A nova vida de uma alma sem lembranças
40 Capítulo 40 - Sobre histórias de dragões.
Notas iniciais
Depois de muito pensar em meu quarto na estalagem, eu lembrei que precisava comprar caderno e aquilo que parecia um grafite para as aulas.
A aula acabou no horário do almoço e eu havia acabado de almoçar.
Eu não encontrei Myuka na Taverna então decidi me aventurar no mercado sozinho dessa vez.
Fui muito complicado e eu gastei mais tempo do que deveria, mas eu encontrei um lugar para comprar meu material.
Era relativamente barato.
Para uma pessoa pobre não seria tão barato quanto na terra, mas não era um absurdo como eu achei que seria, por estar em um período aparentemente medieval.
Esse mundo, apesar de pouca tecnologia, era bastante desenvolvido socialmente.
Eles ainda usavam cavalos, carroças e carruagens para se locomover, e não havia algo como encanamento, mas o sistema de ensino deles não parecia seguir a mesma linha de lógica e era extremamente avançado para o mundo em que eles vivem.
Também notei que eles eram extremamente globalizados, havendo pessoas do mundo todo em todos os lugares e sabendo sobre o mundo todo.
Diferente de como era na terra em períodos medievais.
De qualquer maneira, eu consegui comprar um material decente para minhas aulas.
Eu até poderia ter facilidade em aprender, por já saber a escrever no idioma de minha vida passada, mesmo assim aprender a ler e escrever um idioma novo, com ideogramas novos, é algo muito difícil e demorado.
Eu estava pensando como eu faria para me sustentar enquanto estudava.
Eu não queria depender da família de Kurio de maneira nenhuma.
Eu poderia sair para caçar, se estivesse próximo da floresta, mas a floresta está a mais de um dia de caminhada.
As carnes chegavam à cidade por mercadores, como Taime.
Fora caçar, não havia algo que eu lembrava que poderia fazer sem perder as aulas.
Quando voltei para a estalagem, pensando sobre esse assunto, eu estava um pouco frustrado.
Mas eu devia ter dinheiro para viver por alguns meses sem me preocupar muito, pois o pagamento da guarda de carga foi bastante generoso.
Então, no fim, eu decidi não esquentar muito a cabeça com isso por enquanto.
Eu estava em meu quarto, deitado na cama, pensando na vida enquanto meditava e quase caindo no sono quando Myuka bateu em minha porta.
— Dinus. Você está aí?
— Sim! — Eu despertei do transe em um pulo. — Já vou abrir para você.
— Com licença. — Myuka entrou no meu quarto com um sorriso bobo no rosto. — Você não vai acre... Espera, o que é isso?
— Meu material escolar. — Ela apontou para minha bolsa que eu havia preparado. — Eu fui ao mercado comprar hoje.
— Material escolar, hein? — Ela ficou olhando como quem estivesse lembrando do passado. — Aah! Sim! É verdade. Hoje foi seu primeiro dia de aula. Como foi?
— Foi ótimo. Veja! — Eu peguei minha folha que havia usado na aula no dia empolgado para mostrar a ela. — Eu aprendi a escrever o meu nome.
— Que legal! Parabéns. — Então ela pensou um pouquinho. — Você foi sozinho no mercado?
— Sim, não queria te atrapalhar.
— Que perigo! É perigoso ir lá sozinho. Você poderia ter sido... Se bem que, sendo você, eu acho que seria difícil. — Eu acho que ela queria dizer que eu poderia ter sido roubado. — De qualquer maneira. Você não vai acreditar no que eu consegui.
— Um emprego? — Eu chutei, já que era o que eu mais queria no momento, e ela parecia bastante animada para me contar.
— Não... — Ela olhou para baixo meio triste por um momento, mas então ela recuperou o sorriso e disse. — Mas acho que você vai gostar mais do que um emprego.
— Eu... Então eu não sei. — Não fazia ideia de o que ela estava tão animada para contar.
— Eu descobri o paradeiro de Mayi! — Ela respondeu pulando de animação.
— Sério!? Que legal! — Sem pensar no que eu estava fazendo, eu abracei Myuka.
Eu havia me esquecido completamente disso.
Uma felicidade surgiu em meu peito quando eu ouvi Myuka dizer.
Eu poderia reencontrar Mayi depois de tanto tempo.
Com o meu abraço, Myuka ficou quieta.
Talvez ela tenha se surpreendido, ou talvez ela não gostasse de abraços. Talvez abraços não fossem tão comuns para os outros quanto eram para mim. Eu não sei.
Mas eu percebi que ela ficou um pouco constrangida, então eu me afastei um pouco.
Depois de alguns instantes em silêncio, ela voltou a falar com o rosto um pouco vermelho.
— Ela está aqui nessa cidade, em uma casa da família real, então será bem difícil encontrá-la lá sem autorização. Mas nós podemos descobrir quando ela sai da casa por algum motivo para nos encontrarmos com ela. — Ela parecia sem jeito ao dizer.
— Isso é ótimo! Muito obrigado Myuka. — Eu respondi, ainda constrangido por conta do abraço.
— Eu descobri também que existe outra criança que sobreviveu à doença de Estil. — Myuka me contou séria. — Depois que chegou aos ouvidos da rainha que havia uma criança que sobreviveu, ela ficou curiosa se o filho recém-nascido dela poderia ter essa doença também, e para não correr o risco de ele ter e ninguém saber, ela chamou Mayi por precaução. Acontece que ele realmente tinha e pela sorte de terem chamado a Mayi antes de nada pior acontecer, eles conseguiram salvar a criança.
— Outra criança como eu? Será que ele consegue sentir magia como eu? Será que ele conseguiria usar magia sem usar os encantamentos também? Gostaria de conversar com essa criança.
— Como é um príncipe, eu duvido que você conseguirá conversar com ele, mas podemos perguntar para Mayi também.
— O que podemos fazer agora?
— Agora eu vou tentar descobrir onde fica a casa do príncipe e começar a vigiar para ver se vejo Mayi saindo de lá.
— Você conhece a Mayi? — Acabei percebendo que, Mayi é nova demais para ter ensinado magia para Myuka.
— Claro! Quem não conhece a Mayi? Ela é uma heroína. A muito tempo atrás, ela lutou contra os renegados, nessa época ela ainda era a feiticeira da corte.
— Feiticeira da corte? Ela é tão poderosa assim?
— Ela foi a maga mais poderosa que a humanidade já conheceu até hoje! Ela é uma lenda viva. — Myuka respondeu empolgada e saltitando. — Ela usava magias que podiam destruir uma cidade inteira e derrubar uma montanha. A menos de 40 anos atrás foi ela que lutou contra e matou o último dragão conhecido que foi corrompido e atacava os povos de Oriohn.
— Incrível! Eu não sabia disso. Então dragões atacavam antigamente?
— Não era muito comum, já que os dragões, mesmo quando corrompidos, passavam muito tempo hibernando. Mas quando havia um ataque de dragão, geralmente era um desastre. — Ela se abaixou para se aproximar do meu rosto. — O último dragão rubi corrompido atacou a capital real e foi derrotado pela Mayi, mas ele já havia deixado todo o reino em meio ao medo e terror.
— Dragão rubi? Muda alguma coisa de um para outro?
— Não muito, só muda a cor das escamas, os rubis eram um pouco mais raros, Umbaku é um dragão esmeralda, que são mais comuns.
— Entendi.
Então Myuka começou a me contar a história dos dragões.
Assim como os Orcs Verdes os dragões sempre foram guerreiros naturalmente, mas eles geralmente viviam com os elfos negros, e quando eles viviam com os elfos negros eles ficavam comportados e mansos.
Aconteceu que a energia maligna dos Renegados, que é a origem dos monstros, também começou a afetar o comportamento dos dragões, foi quando eles começaram a atacar sem motivos, mesmo aqueles que viviam com os elfos negros perderam o controle de suas ações e se tornaram monstros terríveis.
Com isso, um enorme medo aos dragões tomou o coração dos povos de Oriohn e ele passou a se tornar um monstro temido e evitado.
Nem os grandes aventureiros se arriscavam caçá-los, pois por mais valiosos que suas partes pudessem ser e grande a recompensa pelo seu abate fosse, era quase certo que eles não seriam fortes o suficiente para derrotar um dragão.
Com isso eu entendi o porquê de Mayi ser tão respeitada por todos aqueles que eu comentei sobre conhecê-la.
Uma coisa me chamou muita atenção, enquanto Myuka me contava sobre os dragões.
Eu nunca havia parado para reparar o quanto as pessoas ficavam empolgadas para me ensinar algo.
Todos aqueles que me explicaram, ensinaram ou contaram alguma história para mim, sempre estavam com um grande sorriso no rosto e bastante animado com isso.
Foi nesse momento que eu parei para pensar, enquanto Myuka falava, que o motivo era eu.
Eu era um Elfo Negro.
Nenhum elfo negro gostava de sair de suas vilas e se aventurar pelo mundo.
Poucas pessoas tinham a chance de conhecer um elfo negro em suas vidas, a não ser durante caças à monstros e Renegados.
O Elfo Negro também não gostava muito de escutar histórias e aprender as coisas sobre o mundo afora, então eles dificilmente ouviam o que os outros falavam sobre essas coisas.
Os outros elfos até tinham mais chances de conhecer um de nós, mas os humanos viviam por pouco tempo em comparação aos elfos, e era muito raro conhecer um elfo negro em vida.
Apesar de tudo os elfos negros tinham a fama de serem muito educados e caridosos quando alguém precisava deles.
Alguns casos de pessoas em perigo ou machucadas que foram resgatados em alguma floresta e foram cuidados pelos elfos negros relataram que eram muito bondosos e acolhedores.
Ou seja, a fama era de que os elfos negros eram tímidos e introvertidos, mas bastante preocupado com o bem-estar de todos.
De qualquer maneira eu era um ponto totalmente fora da curva.
Eu era criança, elfo negro e aventureiro.
Então as pessoas gostavam da ideia de me ensinar algo, já que seria uma situação totalmente única na vida deles.
Eu só entendi isso naquele momento.
Apesar de parecer passar pouco tempo enquanto conversávamos, a noite chegou e nós jantamos, nos banhamos e fomos dormir.
Essa noite eu dormi mais tranquilamente, então eu consegui reparar que, assim como todos os outros lugares que eu dormi até então, era muito frio comparado à minha casa.
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