A mata do silêncio
2 Capitulo 2
— Foi fulano, fedeu foi ele, to dizendo... Pricisa nem duvidar — a voz continuou soando sem se preocupar em responder a pergunta
Enquanto as meninas se entreolhavam ainda paralisadas sem saber de onde a voz tinha vindo outra voz pareceu responder o comentário
— Mulher, será que senhora não cansa de falar do meu cheiro!? — as meninas deram um salto com o susto — EU SOU ASSIM MESMO, RESPEITA MINHA HISTÓRIA! — dizia uma voz anasalada que parecia sair de lugar nenhum
— Calma aí monas! Primeiro, eu sou super perfumada, cola em mim amiga, resolvido. Segundo, cuidado que tua reputação não ta boa não, hein Jurema? A gente sabe que você anda metida com mandinga! — uma nova voz se juntava a conversa
— Chegueeei — algum das vozes cantava — preparada pra atacar, quem é que ta área? — de todas, essa era a voz mais espalhafatosa e acabava de se juntar a discussão
— Ninguém te chamou Cajueiro, dá licença que tenho que tirar satisfação com a Aroeira que ta falando mal de muá — gritou a voz mais grossa
— Cajueiro não, é Cajuei-RA já cansei de explicar que eu não me sinto representada por esse pronome meu amor, sou uma trans finíssima, sou frutífera, minha casca é dura!
— Ta bom, Cajueira, ninguém liga. O foco aqui é na Catingueira deixando minha floresta PÔDI
— Suuua floresta meu amor? Desde quando você é dona de alguma coisa, só porque a senhora é alta? Bixa melhore!
A discussão parecia vir de toda parte, as vezes parecia que vinha até de fora da floresta. Era confuso dizer de onde estava saindo o som, pois parecia sair de todos os lados, do alto, de baixo e até de dentro da própria cabeça das garotas. O clima começou a ficar angustiante, aquela barulhada, várias vozes se misturando, todas gritando, parecia até que as meninas estavam no mercado municipal de Cajusville. Aflitas e sem saber o que fazer ou de quem eram aquelas vozes, Elvira e Sheslyene deram as mãos e continuaram olhando ao redor, procurando algum movimento, mas sem encontrar nada. As vozes não eram jovens, não poderiam ser crianças pregando peças. O ambiente inteiro continuava imóvel, nem um só vento batia para balançar as folhas das árvores. Ali só pareciam existir vozes e nada além das duas meninas.
CHEGA! — gritou Sheslyene — Quem tá aí!??
— É melhor dizer logo porque não tô achando graça! — Elvira completou, cerrando os punhos
— Ui, ela ta nervosa — disse a voz mais grossa
— Deixa de estresse que eu tô bem na sua frente nonamur — disse a outra voz
Sem entender a pegadinha as duas checaram de novo todo o espaço ao redor.
—Não tô vendo ninguém, só tem árvore! — Sheslyene gritava já que não sabia onde estava a pessoa com quem conversava
—E você acha que a gente é o que sua poc? — era a voz grossa de novo
—"Só árvore" — a mesma voz de antes imitava a garota — "Só" nada que eu não sou pouca coisa, mais de milhares de pé de planta na minha floresta!
— ta pensando que aqui é bagunça gata!?
— Gente calma! Uma de cada vez, eu estou tentando entender o que tá acontecendo.
— A gente ta louca amiga! É isso, batemos a cabeça e estamos tendo delírio! Ou a gente morreu? Eu to morta — Elvira se juntou a gritaria — Eu to morta!
A única coisa que Sheslyene conseguia pensar no meio de tanta loucura com sua cabeça a mil era que elas precisavam sentar e respirar, de preferência em um lugar silencioso. Mas não era o que ela iria conseguir alí, pois se ela estava entendendo direito, tinham árvores discutindo e a Elvira surtando achando que morreu. Mesmo que a diferença de idade entre as meninas fosse de apenas um ano, Sheslyene que tinha quinze se sentia na obrigação de controlar a situação. Então, sem raciocinar muito ela fez.
Um grito fino e ensurdecedor calou toda a floresta. Era Sheslyene.
— Nós precisamos de silêncio, eu tô tentando lidar com a situação, nós acabamos de quase ser raptadas e estamos perdidas na floresta! — ela disse com a voz firme
— Ai! Se eu tivesse ouvidos tinha ficado surda agora mesmo, arrepiei.
— Por isso que dou graças a deus de ser pregada no chão, aí ninguém me sequestra
— Em compensação cortam nosso caule pra fazer madeira né sua broca? Quem já viu uma humana cortada no meio pra fazer papel? Eu mesma não vi!
— Ninguém me corta, porque se me cortar não dou mais fruta, sou doce e poderosa meu amor.
E mais uma vez o barulho começava a ensurdecer as garotas
— Será que vocês não conseguem parar de brigar? — Sheslyene disse
— Minha filha já fiz de tudo pra me livrar desses encostos, ritual com minha seiva e tudo mais, mas não largam nem capé! — Já dava pra reconhecer, essa era a voz grossa falando
— Jurema, não seja louca, não se pode derrubar árvore, somos irmãs. É isso gente — NÃO ME DESMATEM — começou a gritar
— Cajueira, Cajueira, quem quer um caju da Cajueira? — uma voz cantava no fundo
— Adoro quando meu fedor sai de cena
É, não tem jeito — pensou Sheslyene e mais uma vez segurou a mão da amiga e começou a andar, mesmo sem saber pra onde, só estava tentando se distanciar daquele barulho. Elvira estava em choque, olhando pra própria mão achando que realmente tinha morrido então só estava sendo levada mesmo. Não é de se esperar uma reação melhor tendo como últimos acontecimentos as coisas recém narradas.
Depois de poucos minutos andando, sem nenhuma palavra, as vozes começaram a se tornar só ruídos, como os de folhas ao vento. A parte ruim é que as meninas estavam cada vez mais perdidas e a mata cada vez mais fechada. De repente ouviram um barulho e algo começou a se mover por entre os matos. Para Elvira, que já estava surtada, foi a gota d'água. Soltou a mão da amiga e começou a correr desesperada enquanto tentou gritar — O SEQUESTRADOR VOLTOU — porém tropeçou em algo grande e marrom no meio do caminho e capotou.
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