A nova vida de uma alma sem lembranças

39 Capítulo 39 - Guia de sobrevivência escolar.


Notas iniciais
Postagem: 2021/01/09 21:29 Revisão: 2025/12/11 15:32

Um novo dia amanheceu.

Dessa vez eu fui acordado por Myuka, que estranhou o fato de eu ainda estar dormindo.

Eu estava completamente exausto e dormi profundamente durante a noite inteira.

Eu não havia prestado atenção na manhã anterior, mas as roupas leves de dormir dela não eram como pensei que seriam na luz, pois não era possível ver através da roupa como eu havia achado.

Myuka me falou que eu me atrasaria para me matricular na escola.

Então eu me arrumei e tomei meu café no bar da estalagem

A comida daquela senhora estava maravilhosamente saborosa novamente.


Essa manhã a estalagem estava um pouco mais movimentada.

Muitos olhares caíram sobre mim, já que eu era uma pessoa completamente diferente do habitual naquele lugar.

Muitos aventureiros e viajantes se hospedavam lá, e mesmo que eu fosse um viajante, eu não me parecia com um, com a minha idade e tamanho.

Mas era uma situação normal para mim e eu já estava acostumado com todos esses olhares, mesmo que em uma quantidade muito maior que o costume.

Eu terminei meu café e fui para a escola.

Myuka queria me acompanhar, mas eu preferi ir sozinho para aprender a me virar logo na cidade, além de não depender muito dela.


Fiquei um pouco ansioso no caminho, pois era muito estranho andar pela cidade.

Mesmo que eu já tivesse ido com a Myuka e aprendido o caminho, parecia que eu ia me perder a qualquer momento.

Só fiquei aliviado quando encontrei o edifício onde ficava a escola.

Chegando antes do horário da aula, a professora já estava lá para atender as pessoas e preparar o recinto para a aula do dia.

Ela era uma mulher relativamente jovem, da raça humana.

Eu achei que como era uma cidade dos elfos da planície, a professora seria uma Elfa também, mas havia muitas escolas na cidade e qualquer pessoa poderia dar aula, se fosse boa o suficiente para isso.

Essa professora era da mesma etnia que Louyi, com o cabelo bem cacheado e comprido, olhos castanhos claros, quase do mesmo tom da pele dela, que era um pouco mais escura que a de Louyi.

Ela não era alta como Louyi, mas claro, mais alta que eu, tinha uma voz suave e lábios bem carnudos.

Ela vestia um grande vestido verde claro, com alguns detalhes em azul e branco, e um acessório que parecia uma tiara segurando seu cabelo, mas que possuía detalhes em pano como um babado.

A professora me observou chegar com um pouco de espanto, mas logo ela colocou um sorriso no rosto de me recebeu gentilmente.


— Bom dia, menino! Eu sou a professora Mayuna, tudo bem? — Ela me cumprimentou, se abaixando para ficar na minha altura.

— Bom dia! Me chamo Dinus de Khuma. Tudo bem? — Eu respondi o cumprimento, respirei um pouco e continuei. — Isso pode parecer um pouco incomum para você, mas eu gostaria de me matricular.

— Você gostaria de estudar? — Ela fez uma expressão de confusão, mas mantendo o sorriso.

— Sim. Embora eu seja um Elfo negro, eu gostaria de aprender a ler e escrever. — Eu respondi, com um riso meio sem jeito.

— Entendi! Tudo bem, então. Vamos fazer sua matrícula. Você quer começar hoje? — Ela pareceu entender rapidamente, mesmo essa situação incomum, levantou-se para pegar alguns papeis.

— Sim, gostaria de começar hoje. O que eu preciso para fazer a matrícula? — Eu perguntei.

— Bom, normalmente quem faz a matrícula são os pais. — Ela respondeu, sentando-se em sua mesa e me pedindo para me sentar em sua frente.

— Infelizmente meus pais estão em Khuma. — Respondi, sentando-me na alta cadeira que me deixou quase na mesma altura que ela.

— Entendo, eu imaginei que seria o caso. Então, nós precisaremos... Hmmm... — Ela parecia estar pensando no que fazer.

— Pode ser meu Passaporte? — Eu perguntei, pegando meu Passaporte nas minhas coisas.

— Ah! Você já tem um? Pode ser sim. — Ela respondeu com um sorriso sem jeito, pegando o passaporte que eu estava entregando. — Vamos ver, Dinus de Khuma... 8 anos? Você não é muito novo para estar sozinho? Eu achei que já tivesse 12 anos.

— Sim... Desculpe por isso. Eu me desenvolvi muito cedo, mas está tudo bem, eu tenho a autorização dos meus pais.

— Hmm... Como você chegou na capital? — Ela me perguntou, enquanto lia meu passaporte e escrevia meus dados em um papel.

— Eu vim com um mercador e com os guardas de carga. — Eu evitei falar que eu fui um guarda também, para evitar mais confusão.

— Entendo. Deve ter sido duro para você... — Ela me olhou por um momento e voltou a escrever. — Os monstros são assustadores, não?

— Sim... Eles dão medo. — Eu continuei querendo evitar confusão. — Desculpe a pergunta, mas você pode acaso não é da família Galafar?

— Aah! não, eu não sou de família nobre. — Ela respondeu com um sorriso amargo. — Eu sei quem são os Galafar, mas eu não tenho nenhum vínculo com eles.

— É porque foi um deles que me acompanhou. — Eu concluí.

— Ah! Então foi com os Adagas-de-Prata né? Louyi é um guarda bem conhecido. — Ela respondeu com um grande sorriso no rosto. Talvez ela já conhecesse Louyi.

— A Mayuna conhece Louyi?

— Não, não sou tão sortuda. — Ela respondeu, corando um pouco e com um sorriso besta. — Você sabe o dia do seu aniversário, Dinus?

— Eu não sei ainda, mas eu sei que está perto, já já eu farei 9 anos.

— Entendo. — Ela continuou a escrever. — Pronto. A aula começará daqui mais ou menos 10 Mizen (algo entre 10 e 15 minutos). Daqui a pouco os alunos chegarão, você vai assistir a sua primeira aula com eles, se você achar muito difícil, me avisa que nós colocamos você com outra turma mais nova, tá?

— Entendido! Muito obrigado.


Então ela me mostrou onde eu me sentaria e quais os materiais eu teria que adquirir.

Ela ficou surpresa ao saber que eu tinha meu próprio dinheiro e que eu morava sozinho na estalagem.

Mas logo os alunos começaram a chegar e ela não pode me dar tanta atenção.

Assim que os alunos estavam organizados, a professora me apresentou para a classe e eu me sentei no meu lugar.

A classe era composta majoritariamente por humanos, de várias etnias.

A maior parte das crianças eram da mesma etnia da professora e de Louyi, com a pele um pouco escura, pouca coisa mais escura que a minha.

A idade parecia variar entre 12 e 14 anos. Para os humanos, 15 anos era considerado adulto já.

A outra parte variava entre pele clara com cabelo claro e pele clara com cabelo escuro.

Havia alguns poucos elfos da floresta, todos eles bem mais velhos, algo entre 14 e 16 anos.

Aparentemente todos já havia passado pelo treinamento de controle de magia, aos 10 anos para os humanos e 12 para os elfos.

A professora não disse minha idade para eles.

Eu não sabia se isso era normal ou se ela evitou falar minha idade por ser tudo muito confuso, mas ela falou que eu era um Elfo negro.


— Dinus será o primeiro Elfo negro a estudar nessa escola. Espero que vocês o tratem bem. — Concluiu a professora.


Eu me sentei no meu lugar, próximo à elfo da floresta, e um humano.

Como eu ainda não tinha material, a professora me deu um caderno e um carvão, ou algo que parecia giz preto, mas que era relativamente fino e resistente.

Acho que não existia algo como lápis ou caneta esferográfica nesse mundo ainda.

Tinta eu sei que tem, pois foi o que a professora usou para escrever minha matrícula e quando eu fiz meu passaporte, foi o que Afaeor usou para fazer meu registro.

Mas essa tinta deveria ser muito cara para desperdiçar com crianças.

De qualquer maneira eu já fiquei impressionado por usarmos papel tão levianamente.

Eu soube que ele era raro na antiguidade da terra, mas aqui em Oriohn não é tão raro assim.


A sala de aula parecia normal.

Na terra eu sei que existem vários tipos de sala de aula diferentes.

Mas eu não lembro de ter frequentado alguma, então para mim aquela sala de aula não poderia ser diferente de algo que eu já conhecia.

Existiam cadeiras e mesas para os alunos, uma mesa maior para a professora e um grande quadro branco, onde a professora escrevia com o mesmo material que nós, mas depois ela usava uma magia para apagar.

Era uma magia sagrada que tornava o objeto branco, ela me explicou depois da aula, mas eu não poderia usar por conta da minha falta de afinidade com o tipo sagrado.

A sala era iluminada pela luz do dia, com grandes janelas.

Havia também um armário onde a professora guardava o material dela, mas era relativamente pequeno e não havia nenhum outro móvel depois desses.


A professora estava ensinando as letras para os alunos.

Ela havia me explicado antes que aprenderíamos a escrever, depois sobre as regras gramaticais.

As letras desse mundo eram engraçadas, pois elas eram apenas retas.

Não existia alguma letra com curvas arredondadas.

Lembrava um pouco runas escandinavas, mas não eram a mesmas coisas.

Existia uma regra padrão para a formação das letras, mas para mim, que estava acostumado com o alfabeto latino, aquilo era tudo muito parecido e confuso.

A escrita daqui era igual ao alfabeto que eu conhecia que separava letra por letra, juntando as letras para formar as sílabas, e não igual aos ideogramas de outros idiomas que juntava uma sílaba ou uma palavra inteira em um único ideograma;

Eu olhava para o meu Passaporte e para as letras que ela havia ensinado para ver se encontrara as referências.

Depois que ela ensinou a pronúncia das letras eu anotei em meu papel qual elas correspondiam no alfabeto latino que eu já conhecia.

Com isso eu comecei a conseguir decifrar as coisas escritas devagar e comparando.


Mesmo assim eu não conseguia ler meu passaporte inteiro.

Pareciam existir algumas letras diferentes no meu passaporte que a professora não havia ensinado ainda.

Preferi não ter pressa com isso, até porque aprender a escrever é algo que leva tempo.

Eu não havia acostumado com as letras que ela me mostrou, imagina querer aprender aquelas outras que pareciam mais complicadas ainda.

Então a professora se aproximou de mim para me perguntar se eu estava conseguindo acompanhar e se havia dúvidas.

Quando ela olhou para o meu papel ela ficou surpresa.


— O que é isso? Que desenhos são esses? — Ela me perguntou, curiosa, com o meu papel em mãos.

— Como eu não tinha quem me ensinar a ler e escrever em Khuma, eu acabei inventando algumas letras por mim mesmo, e como eu acabei me acostumando com elas, eu fiz isso para poder aprender as letras corretamente usando as que eu criei. — Eu inventei uma desculpa na hora para as letras latinas.

— Olha só gente, ele inventou suas próprias letras! — Um garoto humano começou a tirar sarro de mim, fazendo uma voz de sonso, e alguns outros caíram na risada junto com ele.

— Parem com isso! — A professora ficou brava e fez eles ficarem quietos, então ela voltou para mim. — Isso é incrível Dinus. Você inventou sua própria escrita!

— Mas isso é inútil, já que mais ninguém usa ela, então eu preciso aprender a ler e escrever a escrita certa. — Eu não dei bola para as crianças rindo e tentei tirar o foco do assunto. — Mas eu tenho uma dúvida sim, professora.

— Ah! Claro. Pode perguntar. — Mayuna colocou minha folha de volta em minha mesa.

— Existem algumas letras diferentes no meu Passaporte. Nós ainda aprenderemos sobre elas, né? — Eu mostrei meu passaporte, indicando uma das letras com o dedo.

— Essas letras? Elas são da escrita "compacta", apenas os nobres usam, então não aprenderemos elas aqui nessa escola. Até eu tenho dificuldade em ler algumas dessas letras.

— Entendi. Muito obrigado. — Como ela não poderia me ensinar, eu então desisti por enquanto de aprendê-las, mas se os nobres sabem, eu poderia aprender mais tarde com Kurio ou Louyi.

— Então vamos continuar com a aula. — A professora sorriu para mim e voltou para frente de sala.


A aula continuou normalmente.

Algumas crianças ficavam tirando sarro de mim e da minha aparência.

Nenhuma delas eram elfos, apenas as crianças humanas ficavam com as piadinhas.

Eu não me importava, mas me admirei que as crianças praticavam bullying nesse mundo também.

Mas a professora Mayuna era um pouco rígida e colocava com facilidade os alunos em silêncio.

Talvez ela já estivesse acostumada com o comportamento das crianças e sabia como segurar as rédeas.

As crianças élficas apenas pareciam me olhar com curiosidade.

Decidi tentar fazer amizade com elas depois da aula, mas elas foram rapidamente para casa e eu queria falar com a professora antes.

Deixei para tentar me aproximar delas no próximo dia.

Além disso eu não sabia como me aproximar de outra criança, já que meu irmão foi o único do qual eu tive contato.

No fim da aula, eu queria falar um pouco com a professora, mas ela mesma foi até mim.


— O que achou da aula, Dinus? Acha que vai conseguir acompanhar? — Ela chegou com um belo sorriso no rosto.

— Sim! A professora ensina de uma maneira fácil de entender. Eu aprendi bastante coisa hoje. — Eu mostrei minha folha para ela. — Eu aprendi a escrever meu nome!

— Incrível. — A professora admirou-se, pegando o papel da minha mão. — Você aprendeu muito rápido.

— Tudo graças a você. — Eu respondi sem jeito.

— Mas nunca tive um aluno que aprendeu a escrever o próprio nome tão cedo. — Então ela começou a pensar. — Se bem que você criou sua própria escrita. Mesmo assim isso é incrível.


A professora então encarou um pouco as coisas que estavam escritas na minha folha.


— Você!? Esse é o nome dos seus pais? — Ela parecia um pouco mais espantada do que surpresa agora. — Quem é Metz de Khuma?

— Metz é meu irmão. — Eu respondi.

— Entendo... — Então ela passou um tempo olhando e pensando, com uma expressão difícil. — Khuma aqui você escreveu K, U, M, e A, mas se escreve com um H depois do K.

— Ah! Eu não sabia. Obrigado. — Eu agradeci.

— Não sei nem o que dizer. Eu nunca encontrei alguém que aprendesse rápido como você. — Então ela me encarou um pouquinho, parecendo pensar em alguma coisa. — Sobre as letras que você perguntou antes, acho que você terá facilidade para aprendê-las então, existe uma regra, se você aprender essa regra você consegue ler elas.

— Que legal! Eu ficaria muito feliz em aprender.


Eu notei que a Mayuna parecia muito perdida e não sabia o que falar, e como eu não sabia se ela tinha pressa para ir embora também, eu achei melhor não ficar segurando-a, então eu me despedi e voltei para a Sereia-Tímida.

Notas finais
Caso encontre algum erro gramatical ou de digitação, fique à vontade para me enviar a correção. Agradeço profundamente qualquer apoio.