A morte não tem manual de instruções
1 Quase?! Morto
Notas iniciais
Por mais que tentasse, não conseguia se lembrar de fato o que aconteceu. De um momento para outro estava ali, de pé, fitando o corpo que outrora fora seu. Em vida, era uma pessoa extremamente cética. Mas na dimensão em que se encontra agora, o resto parece banal. A morte não vem com um manual de instruções, com regras a serem seguidas, mas por um momento fora tomado por um desejo súbito de que viesse. O fato de estar morto não era o que mais incomodava seu ser, nem a imagem de seu corpo coberto de sangue bem ali, na sua frente. O que mais importava era saber o que fazer agora. A ideia de vagar sem destino, sem um objetivo lhe assustava ao ponto de arrancar lágrimas. Mas espíritos não choram.
- Um, dois, três, afasta!
Um intenso sentimento de tristeza dominou cada pensamento de sua mente medíocre. Pensou nas chances desperdiçadas, nos sonhos não realizados, nas tentativas frustradas. Nada disso importava mais, desejou não ter perdido tanto tempo com pensamentos ruins, quando poderia os ter guardado para agora. Nunca fora feliz de fato, mas esse é o castigo dos seres realistas demais. Os não sonhadores.
- De novo... Um, dois, três, afasta!
De repente fora tomado por um intenso enjoo, aquele reflexo de arrancar os aparelhos que agora mantinham sua respiração regular. Embora seus movimentos não correspondessem, sua mente soube, por poucos segundos, mas soube, que havia ganho uma segunda chance. Chance que desperdiçaria, como desperdiçou o resto de sua vida. Sequer lembraria dos dois minutos e meio anteriores a isso. Mas embora não soubesse o que era, levaria tudo aquilo que sentiu para o resto da vida.
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