A mulher do meu destino

16 Hold her and tell her everything's gonna be fine


Notas iniciais
* Hold her and tell her everything's gonna be fine = Abrace-a e diga a ela que tudo ficará bem - trecho da música "Sing" da banda Travis. Hoje resolvi fazer uma surpresa. Em comemoração ao aniversário do ator Thomas Hiddleston, que interpreta Loki no cinema, postarei um capítulo extra! Boa leitura!

Notei que Aredhel acordara chorando e meio assustada. Queria acalentá-la, mas não podia. Resolvi fingir que nada percebi e continuei planejando o que faria. Depois de algum tempo ela voltou a se sentar ao meu lado.

— O que aconteceu enquanto estive fora? — perguntou calmamente.

— Depois que você partiu continuei a nossa farsa — respondi indiferente. — Eles aceitaram a história de sua carta, então tudo ocorreu conforme o planejado. Passaram-se muitos meses sem ter problemas até que alguns dias atrás um guarda descobriu Odin morto em seu quarto — revelei.

— Meses? — indagou com o olhar distante.

— Sim. Mais de um ano — confirmei. — Por quê?

— Então foi como imaginei — meneou a cabeça. — O tempo passa de forma diferente entre as realidades. Quando fui para a outra Terra, tinha apenas se passado cerca de vinte e quatro horas desde que parti de lá, enquanto que aqui eu vivi muitos meses. Foi mais de um ano? — franziu a testa confusa. — Agora eu tinha passado apenas um dia e algumas horas no meu mundo antes de Sif me trazer de volta e você falou que fiquei mais de um ano fora — explicou.

Fiquei pasmo. Para mim havia se passado quase um ano e meio e para ela somente um dia e meio? A diferença da passagem de tempo entre nossos mundos era absurda.

— Então seu... — fiz uma pausa. Eu sentia ciúmes da palavra “noivo”, uma vez que esta se referia a outro. — Seu noivo morreu há pouco tempo? Foi Sif que o matou? — questionei.

— Sim, ele havia morrido no dia anterior, mas não foi Sif — parecia triste. — Ele morreu em um acidente, pouco depois de me deixar na festa à fantasia. Ele faleceu momentos depois que vim para cá. Se eu soubesse do acidente, ele estaria morto há um ano para mim e há um dia para quem vive lá... É tão confuso... — coçou a cabeça. — Odin foi morto como? — perguntou de repente.

Realmente a satisfação não pertencia à minha natureza. O destino estava sendo irônico comigo. Eu havia me livrado de Phillip com facilidade, através das fatalidades da vida humana e Aredhel finalmente era minha. Mas agora pairava sobre minha cabeça o machado de ser condenado pela morte de Odin. Naquele instante compreendi o motivo do desespero de Aredhel, perderia os dois homens que dizia amar em um curto espaço de tempo.

— Eu não tenho ideia — fui sincero. — Tudo que sei é que ele estava morto. O que Sif falou a você?

— Chegou fazendo acusações. Demorei para entender o que estava acontecendo. Eu tinha passado a noite em claro. Não consegui dormir depois do velório e enterro do Phillip — passou a mão pela fronte, visivelmente cansada. — Ela disse que haviam descoberto a nossa farsa, que Odin estava morto e que dessa vez eu pagaria por meus crimes — suspirou. — Quem decidirá se somos culpados ou não? — encarou-me.

— Vamos ser julgados por Thor. O futuro novo rei de Asgard — respondi com amargura. — Eu pelo crime e você como cúmplice.

— Já estou ficando acostumada a ser presa e ameaçada de morte — falou com sarcasmo e deu de ombros.

Ouvir aquilo me deixou mais triste ainda. Aredhel havia passado por tanta coisa por minha causa e, mais uma vez, minhas mentiras a colocaram novamente diante da morte.





Aredhel e eu não trocamos mais nenhuma palavra. Passei o resto da noite preparando meu discurso para Thor. Escolhendo com cuidado cada palavra que diria a ele a fim de deixar claro que Aredhel não participara de meus planos. Fiquei tão absorto em meus pensamentos que não cheguei a perceber se Aredhel estava acordada ou não. Na manhã seguinte vieram nos informar que seríamos ouvidos por Thor até o fim do dia.

Passamos o resto do dia calados. Ela tentou várias vezes inciar uma conversa, mas eu me limitava a dar respostas curtas e até ríspidas. Então, por fim, ela desistiu. Meu comportamento frio e distante em relação a Aredhel fazia parte do plano que executaria a seguir.

Finalmente vieram nos buscar. Fomos algemados e conduzidos ao salão do trono de Odin. Thor estava lá sentado e sua expressão não era a das melhores. Isso não me deixou nada surpreso. Imaginei que com meu histórico, não teria a menor chance.

— Nosso pai foi encontrado morto em seu quarto — Thor começou altivo. — Você, Loki, o suposto morto, foi encontrado vivo — encarou-me. — Forjar a própria morte e usurpar o trono de nosso pai. Quantas mentiras mais você inventará? Até onde irá sua ambição? A causa da morte de nosso pai ainda está sendo investigada, mas enquanto não soubermos da verdade, vocês permanecem como os principais suspeitos da morte dele. O que vocês tem a dizer em sua defesa?

Havia chegado a hora de começar meu teatro.

— Contarei quantas mentiras forem necessárias para nunca mais voltar àquela prisão e não ter que ver um tolo como você sentado no trono de Asgard — rosnei. — Não tenho nada a dizer em minha defesa, pois por mais que eu clamasse minha inocência, você não acreditaria em nada do que eu dissesse. Faça o que achar melhor! — ergui os ombros. — Só o que tenho a dizer é que esta mulher já não estava em Asgard há mais de um ano, então não entendo o motivo da presença dela aqui — fingi desdém.

— Você está louco? — pasmou-se Aredhel ao meu lado. — O que está tentando fazer? — sibilou.

— Como você ousa falar assim comigo? — gritei com ela.

— Por que não tenta se defender? — falou com veemência. — Esse seu jeito de falar só vai piorar as coisas! Está tentando assumir a culpa por achar que Thor não acreditará no que realmente aconteceu? Está tentando me poupar? — indignava-se.

— Poupar você? — forcei uma risada. — Eu não ligo a mínima para o que possa acontecer com você! — tentei ser convincente. — Você não passa de um animalzinho com o qual me divertia enquanto me fosse conveniente! Agora que sei que você não pode ver o futuro, você não me serve para mais nada! Realmente acreditou naquilo que eu disse? Eu jamais poderia gostar de um ser inferior como você! — fui cruel.

Aredhel fitou-me boquiaberta. Senti uma dor imensa ao dizer tudo aquilo. Nunca havia sido tão difícil para eu falar mentiras. Vi em seus olhos que minhas palavras a machucaram muito, mas eu tinha que seguir em frente.

— Então você acreditou? — forcei um sorriso irônico. — Eu inventei tudo aquilo porque era a única maneira de manter você calada sobre minha farsa até que eu pudesse me livrar de você sem levantar suspeitas! — menti deliberadamente. — Confesso que gostaria de ter me livrado de você a mais tempo, mas se eu tivesse te matado em Svartalfheim, Thor desconfiaria. Você é uma mulher tola e estúpida mesmo! Uma sentimental sonhadora! — gargalhei.

Vi lágrimas escorrerem por seu rosto. Senti-me morrer por dentro ao vê-la assim.

— Basta! — bradou Thor. — Vou ouvir um de cada vez! Levem Loki daqui, primeiro ouvirei Aredhel! — ordenou aos guardas.

Os guardas saíram me arrastando. Eu estava com raiva, mas de mim mesmo por ter feito aquilo com ela e por me sentir tão impotente diante de toda aquela situação.

Fiquei aguardando o depoimento de Aredhel. Meu plano era deixar claro a Thor que eu a usara o tempo todo. Não contava muito com o depoimento dela, mas eu nunca torci tanto para que ela resolvesse se vingar pelo que falei. Tinha esperanças de que ela ficasse com ódio de mim e mudasse sua versão. Desejava que Aredhel colocasse a culpa toda em mim. Isso ajudaria a salvá-la. Temia que por gostar de mim, ela contasse a verdade e complicasse mais a sua situação.

Eu queria convencer a mim mesmo da mentira de que, pelo menos desta vez, ela não se arriscaria por mim.

Após algum tempo, Thor me mandou entrar.

— Agora é sua vez Loki — anunciou. — Você matou nosso pai? – perguntou meio impaciente.

— Não. Eu já disse que não — respondi contrariado.

— Como você usurpou o trono de nosso pai? — indagou.

— Isso foi bem simples — falei despreocupadamente. — Depois de Odin cair novamente em seu sono, eu envolvi Aredhel e a fiz acreditar que eu estava apaixonado por ela — falei com um sorriso malicioso. — Tive que convencê-la a manter segredo sobre minha morte e a sustentar a mentira enquanto eu ocupava o lugar de Odin. No início era até divertido, mas com o passar do tempo ela foi ficando cada vez mais grudada em mim e isso estava me irritando muito — fiz uma careta. — Não imagina o nojo que sentia em ser obrigado a fingir sentir algo por uma humana e ainda ter que seduzi-la — revirei os olhos. — Então, para me livrar de tal tortura, eu rapidamente, procurei uma forma de mandá-la embora de Asgard — falei friamente.

— Nojo eu sinto de você Loki — retrucou Thor, com visível indignação. — Enganou a pobre mulher e a envolveu nisso tudo. Logo ela, que desde o início vem se sacrificando por você — meneava a cabeça.

— Eu não pedi por sacrifício de ninguém — balancei a cabeça com indiferença. — Ela é uma idiota! Está com pena? Fique com ela! Você é quem tem uma queda por humanos — rebati com desdém.

— Sabia que mesmo dizendo aqueles disparates para a pobre, ela ainda o defendeu? A coitada praticamente clamou por sua vida. Não sente remorso?

Dei de ombros, mas por dentro meu coração sangrava por tudo o que eu havia dito. Mesmo depois de tudo Aredhel havia me defendido. Ela ainda me amava.





Thor mandou me levarem de volta para a cela. Acredito que mal conseguia esconder a tristeza que sentia. Notei pelo canto do olho que Aredhel estava sentada encolhida em um canto da cela. Nada falou. Não olhei para ela e sentei-me no canto contrário. Fiquei olhando para fora da cela. Eu tinha que continuar mantendo a farsa, pois se eu fosse condenado à morte, quem sabe Aredhel sofreria menos e com o tempo passasse a me odiar. Mais uma vez, entreguei-me a tortura de ficar preso a meus pensamentos, isolando-me.

Passado um quase interminável dia, vieram nos buscar pela manhã. Thor tinha tomado uma decisão sobre nossos destinos. Fomos algemados novamente e conduzidos até a presença de dele que, dessa vez, estava acompanhado de seus amiguinhos.

— Depois de ouvir vocês dois pude ponderar sobre o que ocorreu desde o seu suposto falecimento, Loki — olhou em minha direção. — Foram feitas investigações sobre a real causa da morte do pai de todos e concluíram que ele morreu em decorrência de seu enfraquecimento. Nosso pai já vinha enfraquecendo, ficando cada vez mais debilitado desde seu “sono” anterior — deu um suspiro triste. — O uso de energia negra para me enviar para Midgard, a morte de nossa mãe Frigga e os demais conflitos, consumiram suas forças. O pai de todos não mais conseguiu sair de seu sono e faleceu — explicou e fez uma pausa. — Assim sendo... Com base no que foi dito e nos próprios depoimentos prestados, declaro Loki e Aredhel, inocentes — anunciou.

Deixei escapar um suspiro. Aredhel estava livre de ser morta e eu, por um milagre, também.

— Agora posso morrer feliz... — ouvi Aredhel murmurar.

Olhei para ela e sorri abertamente. De repente ela ficou extremamente pálida, inclinou para frente e desabou no chão batendo a cabeça no primeiro degrau da escadaria que levava ao trono. Prendi a respiração. Angustiado, eu me joguei de joelhos ao lado dela e tentei socorrê-la. Puxei e a virei meio sem jeito, pois ainda estava algemado. Acolhendo-a em meus braços, percebi que ela estava gelada. A batida havia feito um corte em sua testa, que sangrava.

— Aredhel! Aredhel! — gritei desesperado tentando acordá-la.

Não obtive resposta, ela continuava desacordada. Parecia estar morta. Encostei meu ouvido em seu peito e constatei que seu coração ainda estava batendo.

— Aredhel! Por favor! — implorei com urgência na voz.

Mais uma vez nenhuma resposta e ela permanecia imóvel. Senti algumas lágrimas descerem por meu rosto. Foi neste instante que percebi o silêncio ao meu redor. Olhei para cima e vi Thor, Sif, Volstagg e Fandral espantados, olhavam-me boquiabertos. Senti meu rosto corar. Minha farsa sobre não me importar com Aredhel havia sido descoberta. Isso não importava mais, eu precisava socorrê-la.

— Thor! Por favor... — implorei com a voz embargada estendendo as mãos algemadas a ele.

— Er... — Thor abriu a boca ainda aturdido. — Tirem as algemas de Loki! Abram caminho! Deixem-no levá-la até a sala de cura! — ordenou aos soldados.

Velozmente os guardas retiraram as algemas de Aredhel e as minhas. Carreguei Aredhel em meus braços e sai quase correndo pelos corredores. Ao chegar à sala de cura eu a coloquei sobre uma das camas do local e uma serva correu para socorrê-la.

— Ela é midgardian. Não sei o que houve. Ela de repente desmaiou e acabou batendo a cabeça na queda — disparei para a serva.

— Príncipe Loki, deixe-nos as sós com ela. Faremos o possível para ajudá-la — falou a serva.

Muito relutante eu me retirei. Queria ficar. Perdido e me sentindo culpado, eu já não conseguia conter as lágrimas. Não poderia passar por isso de novo. Já havia perdido minha mãe e agora, depois de tudo que passamos, poderia perder Aredhel. Justo no momento em que fomos inocentados e tinha a chance de ser feliz ao lado dela. Mesmo que fosse por pouco tempo...

“Pouquíssimo tempo.” Essas palavras ecoaram em minha cabeça. Mais lágrimas desciam por meu rosto. Aredhel era humana e viveria pouco. “Será repentino. Você nunca estará preparado. A única mulher cujo amor você valoriza será arrancada de você”. O que eu havia dito a Thor uma vez, agora se voltava contra mim.

Notas finais
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