A menina de Alnmouth - Onde O Mar Encontra A Magia
2 Férias de Verão
Em Alnmouth, o verão não era uma estação de calor intenso, mas um respiro depois do inverno quase constante. Era a época em que a natureza selvagem do norte parecia se acalmar, e a pequena vila se tornava o lugar mais acolhedor e mágico do mundo para se viver.
As águas, onde o rio encontrava o oceano, ficavam mais calmas e cristalinas. Na maré baixa, a areia molhada refletia as poucas nuvens brancas como um enorme espelho, enquanto as crianças corriam descalças atrás dos pequenos caranguejos que apareciam nas poças deixadas pela água.
Alice, porém, preferia passar os dias na floricultura da mãe.
Gostava de ajudar Catherine a cuidar das flores e plantas da Midflowers enquanto o rádio tocava músicas antigas ao fundo. Música e plantas eram, sem dúvida, suas maiores paixões.
Desde pequena, adorava se esconder atrás dos arbustos de escalônia, mexer na terra e observar cada flor crescer. A partir dos nove anos, tornou-se bastante habilidosa com as tesouras de poda. No início, Catherine quase congelava de nervoso a cada folha que a filha aparava. Com o tempo, passou a observá-la atentamente, ainda cautelosa, mas com um brilho orgulhoso nos olhos.
Apesar disso, a Sra. Meadowes vivia preocupada.
Alice nunca era convidada para festas de aniversário, não demonstrava interesse em brincar com outras crianças e, com frequência, as professoras comentavam que os alunos inventavam histórias estranhas sobre ela.
- Imaginação infantil... — diziam.
Certa vez, uma colega contou que, durante uma brincadeira de pega-pega, um menino esbarrou em Alice, fazendo-a cair de joelhos. Quando ela começou a chorar, o canteiro de gerânios diante dela murchou inteiro.
Em outra ocasião, enquanto a professora havia saído da sala por alguns instantes, um colega pegou seus lápis de cor sem pedir. Alice ficou tão irritada que, poucos segundos depois, duas lâmpadas explodiram.
As professoras, porém, insistiam que os gerânios já estavam secos e que alguém devia ter quebrado as lâmpadas de propósito.
Depois de alguns minutos observando as crianças brincando do lado de fora da loja, Catherine quebrou o silêncio.
- Lika... — chamou, usando o apelido carinhoso da filha. — Por que você não vai brincar lá fora? Aquela menina ali não estuda com você?
Alice continuou regando as peônias sem sequer levantar os olhos.
- Não quero, mamãe.
- Por quê?
- Porque todos me acham esquisita. Me chamam de "estouradinha" por causa daquela história das lâmpadas.
Catherine largou o vaso que segurava.
- Isso é um absurdo. Eu vou conversar com os pais dessas crianças...
- Não! — interrompeu Alice, nervosa. — Não fala com eles. Só vai piorar.
No mesmo instante, um estalo ecoou pela estufa.
Uma lâmpada piscou.
Depois outra.
Em poucos segundos, todas se apagaram ao mesmo tempo.
O silêncio tomou conta do ambiente.
Sem dizer uma palavra, Catherine aproximou-se da filha e a abraçou, acariciando seus cabelos enquanto Alice escondia o rosto em seu peito.
- Está tudo bem... — sussurrou.
Mesmo tentando tranquilizá-la, manteve o olhar fixo na estufa agora escura.
"Talvez fosse um problema na instalação elétrica...", pensou.
Mas, no fundo, nem ela acreditava completamente naquela explicação.
Naquela noite, de volta para casa, Catherine preparava macarrão com salsichas, a comida favorita de Alice, como recompensa pela ajuda na floricultura durante o dia.
Enquanto a filha mexia o molho com cuidado, ela não conseguia tirar da cabeça a imagem das luzes se apagando ao mesmo tempo.
Ainda assim, preferiu mudar de assunto.
- Como você quer passar seu aniversário de onze anos na semana que vem?
Alice sorriu imediatamente.
- Quero ir à praia. Fazer um piquenique com você e o papai.
Por mais que não tivesse amigos, Alice possuía aquilo que julgava mais importante no mundo: o amor dos pais.
Para ela, assistir ao pôr do sol ao lado deles valia muito mais do que qualquer festa de aniversário.
- Então é assim que será. — Catherine sorriu.
Poucos minutos depois, ouviram um carro estacionando em frente à casa.
As chaves tilintaram do lado de fora, seguidas pelo som da maçaneta girando.
Assim que Xavier abriu a porta, Alice pulou do banquinho onde estava e correu até ele.
- Papai!
Ela abraçou suas pernas com força.
- Olá, meu raio de sol. — Xavier sorriu, erguendo a filha nos braços e girando-a no ar.
Ao entrar na cozinha, deu um beijo carinhoso na bochecha da esposa.
- Boa noite, querida. Como foi o dia?
- Foi tranquilo... Mas vou precisar que você passe na loja amanhã.
- Aconteceu alguma coisa?
- As lâmpadas da estufa queimaram. Acho que já estavam velhas.
Xavier franziu a testa.
- Estranho... Não faz tanto tempo que trocamos todas elas.
Coçou a cabeça por alguns segundos.
- Bem... amanhã compro outras. Talvez seja melhor trocar a marca.
Durante o jantar, conversaram sobre o dia de cada um.
Xavier contou que o plantão na delegacia havia sido calmo, como quase sempre acontecia em uma cidade pequena como Alnmouth, onde raramente havia algo realmente sério para investigar.
Mais tarde, depois de colocar Alice para dormir, ele apagou a luz do quarto e fechou a porta com cuidado.
Mas Alice não estava dormindo.
Fingia estar apenas para não preocupar os pais.
Deitada em silêncio, ouviu a conversa abafada que vinha do quarto ao lado.
- Querido... estou preocupada. Ela não tem amigos. Nem um sequer. O que podemos fazer?
Apertou o cobertor contra o peito.
- Calma Cath, é só uma fase — Tranquilizou ele.
Pela primeira vez, Alice desejou ser como as outras crianças.
Pela primeira vez, desejou ter um amigo.
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