A mulher do meu destino
10 Every little thing she does, she does for me
Notas iniciais

Eu ainda estava absorto em meus pensamentos, tentando entender Aredhel, quando ela voltou a falar.
— E agora? O que diremos a Odin? — perguntou meio preocupada.
— Eu pensei que você já tinha tudo em mente. Falou para o Thor que um guarda viria nos buscar e que você ficaria bem. O plano era seu, não? — respondi em tom de brincadeira.
— Eu sei que você vai usar um de seus truques e trocar sua imagem para a de um guarda. Se bem que... — ficou pensativa. — Não... Isso você não vai fazer... — virou-se para me encarar. — De qualquer forma, eu não sei nada ao meu respeito — franziu o cenho.
— Ah.. É mesmo. Você não pode ver seu próprio futuro. Você pode narrar a Odin o que aconteceu. Quem sabe ele lhe perdoe — falei com sarcasmo.
— Provavelmente me condenará a morte — murmurou com um ar sombrio. — Com muita sorte Odin me mandará de volta para as masmorras — deu um suspiro.
— Não se preocupe. Você já está acostumada a sempre voltar para lá, não é? — fui irônico.
— Aha! Isso é muito engraçado! Você tem que me ajudar. Eu preciso voltar para casa! — rebateu meio irritada.
Eu havia finalmente conseguido irritar Aredhel. Resolvi continuar provocando-a.
— Eu? Por que deveria? — perguntei em tom de zombaria.
— Porque ou você me ajuda ou eu revelo que você está vivo — respondeu irritada.
— Oh, mas isso é simples de resolver — encarei-a com um sorriso cínico. — Eu mato você, digo que você reagiu ou tentou escapar — zombei. — Afinal, ele com toda certeza não se importará que um guarda tenha matado uma traidora.
— Então vá em frente! Mate-me e acabe com isso de uma vez! — rosnou.
Fiquei surpreso. Ela estava mesmo levando a sério aquela conversa? Eu não a mataria. Já havia desejado matá-la algumas vezes, mas depois da prisão e de todo esse tempo, eu já simpatizava com ela. Ainda que ela não soubesse disso, só poderia estar brincando em me provocar daquele jeito. Eu ficava pasmo com a falta de temor dela. Eu podia não conseguir amedrontá-la, mas eu visivelmente estava tendo sucesso em fazê-la perder a compostura. Eu tinha que provocá-la mais um pouco, estava sendo muito divertido vê-la tão irritada.
— Não... — balancei a cabeça com calma. — Sua habilidade ainda pode me ser muito útil — ri de leve.
A expressão de Aredhel mudou de irritada para furiosa.
— Se esse é o motivo para me manter viva, pode desistir! — sibilou. — Eu menti o tempo todo para você! — encarou-me lívida de raiva. — Eu não posso ver o futuro! Venho de um mundo no qual tudo o que revelei a vocês são histórias, filmes — revelou. — O exílio do Thor, você descobrindo que era adotado, sua aparição em Nova York, a luta com os elfos negros, tudo faz parte de filmes. Assisti a esses filmes incontáveis vezes — gesticulava. — Apesar de você ser o vilão das histórias, você era meu personagem preferido! Porque como lhe contei, temos muito em comum. O mesmo drama familiar. Simpatizei com você desde o primeiro filme. A roupa que eu vestia quando cheguei naquele laboratório era uma fantasia em sua homenagem. Eu estava a caminho de uma festa a fantasia quando vi a luz roxa que me trouxe até aqui — vociferou.
Eu fiquei boquiaberto. Ela, afinal, não era vidente, mas sim uma humana comum. Meu mundo era um filme na Midgard dela. Eu um mero personagem de um filme. Não... Mais que isso... Eu era o vilão, o personagem predileto dela. Era muita informação para eu digerir de uma só vez.
Levei uma das mãos ao queixo e comecei a andar, tentando concatenar o que ela continuava a revelar.
— No início acreditei que estava sonhando — ela prosseguiu furiosa. — Eu tentei fazer você mudar de ideia quando percebi que tudo isso era real! Eu não queria que destruísse a Terra, mas eu também não queria que você terminasse preso! Mas você... Sempre arrogante e teimoso, estava tão cego que não me deu ouvidos! — ergueu as mãos. — Por mais que me importasse com você, eu não poderia contar tudo o que sabia! Tentei inutilmente mudar algumas partes dos filmes. Evitar tantas mortes... Tentei fechar o portal antes que causassem mais danos à Terra, salvar Frigga, mas não consegui! — deu um suspiro frustrado. — Parece que tudo pertence a um destino imutável! Por mais que eu tente, eu não consigo mudar certas coisas. E, bem.. Outro fato era que eu não sabia sobre mim. Eu não faço parte dos roteiros em meu mundo. Então eu realmente não sabia o que poderia acontecer a mim — deu de ombros. — Enfim... Os filmes acabaram. Daqui para frente eu não sei o que acontecerá. A única coisa que sei é que Thor conseguirá salvar a Terra novamente e você tomará o lugar de Odin. Então se espera que eu possa lhe falar sobre o futuro, esqueça, eu não tenho mais nada a contar — bufou e cruzou os braços.
Fiquei a observando em silêncio, tentando absorver tudo o que ela havia me dito. Aquilo tudo tinha me deixado muito surpreso.
— Você disse que tomarei o trono de Asgard? Como? — perguntei despreocupadamente.
Aredhel deu um suspiro triste.
— Sim, mas não sei como. Só sei que Thor retornará da Terra e encontrará você fingindo ser Odin. Mas... — olhou-me desconfiada. — Você pretende matar Odin? — inquiriu.
Ignorei a pergunta dela. Estava com a cabeça cheia de questões naquele momento. Saber sobre o trono de Asgard era muito importante para mim, porém outras coisas giravam em minha mente. Como eu conseguiria? E Odin? Aredhel vinha de outra realidade? Como ou quem a tinha trazido? Porque ela havia feito tudo isso? Porque se arriscara pelos humanos, por Frigga, por pessoas de outra realidade? Por que se arriscara por mim?
Aredhel parecia ter tendências suicidas. Só isso poderia explicar os atos impensados dela. Após conviver com ela por ao longo de um ano, eu sabia que ela era uma mulher inteligente, perspicaz, manipuladora e atrevida, mas não conseguia entender o seu lado altruísta. Essa mania dela de se arriscar pelos outros, sem um motivo específico, era muito estranho para mim. Não fazia sentido. As palavras de Frigga giravam em minha mente. “Cada pequena coisa que fez, ela fez por você.” Por quê? Por que Aredhel se importava tanto comigo? Só por simpatia? Eu não conseguia entender.
— Por que você se arriscou por pessoas que você mal conhecia? — questionei de repente.
— Os humanos eram inocentes. Frigga era sua mãe. Eu sabia o que aconteceria... Eu tinha praticamente o dever que tentar evitar — respondeu com visível sinceridade.
— E por mim? Por quê se arriscou por mim? — olhei-a seriamente. — Eu era o vilão, então porque não se voltou contra mim? Eu lhe mantive algemada. Fui rude. Você tentou me convencer e eu a ignorei. Você foi presa por me ajudar. Ainda a pouco quase foi desintegrada junto comigo e agora descubro que mentiu por mim. Por quê? Por que se importa tanto comigo? — perguntei confuso.
— Eu... Eu não sei... — gaguejou visivelmente confusa.
Aproximei-me dela e fiquei a encarando por um tempo, tentando entendê-la. Lembrei-me novamente das palavras de Frigga “Talvez nem ela tenha entendido o real motivo pelo que fez isso.” Pensei em uma possibilidade, mas logo descartei. Ela era inteligente demais para isso. Esperta demais para cometer tal erro. Aredhel parecia um enigma para mim.
— Não se preocupe. Não irei matá-la — falei sorrindo de leve. — Vamos para Asgard. Se Odin lhe condenar, eu ajudo você a fugir. E mesmo que não consiga, eu liberto você, afinal, como você disse, eu tomarei o lugar dele — ergui os ombros.
Ainda no caminho para a aeronave, as coisas que Aredhel havia me contado ainda estavam se organizando em minha mente. Nesse tempo outra dúvida veio à minha mente.
— Se tudo eram filmes e você já sabia de tudo com antecedência. Então porque não tentou avisar Thor ou Odin sobre o ataque? – parei e a fitei longamente.
— Loki, eu demorei a perceber que estava em outro filme — coçou a nuca. — O único filme que reconheci logo foi o chamado de “The Avengers”. Ele termina quando você e Thor partem da Terra. Eu não fazia parte, então pensei que daquele ponto em diante a história toda seria diferente. Afinal eu fui presa, fiquei trancada lá tanto tempo, que nem sei quanto tempo fiquei lá — balançou a cabeça. — Até que vi você brincando com o copo e achei aquilo familiar. Mas eu não percebi... Eu só reconheci que estávamos no segundo filme quando ouvi a gritaria na prisão — baixou a cabeça. — Se eu tivesse ficado mais atenta... — fez um muxoxo.
Fiquei pensando por um tempo. Olhei para ela novamente.
— Quando você disse na prisão, no momento do ataque, “Você não deveria ter dito isso”, o que queria dizer? — perguntei preocupado.
Aredhel pareceu surpresa com a pergunta. Ficou pensando por um tempo. Pareceu que lia meus pensamentos, ela conseguiu enxergar onde eu queria chegar com aquela pergunta.
— Loki, não faça isso com você... — começou a falar com certa urgência na voz.
— Responda Aredhel — disse entredentes, a interrompendo. — Eu fui responsável pelo que houve com Frigga? — insisti seriamente.
Eu queria ter certeza de que ela não mentiria para mim, então olhei-a nos olhos. Ela me fitou e franziu o cenho.
— Não Loki. Eu realmente acredito que não — respondeu com sinceridade nos olhos.
Deixei escapar um suspiro. Ao pensar em Frigga novamente, senti meus olhos se encherem de lágrimas.
— Malekith podia sentir onde estava o Aether, tanto que chegou até lá sozinho — ela começou a explicar. — Frigga estava com Jane. Sua mãe usou uma ilusão para esconder Jane. Malekith descobriu, ficou furioso, perguntou onde Jane estava escondida e ela disse que nunca diria. Então o monstro a matou. Você não foi culpado — falou com veemência e com lágrimas nos olhos.
Eu não consegui falar nada no momento. Apenas fiquei olhando para Aredhel e me sentindo grato pelo que ela me dissera, enquanto ela me fitava visivelmente triste.
— Se tem algum culpado nessa história, esse sou eu por não ter conseguido chegar a tempo — ela murmurou com lágrimas escorrendo pelo rosto. — De não ter percebido que já estava em outro filme.
— A culpa também não é sua. Você fez o que pode. Arriscou-se muito fazendo isso — falei calmamente.
Ela pegou minha mão e fez um pequeno afago.
— Eu tenho certeza que ela sabia o quanto você a amava — inclinou a cabeça, sorrindo de leve para mim.
Dei um suspiro e deixei escapar um sorriso.
Chegamos à aeronave. Mudei minha aparência para a de um guarda, embarcamos e partimos de volta para Asgard. No caminho permanecemos boa parte do tempo em silêncio, até que Aredhel começou a me indagar.
— Loki, você alguma vez leu ou ouviu algo sobre meu mundo? — franziu a testa. — Você acha que existe alguma forma de me mandar de volta? Você poderia me ajudar? — mordeu os lábios.
— Não me lembro de ter lido ou ouvido, mas existem muitos livros que ainda não pude ler — dei de ombros. — Talvez em um deles tenha algo que fale de sua Midgard. Eu vou tentar lhe ajudar. Vamos ver como as coisas ocorrerão quando chegarmos a Asgard.
Meu único pensamento naquele momento era como seria nosso reencontro com Odin.
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