A nova vida de uma alma sem lembranças
42 42 - A resposta para tudo na vida e no universo.
Notas iniciais
— Bom dia, Ma'am!
— Bom dia, Dinus. Você já vai almoçar? — Ma'am era o nome da cozinheira da estalagem e me cumprimentou novamente, mesmo que nós já tivéssemos nos cumprimentado hoje.
— Sim, já vou almoçar, mas antes, eu gostaria de fazer uma pergunta. — Então eu me aproximei do balcão. — Que dia é hoje?
— Hoje? Deixe-me ver... — Ela ficou pensando um pouco. — Sim! Hoje deve ser o primeiro dia do oitavo mês.
— Um do oito? — Eu peguei meu passaporte e mostrei para ela. — E quando que a idade altera no passaporte?
— Oras, no dia do seu aniversário, é claro. — Ela olhou para mim com uma expressão difícil. — Por quê? É seu aniversário hoje?
— Sim! Eu fiz 9 anos! — Eu disse feliz e sorrindo, sem prensar antes de falar.
— Parabéns... — Então o sorriso no que estava no rosto dela desapareceu e mudou para uma cara de espanto. — Espera. 9 anos? Você tem só 9 anos?
— Ah! Sim... — Eu percebi que eu não devia ter falado e fiquei sem graça. — Eu pareço um pouco mais velho né? Além disso, o que significa "porte" obrigatório?
— Éé... Porte... — Ela parecia perdida por um momento por eu ter trocado de assunto tão repentinamente. — Significa que você precisa andar sempre com o passaporte com você, você não pode andar sem ele.
— Ah sim! Entendi. — Eu olhei novamente o meu passaporte para achar as palavras que eu não conhecia. — E "deportação"?
— Deportação significa que você pode ser colocado para fora da cidade se você estiver sem o passaporte. — Ela respondeu, voltando a mostrar o sorriso no rosto.
— Entendi. Desculpe ficar fazendo essas perguntas, é que eu não conhecia essas palavras. — Eu me desculpei enquanto procurava a outra palavra que eu não conhecia no meu passaporte. — E "votar"?
— Votar? É complicado explicar. — Ma'am começou a pensar, provavelmente sobre a melhor maneira de explicar. — O imperador de Vegúrlia pode escolher uma pessoa para ajudar ele a cuidar do seu império, nós chamamos de "primeiro-ministro", mas quando o primeiro-ministro precisa ser escolhido, o povo pode participar dessa escolha, nós dizemos que nós "votamos". Consegue entender?
— Sim! Eu entendi perfeitamente. — Então eu abri um grande sorriso. — Obrigado por me explicar.
— Não se preocupe com isso... — Ela parecia feliz e aliviada. — Então. Você vai almoçar agora?
— Sim, quais são as opções de hoje?
— Hoje nós temos... — Então Ma'am me falou sobre as opções de comida que ela havia preparado no dia.
Primeiro dia do oitavo mês, hein?
Isso seria parecido com primeiro de agosto, mas não existiam nomes para os meses em Oriohn, eles eram chamados apenas pela ordem numérica deles.
Eu não sabia em que ano estávamos, mas como eu já havia feito um monte de perguntas para Ma'am, eu decidi deixar para perguntar para Myuka ou para outra pessoa.
Como eu já esperava, Myuka não estava na estalagem.
Provavelmente ela devia estar investigando onde ficava a casa do príncipe que Mayi estava morando.
Como eu não sabia o que eu poderia fazer para ajudar, nem tinha muito o que fazer, eu decidi ficar praticando minha escrita.
Eu comecei a escrever algo como uma carta dizendo um pouco sobre a mim, sobre como eu consigo sentir magia e manifestá-la sem usar encantamentos.
Era um pouco difícil para mim, já que eu não conhecia um monte de palavras ainda, mas esse era o ponto positivo e eu podia me esforçar bastante para praticar minha escrita.
Eu escrevia um pouco devagar, até porque eu precisava sempre consultar meu rascunho das letras para lembrar de algumas delas.
Compactar a escrita ainda era extremamente difícil para mim e eu achei melhor aprender a escrever bem do jeito simples primeiro, antes de partir para o mais difícil.
Apesar de estar ansioso para aprender a escrever e ler tudo o que era possível, eu sabia que não podia tentar correr antes de aprender a andar, então eu coloquei na minha cabeça que eu precisava ter disciplina para aprender a escrever.
Eu nem vi as horas passando, só notei a grande fome crescendo. Olhei pela janela do meu quarto e o sol estava quase começando a se por.
Em breve eu não teria claridade para continuar a menos que acendesse uma lamparina ou uma vela.
Então eu fui ao bar para comer alguma coisa.
Myuka não havia voltado ainda, então eu fui sozinho mesmo.
Quando eu cheguei no bar, Faror estava conversando com o barman.
Faror havia dito que cuidaria das despesas de estalagem e alimentação da Sereia-Tímida enquanto eu estivesse em Vegúrlia e não tivesse emprego, até eu terminar de estudar.
Talvez ele achasse que eu levaria alguns anos para terminar meus estudos.
Ele não sabia que eu aprenderia muito mais rápido que as outras crianças.
Bavar sorria de uma forma estranha enquanto conversava com Faror, ele parecia estar com um pouco de medo ou receoso.
Talvez conversar com um cavaleiro que era um capitão de batalhão fosse um pouco demais para ele.
De todo modo Faror acabou me vendo e abriu um grande sorriso.
Hoje ele estava usando uma bela armadura completa de placas de metal.
A armadura era toda prateada e brilhante.
Ele estava usando a mesma capa que eu vi anteriormente.
— Grande Dinus! — Faror quase gritou meu nome ao me ver. Enquanto Bavar fazia uma expressão como de alguém pedindo socorro. — Então é aqui que você estava!
— Muita honra ao te ver. — Eu me ajoelhei em uma perna e me curvei ao falar com Faror.
— Vamos! Levante-se. O salvador do meu irmão não precisa disso comigo. — Faror se aproximou de mim, seus passos faziam grande barulho ao pisar no piso de madeira do bar, talvez pelo grande peso de seu corpo vestindo tal armadura. — Eu estava dizendo para esse homem lhe hospedar no seu melhor quarto.
— Não precisa disso. — Eu respondi, me levantando. — Não sei se você já viu uma vila dos elfos negros, mas nós vivemos de maneira muito simples. Se for algo muito diferente será estranho para mim.
— Não seja modesto menino. — Faror colocou a mão em meu ombro. — Nós não temos problemas quanto ao valor.
— É verdade! O quarto que estou hoje é ótimo. Ele tem uma ótima vista da sacada. — Eu havia entendido que Faror iria pagar minha estadia de qualquer maneira, mas eu não queria abusar da boa vontade deles de qualquer jeito, então eu tentei ao máximo ficar no quarto mais barato. Até porque era o suficiente para mim.
— Tudo bem garoto. Deixe-me ao menos ver o seu quarto. — Faror ficou reto novamente. Enquanto dois outros cavaleiros com armaduras mais simples o acompanhavam escadas acima.
Acho que os cavaleiros tinham permissão de entrar no estabelecimento com suas espadas.
Bavar parecia muito mais aliviado agora. Seu rosto parecia me agradecer por alguma coisa.
Nós subimos no meu quarto e eu mostrei a vista da sacada para Faror. Já que eu havia comentado sobre isso.
Um dos outros dois cavaleiros que nos acompanhava ficou na porta, no lado de fora, enquanto o outro entrou no quarto e ficou em um canto, como se estivesse de guarda.
— É realmente uma bela visão. Mas o quarto é um pouco "medíocre". Você tem certeza de que quer ficar nesse lugar? — Eu não sabia o que significava aquela palavra, mas eu tinha certeza de que não era um elogio. — Existem outras ótimas estalagens na cidade.
— Eu gosto daqui. A comida é muito boa. — Naquele momento eu pensei em tentar trocar de assunto o mais rápido possível, então eu peguei uma folha qualquer na mesa e mostrei para Faror. — Veja, eu já estou aprendendo a escrever.
— Já? Que rápido. Deixe-me ver. — Faror pegou a folha e começou a ler. — Hmm, você escreve bem já, mas de onde você tirou isso? Essa coisa que você escreveu de usar magia sem encantar, isso é impossível! Ninguém nunca conseguiu.
— Eu... — Eu estava receoso em dizer, mas eu não queria mentir nem o deixar achando que era impossível. — Eu consigo. Eu não uso encantamento para algumas magias.
— O QUÊ? — Faror pareceu mudar de humor rapidamente.
Ele acabou me pedindo para mostrar para ele, então eu peguei meu balde de água e fiz a primeira magia que eu aprendi na vida.
A água do balde começou a borbulhar e muito vapor começou a sair dele.
Faror fazia uma expressão de espanto. Até o cavaleiro que estava de guarda parecia espantado.
— Isso é... Isso é incrível... — Faror começou a recuperar a postura. — Você... Todos os elfos negros conseguem fazer isso?
— Não. — Eu coloquei o balde com água quente de volta no lugar. — Até onde eu sei, apenas eu consigo, mas eu não posso ter certeza ainda.
— Como você faz? Existe alguma desvantagem em fazer assim? — Faror, embora portando-se como um nobre, parecia muito curioso.
— Eu consigo sentir a magia fluindo em meu corpo, é um pouco difícil de explicar, pois é uma sensação única, mas se eu replicar o que eu sinto quando uso o encantamento e tentar visualizar a magia se formando, ela simplesmente acontece. — Eu tentei explicar de uma maneira simples, mas não existia uma maneira simples para isso. — Eu não sei se há alguma desvantagem. Eu precisaria estudar mais sobre magia para saber.
— Você devia estudar em uma escola de magia o mais cedo possível! — Então Faror parou para pensar no que disse. — Acho que eles não aceitariam você tão fácil assim, geralmente só se entra na escola com mais de 10 anos. Mas eu posso tentar colocar você em uma. Se você quiser.
— Eu adoraria! — Embora toda a situação, eu adorei ouvir isso. — Só acho que eu preciso terminar de aprender a ler e escrever primeiro, mas eu tenho muito interesse em estudar magia sim.
Nesse momento Myuka entrou no meu quarto.
Ela tinha um sorriso besta no rosto.
Parece que ela tinha mais alguma boa novidade para falar.
Mas antes de tudo ela se curvou e cumprimentou Faror devidamente.
— Estou atrapalhando? — Myuka queria falar, mas ela não podia simplesmente interromper Faror.
— Não está. Pode falar. — Faror respondeu com um sorriso.
— Dinus. Tenho uma notícia. — Myuka falou com aquele sorriso bobo.
— Você conseguiu encontrar a casa? — Eu sempre chutava nessas situações e não sabia deixar a pessoa falar. Devia ser um problema de costume meu.
— Não! Não isso. — Então ela fez alguns gestos com os braços. — Eu achei um professor de espada para você.
— Espada? — Faror falou. — Você usa espada também? Não sei por que eu ainda fico surpreso. Como um Elfo Negro, você deve usar arco também, certo?
— Sim! — Myuka respondeu por mim. — Ele já é excepcional no arco, mas na espada lhe falta um pouco.
— Quem será o professor dele? — Faror perguntou para Myuka.
— Necifran disse que iria testá-lo para ver se ele é "digno". Mas se for o Dinus eu tenho certeza de que ele irá se surpreender.
— Necifran, hein? Aquele velho. Ele será um ótimo professor. — Faror virou para mim e disse. — Tire o máximo de conhecimento dele, os ossos daquele Elfo guardam muitas técnicas secretas.
— E quanto vai custar? — Eu já estava perdido na conversa, apesar de feliz, mas eu não saberia se eu poderia pagar.
— Custar? — Faror então virou para Myuka e perguntou. — Ele vai cobrar alguma coisa?
— Não. Necifran geralmente não cobra de seus discípulos. — Myuka respondeu sorrindo. — Você só precisar provar o seu valor para ele, mas isso será fácil.
— Você diz... E eu acredito em você. — Faror falou. — Pois ninguém sobrevive aos Renegados por sorte. Mas eu não vi suas habilidades de combate ainda. Vamos treinar um pouco, eu quero ver o quão bom você é.
— Nem adianta você tentar. — Myuka me salvou. — Ele só mostra suas verdadeiras garras quando está em perigo. Nós já tentamos treinar com ele durante a guarda, mas ele nunca mostrava suas verdadeiras habilidades no treinamento.
— Mas como você consegue dizer que ele tem tanto valor então? — Faror ficou um pouco sério agora.
— No primeiro dia... Ele matou uma Grande-Harpia com um único golpe. — Myuka até falou devagar.
— Não foi assim... — Eu tentei falar, mas Faror me interrompeu.
— Um único golpe? Uma Grande-Harpia? — Então ele riu. — Realmente. Não é para qualquer um. Elas são muito rápidas em se esquivar dos nossos golpes.
— Exatamente. — Myuka continuou. — Louyi não conseguiu atingi-la, e até desmaiou no combate, mas Dinus acabou com ela ao sacar sua espada.
— E ele não é bom ainda? — Faror ficou indignado. — Ninguém ruim conseguiria uma coisa dessas.
— Sim, mas ele não consegue fazer isso sempre, só quando está em perigo. — Myuka respondeu com um riso. Então era assim que eles me enxergavam. Se bem que eles não estavam errados. Eu nunca fui realmente bom com a espada, só que o medo acabava tomando conta do meu corpo e eu agia por impulso.
— Entendo. — Favor pensou um pouco. — De fato, se for o Necifran, ele saberá como extrair isso do garoto. Combinado então! Vá lá e faça seu melhor.
— Obrigado! — Eu respondi sorrindo. — Mas sobre o professor de magia. Você poderia me ajudar também?
— Claro! Eu vou arrumar o melhor mago da região para lhe treinar. — Faror então levantou a cabeça e falou como uma piada. — Uma pena que Mayi não está mais ensinando.
— Então. — Myuka deu uma risada antes de concluir, eu já sabia o que viria. — Foi com ela que ele aprendeu o que ele já sabe hoje.
— Com Mayi? Mas quando? Ela se aposentou faz mais de uma década!
— Foi ela que me salvou da doença de Estil, por isso ela me ensinou algumas técnicas de magia. — Eu respondi.
— Bom... É verdade né? Eu devia ter imaginado, já que ela está cuidando do príncipe Namir, que também tem Estil. — Faror pareceu olhar para o horizonte por um momento. — Lá em Uma nós não tínhamos magos tão incríveis.
— Uma? — Essa palavra parecia do idioma português. — O que é Uma?
— É a cidade onde minha família viveu no passado. Eu era muito pequeno quando saí de lá, Kurio não havia nascido ainda.
É verdade, a família Sangue-de-Prata é do sul de Oriohn.
Uma então deve ser ao sul.
Era engraçado para mim, uma cidade chamada Uma.
Embora a pronúncia fosse UMÁ, era estranho de se ouvir algo tão parecido com português depois de tanto tempo.
Mas eu acho que era só coincidência.
Não acho que existia outra pessoa que falasse português em Oriohn.
A não ser que essa pessoa também estivesse escondendo esse fato, como eu.
— Bom! Está muito divertido a conversa e tudo mais, mas eu preciso devolver esses soldados ao quartel, já está terminando o horário deles. — Então Faror cumprimentou-nos, curvando como o costume de Oriohn. — Se vocês me dão licença.
— Até mais. — Myuka curvou-se para Faror.
— Foi um prazer recebê-lo. — Me curvei também.
Faror e seus cavaleiros deixaram o estabelecimento.
Myuka me disse que ela até conseguiu algumas pistas sobre a casa do príncipe hoje, mas ela não podia falar sobre aquilo na frente de Faror, já que o que ela estava fazendo era basicamente espionagem e Faror era um cavaleiro do reino, mas ela ainda não descobriu onde ficava essa casa.
Eu fui ao Bavar logo depois disso, perguntar se ele estava bem e sobre a visita de Faror.
Ele me disse que Faror pediu para que as cobranças de minha hospedagem fossem direcionadas a ele.
A partir daquele momento eu não pagaria mais para ficar na Sereia-Tímida.
Se eu fosse uma pessoa de má índole, eu poderia me aproveitar um pouco disso, mas eu não gostava da ideia de alguém estar me bancando, então eu queria conseguir minha própria estabilidade para não depender de ninguém.
Então eu decidi me esforçar o máximo para aprender a ler e escrever rápido.
Talvez com isso eu conseguiria um emprego com mais facilidade.
— Amanhã, depois da sua aula, nós vamos nos encontrar com Necifran. Esteja preparado, pois ele é um pouco rígido e bem sério. — Myuka me disse, com uma expressão séria. — Leve também a sua espada. Embora ele não vá gostar dela, por ela não ser de metal, ele vai querer ver a sua espada de qualquer maneira.
— Certo! Vou dar o meu melhor. — A maneira como Myuka falou começou a me deixar ansioso.
Eu mostrei para Myuka meu passaporte e falei que havia feito os 9 anos.
Ela me deu os parabéns e abriu um grande sorriso, mas ficou por isso mesmo.
Realmente, se não for nas idades específicas, o aniversário não significava muita coisa em Oriohn.
Então eu continuei praticando minha escrita e fui dormir.
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