A melhor aposta

1 Lufa-Lufa X Corvinal


Dezembro de 2025.

Quando eu era criança, meus pais costumavam dizer que a vida é cheia de luzes e trevas. E que eu não devia me preocupar demais com uma delas, porque o caminho certo era o equilíbrio.

Infelizmente, tudo na minha vida aconteceu no extremo oposto. Certa vez, mamãe me levou ao St Mungus, temendo que eu tivesse transtorno bipolar. Uma doença mental comum entre os trouxas. Papai, entretanto, gritou com ela, dizendo para ela deixar de procurar problemas onde não existem. E que eu era perfeitamente normal.

Tia Luna, em algum desses encontros de férias, tocou minhas mãos e as leu. Curiosa, levou-me até os jardins de minha casa, e fez meu mapa astrológico. Lembro-me perfeitamente desse dia. Ela amarrou os cabelos bagunçados num coque, agoniada, e usou sua pena de repetição rápida. Eu observava tudo muito atentamente, encantado com aqueles desenhos tomando vida no pergaminho.

— Cria de Hera, meu querido — ela repetia, bondosamente, com os olhos abobados — Agora tudo está explicado. Canceriano. É por isso que você tem as emoções afloradas. Nada de doença, meu menino. Vou chamar sua mãe!

— Mas, tia... O que isso quer dizer? Canceriano?

— É o seu signo, meu querido. Significa que é normal oscilação de humor. E que você goste dos extremos. Todos os nascidos nesse período do ano são assim.

— É mesmo? — meus olhinhos infantis brilharam de curiosidade — E qual o signo do Lysander? E do Lorcan? E o seu, titia?

Tia Luna riu, achando graça de minhas perguntas ansiosas. Apenas levantou-se e respondeu-me, antes de partir:

— Eu sou aquariana. Lys e Lorcan nasceram no mesmo dia, esqueceu? Ambos são librianos.

Anos depois, eu entenderia o que aquilo significaria de verdade. Lorcan sempre foi o melhor amigo que alguém poderia querer. Ele é do tipo que ouve horas de desabafos sem reclamar. Dá os melhores conselhos, ajuda os outros e cria os melhores planos. Lorcan também é capaz de mentir para acobertar os amigos.

Até hoje não entendi por que o Chapéu Seletor não colocou-o na Lufa-Lufa. Parece que sua genialidade e inteligência falaram mais alto. Afinal de contas, Lorcan sempre fora o primeiro da classe, competindo com minha prima Lily, obviamente. Ambos foram monitores-chefes esse ano, por sinal. Mas Lily é da Lufa-Lufa, assim como eu.

E é até legal tê-los como monitores. Eles costumavam acobertar minhas saídas à noite para Hogsmeade, ou mesmo os furtos de comida na cozinha dos elfos.

Eu era exatamente o oposto do que se esperaria de um monitor. Na verdade, eu nunca, nunquinha, seria mais do que uma criança mimada que é boa no Quadribol. Essa era a única coisa que eu sabia fazer direito. Eu adorava sentir o vento no meu rosto, o grito dos torcedores, a vitória certeira — ou não.

Ano passado, durante o último jogo da Lufa-Lufa, eu fiquei arrasado. Havíamos perdido por uma diferença minúscula. Fomos eliminados na semi-final durante o jogo Lufa-Lufa contra Corvinal. Eu achei graça no modo que Lorcan tentou me animar. Mesmo tratando-se de sua casa, ele sabia o quanto aquilo significava para mim. Afinal, a quadra sempre fora o único lugar onde eu me sentia útil, amado, talentoso.

Enquanto minhas notas iam de Razoável até Trasgo durante os anos, as goles marcadas em meu gol iam de três até zero, nesse meio tempo. As pessoas costumavam me chamar de Príncipe.

Bem, essa é uma história engraçada. Meu pai era goleiro também. E chamavam ele de rei, sabe. Então, naturalmente, após meu desempenho maravilhoso, tornei-me príncipe da Lufa-Lufa. Mesmo sendo de uma casa diferente da dele.

Mas, voltando... Naquele dia, eu estava arrasado. Embora eu já tivesse dezesseis anos, eu continuava chorando feito uma criança de seis. Eu estava encolhido no vestiário e já havia destruído o meu armário de tanta raiva que sentia.

De repente, a voz do meu melhor amigo surgiu, como uma tentativa de me acalmar. Seu tom de voz sempre foi doce e contido.

— Ei, Hugo. Posso sentar com você aí?

Sem forças para respondê-lo, apenas afirmei com a cabeça, e assim ele o fez.

— Vai ficar tudo bem. Você é o melhor jogador dessa escola. Você sabe disso, não sabe?

Encolhi os ombros, sem nada dizer.

Lorcan ofereceu-me um abraço de lado, dando tapinhas em meus ombros, passando algum tipo de apoio emocional, que eu certamente estava precisando.

— Eles só ganharam por causa do pomo. Se fosse sem o pomo, eles nunca conseguiriam 150 pontos por mérito. Você agarrou a gole todas as vezes.

Aquilo me arrancou um sorriso torto. Lorcan tinha razão. Eu não devia nem estar chorando. Abracei-o de verdade e então eu percebi. Não que só tenha ocorrido agora, obviamente. Mas eu estava tão obcecado por mim mesmo e minhas emoções que eu não havia prestado atenção nele. De repente, alguns flashes voltaram à minha memória. Todas as vezes, sem exceção, que algo assim acontecia, Lorcan tinha as bochechas rosadas. E não podia ser o frio. Hoje o dia amanheceu sem neve.

Nesse momento, resolvi fazer uma promessa única de ano novo. Eu esperaria um ano para concluir minhas suspeitas. Estaria à espreita, só observando. Eu só não havia pensado o que eu faria com aquela informação. Ignorar? Perguntar? Abordar?

Bem. Um ano havia-se passado e nós estamos aqui na mesma situação outra vez. Não exatamente. Mas quase. Agora, entretanto, eu já havia resolvido o que faria ao abordá-lo:

— Quais são as suas apostas para o jogo, Loiro?

— Lufa-Lufa vai ganhar, com certeza — sorriu, bobamente, colocando as mãos nos bolsos do casaco — E você?

— Corvinal. O apanhador desse ano é ainda melhor.

— Não tanto quanto Lily. Aposto que ela vai pegar o pomo antes dele.

— Não conte com isso.

— Bem... — ele riu, novamente, acariciando meus ombros — De qualquer forma, temos o melhor bloqueador de gols de Hogwarts, não é mesmo?

— Lorcan, você gosta de garotos?

Mais direto impossível. Aquela dúvida estava me corroendo por dentro, e eu não sabia exatamente o porquê. Não é como se eu gostasse, afinal, já havia beijado algumas garotas nesses sete anos de Hogwarts. Mas aquilo estava me atormentando há um ano.

Lorcan não podia ter ficado mais enrubescido com aquela pergunta direta. Não conseguiu olhar em meus olhos, apenas soltou aquela hesitação costumeira.

— E você, gosta? — devolveu-me a pergunta, espertamente. Por essas e outras que ele foi para a Corvinal.

— Que tal se fizermos assim: se a Lufa-Lufa vencer, eu respondo. Se a Corvinal vencer, você responde.

— Fechado.

Então apertamos as mãos e eu fui me trocar.

Bem. A Lufa-Lufa venceu aquele jogo. Lily pegou o pomo, e eu não deixei que eles marcassem nenhum gol. De certa forma, ambos havíamos ganhado a aposta.

Quando aterrissei no gramado, entretanto, mal esperei que ele respondesse. Minha alegria era tanta — metade por ter ganhado o jogo em meu último ano, metade por ter perdido a aposta — que procurei meu melhor amigo em meio a tanta gente, realmente agoniado.

Encontrei-o com um riso de canto, em pé, na saída lateral. Larguei a vassoura no chão, corri e beijei-o com violento desespero.

Não houve recusa, muito menos timidez. Éramos apenas os dois ali, com nossos signos explodindo em energia.

E talvez eu fosse mesmo meio bipolar. Eu só não sabia que aquilo também se aplicaria aos garotos. Se bem que meu libriano também fica em cima do muro. O que, segundo sua mãe, é perfeitamente normal.

O equilíbrio e o desequilíbrio terminam, sempre, chegando ao mesmo ponto. E é bem aí que nós estamos. Contradizendo todas as possibilidades comuns entre signos e relacionamentos, Lorcan e eu nos beijamos no meio do campo de Quadribol, e nem foi preciso verbalizar uma resposta.

— Eu sempre soube, Hugo — ele riu, quando nos afastamos.

— Mas eu não!

— Era só uma questão de tempo. Só não sabia que seria comigo.

— Maldito signo astrológico!

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