A mentira tem perna curta
3 Capítulo 3: Em prática, parte 1.
Mais tarde, próximo ao café de Lana, Clark olhou para Chloe. Ele estava claramente nervoso. Enquanto ela, no fundo, já se sentia um pouco machucada. Porém, sua dor misturou-se com a euforia quando sentiu uma de suas mãos ser tomada por outra bem maior. Clark entrelaçou seus dedos aos dela. O gesto a pegou de surpresa, mesmo sabendo que o fariam.
— Tudo bem? — perguntou ele, percebendo que ela estava sem jeito.
— Sim, com certeza! — sorriu, embora fosse óbvio que não estava bem. Podia sentir as bochechas arderem e o coração palpitar. — Só é um pouco estranho, pois nunca fizemos isso antes.
— Pois é. Eu sei como se sente.
Eles ficaram alguns segundos em silêncio, ambos focados apenas no toque. O encaixe era surpreendentemente perfeito. Mas os batimentos cardíacos de Chloe estavam tão rápidos que ela temeu que, de alguma forma, Clark pudesse ouvi-los. Por isso, disparou:
— Então, vamos entrar?
Ele assentiu e abriu a porta com a mão livre. Sem soltá-la, deu passagem para que ela entrasse primeiro. Chloe avançou pelo estabelecimento de decoração dourada e vermelha, e logo Clark estava ao seu lado. Caminharam até o balcão com os dedos ainda entrelaçados. Lana estava lá, de cabelo preso em um rabo de cavalo, usando uma blusa azul-clara que combinava com o seu colar verde — um fragmento do meteorito que caiu em Pequenópolis. Ela terminava de preparar um café quando levantou a cabeça e os encarou.
— Oi, pessoal! — sorriu, mas a expressão logo murchou ao perceber o contato entre eles. — O que tá rolando? — perguntou, forçando-se a manter um rastro de simpatia no rosto.
— Oi, Lana — cumprimentou Chloe, aproximando-se mais de Clark. Ela encostou seu corpo ao dele e pousou a mão livre sobre o seu peito. Pôde sentir a musculatura dele ficar tensa, só não sabia se era de um jeito bom ou ruim. Mas, conhecendo a sua sorte com o Kent… — Como pode ver, finalmente consegui fazer com que Clark Kent notasse os meus sentimentos — disse, soltando uma risada leve.
Uma boa mentira sempre tinha um fundo de verdade. A mentira era que Clark enxergara o que sentia; a realidade era que realmente o amava.
— Pois é! Eu não sei como fui tão cego — completou Clark, com um sorriso sem graça. Lana parecia em choque quando ele confirmou o possível relacionamento dos dois, mas logo despertou quando ele perguntou: — Podemos ficar com a mesa do canto?
— É claro! Daqui a pouco atendo vocês.
— Obrigado, Lana.
Os dois seguiram para os fundos, para a mesa no canto, perto de uma janela com vista para o lado de fora. Para a infelicidade de Chloe, eles separaram as mãos para poderem se sentar um à frente do outro.
— E então? — perguntou ele, ansioso.
Ela sabia exatamente o que ele queria saber, mas preferiu se fazer de boba.
— O quê?
— O que você achou da reação da Lana? Você é garota, deve entender mais sobre isso do que eu.
Era evidente que Lana estava incomodada ao ver Clark acompanhado. E isso deixava Chloe em um misto de emoções. Primeiro, o fato de não ser correspondida: perceber que Lana parecia gostar dele traçava um caminho claro sobre o fim dessa história. Segundo: como ela podia fazer aquilo com Whitney? Como podia continuar com ele gostando de outra pessoa? Além disso, Lana era confusa; uma hora dizia querer exatamente o que Clark não podia oferecer, e outra estava ali, com uma pontada de ciúmes.
— Ainda é cedo para dizer algo — respondeu. Se confessasse de imediato o que observou, o teatrinho acabaria ali. E ela queria aproveitar mais, já que suas chances haviam caído de 0,00001% para zero. — Então, vamos trabalhar? — disparou, colocando a bolsa sobre a mesa para mudar de assunto. Era seu mecanismo de defesa. Com Clark, a probabilidade de sair ferida era sempre alta, e ela queria falar o menos possível sobre Lana.
Ela tirou seu caderno de anotações e o encarou.
— Chloe, sei que seu habitat natural é o jornalismo, mas você precisa descansar também — disse ele amigavelmente, colocando sua mão sobre a dela.
Por um momento, ela achou o gesto gentil. Mas logo percebeu que era parte do teatro em que atuavam, pois Lana chegou no mesmo instante para anotar os pedidos.
— Então, o que vão querer? — perguntou a dona do café.
— Um café simples — Chloe foi a primeira a responder. Sua vontade, por causa da raiva, era puxar a mão que estava debaixo da de Clark. Ele realmente só tem olhos para Lana Lang, pensou furiosa. Porém, conteve-se. Havia prometido aquele teatro.
— Dois, por favor — Clark pediu o mesmo.
— Só por curiosidade… — Lana começou. — Quando isso começou a rolar? — perguntou, abrindo um sorriso forçado.
Clark olhou para Chloe, nervoso. Ela respirou com calma e sorriu.
— Não é segredo para ninguém que eu gosto do Clark há muito tempo. Mas esse cego só foi notar há poucos dias. Então, decidimos começar a namorar hoje — respondeu.
Clark parecia um pouco intrigado com a resposta, mas não se demorou pensando sobre o assunto, pois logo sorriu e concordou.
— Legal. Desejo felicidades! — desejou, saindo para buscar os pedidos.
Ela não estava sendo totalmente sincera. Chloe podia ver isso através daqueles olhos verdes. Mas, não demoraria para que ambos ficassem juntos. Ela aceitou sua sina e voltou seu olhar para Clark, um pouco desanimada. Ele suspirou.
— Você acha que vai dar certo? — perguntou ele.
— Calma, Clark. É só o primeiro dia. Ela precisa ver que é sério, e somente o tempo vai dizer isso.
Ele assentiu e, finalmente, percebeu que sua mão ainda estava sobre a dela. Sorriu de maneira sem graça e a retirou.
— Vamos trabalhar! — disse ele.
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