A múmia triste.

1 Capítulo único.


Ele peregrinava pela areia brilhante, viva como pó de ouro.

Vozes agonizantes se esgoelavam em sua cabeça, como se tentassem arrastá-lo para o inferno. Um breve vislumbre do que o cercava permitia sentir as dores dos homens perdidos, jogados ao pó do deserto como carne podre para os abutres. Amaldiçoados, de fato todos eram, contudo, o tormento que tremulava nos ventos nada era perto do que carregava a pequena múmia solitária, Amumu. Sem memórias de seu passado, ele rastejava pelas areias de Shurima, buscando algo ou alguém que pudesse dar um basta em sua agonia.

Mas todos que foram agraciados pelo prazer de seu toque, morriam em lamento e terror.

A esperança jamais ganhara espaço, e dava seu lugar ao desespero. Amumu perdia suas pernas, vagando sem rumo, marcando atrás de si com pegadas de seus delicados pés e poças de lágrimas.

— Ei, o que faz aqui?! – A múmia ouviu uma graciosa voz cruzar o vazio do deserto.

— Eu não sei. — retrucou. — Ando, sem mapa ou voz. Apenas ando.

Observando a pessoa que o chamou, notou que era uma menina tão pequena quanto ele, sozinha nos ventos áridos e quentes, tendo apenas um tecido fino para proteger o rosto e as roupas típicas do povo Shurimane.

— Ora, o que carrega por trás dessas bandagens? – A menina era curiosa. — Por que a cara triste? Por que as lágrimas? Tens tanta amargura nos olhos.

Ela tinha cabelos curtos. Ao vê-los, Amumu recordava outra garota, tão gentil e inocente quanto esta. Lembrou da criatura maligna que rasgava os que tentassem machucá-la, e se entristeceu ao imaginar a única chance que tivera para ter alguém como amigo, alguém para abraçar ou conversar. A chance estava em pedaços há tempos.

— Carrego uma maldição. Quem me toca, morre. Quem se aproxima, cai em desgraça. Saia daqui antes que sofra do que eu carrego. — Lamentou ao dizer.

— Eu sei quem tu és; Amumu, a múmia triste. Não vejo perigo em você, apenas solidão, e isso é algo no qual eu posso, e devo ajudar.

— Ninguém pode me ajudar. – Ele tratou de seguir em frente, dando as costas à menina, que o olhou tristonha.

— Volte já aqui, Amumu! – Ela gritou, com braveza no rosto. — Como poderemos ser amigos se nem me dá uma chance?!

— Me conheces pelos mitos que os contadores de histórias carregam, e eu nem seu nome sei. Como quer ser minha amiga? — O triste tentava escapar com palavras.

— Não seja por isso, ora, meu nome é Eva. Pronto, problema resolvido. — ela dizia em tom estonteante. — Agora, pode me abraçar?

— Peça que outro lhe faça isso. Sou uma aberração que carrega calamidades. Fique longe de mim.

Naquele momento, um forte vendaval cruzou o espaço entre os dois, carregando pesadas nuvens de areia dourada. O sol queimava, sem voz.

— Eu não posso pedir que outro o faça, pois só existe um Amumu. — A pequena recolheu o tom alegre, e exibiu traços de melancolia, assim como a múmia na sua frente.

— E também só existe um pai, ou uma mãe. Peça-os que o façam. — Ele não deixaria que a menina destruísse a si mesma.

— Não tenho mãe. — Ele olhou-a. — Ela morreu para que eu viesse ao mundo. Por isso, nunca tive os braços de meu pai, nem de outra pessoa sequer. — Para o ouvinte, mundo parecia parar a cada palavra dita. — Tem horas que eu gostaria de ter o mesmo que tu, uma vida sem miséria ou passado que me condene. Apenas o futuro diante dos meus olhos, com alguém surgindo do nada, pedindo para ser meu amigo.

Pela primeira vez, ele viu a si mesmo.

— Busque outras crianças, ou outras famílias. O mundo não é de todo cruel, basta procurar e encontrará quem lhe queira abraçar.

— As outras crianças gostam de me atirar pedras, buscando me ver ensanguentada no chão. Uma vez, fui deixada para trás no meio do deserto, sozinha. Tive que encontrar o caminho de volta, ou seria uma ossada enterrada nas areias.

Não havia mais o que discutir.

— Então, Eva, diga-me. — A tristeza rasgava suas entranhas. — O que queres de mim?

— Um abraço. – simples e direta, ela redarguiu. — No mínimo.

— E se não for o suficiente para agradá-la?

— Então será meu amigo e caminhará ao meu lado neste deserto, até que voltemos ao pó da terra. — Sem proferir qualquer palavra, ele foi a seu encontro, erguendo os braços em ternura e compaixão. Ela retribuiu, dando passos à frente. — É um prazer ajuda-lo, Amumu.

A múmia, num fugaz instante, agraciou a si mesma com o calor da menina, num abraço firme e cálido. O vento pairou ao redor dos dois, girando em vértice.

— É o primeiro abraço que um dia eu lembro de ter recebido. – disse o amaldiçoado, com os olhos marejados.

— Certamente não será o último. — Um gigante sorriso tomou forma no rosto de Eva. O rosto alegre da menina iluminava o dia.

Em seguida, surgira um, dois e três vultos no meio da neblina árida. Eles andavam rapidamente em direção a dupla. Amumu aquietou-se, tentando identificar quem estava ali. A menina nem moveu os olhos, apenas admirava os grandes e úmidos olhos da múmia, com seu rosto vivo de luz.

Eva?!— berrou um dos vultos. — Vamos, volte para o acampamento, antes que joguemos você no meio de uma vala, sua imprestável!— Era um menino, quase homem. Nenhum deles haviam os avistado, mas pareciam gritar ao vazio para que a menina surgisse magicamente.

Minha vontade é de enfiar um canivete no pescoço dessa desgraçada. Que diferença faz essa maldita pirralha em nossas vidas, além de nos forçar a procura-la sempre que se perde? — disse o segundo vulto, também um garoto quase homem.

Amumu entrara em choque ouvindo tais palavras.

Ouvi boatos de que a maldita múmia rasteja por perto. Não andarei a procura dela correndo tal risco! — O primeiro dizia. — Talvez aquelas conversas sejam verdade. Espero que Eva tenha conseguido fazer o que planejava, nos pouparia um baita esforço! — Não demorou, e todos os vultos desapareceram no meio do pó.

Ao olhar para trás, ele viu a angústia consumada. Sentiu na carne o poder vil que a reles maldição exalava ao redor de todo seu corpo, como uma jaula que jamais seria quebrada.

Eva estava morta, deitada na areia de Shurima, graciosa como uma rosa sem espinhos, leve como uma pena. Ao lado de uma das mãos, uma palavra escrita no chão dourado.

Obrigado.

Se Amumu tivesse um coração, ele estaria em pedaços.

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