A menina dos olhos de gato
1 Capítulo 1
A menina dos olhos de fato
"Eita porra, que mulher gigante," pensei enquanto me aproximava dela. Tínhamos combinado de nos encontrar na República, depois que ela saísse do trabalho e eu da exposição com minha amiga.
Já passava das nove quando a vi de longe. Dei um salto do chão onde estava sentada, pensei em gritar por ela, mas eu ainda não sabia o nome dela, então tinha salvado o contato como "K". Apressei o passo para alcançá-la.
Ela me viu à distância e veio até mim, animada.
— E aí, mana!— Falei com uma voz mais morta do que eu pretendia.
Ela estava animada demais para um rolê no centro, pensei. Mas era sexta-feira; eu é que estava desanimada porque tinha acabado de terminar um relacionamento. Minha vibe estava um lixo, então me deixei contagiar pela dela. Sexta à noite das meninas malandras grandonas no centro da cidade. "Foda-se, vou curtir pra caralho hoje," era o sentimento que dominava meu peito.
Ela me viu antes de eu realmente chegar até ela. Pensando bem, havia uma química estranha. As presenças eram intensas, e se encontraram, saindo juntas pelo centro sujo de São Paulo. Aquilo fazia sentido. Não era um rolê pago. Era ali mesmo que deveria ser. Eu tinha certeza.
Não sei explicar exatamente a vibe do centro de São Paulo, mas o lance é as pessoas se encontrarem para desbaratinar a noite nas ruas que, de dia, funcionam como um ponto de trabalho. Estranhamente, as pessoas precisam de outras pessoas, então todos estávamos ali: saindo do trabalho, mais cansados do que animados, procurando alguma emoção depois de uma semana de merda. Não sei se os outros conseguiram, mas eu consegui.
Assim que ela chegou, observei-a de cima a baixo. Ela era linda. Confesso que, como ainda tinha um menino na cabeça, me comparei brevemente com ela, mas logo descartei esse pensamento e passei a apreciar como era legal estar com outra mana linda e grandona, indo fumar na República. Aquilo fez mais sentido para o meu corpo, minha cabeça, minha alma, e continuei nessa linha de pensamento. Tudo ficou natural. Rimos juntas como manas, e ela me perguntou se eu era bi. Eu confirmei, mas nem lembro direito o que disse. O que lembro é que estava focada em viver o momento, cada pedaço dele, porque me sentia loucamente viva.
Eu a observei com atenção. Não havia nenhuma intenção além da curiosidade. Os detalhes eram bons, muito bons. E os detalhes fazem a diferença. Seu cabelo estava trançado, formando um rabo de cavalo, e seus cachos vermelhos estavam soltos nas costas. Ela tinha um piercing acima do lábio, o que eu sempre achei levemente sexy. E isso não atrapalha em nada o beijo.
Então, o beijo…
Paramos para fumar quase perto da Galeria Olido, já lá embaixo. Estava mais vazio e não viria polícia ali. Nos enfiamos no meio de um grupo de pessoas que se misturavam: loucos, bêbados, drogados, gente que tinha acabado de sair do trabalho e outros que estavam indo para outro rolê. Será que estava tocando um samba ao fundo? Não lembro direito.
Bolamos uma trave e já tínhamos comprado duas cervejas cada. Era o início da noite.
Encontramos mais duas amigas dela, colocamos nossas bolsas em uma rodinha para poder dançar em paz, mas sempre de olho.
Ela sempre me elogiava muito, reparava nos detalhes e falava abertamente. No início, achei que fossem apenas elogios de mana, e alguns realmente eram. Ela estava me elogiando como uma mulher parceira, e comecei a gostar disso. Passei a elogiá-la também. Elogiei mais do que o normal porque percebi que ela não ficava tão animada quando eu não retribuía. Então, comecei a reparar todos os seus detalhes, buscando assunto para elogiar. E não faltou mais.
Eu gostei de reparar nos detalhes dela. Ela era toda bonita, estilosa, vaidosa. As unhas estavam perfeitamente feitas, longas nas mãos compridas, curtas nas pontas, quadradinhas arredondadas, me lembrando as unhas da minha madrasta, uma mulher vaidosa e poderosa.
Estávamos dançando como nada importasse, rebolando ao som do funk que tocava ao fundo, sem medo, roçando uma na outra, ela me olhava como se me desafiasse, e eu provocando também, queria saber até onde aquilo iria, parecia tudo tão eletrizante, so tinha eu e ela ali, nossas bolsas estavam ali perto, na rodinha, mas por segundos eu esqueci de tudo, só existia os olhos dela. Eu não saberia dizer quanto tempo isso demorou, mas pareceram séculos até o beijo.
Eu não poderia descrever o beijo, não tenho palavras para isso.
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