A mission for life
4 Arigato
O tilintar das chaves contra a porta conseguia ouvir-se do meu quarto. No que toca a fazer pouco barulho não posso dizer que a minha mãe seja cautelosa, aliás, às vezes quase me convenço que o faz de propósito para me acordar sem ter o trabalho de subir as escadas para o fazer pessoalmente. Ela sabe que isso não dá resultado porque tenho um sono pesado e a não ser que um som muito forte me entre pelos ouvidos logo pela manhã, eu continuo a dormir. Quem não gosta de dormir mais de manhã?
Abri lentamente os olhos, ainda permaneciam ligeiramente colados por causa da noite mal dormida. Já estávamos em Março e a temperatura tendia a aumentar cada vez mais. Graças a isso, a tonelada de cobertores que tinha por cima de mim fizeram com que me sentisse a assar. O calor era insuportável e não me deixou dormir a maior parte da noite. Respirei fundo. O meu quarto estava parcialmente escuro e apenas iluminado pelas frestas de luz, que a única janela do meu quarto deixava passar, e o piscar da luzinha irritante do computador que me tinha esquecido de desligar ontem à noite. Afastei os lençóis, levantei-me e respirei fundo outra vez. Sentia-me completamente suado por causa do calor, tinha de tomar um banho.
As escadas que ligavam o meu quarto e a cozinha tinham degraus minúsculos e a dificuldade de os conseguir descer, principalmente aquelas horas da manhã, tornavam a tarefa ainda mais complexa. Fui a cambalear até à cozinha e olhei para o relógio: 12:30 da tarde. “Tão cedo…” Foi a primeira coisa que pensei. Sim cedo, porque para mim, que costumo acordar às duas da tarde, meio dia e meio é muito, mas muito cedo. Passei a mão pelo cabelo, olhei em volta e vi um pequeno papel na mesa da cozinha que presumi ser da minha mãe.
“Bom dia preguiçoso, se ainda não tiveres visto isto antes de eu chegar, juro que te passo a acordar todos os dias às sete da manhã! Sete! Entendes?! Bom, eu fui tratar de uns assuntos. Come o resto da pizza de ontem e estuda. Não devo tardar.
Beijos, mãe
Ps: Compra legumes pra mamã, compra meu amor.” Seguido de um desenho de uma cara redonda com um sorriso enorme.
“Faltou o indispensável: não abrir a porta aos estranhos.” pensei. Mães e as suas típicas recomendações que, a menos que nos agradem, não as cumprimos. “Valeu o esforço, mãe!”
Apesar do calor, os meus pés gelavam no chão. Pôrra! Esqueci-me de tomar banho! Tirei os boxers e entrei no duche. A água quente fazia vapor quando entrava em contacto com a minha pele. Mergulhei a cabeça na água uma e outra vez. De cada vez que o fazia parecia que mergulhava no mar. Fechei a torneira e sacudi o cabelo.
Turu Um som chamou-me a atenção. Esperei mais algum tempo para ver se o som persistia. As gotas de águas que restavam na torneira pingavam, mas nada do som que tinha ouvido. Passei uma toalha pelo corpo.
Turu Outra vez… Peguei nos boxers, vesti-os à pressa e peguei na toalha secando o cabelo enquanto em dirigia para o meu quarto. O ecrã do meu computador estava aceso e um pequeno pop-up do facebook surgiu.
Jason Marx enviou-lhe uma mensagem. Os meus olhos nem queriam acreditar no que viam. Jason Marx, o meu melhor amigo de infância. Não sou muito sentimental, mas sentia a falta dele. Estávamos juntos desde que no infantário, tínhamos pegado no espelho de maquilhagem da professora para ver as quecas das nossas colegas que traziam saia. Há cinco meses que me tinha mudado para Inakadate e só há pouco tempo tinha começado a ter internet em casa então não falava com ele há muito.
“Matt? Estás? Onde te meteste?”
“Matt! Responde seu fdp!”
Sentei-me na cadeira e comecei a escrever.
“Jace! :D”
“Onde estás? Está toda a gente doida à tua procura e da tua mãe! :O”
“Não poso dizer…”
“Como não podes dizer!?”
“Não posso…”
“Matt, acho que não estás a entender a gravidade da situação… Isto não é uma brincadeira… Vieram interrogar-nos à escola, para saber se algum de nós tinha conhecimento de alguma coisa. Foram á tua escola também! As pessoas estão alarmadas e o teu pai anda a dizer que a tua mãe te raptou… :S”
“É verdade?...”
“Claro que não é verdade! Sou maior de idade, a minha mãe não podia raptar-me -.-“
“Então o que se passa!?”
“Já disse que não posso contar”
“Merda! Somos melhores amigos ou não!?”
“Desculpa, não posso… :S”
Vista às 14:15
Passaram cinco minutos e via o Jason ora a escrever, ora a apagar.
“Eu sei onde estás”
A minha respiração falhou.
Ele não podia saber, ninguém sabia… Teria dado alguma coisa a entender que eu me tinha mudado para o Japão com a minha mãe? Não…
“É impossível saberes.”
“Para quê tanto mistério? Diz logo. Tens medo que conte a alguém? É isso? Não vou contar, estás a matar-me de curiosidade -.-“
“Se disser o porquê de não poder contar, paras com as perguntas?”
“Conta”
“A minha mãe não quer” Atirei as culpas para a minha mãe.
“Tão obediente… Tu não estás bem…”
“Porque é que é tão importante ninguém saber onde estão? Aconteceu alguma coisa?”
“Demasiadas perguntas, Jace -.- eu estou bem“
O Jason era dos poucos que não sabiam do que acontecia em minha casa quando o meu pai abusava no álcool. Quando ele bateu com um candeeiro na minha mãe e ela ficou com um hematoma na cabeça, telefonei para as urgências e com o barulho da ambulância, todas as pessoas que viviam perto de nós ficaram a saber o que só eu e os meus pais sabíamos. Como não andávamos na mesma escola, por sermos de cursos diferentes, as notícias não chegaram tão alarmantes á escola do Jason quanto chegavam à minha.
“-.-... é impossível falar contigo”
De repente, sobressaltei de susto.
“Jason, alguém foi a minha casa?...”
“Não… O teu pai recusa-se a deixar alguém entrar.”
Suspirei de alívio. Já tinha passado este tempo todo e a sensação e preocupação sobre o que me iria acontecer se alguém, principalmente a polícia descobrisse o que eu escondia debaixo da cama, continuava bem presente. Provavelmente o meu pai recusava-se a deixar alguém entrar para que ninguém descobrisse provas do que nos fazia.
“As pessoas andam a dizer que o teu pai e a tua mãe discutiam, mas a polícia não pode fazer nada já que o teu pai não os deixa revistar a tua casa.”
“Isso é mentira.” Menti ao Jace. O que se passava em minha casa eram mais do que meras discussões, mas eu não queria que ele soubesse.
“Tu sabes, as pessoas falam… mas não ligues. “
“Não ligo”
“Sabes alguma coisa sobre o meu pai?”
“Ninguém sabe nada sobre ele. Desapareceu já há 15 dias atrás.”
Comecei a sentir-me nervoso.
“Mas dizem que saiu para uma entrevista de trabalho, não te preocupes.”
“Ok”
“Bem, vamos passar a assuntos mais interessantes. A Jane perguntou por ti ;)"
A Jane era a rapariga… bem, a Jane era a última rapariga com que eu tinha… digamos que… ido para a cama. De cabelos encaracolados e ruivos com uma pele muito branca e olhos enormes e verdes, tinha uns seios enormes que me deixavam nas nuvens e um perfume do qual já não me lembro do cheiro. Definitivamente não era uma rapariga de se deitar fora embora também fosse do género de raparigas que, depois de uma ou duas vezes, perdem a piada toda. Pessoalmente já não sentia sequer a falta dela… aliás, apenas me lembrei dela nos primeiros dias que estive no Japão… Depois, acabei por esquecer.
“Ainda estás nessa?... Estou a ver que sem mim não te sabes arranjar.”
“Então!? Sou um bom amigo, esperei até falar contigo pra poder começar alguma coisa com ela! De nada.”
“Por mim tudo bem.”
“É por isso que eu te adoro hahah :D”
“Tenho de ir. Vai falando ok?”
Podia pedir para ele retribuir o favor e mandar alguns cigarros para mim, mas isso implicava dizer-lhe a minha morada. Foda-se tudo.
“Ok. Sayonara.”
***
Já passava das três da tarde. Tinha de ir fazer as compras para a minha mãe como um bom menino. Vesti-me, levei os dentes, peguei no telemóvel, desci as escadas e fechei a porta à chave. Estava muito calor e o ar estava abafado, um tempo estranho para Março.
Estava aquele calor de Verão, que quando olhamos para o horizonte as coisas ficam distorcidas, esse tipo de calor. Passei ao lado dos campos de arroz que se estendiam até muito longe. Várias pessoas estavam com os pés submersos na água e apanhavam alguns rebentos de arroz que tinham ficado por apanhar.
“Matthew-san!!” Ouvi o meu nome e olhei em redor. Ao longe, com um cesto na mão e de calções a Chinatsu vinha a correr ao meu encontro. Ofegante tentava ajeitar o cabelo preso num rabo de cavalo.
“Tudo bem? Onde vais?” A Chinatsu tinha um sorriso bonito. Os dentes bem alinhados que espreitavam por debaixo dos lábios rosa.
“Ia à loja de conveniência agora comprar uma coisas pra minha mãe” Sorri também para ela.
“E… vocês? Estão a fazer…”
“Estamos a ajudar a limpar o campo. Daqui a pouco tempo temos de plantar o arroz, para fazer os típicos desenhos nos campos de arroz de Inakadate!”
Lembrei-me do que o taxista disse no primeiro dia em que me mudei para cá. “Cidade tem anualmente época de Tanbo no Geijutsu, desenhos gigantes nos campos, muito bonito.”
Não tinha nada pra fazer e estava calor, mergulhar os pés na água estava a apetecer-me muito. Suspirei.
“Posso ajudar?”
“Hai! Podes.” A Chinatsu entregou-me o cesto e disse para me descalçar. Levemente, agarrou-me na mão como se fosse o seu príncipe encantado e arrastou-me até um grupo de pessoas que estavam agachadas a apanhar rãs.
“Alguma vez plantaste arroz?” Abanei a cabeça em sinal de negação.
“Minaaa, este é o Mathew san, ele é da América e não sabe plantar arroz, Bábá-chan, ele pode ajudar?”
A Bábá-chan de novo. A senhora com que a Aiya tinha falado no dia anterior estava, juntamente com o resto da população embrenhada nas plantações de arroz e parecia ser uma espécie de “líder”. Com a sua voz desgastada dirigiu-se a mim e disse algo em japonês. A Chinatsu logo lhe explicou que eu não falava a sua língua e entregou-me um cesto igual ao dela fazendo sinal para nos afastarmos. A Chinatsu puxou-me pela mão e levou-me até um pequeno campo à parte com algumas espigas de arroz para arrancar.Agachou-se e puxou-me para baixo.
“Olha… Começas assim: arrancas a espiga pela raiz, para que não volte a crescer e depois pões no cesto. A seguir verificas se não há pedras ao lado de onde arrancaste o arroz…”
A fluência com que ela falava Inglês, distinguia-se claramente da dos outros. Pegou na minha mão e levou-a até à raiz de uma espiga. Sozinho arranquei-a e tirei algumas pequenas pedras que estavam à sua volta. Sorri para ela enquanto ela batia palmas rápida e silenciosamente também com um sorriso tímido. Reparei que pequenas folhas estavam presas ao seu cabelo e tentei tirá-las com cuidado. Ela ficou um pouco vermelha.
“ A-a-arigato…” Sorri para ela.
“Hai…” Atrás de mim, com um sorriso, imóvel e com o cabelo apanhado estava a Aiya. A Chinatsu cumprimentou-a e eu imitei-a. Entre mim e a Aiya existia uma estranha sensação, talvez por causa do que tinha acontecido ontem.
“Temos de nos dividir. Dois jovens para cada grupo de mais velhos.”
A Chinatsu pegou no cesto e trocou algumas palavras com a Aiya que acenou com a cabeça. De seguida saiu de ao pé de nós e foi ter com outros jovens que se preparavam para seguir a Bábá. Eu e a Aiya seguimos as outras pessoas. Os nossos pés chapinhavam na água e íamos arrancando algumas espigas.
“Matthew –kun” A Aiya murmurava.
“Preciso de falar contigo” Olhei espantado para ela
“Fala então”
“Desculpa…” Hesitei.
“Porquê?...”
“Tu sabes… por ontem… fechei-te o portão na cara…”
“Já não é a primeira vez”
“Por ter gritada que não eras o meu médico…” A Aiya virou a cara em sinal de vergonha.
“Não faz mal.” Acalmei-a.
“Olha…”
“Sim…”
“Como sabias aquilo…”
“O quê?...”
“Aquilo… Aquilo do rebuçado”
“Ajudou?”
“S-sim…” Os adultos reclamaram alguma coisa e a Aiya começou a apanhar arroz mais rápido.
“Posso ensinar-te mais…”
“Como sabias que eu tenho crises de ansiedade?...”
“Dá para ver. Eu sei essas coisas… quero ser psiquiatra.”
“Estás a chamar-me maluca?”
“Nem todas as pessoas que consultam um psiquiatra são malucas…”
“Afinal sempre acertei.” Deitou um pequeno risinho.
“No quê?”
“Sempre queres ser médico”
“Sim… Pode dizer-se que sim”
“Mas não estudas nada” A Aiya falava com um ar desafiador e continha o riso.
Fiz uma expressão de espanto “Gosto de aproveitar a vida”
“Diz-me mais alguns truques para controlar a ansiedade”
“Podes lembrar-te dos 4 elementos – TERRA – AR – ÁGUA – FOGO, são uma forma de te lembrares de aplicar mesmo quando está debaixo de grande agitação física e mergulhada em pensamentos negativos… demora entre 3 a 4 minutos percorrer os '4 elementos'.
Terra — Põe os pés no chão e toma consciência do local onde está. Pega num rebuçado e descreve-o por exemplo, como ontem. Isto permite sair da espiral de pensamentos perturbadores focados na 'catástrofe' e passar para o 'aqui e agora'; O
Ar – Respira fundo, pausadamente, conta 1-2-3-4, usando o diafragma de forma a conseguires baixar a agitação.
A Água — Bebe água, para ajudar o nosso 'travão' biológico a recuperar a estabilidade física…
E o Fogo — 'Incendiar' a imaginação: procura uma imagem de um local agradável, ou uma situação em que te tenhas sentido bem. Pensa: “eu consigo, eu sou capaz de gerir o que me acontece” – Tens de plantar flores bonitas depois de teres arrancado as ervas daninhas.”
A Aiya ouvia o que eu dizia com atenção enquanto arrancava o arroz.
“Onde aprendeste isso tudo?”
“Livros, internet… porquê?”
“Acho que davas um bom psicólogo”
“Psicólogo?”
“Sim, porque eu não gosto de Psiquiatras. São sempre os maus nos filmes.”
“Eu não sou mau.”
A Aiya ficou calada. Passado um pouco disse:
“ Nunca viste os desenhos no arroz?”
“Não” Respondi
“Estou a trabalhar para isso haha” Apontei para as espigas de arroz que estava a tentar arrancar.
"Eu vejo todos os anos, desde que nasci."
“Plantamos 3 tipos de arroz agora para fazer a diferença de cor. Ele cresce em Junho/Julho e à medida que cresce os desenhos vão aparecendo. Em Setembro os desenhos aparecem finalizados. Lindo não é?”
“Vamos vê-los? “
“Claro”
“Quero dizer… juntos?” A Aiya olhou para mim de relance. Corou.
“Porque insistes tanto que estejamos juntos?”
Suspirei “Não sei… Gosto de estar contigo, porquê? Há algum problema?” Ela permaneceu calada. Uma expressão neutra reinava na sua cara.
“Porque… Porque… não vais com a Chinatsu?...” Fez beicinho, com uma expressão indignada. Achei piada á sua cara.
“Ciúmes, Aiya chan!? Ahaha” Brinquei com o seu rabo de cavalo.
Ela ficou realmente zangada. A Aiya era extremamente sensível. Tínhamos de medir todas as palavras ao pormenor porque o mínimo milímetro podia fazer a diferença entre receber a sua aprovação ou o seu ódio. Eu gostava dessa sensação e estava a aprender como falar com ela. Bem… mais ou menos…
“Cíumes!?” Ela olhou para mim com ódio. “Quem pensas que és? Porque haveria eu de ter ciúmes?!” Começou a apanhar o arroz mais rapidamente.
“Hei…desculpa. Estava a brincar! Haha” Pus-me à frente dela bloqueando-lhe o caminho. A sua cara exprimia profundo desprezo. Seria toda a gente assim ou ela era a única que levava tudo demasiado a sério? Peguei num conjunto de espigas de arroz e passei-as debaixo do seu nariz levemente, o que a fez sacudi-las e empurrar-me.
“Aiiiiiii, Faz cócegas! Aiiii” A Aiya tentava conter o riso. Eu ria-me também enquanto a observava coçar o nariz.
“Baka!” (*idiota) A Aiya empurrou-me e quase me fez tropeçar e cair na água. Era pequena, mas tinha força. Olhei para ela. Tinha um sorriso de vitória e o nariz vermelho como um palhaço por causa do arroz.
Eu tentei, juro que tentei conter o riso, mas aquela imagem era demais. Comecei a gargalhar baixo, mas à medida que ela ia perguntando de que é que eu me estava a rir, eu gargalhava mais alto. Apontei para o seu nariz.
Ela começou à procura de outras eravas para contra atacar e atirou-as contra a minha cara. Passado um pouco eu tinha a cara vermelha como um tomate. A Aiya não hesitou em desatar a rir. O seu riso era contagiante o que em fez começar a rir também. A Aiya começou a chorar, desta vez de tanto rir. Dos seus olhos amendoados caíam pequenas lágrimas. Cheguei-me a ela. Tentou afastar-se. Com o polegar limpei-lhe algumas. Ela já não sorria. E vendo que ela não o fazia, automaticamente eu também o deixei de fazer. Como se a minha felicidade dependesse da dela.
A música “Ritual” Dos Bvb começou a tocar. Era o meu telemóvel.
No ecrã, o nome “Mom” Aparecia a piscar. Atendi.
“Mãe”
“Matthew… filho… temos um problema” A voz da minha mãe estava rouca, ela estava a chorar ou tinha acabado de o fazer. Comecei a ficar preocupado.
“Mãe onde estás?” Fiquei atrapalhado. A Aiya olhava pra mim com curiosidade enquanto apanhava o arroz.
“Estou na esquadra… tivemos um problema Matthew, preciso que venhas até cá…” Comecei a sentir-me nervoso. Que tipo de coisa podia ter acontecido assim tão má?
“Apanha um táxi e vem por favor.” A minha mãe deu-me a morada e despediu-se. O telemóvel dava sinal de fim de chamada. Eu tremia de medo. A Aiya, que persentiu o meu medo olhava-me com nervosismo. Olhei para todos e disse, em inglês, que tinha de ir o que fez com que as pessoas ficassem a olhar para mim confusas. Comecei a andar até à margem tropeçando.
A Aiya começou a chamar-me enquanto corria atrás de mim.
“Matthew –kun!”
Virei-me para trás e agarrei-a nos braços o que a fez corar.
“Aiya, onde apanho um táxi? Preciso mesmo de apanhar um táxi.”
A minha voz falhava e a garganta doía. Começava a sentir uma tristeza profunda e tinha os olhos em água. O Jace tinha dito que o meu pai não era visto há 15 dias, e se ele tivesse vindo procurar-nos e encontrado a minha mãe? Estaria a ser paranoico?
“Não precisas de um táxi. O motorista do meu pai leva-te, se quiseres.”
“Não, não quero incomodar.”
“Não incomodas, é a minha maneira de te agradecer por ontem”
Acenei com a cabeça e ela levou-me pela mão até casa. Embora me sentisse como lixo a pequena mão dela fazia sentir-me um pouco melhor. Um grande carro preto saiu da garagem da casa da Aiya e, depois de ter olhado para ver se ninguém nos estava a ver mandou-me entrar no carro. Ela disse alguma coisa ao motorista e o carro arrancou.
Separados pelo banco do meio e assoberbados pelo silêncio eu sentia-me cada vez mais nervoso verificando o telemóvel a cada cinco minutos à espera que uma nova chamada chegasse. A Aiya ia a olhar pela janela com as mãos entre as pernas para as aquecer. Toquei-lhe no braço. Ela assustou-se um pouco e depois olhou para mim.
“Podes… dar-me a mão?...” Não sei se foi da minha voz trémula, mas a Aiya aceitou. Ela que não gostava de muita proximidade. Com a minha mão entrelaçada com a dela comecei a sentir formigueiro na barriga. O calor que ela passava para mim era suficiente para me sentir mais seguro.
Quando chegámos, o motorista abriu-nos a porta e eu saí do carro com a Aiya. Mal vi a minha mãe, soltei a mão da Aiya e corri para ela.
“Mãe! O que se passou!?”
“Filho desculpa… foi um mal-entendido… Pensavam que estávamos clandestinos no país por causa de um erro no passaporte… Desculpa se te preocupei meu amor….”a minha mãe enchia-me de beijos e abraços. E eu abraçava-a a ela. Graças a Deus não tinha nada a ver com o meu pai. O meu coração finalmente acalmou.
“Quem te trouxe?”
Olhei para trás, junto a um motorista tão alto como um jogador de basquete vestido com um fato preto, estava a Aiya encolhida com o frio a olhar para mim e para a minha mãe.
Andei até ela e abracei-a. Consegui sentir o seu coração palpitar, cada vez mais rápido, e as suas mãos no meu peito por ter sido apanhada de surpresa.
“Arigato” sussurrei.
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