeiro e ela quer te conhecer pessoalmente também.

— Me conhecer pessoalmente? A rainha? — Eu não sabia o que eu poderia dizer, mas acabei pensando na confusão que eu poderia estar me metendo. Acabei respondendo aquilo que achei que seria o mais correto para a ocasião. — Seria uma enorme honra.

— Ótimo, quando você terminar seu café da manhã, vamos realizar o teste, então eu te levarei para a audiência.

— Entendido.

— Mais uma coisa. — Mayi agora pareceu ficar menos séria. — Eu tive que pesquisar um pouco para descobrir sobre isso. Eu me lembro de dizer que você tinha aptidão para todos os elementos e para magia negra, correto?

— Sim, eu me lembro disso. — Ela havia dito isso no dia que ela me visitou em Khuma.

— Então, você gerou uma nova aptidão... De alguma maneira... — Ela pareceu pensar um pouco antes de falar. — Eu levei um tempo para descobrir, mas agora você pode também usar magia draconiana e magia maligna, embora eu não conheça nenhum encantamento para elas.

— Quê? Como assim? — Eu assustei. — Quer dizer que há vestígios de energia maligna em mim?

— Não sei dizer, meu cajado diz qual tipo de energia você pode usar pelas cores que ele apresenta, mas apareceram 2 cores diferentes que eu nunca havia visto. — Mayi começou a explicar. — É a maior probabilidade, já que não existe nenhum estudo certeiro sobre isso, mas eu encontrei alguns documentos que dizem sobre a cor da energia draconiana e a cor apresentada era a mesma que a sua, porém a maligna é suposição, já que não existe nenhum caso na história.

— Mas eu me sinto tão bem. Até me sinto mais energético desde que parei de comer a fruta.

— Quando você encontrar com Umbaku novamente, tente pedir para ele lhe ensinar alguma magia draconiana, se você conseguir usar minhas suposições estarão corretas.

— Entendi. — Eu pensei um pouco e me lembrei que havia prometido voltar para o nascimento de meu irmão mais novo. — Eu precisarei visitar minha mãe em breve, então eu poderei confirmar isso.

— Sim... Peça para Miena usar sua magia de cura em você, por via das dúvidas.

— Certo!


Eu terminei meu almoço e nós fomos para uma grande praça da cidade para fazer o teste.

Mayi usou uma magia que erguia uma barreira de pedra.

Devia ser uma magia simples e que causaria pouco desgaste em seu corpo, já que foi a primeira vez que a vi encantar uma magia.

Ela me pediu para eu sugar a energia da magia dela enquanto ela tentava manter a barreira de pé.

Eu conseguia sentir a magia controlando a terra que formava a barreira, então eu usei a mesma técnica de quando suguei a energia maligna de Umbaku.

A barreira de pedra simplesmente desmoronou.


— Incrível. Nunca alguém conseguiu cancelar uma magia de outra pessoa antes. — Mayi estava admirada. — Você possui uma característica única e maravilhosa.

— Deu certo? Era isso? — Eu estava curioso para saber se o teste foi um sucesso.

— Sim. — Mayi recuperou a postura. — Aconteceu conforme eu previ, você consegue sugar a energia de outra magia para si, assim como a de outro corpo. Com isso nós devemos conseguir controlar a energia do príncipe. Vamos para a casa real imediatamente.


Nós deixamos a praça e seguimos caminho para uma área extremamente nobre da cidade.

Eu não havia entrado nesse bairro antes.

Todas as casas, ou mansões, eram bem separadas umas das outras.

O menor terreno das casas desse bairro era maior que o terreno da família de Kurio.

Mayi me explicou que aquele bairro era apenas para as grandes famílias da política imperial dos Elfos da Planície e entre os humanos apenas a família real podia possuir um imóvel nessa área.

No meio de muitas belas mansões parecidas, nós paramos no portão de uma delas.

Todas seguiam a mesma arquitetura, apesar das diferenças nas construções, era fácil confundi-las.

Deve ser por isso que Myuka teve dificuldades para encontrar essa casa.


— Estou aqui para a audiência com a vossa majestade a rainha. — Mayi disse para um dos soldados humano que estava no portão.

— Sim, senhora! — Então o soldado apressou-se e entrou no terreno da mansão para informar a nossa presença.

— Dinus, peço para que seja bastante respeitoso e evite falar durante a audiência. — Mayi falou baixinho para mim.

— Entendi. Vou fazer o meu melhor. — Mayi sorriu depois da minha resposta.


Nós entramos na mansão.

O interior lembrava muito a mansão de Louyi.

Embora a arquitetura do exterior fosse de Elfos da Planície, por ter sido construído por eles, o interior era decorado por humanos.

Existiam tapetes nas paredes como se fossem quadros.

Tudo parecia muito mais luxuoso do que qualquer outra casa em que eu já estive.

A casa dos Sangue-de-Prata parecia apenas mediana perto daqui.

Lembrava muito a cultura árabe e persa, com um pouco da cultura africana, mas de maneira única como tudo em Oriohn.

Bem destacado na primeira sala, na parede que ficava de frente para a grande porta, existia um enorme tapete com o mapa continental de Oriohn, uma obra de arte linda com detalhes em dourado e vermelho e as partes desenhadas com costura em creme, bege e marrom escuro.

No extremo norte e no extremo sul do continente estavam escritos "Templo de Yan" e "Templo de Oda" respectivamente.


— Senhora Mayi, senhor Dinus, por gentileza, me acompanhem. — Um alto homem que parecia ser um mordomo, muito parecido em comportamento e postura com Seltiro, mas da mesma etnia de Louyi.


Então nós entramos em uma grande sala comprida com algo parecido com tronos no fim dela.

Existiam cadeiras nas laterais e um tapete seguindo da porta até os tronos.

Os dois tronos eram do mesmo tamanho, mas havia detalhes diferentes nele.

Apenas um dos tronos estava sendo usado, com uma alta mulher parda, com belos cabelos cacheados e belas roupas de vermelho e dourado, e muitos acessórios ornamentais como joias verdes e azuis em seu corpo.

A íris de seus olhos era escura como a noite e seus cabelos eram castanhos bem escuro, mas ainda era possível ver um brilho marrom.

O trono que estava em nossa esquerda estava vazio e devia ser o trono do rei.

Havia várias pessoas na sala que pareciam empregados e guardas.


— Vossa Majestade. — Mayi ajoelhou-se em uma perna ao chegarmos próximo ao trono e abaixou sua cabeça. Eu fiz o mesmo.

— Mayi. Levantem suas cabeças. Vocês não são meus súditos e não devem reverência a mim. — Só então Mayi levantou-se e encarou a rainha nos olhos. — Ele passou no teste?

— Sim. Foi exatamente como os meus estudos indicaram. — Mayi começou a falar. — Segundo o que eu pude examinar, a doença suga para o corpo do doente a energia à sua volta, fazendo-o sobrecarregar. E esse garoto... Dinus... É o único que eu conheço capaz de remover a energia de outros corpos.

— Ótimo, vamos nos apressar então. — Então a rainha se levantou do trono e falou bem alto. — Tragam meu filho!


Os criados obedeceram a ordem e em instantes um berço com um bebê dentro foi trazido para a sala de audiência.

O bebê era relativamente grande, parecia ter pouco mais de 2 anos de idade, mas estava com uma compressa fria em sua cabeça.

Eu podia sentir uma enorme energia emanando do corpo do príncipe, mesmo sem usar qualquer detecção mágica.


— Vossa majestade, se me der licença, eu posso começar? — Tentando ser o mais respeitoso possível eu perguntei.

— Sim, apresse-se. — A rainha respondeu com seriedade.

— Com a sua licença.


Então eu encostei minha mão no braço da criança e comecei a meditar.

Se eu simplesmente sugasse a energia do corpo dela, quem ficaria sobrecarregado seria eu.

Mesmo para mim, que estava acostumado com muito mais energia que um outro Elfo normal, aquela quantidade era enorme e tenho certeza de que me faria mal.

Ao mesmo tempo que eu suguei a magia da criança eu a expeli do meu corpo para o ar.

Eu não sabia se a criança sugaria toda essa energia de volta, mas enquanto eu estava fazendo eu percebi que o processo de sugar era lento e eu poderia fazer daquela maneira.

Alguns minutos se passaram com todo mundo quietos me olhando até eu conseguir remover todo o excesso de magia do pequeno príncipe e deixar apenas o normal para uma criança.


— Pronto. — Eu quebrei o silêncio. — Se eu remover mais energia dele acabará fazendo mal.

— Ótimo. — A rainha falou imediatamente em seguida. — Lara!

— Sim, minha majestade. — Respondeu uma das criadas.


A criada encostou na bochecha da criança uma pedra amarela e esférica, parecendo uma bolinha de gude.

Ela ficou encarando a bolinha por um momento, mas nada aconteceu, então ela falou animada.


— A febre... A febre já abaixou! — Ela tremeu quando tirou a bolinha de dentro do berço.

— Incrível! — A rainha falou. — Todos! Deixei o recinto, quero ficar sozinho com Mayi e Dinus.

— Sim! — Todos responderam quase em coro e obedeceram a ordem.


Ficamos apenas eu, Mayi, a rainha e o príncipe no cômodo.

Assim que ficou tudo silencioso novamente, a rainha começou a chorar.

Ela parecia ter perdido toda a força da perna e Mayi teve que ajudá-la a ficar de pé.

Toda sua postura de realeza havia desaparecido, só era possível ver uma mãe chorando de felicidade pelo seu filho.


— Rainha Na'am'mi. — O nome da rainha foi dito por Mayi, falava-se Naãmi, enquanto ela colocava a mão no ombro da rainha para confortá-la.

— Finalmente, minha amiga... Meu filho... Namir agora tem esperanças de sobreviver... — A rainha falava em meio ao choro.

— Sim! Na'am'mi... — Mayi ajudava a rainha a manter-se de pé. — Agora tudo dará certo.

— Dinus! — A rainha tentou recuperar de volta toda a postura enquanto enxugava seu rosto com um lenço que Mayi havia lhe dado. — Você... Você salvou meu filho... Como eu posso...?


Então a rainha voltou a chorar.

Mayi voltou a tentar manter a rainha de pé enquanto ela chorava e me pediu para sair da sala e deixá-las a sós um tempo.

Entendendo o que a Mayi queria, eu saí pela mesma porta que entrei.

Os criados e guardas estavam todos em silêncio do lado de fora olhando atenciosamente para a porta quando eu saí.

Eu me afastei da porta e me aproximei deles para ficar com eles da mesma maneira.

O mordomo que nos atendeu se aproximou de mim, abriu um grande sorriso e me deu os parabéns.

Alguns minutos se passaram e a grande porta se abriu com um grande empurrão.

A rainha saiu da sala gritando.


— Tragam todos os médicos! Quero que examinem meu filho da cabeça aos pés. — A rainha parecia que não havia chorado um segundo sequer e estava com sua postura completamente recuperada.

— Sim! Vossa majestade! — Todos gritaram e começaram a se movimentar.

— Dinus. — A rainha abaixou-se para ficar na minha altura. — Eu tenho muito o que falar com você, mas agora eu estarei muito ocupada na recuperação do meu filho. Eu terei que chamar-lhe novamente em breve, então por favor, continue a nos ajudar.

— Sim! Vossa majestade. — Eu respondi. — Estarei à sua disposição. Será uma honra ajudar o seu filho que sofre a mesma doença que eu.

— Então é você... — A rainha me encarou profundamente e depois sorriu. — A primeira criança que sobreviveu à doença de Estil. Darlam! Acompanhe esse garoto.


O mordomo já estava próximo de nós com um copo e uma jarra de água em uma bandeja, entregou o copo com água para a rainha e então me pediu para acompanhá-lo.

Chegando no portão eu percebi que Mayi havia ficado na mansão, então eu pedi para o mordomo Darlam me acompanhar até o bairro de Necifran que ficava próximo, pois eu não sabia ir embora de lá.

Ele sorriu e me acompanhou silenciosamente.

Não sei se ele parecia empolgado pelo príncipe estar melhor ou curioso por eu ser um Elfo Negro diferente, mas ele parecia inquieto.

No fim eu voltei sozinho para a estalagem e continuei meu dia como se nada tivesse acontecido.

Notas finais
Caso encontre algum erro gramatical ou de digitação, fique à vontade para me enviar a correção. Agradeço profundamente qualquer apoio.