A morte virá com a neve
1 Capítulo Único
Se fosse perguntado, por todo meu reino, todos diriam que o conduzi com um punho justo, todos os caçadores e guerreiros eram igualmente recompensados por suas conquistas, e aqueles que se sobressaiam eram premiados, nossas crianças eram protegidas até alcançarem o discernimento necessário para tomar suas próprias decisões e assim arcar com elas. Tínhamos que ser cuidadosos, o perigo morava logo ao lado e espreitava pelas sombras em busca da oportunidade de nós destruir. Contra o conselho de todos meus guardiões sempre insisti em fazer um ronda, não poderia exigir que meus súditos em um risco que eu não era capaz de enfrentar, além do mais, esse comportamento levantava a moral do povo, uma vez que aos meus olhos éramos todos iguais. Em uma de minhas batidas pela floresta, pude encontrar uma feiticeira, com um vislumbre do meu destino, ela previu que minha morte viria com a neve.
Eu era diferente, sempre fui e por isso, todos me odiavam, jogavam pedras, me batiam com paus e eu mal podia me defender. Dentre todos houve um único ser que me olhava com bondade e tristeza no olhar. Ela era uma bruxa, residia no fim da floresta e não se assustava com minha aparência, uma degustadora assídua do ébrio escondido em suas doçuras que os vinhos proporcionavam, em um de seus lapsos ela me segredou algo sobre meu destino: A morte virá com a neve. Depois disso temi todos os invernos, cada vez que a neve caia calma pela janela, meu coração tremia, por medo e por frio. Fechava-me em minhas pobre morada e evitava a neve como se fosse um veneno feito pra mim.
Então o inverno veio.
E com o inverso veio a neve.
Como sempre, fiz minha batida. E ao olhar o amanhecer me lembrei como o mundo era belo.
Como sempre, me tranquei em minha casa. Acreditando estar a salvo, me esqueci como o mundo era cruel.
O cheiro da manhã, o calor que começava a se espalhar lentamente quando o sol alcançava meu corpo.
O cheiro de álcool, e o calor do fogo que começava a tomar minha casa espalhavam rapidamente e só havia uma saída, fugir.
Esqueci-me da profecia, deixei-me aquecer pelo sol e brevemente fechei meus olhos. Não vi a neve.
Lembrei-me da profecia, procurei em desespero por um abrigo que me salvasse, por todos os lados só via a neve.
Então a realidade me acertou em cheio, na minha distração perdi altitude, meu corpo bateu forte contra a copa das árvores, senti dois galhos me perfurando sem piedade, rasgarem minhas assas. Eu, Yariah, primeiro do meu nome, o Rei dos Homens-Morcegos, o Rei Justo, o primeiro filho de Jahara, estava caindo e nenhuma das minhas centenas de anos iria fazer a diferença. Depois de inúmeros homens ferozes tentarem me assassinar quando o rei dos Homens deixou seu reino como recompensa, meu deslumbramento com o mundo que compartilhávamos seria meu fim, Atingi o chão com força, ainda arfando sentir o desespero, e pela primeira vez naquele dia, observei a neve cair.
Um som alto se fez nas copas das árvores e seguia na minha direção, e soube que era meu fim, eu não era ninguém, somente uma menina maldita, com pele e cabelos assustadoramente pálidos, amaldiçoada pelo destino que me tirou todos que um dia me pudessem me ter amor, iria padecer sozinha, da mesma forma que vivi, e minha alma ficaria para sempre assombrando as árvores desta floresta, depois de tantos anos correndo, me escondendo, escolhi desistir, e aceitar meu fim, a lamina fria de um punhal que sempre mantinha comigo escorregou por meus dedos e foi ao chão, fechei os olhos e deixei a neve cair sobre mim, apreciando a pela primeira vez em anos.
Enquanto o frio ganhava espaço, vi um ser que cabia nas descrições dos homens, vi um anjo, era diferente de todos os homens que havia visto, ela lindo, chorava por mim, seria minha salvação, se eu pudesse ao menos tocá-lo por um instante, ele estava ali, me esperando, tiraria os galhos do meu corpo, abençoaria minhas feridas e me levaria para casa.
Enquanto o calor do meu corpo derretia a neve e a transformava em gotas que deslizavam por meu rosto abri meus olhos e vi a besta, a adrenalina se espalhou por cada parte do meu corpo, ele insistia em sobreviver. Em um movimento rápido e certeiro peguei minha lamina e enterrei contra o pescoço da fera que vinha em minha direção com o intuito de tomar minha vida. O sangue esguichou pela neve, a fera arfou por um instante e cedeu. Eu respirei, estava viva, havia mudado meu destino, havia sobrevivido a neve e sua maldição.
Coberto de neve um último pensamento correu pelo monarca, seus olhos registravam sua última memória, com a jovem gotejando água misturada ao seus sangue que a cobria, ela era um anjo, ela era o anjo da morte.
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