A nova vida de uma alma sem lembranças

26 Capítulo 26 - A rocha falante.


Notas iniciais
Postagem: 2020/11/02 20:24 Revisão: 2025/12/11 15:26

O dia amanheceu e nós partimos em nossa última caminhada antes de Fargath.

Kurio acordou conosco, mas ficou quieto dentro da carroça.

Ele ficava olhando para o próprio braço e mão e parecia estar triste.

Eu combinei com Louyi para me deixar sempre na guarda da carroça enquanto ele e Myuka revezavam para conversar com Kurio.

Então, durante a viagem, eu senti um ponto de magia maligna bem longe na nossa frente.


— Taime, pare a carroça por favor. — Taime prontamente me atendeu.

— Aconteceu alguma coisa? — Louyi me perguntou de dentro da carroça, enquanto Myuka me olhava receosa.

— Estou sentindo algo no nosso caminho. Eu irei verificar o que é e volto com informações.

— Você não vai lutar sozinho! — Myuka me segurou pelo ombro.

— Eu não vou, não vou correr riscos, só vou ter certeza do que é para decidirmos juntos.

— Então eu vou junto. — Se ofereceu Myuka.

— Não, é melhor ficarem os dois para guardar a carroça. — Eu segurei as mãos de Myuka com minhas ainda pequenas mãos. — Eu vou ficar bem, eu consigo usar magia de vento para correr mais rápido, não serei pego.

— Entendido. — Respondeu Louyi. — Tenha cuidado.


Então eu avancei sorrateiramente em direção à energia que estava sentindo.

Conforme fui me aproximando, comecei sentir melhor a magia.

Era uma sensação diferente do que eu senti até então.

Não parecia um monstro, nem um Renegado, pois sua energia parecia misturada entre maligna e normal.

A quantidade de magia maligna era pequena, parecia a de um dos pequenos monstros que eu encontrava na floresta, mas a magia comum era gigantesca.

Era tão poderosa que minhas pernas pareciam perder a força.

Quando cheguei mais perto percebi que ele não estava na estrada, mas sim na floresta, então fiquei aliviado pensando que poderíamos passar despercebidos.

Mas uma curiosidade enorme tomou conta de mim e eu precisava ver que tipo de criatura era.


Eu adentrei a floresta.

A pressão que a magia dessa criatura exercia em mim me fazia ficar com pouco fôlego.

Não sei por que motivos eu continuei indo, pois qualquer pessoa normal teria fugido.

Mas minha vontade parecia estar sendo sugada para essa criatura.

Quando eu notei que estava a ponto de poder enxergar a criatura, me deitei e comecei a rastejar, da mesma maneira que nos esgueiramos quando vamos caçar em Khuma.

Então eu me deparei com uma clareira.

No meio dessa clareira havia uma enorme rocha esverdeada.

O verde dessa rocha parecia refletir a luz da Khadji.

Mas então eu escutei uma voz que pareceu fazer vibrar meu corpo todo.


— Quem é você? Quem está aí? — Uma voz incrivelmente grave e rouca ecoou pelo ambiente todo.


Um monstro que fala?

Aliás, eu fui descoberto!

Por um instante eu não sabia o que fazer, mas eu respirei fundo e pensei em evitar algum conflito.


— Meu nome é Dinus, e eu não sou um inimigo.


Então a rocha se mexeu.

Uma grande cabeça de lagarto apareceu, com um comprido pescoço escamoso e dois pares de grandes chifres em seu rosto.

Seus olhos estavam fechados.


— Você entende o que eu falo criança? — A criatura me perguntou.

— Si...sim, senhor. — Não sabia se devia ser respeitoso com uma criatura, então eu fui.

— Fuja criança, perto de mim você corre perigo. — Respondeu a criatura. Mas algo ainda me impedia de correr de lá.

— O que é você? — Então eu perguntei.


A criatura então se levantou.

Ele possuía quatro patas, com garras que pareciam aos do Urso de Espinhos, uma calda comprida e um par de asas.

Era um dragão verde como uma esmeralda escurecida.

O medo então tomou conta de meu corpo enquanto a vontade de fugir e de continuar ali se misturavam em meu peito.


— Eu sou um "Dragão", criança. — Então seus olhos se abriram, eram uma mistura de vermelho e dourado. — Um dragão corrompido. — Então ele soprou fogo para os céus.


Mas ele não parecia estar corrompido.

Ele ainda falava e não havia me atacado.

Por um instante eu imaginei que ele não estava cem por cento corrompido.


— Mas ainda há muita magia boa em ti. Você ainda não está corrompido. — Mesmo com medo, eu tentei me aproximar. Pois apesar de amedrontadora, a criatura ainda era magnífica.

— Exato, criança. Estou sendo corrompido pela energia maligna dos Renegados, eu posso perder o controle a qualquer momento. — Respondeu o dragão, voltando sua cabeça e seu olhar para mim.

— Qual o seu nome? — Eu perguntei sem raciocinar muito, enquanto me aproximava lentamente dele.

— Meu nome? — O dragão pareceu hesitar por um momento. — Umbaku é meu nome.


Então, eu senti a magia maligna dele diminuir um pouco.


— Umbaku, é um magnífico nome. — Nesse momento eu estava ao alcance de uma das pernas dele, que só a perna já era maior que eu.


Então eu encostei minha mão na perna dele.

Eu comecei a sugar a energia dele, usando a mesma técnica que usei para dividir minha magia com Myuka anteriormente, porém no sentido inverso.

Ao mesmo tempo que cacei em minhas coisas por uma fruta de Kojo.

A minha intenção era sugar toda e apenas a energia maligna dele.

Eu não sabia se funcionaria, e mesmo que eu sugasse, não saberia se eu conseguiria expelir a magia maligna de mim.

Mas sem pensar muito sobre isso, eu fiz.


O dragão começou a berrar e soprar fogo para os céus.

Seu berro parecia fazer o chão tremer e provavelmente os guardas iriam ver seu fogo no céu.

Mas então ele se acalmou e ficou me observando.


— Como você? Você está tirando essa energia de mim? — Perguntou lentamente o dragão enquanto me observava.


Eu respondi que sim com a cabeça, mas estava muito concentrado para não sugar a magia normal dele, pois poderia ser que meu corpo não aguentasse.

Por um tempo eu fiquei na mesma posição, com uma fruta em uma mão, enquanto a outra estava encostada na perna do dragão, sugando delicadamente a energia maligna dele.

Então eu senti meu corpo fraquejar.

Instantaneamente eu coloquei a fruta em minha boca e comecei a mastigar.

Mas eu acabei caindo no chão, ainda consciente, mas sem forças para nada.


— Criança! — O dragão disse. — Você... Muito obrigado...


Então o dragão se deitou em volta de mim para me proteger.

Por um tempo nem falar eu conseguia.

Mas eu conseguia usar minha magia, então eu fiquei usando magia de percepção o tempo todo.

Também comecei a meditar para espulgar a magia maligna que estava em meu corpo.

Depois de alguns minutos deitados eu consegui voltar a falar.


— Umbaku... Por favor, eu preciso avisar meus companheiros que estou bem, pois eles ficarão preocupados.

— Entendi, acho que sei onde eles estão. — Respondeu prontamente o dragão.


Então ele se levantou e começou a pronunciar palavras que eu não entendia.

Era uma magia.

Assim que ele terminou de recitar a magia, seu corpo ficou envolto de uma luz forte e começou a desaparecer.

Eu achei que era magia de transporte no começo.

Mas então da luz apareceu um outro corpo, pequeno, parecido com o de um humano adulto, mas com escamas, asas e chifres.

Seu rosto era bastante parecido com o de um Elfo, mas ele não tinha nariz, apenas dois buracos em uma parte lisa onde ficaria o nariz.

Seus olhos e boca eram bastante parecidos com o nosso também, mas sua pupila ainda era de um dragão e seus dentes ainda eram pontiagudos e afiados, com uma língua cumprida.

Asas e calda ainda estavam lá, mas em menor tamanho compatível com o seu corpo atual.

A calda começava grossa, mas afinava rapidamente e continuava fina até bem próximo do chão.

Suas asas ficavam em suas costas, como as de um anjo, de qualquer maneira ainda eram asas de um dragão.

No topo de sua cabeça ainda estavam seus chifres, que subiam como se fossem a continuação de sua testa.

O corpo ainda era escamoso, da mesma cor esmeralda de sua forma original, mas seu peito e rosto eram esbranquiçados e sem escamas.

Os músculos eram visíveis e bem definidos em todo o corpo, embora não fosse um corpo grande.

Também não havia nenhuma roupa cobrindo seu corpo, mas não havia nada para cobrir.

Se houvesse algo, devia estar escondido de alguma maneira.

Ele me pegou no colo e me levou sentido a carroça.


— Que magia foi essa? — Eu perguntei lentamente.

— Foi uma magia de "transmutação", nós dragões usamos para não causar pânico quando nos encontramos com outras criaturas. — Nesse momento sua voz não era mais tão grave e rouca quanto antes, ainda era bem grave comparado a um Elfo ou humano, mas estava mais suave.


Eu evitei ficar falando, pois meu corpo doía demais e eu estava sem forças.

Era possível sentir as garras em suas mãos, mas elas não me machucavam, pois ele parecia estar tomando todo o cuidado com meu corpo.

Ele tomou um caminho por dentro da floresta

Em pouco tempo nós chegamos perto da carroça.


— DINUS!? — Myuka estava de guarda em cima da carroça. — Não se mexa! — Ela preparou uma flecha e começou a encantar magia de vento.

— Quem é você? O que você fez com ele? — Louyi sacou seu grande machado. Até Kurio estava fora da carroça com uma espada em uma mão e a tipoia na outra.

— Eles não podem me entender, criança. — Umbaku me falou baixinho. — Eu não posso falar com eles.

— Não... Ataquem... — Com bastante esforço eu tentei falar o mais alto possível. — Não é... Inimigo...


Então todos acalmaram seus ânimos e guardaram suas armas.

Umbaku me deitou no chão novamente, próximo a carroça, apontou para Myuka sem dizer nada e apontou para mim.

Myuka parece ter entendido e usou magia de cura em mim.

Em questão de instantes eu senti a energia maligna ser expulsa do meu corpo e eu recuperei um pouco minhas forças.


— Myuka! Louyi! Kurio! Obrigado, estou melhor agora.

— O que aconteceu? — Perguntou Louyi.

— Deixe-me explicar. O nome dele é Umbaku. Ele estava sofrendo e sendo corrompido por energia maligna e eu o ajudei com isso, mas acabei ficando ruim no processo.

— Sendo corrompido? — Perguntou Myuka. — E como você ajudou?

— Sim, eu transferi a energia dele para mim e depois comi uma fruta de Kojo.

— Você é louco!? Isso podia ter te matado! E você disse que não iria correr riscos! — Respondeu Myuka nervosa. Então ela virou para Umbaku e perguntou. — E você? Quem é você e o que você é?


Umbaku encarou ela por um instante, então ele olhou para mim e respondeu ela.


— Meu nome é Umbaku e eu sou um dragão.


No momento que ele respondeu, todos taparam seus ouvidos com as mãos e se agacharam, como se estivessem ouvindo um barulho muito alto e horrível.

Até Taime também fez isso na carroça enquanto os cavalos relinchavam.

Então Umbaku olhou para mim novamente.


— Apenas Elfos Negros podem nos entender.


Eu levei um tempinho, mas compreendi o que aconteceu.

Me virei para o pessoal e disse a eles.


— Como eu disse, seu nome é Umbaku, ele é um dragão. — Todos se espantaram.

— O QUÊ?! — Como em coro, eles disseram juntos.

— Um dragão? Eu nunca vi um dragão antes. — Respondeu Myuka. — Ah! Minhas desculpas.


Então todos se abaixaram e fizeram referência ao Umbaku, como se ele fosse um rei ou algo assim.

Umbaku se aproximou de mim e disse baixinho para mim.


— Peça para eles se levantarem. Isso é constrangedor. Eu não preciso ser tratado assim.


Eu disse para o pessoal o que Umbaku me disse e eles se levantaram.

Aparentemente, apenas os Elfos Negros conseguiam se comunicar naturalmente com dragões.

Umbaku me explicou que a muito tempo atrás os dragões e os Elfos Negros viviam em harmonia como amigos, mas como eles causavam muito medo nos outros Elfos e seres falantes, eles se exilaram para os topos das montanhas e evitam contato com os outros.

Os outros seres sentem um enorme pavor ao escutar a voz de um dragão.

Louyi, Myuka e Kurio se curvaram não apenas por respeito, mas também por medo.


Umbaku escutou de mim o que aconteceu com nosso grupo e se prontificou a nos proteger até chegar no Baluarte de Fargath.

Uma mistura de medo e animação estava entre o pessoal.

Até mesmo Taime que geralmente era sério e frio parecia estar animado.

Mas eu estava preocupado, pois eu ainda sentia vestígios de energia maligna em Umbaku.

Ele andava alguns metros em nossa frente, ainda em sua forma humanoide.

Não adiantava eu e Myuka usar magia de detecção, pois a quantidade enorme de magia de Umbaku confundia nosso sentido.

Mas Umbaku disse que ele conseguia farejar os monstros e então nós estaríamos bem.


— Um dragão, hein? — Kurio quebrou o silencio da carroça de repente. — Ninguém nunca acreditará em nós se contarmos.

— Verdade. — Louyi entrou na conversa. — Esse garoto não para de surpreender. Toda vez é uma loucura diferente. Mas eu não esperava por um dragão.


No final do dia, com o sol se pondo, nós chegamos à Fargath.

Notas finais
Caso encontre algum erro gramatical ou de digitação, fique à vontade para me enviar a correção. Agradeço profundamente qualquer apoio.