A mulher do meu destino
16 Hold her and tell her everything's gonna be fine
Notas iniciais

Notei que Aredhel acordara chorando e meio assustada. Queria acalentá-la, mas não podia. Resolvi fingir que nada percebi e continuei planejando o que faria. Depois de algum tempo ela voltou a se sentar ao meu lado.
— O que aconteceu enquanto estive fora? — perguntou calmamente.
— Depois que você partiu continuei a nossa farsa — respondi indiferente. — Eles aceitaram a história de sua carta, então tudo ocorreu conforme o planejado. Passaram-se muitos meses sem ter problemas até que alguns dias atrás um guarda descobriu Odin morto em seu quarto — revelei.
— Meses? — indagou com o olhar distante.
— Sim. Mais de um ano — confirmei. — Por quê?
— Então foi como imaginei — meneou a cabeça. — O tempo passa de forma diferente entre as realidades. Quando fui para a outra Terra, tinha apenas se passado cerca de vinte e quatro horas desde que parti de lá, enquanto que aqui eu vivi muitos meses. Foi mais de um ano? — franziu a testa confusa. — Agora eu tinha passado apenas um dia e algumas horas no meu mundo antes de Sif me trazer de volta e você falou que fiquei mais de um ano fora — explicou.
Fiquei pasmo. Para mim havia se passado quase um ano e meio e para ela somente um dia e meio? A diferença da passagem de tempo entre nossos mundos era absurda.
— Então seu... — fiz uma pausa. Eu sentia ciúmes da palavra “noivo”, uma vez que esta se referia a outro. — Seu noivo morreu há pouco tempo? Foi Sif que o matou? — questionei.
— Sim, ele havia morrido no dia anterior, mas não foi Sif — parecia triste. — Ele morreu em um acidente, pouco depois de me deixar na festa à fantasia. Ele faleceu momentos depois que vim para cá. Se eu soubesse do acidente, ele estaria morto há um ano para mim e há um dia para quem vive lá... É tão confuso... — coçou a cabeça. — Odin foi morto como? — perguntou de repente.
Realmente a satisfação não pertencia à minha natureza. O destino estava sendo irônico comigo. Eu havia me livrado de Phillip com facilidade, através das fatalidades da vida humana e Aredhel finalmente era minha. Mas agora pairava sobre minha cabeça o machado de ser condenado pela morte de Odin. Naquele instante compreendi o motivo do desespero de Aredhel, perderia os dois homens que dizia amar em um curto espaço de tempo.
— Eu não tenho ideia — fui sincero. — Tudo que sei é que ele estava morto. O que Sif falou a você?
— Chegou fazendo acusações. Demorei para entender o que estava acontecendo. Eu tinha passado a noite em claro. Não consegui dormir depois do velório e enterro do Phillip — passou a mão pela fronte, visivelmente cansada. — Ela disse que haviam descoberto a nossa farsa, que Odin estava morto e que dessa vez eu pagaria por meus crimes — suspirou. — Quem decidirá se somos culpados ou não? — encarou-me.
— Vamos ser julgados por Thor. O futuro novo rei de Asgard — respondi com amargura. — Eu pelo crime e você como cúmplice.
— Já estou ficando acostumada a ser presa e ameaçada de morte — falou com sarcasmo e deu de ombros.
Ouvir aquilo me deixou mais triste ainda. Aredhel havia passado por tanta coisa por minha causa e, mais uma vez, minhas mentiras a colocaram novamente diante da morte.
Aredhel e eu não trocamos mais nenhuma palavra. Passei o resto da noite preparando meu discurso para Thor. Escolhendo com cuidado cada palavra que diria a ele a fim de deixar claro que Aredhel não participara de meus planos. Fiquei tão absorto em meus pensamentos que não cheguei a perceber se Aredhel estava acordada ou não. Na manhã seguinte vieram nos informar que seríamos ouvidos por Thor até o fim do dia.
Passamos o resto do dia calados. Ela tentou várias vezes inciar uma conversa, mas eu me limitava a dar respostas curtas e até ríspidas. Então, por fim, ela desistiu. Meu comportamento frio e distante em relação a Aredhel fazia parte do plano que executaria a seguir.
Finalmente vieram nos buscar. Fomos algemados e conduzidos ao salão do trono de Odin. Thor estava lá sentado e sua expressão não era a das melhores. Isso não me deixou nada surpreso. Imaginei que com meu histórico, não teria a menor chance.
— Nosso pai foi encontrado morto em seu quarto — Thor começou altivo. — Você, Loki, o suposto morto, foi encontrado vivo — encarou-me. — Forjar a própria morte e usurpar o trono de nosso pai. Quantas mentiras mais você inventará? Até onde irá sua ambição? A causa da morte de nosso pai ainda está sendo investigada, mas enquanto não soubermos da verdade, vocês permanecem como os principais suspeitos da morte dele. O que vocês tem a dizer em sua defesa?
Havia chegado a hora de começar meu teatro.
— Contarei quantas mentiras forem necessárias para nunca mais voltar àquela prisão e não ter que ver um tolo como você sentado no trono de Asgard — rosnei. — Não tenho nada a dizer em minha defesa, pois por mais que eu clamasse minha inocência, você não acreditaria em nada do que eu dissesse. Faça o que achar melhor! — ergui os ombros. — Só o que tenho a dizer é que esta mulher já não estava em Asgard há mais de um ano, então não entendo o motivo da presença dela aqui — fingi desdém.
— Você está louco? — pasmou-se Aredhel ao meu lado. — O que está tentando fazer? — sibilou.
— Como você ousa falar assim comigo? — gritei com ela.
— Por que não tenta se defender? — falou com veemência. — Esse seu jeito de falar só vai piorar as coisas! Está tentando assumir a culpa por achar que Thor não acreditará no que realmente aconteceu? Está tentando me poupar? — indignava-se.
— Poupar você? — forcei uma risada. — Eu não ligo a mínima para o que possa acontecer com você! — tentei ser convincente. — Você não passa de um animalzinho com o qual me divertia enquanto me fosse conveniente! Agora que sei que você não pode ver o futuro, você não me serve para mais nada! Realmente acreditou naquilo que eu disse? Eu jamais poderia gostar de um ser inferior como você! — fui cruel.
Aredhel fitou-me boquiaberta. Senti uma dor imensa ao dizer tudo aquilo. Nunca havia sido tão difícil para eu falar mentiras. Vi em seus olhos que minhas palavras a machucaram muito, mas eu tinha que seguir em frente.
— Então você acreditou? — forcei um sorriso irônico. — Eu inventei tudo aquilo porque era a única maneira de manter você calada sobre minha farsa até que eu pudesse me livrar de você sem levantar suspeitas! — menti deliberadamente. — Confesso que gostaria de ter me livrado de você a mais tempo, mas se eu tivesse te matado em Svartalfheim, Thor desconfiaria. Você é uma mulher tola e estúpida mesmo! Uma sentimental sonhadora! — gargalhei.
Vi lágrimas escorrerem por seu rosto. Senti-me morrer por dentro ao vê-la assim.
— Basta! — bradou Thor. — Vou ouvir um de cada vez! Levem Loki daqui, primeiro ouvirei Aredhel! — ordenou aos guardas.
Os guardas saíram me arrastando. Eu estava com raiva, mas de mim mesmo por ter feito aquilo com ela e por me sentir tão impotente diante de toda aquela situação.
Fiquei aguardando o depoimento de Aredhel. Meu plano era deixar claro a Thor que eu a usara o tempo todo. Não contava muito com o depoimento dela, mas eu nunca torci tanto para que ela resolvesse se vingar pelo que falei. Tinha esperanças de que ela ficasse com ódio de mim e mudasse sua versão. Desejava que Aredhel colocasse a culpa toda em mim. Isso ajudaria a salvá-la. Temia que por gostar de mim, ela contasse a verdade e complicasse mais a sua situação.
Eu queria convencer a mim mesmo da mentira de que, pelo menos desta vez, ela não se arriscaria por mim.
Após algum tempo, Thor me mandou entrar.
— Agora é sua vez Loki — anunciou. — Você matou nosso pai? – perguntou meio impaciente.
— Não. Eu já disse que não — respondi contrariado.
— Como você usurpou o trono de nosso pai? — indagou.
— Isso foi bem simples — falei despreocupadamente. — Depois de Odin cair novamente em seu sono, eu envolvi Aredhel e a fiz acreditar que eu estava apaixonado por ela — falei com um sorriso malicioso. — Tive que convencê-la a manter segredo sobre minha morte e a sustentar a mentira enquanto eu ocupava o lugar de Odin. No início era até divertido, mas com o passar do tempo ela foi ficando cada vez mais grudada em mim e isso estava me irritando muito — fiz uma careta. — Não imagina o nojo que sentia em ser obrigado a fingir sentir algo por uma humana e ainda ter que seduzi-la — revirei os olhos. — Então, para me livrar de tal tortura, eu rapidamente, procurei uma forma de mandá-la embora de Asgard — falei friamente.
— Nojo eu sinto de você Loki — retrucou Thor, com visível indignação. — Enganou a pobre mulher e a envolveu nisso tudo. Logo ela, que desde o início vem se sacrificando por você — meneava a cabeça.
— Eu não pedi por sacrifício de ninguém — balancei a cabeça com indiferença. — Ela é uma idiota! Está com pena? Fique com ela! Você é quem tem uma queda por humanos — rebati com desdém.
— Sabia que mesmo dizendo aqueles disparates para a pobre, ela ainda o defendeu? A coitada praticamente clamou por sua vida. Não sente remorso?
Dei de ombros, mas por dentro meu coração sangrava por tudo o que eu havia dito. Mesmo depois de tudo Aredhel havia me defendido. Ela ainda me amava.
Thor mandou me levarem de volta para a cela. Acredito que mal conseguia esconder a tristeza que sentia. Notei pelo canto do olho que Aredhel estava sentada encolhida em um canto da cela. Nada falou. Não olhei para ela e sentei-me no canto contrário. Fiquei olhando para fora da cela. Eu tinha que continuar mantendo a farsa, pois se eu fosse condenado à morte, quem sabe Aredhel sofreria menos e com o tempo passasse a me odiar. Mais uma vez, entreguei-me a tortura de ficar preso a meus pensamentos, isolando-me.
Passado um quase interminável dia, vieram nos buscar pela manhã. Thor tinha tomado uma decisão sobre nossos destinos. Fomos algemados novamente e conduzidos até a presença de dele que, dessa vez, estava acompanhado de seus amiguinhos.
— Depois de ouvir vocês dois pude ponderar sobre o que ocorreu desde o seu suposto falecimento, Loki — olhou em minha direção. — Foram feitas investigações sobre a real causa da morte do pai de todos e concluíram que ele morreu em decorrência de seu enfraquecimento. Nosso pai já vinha enfraquecendo, ficando cada vez mais debilitado desde seu “sono” anterior — deu um suspiro triste. — O uso de energia negra para me enviar para Midgard, a morte de nossa mãe Frigga e os demais conflitos, consumiram suas forças. O pai de todos não mais conseguiu sair de seu sono e faleceu — explicou e fez uma pausa. — Assim sendo... Com base no que foi dito e nos próprios depoimentos prestados, declaro Loki e Aredhel, inocentes — anunciou.
Deixei escapar um suspiro. Aredhel estava livre de ser morta e eu, por um milagre, também.
— Agora posso morrer feliz... — ouvi Aredhel murmurar.
Olhei para ela e sorri abertamente. De repente ela ficou extremamente pálida, inclinou para frente e desabou no chão batendo a cabeça no primeiro degrau da escadaria que levava ao trono. Prendi a respiração. Angustiado, eu me joguei de joelhos ao lado dela e tentei socorrê-la. Puxei e a virei meio sem jeito, pois ainda estava algemado. Acolhendo-a em meus braços, percebi que ela estava gelada. A batida havia feito um corte em sua testa, que sangrava.
— Aredhel! Aredhel! — gritei desesperado tentando acordá-la.
Não obtive resposta, ela continuava desacordada. Parecia estar morta. Encostei meu ouvido em seu peito e constatei que seu coração ainda estava batendo.
— Aredhel! Por favor! — implorei com urgência na voz.
Mais uma vez nenhuma resposta e ela permanecia imóvel. Senti algumas lágrimas descerem por meu rosto. Foi neste instante que percebi o silêncio ao meu redor. Olhei para cima e vi Thor, Sif, Volstagg e Fandral espantados, olhavam-me boquiabertos. Senti meu rosto corar. Minha farsa sobre não me importar com Aredhel havia sido descoberta. Isso não importava mais, eu precisava socorrê-la.
— Thor! Por favor... — implorei com a voz embargada estendendo as mãos algemadas a ele.
— Er... — Thor abriu a boca ainda aturdido. — Tirem as algemas de Loki! Abram caminho! Deixem-no levá-la até a sala de cura! — ordenou aos soldados.
Velozmente os guardas retiraram as algemas de Aredhel e as minhas. Carreguei Aredhel em meus braços e sai quase correndo pelos corredores. Ao chegar à sala de cura eu a coloquei sobre uma das camas do local e uma serva correu para socorrê-la.
— Ela é midgardian. Não sei o que houve. Ela de repente desmaiou e acabou batendo a cabeça na queda — disparei para a serva.
— Príncipe Loki, deixe-nos as sós com ela. Faremos o possível para ajudá-la — falou a serva.
Muito relutante eu me retirei. Queria ficar. Perdido e me sentindo culpado, eu já não conseguia conter as lágrimas. Não poderia passar por isso de novo. Já havia perdido minha mãe e agora, depois de tudo que passamos, poderia perder Aredhel. Justo no momento em que fomos inocentados e tinha a chance de ser feliz ao lado dela. Mesmo que fosse por pouco tempo...
“Pouquíssimo tempo.” Essas palavras ecoaram em minha cabeça. Mais lágrimas desciam por meu rosto. Aredhel era humana e viveria pouco. “Será repentino. Você nunca estará preparado. A única mulher cujo amor você valoriza será arrancada de você”. O que eu havia dito a Thor uma vez, agora se voltava contra mim.
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