A nova vida de uma alma sem lembranças

20 Capítulo 20 - Confessionário.


Notas iniciais
Postagem: 2020/09/26 23:00 Revisão: 2025/12/11 15:22

Eu acordei.

Minha cabeça doía bastante e eu me sentia muito fraco, de uma maneira que eu nunca havia sentido antes.

Eu estava deitado dentro da carroça e já estava escuro lá fora.

Taime e os guardas estavam envolta de uma fogueira.

Eu analisei meu corpo buscando por machucados, mas eu estava bem.

Então decidi sair da carroça e me juntar ao outros.


— Desculpe-me pelo trabalho, vocês estão bem? — Perguntei ao me aproximar deles.

— Dinus! Como você está se sentindo? — Eles se assustaram comigo e Louyi perguntou.


Louyi estava com o ombro direito enfaixado, mas não imobilizado, ele deve ter se machucado com a queda de quando foi arremessado.

Os outros estavam bem, sem nenhum machucado.


— Estou bem sim, só sinto um pouco de dor de cabeça, e como está seu braço? — Perguntei de volta.

— Ele não vai cair. — Louyi respondeu com um sorriso discreto no rosto.

— Você... — Myuka começou a falar, mas ela olhava no chão, com o rosto vermelho, Kurio também olhava para o chão. — Como você...?

— Ouvi dizer que você nos salvou. — Louyi interrompeu Myuka, que parecia não conseguir dizer o que queria. — Eu desmaiei quando levei o golpe da Grande-Harpia e quando acordei o monstro já estava morto.

— Foi sorte! Eu reagi no sus...

— SORTE?! — Myuka gritou, quase se levantando, com o rosto mais vermelho ainda e uma expressão complexa. — Um golpe daqueles?

— Myu... Acalme-se. — Louyi pôs a mão no ombro dela, então o sorriso desapareceu de seu rosto, dando lugar para uma expressão séria. — Garoto, você poderia nos explicar o que aconteceu?

— Como assim? — Eu tentei me fazer de desentendido, mas já esperava que eles não cairiam em minha conversa fiada. — Eu apenas...

— Não faça isso, menino. — Me interrompeu Taime, enquanto comia algo muito parecido com uma espiga de milho. — Eles são guerreiros veteranos, eu também já presenciei muitas batalhas, você não vai enganar ninguém.

— Estil... — Eu olhei para baixo, tentando organizar meus pensamentos e comecei a dizer. — Eu nasci com a doença de Estil. Por conta disso eu tive que treinar magia muito cedo.

— Então você é o menino que sobreviveu à doença?


Eu acenei que sim.

Todos sabiam sobre essa doença.

E o fato de uma criança finalmente sobreviver havia se espalhado rapidamente.

Não necessariamente que era eu, mas o boato que havia uma criança que superou essa doença percorreu as terras e bocas ligeiramente.

Então eu comecei a contar um pouco de minha curta história.

Contei apenas os detalhes que eu achava importante.


— Mesmo treinando desde cedo, eu ainda não consigo controlar muito bem minha magia.

— Pff... — Kurio deu um sorriso de canto de boca, ainda olhando para baixo. — Foi um corte impressionante, sabia?

— Muito obrigado. — Eu respondi tentando dar um sorriso forçado.

— Mas como você usa magia sem encantamento? — Myuka finalmente se acalmou e conseguiu falar. — Eu nunca ouvi falar de alguém que fazia isso.

— Eu sinto a magia. — Eu disse, após um curto silêncio, e ao dizer todos fizeram uma expressão de estranheza. — Como se fosse uma brisa, ou quando estamos dentro da água, ou como um cheiro, é difícil explicar, mas eu consigo sentir magia.

— Sentir magia? — Myuka ficou pensativa. — Por causa da sua doença?

— Não sei dizer, fiquei sabendo que eu sou o único que sobreviveu a essa doença até hoje. Mas por conta de sentir a magia, eu consegui entender como funciona os encantamentos e como ela reage em nosso corpo, então eu consigo replicar essa reação sem usar o encantamento.

— E como você consegue aprender novas magias? — A tensão de Myuka parecia estar diminuindo e a curiosidade e animação começou a voltar ao grupo.

— Eu preciso aprender o encantamento. — Respondi de forma desajeitada e com um sorriso. — Depois de usar o encantamento uma vez, se eu conseguir replicar a reação eu consigo usar sem o encantamento.

— Entendi. — Nesse momento os olhos de Myuka havia voltado a brilhar.

— Mesmo com uma quantidade enorme de magia, você é muito habilidoso para alguém da sua idade. — Kurio parecia ter dúvidas sobre mim ainda. — Você realmente tem 9 anos?

— Sim, mas desde muito cedo eu levei bastante a sério o treinamento com arco e espada.

— Muito cedo? Com qual idade você começou a treinar? — Kurio perguntava enquanto também comia algo parecido com uma espiga de milho.

— Magia eu comecei com 3 anos e o arco com 6. — Então a espiga que estavam na mão de todos, exceto de Taime, caíram no chão.

— T-três anos??? — Os três guardas perguntaram quase que em coro.

— Sim, a mestra Mayi me levou para treinar com essa idade, pois eu já estava com excesso de magia e eu poderia causar um desastre.

— Mestra Mayi? Você diz a Mayi Kogaster em Trucia? — Louyi parecia conhecer ela e os olhos da Myuka brilhavam mais ainda, então eu afirmei com a cabeça. — Mas ela não havia se aposentado de treinar as crianças?

— Acredito que eu era um caso muito específico. — Novamente eu respondi meio sem jeito.


Louyi me ofereceu uma espiga que estava assando na fogueira.

A expressão dele estava mais suave, mas ele ainda estava sério.


— Você salvou as nossas vidas. — Louyi falou assim que peguei a espiga de sua mão.

— De fato. — Confirmou Kurio.

— Não é para tanto, eu apenas... — Tentando desviar do assunto, fui interrompido novamente.

— Precisaríamos de pelo mais 2 guardas experientes para derrotar aquele grupo com uma Grande-Harpia sem ninguém ferido. — Explicou Kurio com uma expressão difícil.

— Nós entramos na batalha sabendo que seria muito difícil de vencer. — Acrescentou Myuka, enquanto encarava sua espiga.

— Eu não consigo entender se você está tentando nos enganar ou se você realmente não tem noção da sua força. — Louyi continuava sério. — Eu também não consigo acreditar que uma criança como você consegue ser tão forte.

— Apenas um golpe de espada, hein? — Comentou Kurio com um grande sorriso no rosto. — Eu nunca vi golpe tão bem executado. Uma pena que você estava inconsciente naquela hora, Louyi, e não pôde apreciar.

— É verdade. — Acrescentou Myuka. — Foi um dos golpes mais belos que eu já vi em minha vida.

— E olha que essa velhota já viveu bastante. — Louyi finalmente estava descontraído e tirando sarro de sua companheira.

— Eeei! — Myuka estava empurrando Louyi.


A partir de então foi só brincadeiras descontraídas e histórias de grandes feitos.

O grupo pareceu entender que eu também estava desconfortável então eles tentaram mudar o clima.

Eles contaram algumas de suas aventuras, me explicaram mais algumas coisas sobre o grande continente de Oriohn e me mostraram a escrita também.

Logo já era hora de recolher as coisas e ir dormir.

Eu me ofereci para fazer parte da vigia noturna, mas eles preferiram que eu descansasse.

Me disseram que eu ainda estava pálido e que eles estavam acostumados com a divisão entre eles.

No fim da divisão eles dormiam por 1 Sizen e passavam 50 Mizen de vigia, totalizando 3 Sizen descansadas, o que daria uma divisão 2 por 1 hora aproximadamente.


Essa noite foi fácil de dormir, pois eu realmente estava muito cansado e peguei facilmente no sono.

Mas no momento que eu estava deitado tentando dormir foi que eu parei para pensar.

Por que eu fiquei com tanto medo daquele monstro?

Eu já havia derrotado monstros mais fortes que a Grande-Harpia e mesmo ela sendo enorme, ela não tinha tanta força bruta para me fazer ter tanto medo.

Os guardas disseram que aquele monstro era difícil, mas devia ser uma diferença de costume entre os humanos e os Elfos Negros, pois nós estávamos acostumados a caçá-los e o fato deles voarem já não nos atrapalhava mais.

Além disso, o foco dos Elfos Negros era combate à distância, enquanto Louyi e Kurio eram de corpo a corpo.

Talvez ao ver todos tensos eu acabei me entregando ao medo.

Pode ser também por ter sido o primeiro monstro que eu vi nesse mundo.

Alguma coisa naquele monstro me dava medo e eu tinha que acabar com isso.

Então eu adormeci com o pensamento que eu não devia temer as Grande-Harpias.

Notas finais
Caso encontre algum erro gramatical ou de digitação, fique à vontade para me enviar a correção. Agradeço profundamente qualquer apoio.