A morte e sua confissão
1 One.
Notas iniciais
Não sei exatamente como iniciar esta pequena confissão, acho que devo começar me apresentando então lá vai. Olá, sou a morte, isso mesmo a morte. Antes eu era conhecido como Aomine Daiki.
Você agora deve pensar como me tornei a morte, bem... Um dia minha saúde estava afetada demais, eles não sabiam o que estava me acontecendo nem tinham a mínima idéia de qual doença era, apareceu um homem de terno preto assim como seu chapéu, cabelos grisalhos e com uma voz incrivelmente imponente ofereceu-me uma chance de viver a troco de uma coisa simples. Que eu viesse a substituí-lo algum dia em seu trabalho, eu agarrando-me a chance de viver aceitei. Como mágica minha saúde foi normalizada, porém mal sabia eu que isso duraria tão pouco tempo.
Em pouco mais de um ano o mesmo homem reapareceu no meio de um jogo, o vi na arquibancada e eu sabia que depois daquele momento nunca mais seria o mesmo. Mal sabia eu que a mudança seria tão drástica.
Ao fim do jogo, logo na entrada do vestiário ele me esperava. Sua voz impossível de ser confundida anunciou que chegara à hora de eu tomar o seu lugar, segurou meu colarinho erguendo-me na altura de seu rosto e fez-me encarar seus olhos que mais pareciam dois pequenos buracos negros, dali apareceu uma chama como a de um grande incêndio e então disse as palavras que mudariam a minha vida: “Hoje sua existência como Aomine Daiki acabará, você será tirado da memória de todos que lhe conhecem, será apenas mais um na multidão e terá que recolher as vidas que lhe forem mandadas se tornando assim, a morte”.
E então ele sumiu, estava eu ali parado com uma estranha sensação que não conseguia explicar quando Kise aparece ali e caminha com passos lentos e seu rosto tinha uma expressão confusa.
– O que foi? – Perguntei com a voz baixa, eu precisava que Kise ajudasse-me a esquecer aquela loucura e me confirmar que era apenas uma brincadeira.
– Não sei... É estranho... Sinto como estivesse aqui para ver alguma pessoa, mas não consigo lembrar quem seria ela. – Massageava a testa como se estivesse com dor de cabeça então abriu um sorriso fraco. – Estranho isto não?
Ele deu-me as costas e eu fiquei ali, estático olhando para o nada, sentindo nada, pensando em nada, tudo era um enorme vazio. Um celular apitou, levei a mão ao bolso e não era o meu, mas sim um que aparecera como mágica ali.
– Centro da cidade, incêndio, total de cento e quarenta vidas para serem recolhidas. – Uma voz sem emoção falou e em seguida a linha ficou muda.
Não me lembro muito bem como fui parar ali, na frente de um grande prédio no centro, apesar de que sempre é assim. Após a ligação apareço na onde é o “trabalho” comecei a chamar assim com o tempo e como em um filme as coisas começam a acontecer, um pequeno foco de incêndio por um descuido e em minutos quatro andares então ardendo em fogo.
Vi tudo em câmera lenta, afinal não estava realmente ali. As chamas não me causavam calor nem queimava minha pele. As pessoas que estavam destinadas a morrer ganhavam uma tonalidade vermelha então era apenas chegar perto dela e tocá-la que seu nome se escrevia em uma mensagem no celular, já estava feito.
Percorri todos os andares, faltava apenas uma vida a ser recolhida encontrei uma mãe e seu filho encolhidos em um canto tentando afastar-se do fogo. A aura vermelha estava apenas no menino este me encarou enquanto me aproximava curiosamente ele podia me ver diferente dos outros.
Abriu um sorriso fraco e então colhi sua vida. Assim que as vidas determinadas foram colhidas, novamente desapareci e fui parar em um enorme salão branco com apenas uma mesa pequena na extremidade oposta que me encontrava, um homem magro estava atrás desta e com um sinal chamou-me para perto dele.
– Foi muito bem para seu primeiro trabalho. – Era a voz que ouvira antes no telefone, tinha tantas perguntas que não consegui formular uma com clareza, minha boca abria e fechava e nada saia além de palavras separadas e sem nexo.
– O que... Morte... Eu... Vidas... Como? Que merda...
– Esta bem, esta bem. A confusão é natural! A antiga morte viu em você uma oportunidade de escapar do seu destino e finalmente descansar em paz, você hoje é a morte pode deixar de ser, porém existe um tempo mínimo para ficarem no cargo e para garantir que não faça qualquer idiotice, suas emoções humanas foram retiradas. Com o tempo as memórias da sua existência como Aomine Daiki desapareceram, você é imortal afinal é a própria morte! – Soltou uma risada contida, vendo que não o segui continuou com sua explicação. – Não tem segredos, o mando aonde e quando tiver trabalho e após o trabalho virá para cá, entregará as vidas e voltará para onde quiser. Quase ia me esquecendo! Você não pode ser visto por pessoas normais apenas se quiser se tornar visível para ela, a não ser por crianças que tem uma sensibilidade maior que dos adultos. Alguma duvida? – As coisas foram ditas com tamanha rapidez e de forma tão natural que quase não acreditei, fiquei encarando aquele homem com a boca aberta. – É normal estranhar de primeiro, logo se acostuma. Agora saia daqui.
Esta foi à primeira memória que implantaram em mim, ou melhor, a única que deixaram restar. Durante um tempo tentei lembrar meu nome, se tinha família, namorada e se era feliz. Cheguei à conclusão que não, por que se fosse não teria aceitado a chance de ser a morte, os anos passavam, apenas recolhia as almas e vagava por ai observando aquelas pessoas que em um piscar de olhos pode ter um encontro marcado comigo.
Não me lembro ao certo quanto tempo passou, quando se é imortal você não dá importância para o tempo, porém hoje recebi um telefonema como é de costume. Era pra recolher uma vida em um asilo apenas mais um idoso morrendo, apareci no quarto dele que estava olhando para a janela em sua cadeira de rodas parei em sua frente pronto para colher sua vida quando percebi que o mais velho falava sozinho.
– Aomine... Onde se meteu? Apenas eu me lembro de você... Por que apenas eu? Lembro-me de jogarmos juntos... Por que apenas eu? Por que não volta? – A sanidade daquele senhor já não era perfeita, mas aquelas palavras me acertaram como um soco, fazendo-me recuar até encostar-me na janela. Lembranças vieram como um turbilhão deixando-me atordoado.
– A-Aomine... Daiki – Repeti aquele nome que aparecera na minha mente, vários momentos dentro de uma quadra... Jogos de basquete. Lembranças do loiro que me fazia rir e que eu estava pronto para pedi-lo em namoro...
– Aomine... Queria ter jogado mais com você... Ter a chance de te vencer, mas você sumiu Aomine... Onde se meteu? – Ele continuava a repetir essas frases e então pela primeira vez desde que me tornei a morte, senti emoções. Estas a muito esquecidas e confusas, lagrimas rolavam pelo meu rosto nem sequer sabia que as tinha. Tornei-me visível para aquele que fora, em um passado distante, a pessoa que mais amei.
– Kise... – Os olhos do velho focaram-se em mim e um sorriso iluminou sua face enrugada.
– Aomine! Você voltou! – As lagrimas banhavam seu rosto. – Você está exatamente como me lembrava.
– Kise... – As palavras não saiam, não tinha nada para ser dito? Não... Tinha tantas coisas que não conseguia dizer. – Me desculpe.
– Não precisa se desculpar! Você voltou! Aomine voltou! – Estendeu a mão para tentar me tocar. Não poderia ter precedentes de que a morte se recusara a colher uma vida, então com um sofrimento que não tinha experimentado nem quando estava doente em uma cama de hospital, curvei-me e selei nossos lábios. Assim em um beijo mortal, roubei a sua vida.
Enxuguei as lagrimas já que não poderiam perceber que recuperei meu lado humano, ele logo sumiria afinal. Então escrevi isto que esta lendo, a vida que fora tomada de um jovem que se tornara a morte e como conseqüência, foi roubada a vida e a sanidade de outro que se recusou a esquecê-lo.
Decidi então não passar meu cargo de morte para frente, mas ficar com ele para a eternidade não queria que outras vidas fossem interrompidas como a minha e de Kise... Se você está lendo isso, já perdi as memórias novamente, mas precisava compartilhar isto com alguém. Veremos-nos novamente no dia de sua morte, pode ser hoje ou daqui a anos, espero que se lembre da historia que eu, a própria morte, lhe contei.
Fale com o autor