A marca da Fênix

10 O monstro da ponte trincada.


Lirái era quem conduzia o dragão, porque mesmo Aurora tendo tido aquela agradável aula, não tinha a técnica necessária ainda, por isso ficou sentada na garupa do dragão, vislumbrando a paisagem ao seu redor.

Os dois aterrissaram na vila da província, e passariam o resto da noite ali, esperavam que fossem recebidos bem, por que a rainha disse que a vila sofria constantes ataques e ela não dava conta de suprir a vila e o vale de soldados. Por isso a reação que os aldeões teriam era imprevisível.
No alto, os dois avistaram a vila, com suas casinhas, de telhados cobertos de grama. Zilver aterrissou no centro da vila, ela era igual ao grande vilarejo do vale, a diferença era que não se via ninguém em parte alguma.

Lirái foi o primeiro a descer, depois Aurora o seguiu, notaram-se sozinhos ali, todas as casas trancadas. Ele queria dar meia volta e subir de volta em Zilver, e tentar continuar um pouco mais da viagem, mas Aurora não permitiu, escureceria dali a pouco e não seria bom continuar viagem no breu.

– Está bem, mas aqui é uma das rotas mais visitadas pelos elfos negros. — Lirái se virou para descarregar as costas do dragão.

De repente sentiu o que parecia um pedaço de madeira encostar em seu pescoço, ele se virou rapidamente puxando a varra para si, pode ver que estavam cercados pelos aldeões, eles eram baixinhos não deveriam ter mais que um metro e sessenta de altura, estavam com longos capuzes pretos cobrindo o corpo.
O que estava na frente de Lirái puxou o capuz para trás revelando seu rosto, ele era um homem velho, depois o resto dos aldeões retiraram seus capuzes se revelando. Uma mulher que estava perto de Aurora lhe pediu desculpas pelo incidente.

Alguns voltaram à suas residencias e outros ficaram junto com Aurora e Lirái, enquanto o homem que tentou ataca-lo conversava com eles. Era uma vila pacata, mas constantemente atacada, não só pelos elfos negros mas por outros seres também.

– Nos perdoe. — Disse o homem caminhando com os dois. — Pensamos que fizessem parte daquela escoria que anda com Abalyn.

– Perdoe-nos, deveríamos ter mandado avisar que viríamos. — Aurora falava docemente. Cuidando as flores e árvores secas com os olhos, não entendia o por que delas estarem assim. — O que houve com suas plantas?

– Algo horrível, se posso dizer — O homem deitou o olhar triste sobre um arbusto que estava morrendo. — Um troll que morra perto das montanhas, ele vem sugando os nutrientes da terra e das plantas, isso está condenando nossa vila.

Lirái o olhou perplexo, pensou não ter ouvido bem, que soubesse os trolls estavam extintos a anos, não havia um só vivo, foram exterminados, seu próprio pai ajudou nisso. Os trolls são criaturas arredias por natureza, matam qualquer um, e tem um apetite feroz, mas ele nunca tinha ouvido falar de um que se alimenta-se dos nutrientes do solo.

– Tem certeza que é mesmo um troll? — Lirái ainda se mantinha desconfiado.

– Sim, nossos homens o virão, perto da ponte trincada. É lá que todas as raízes se encontram, e é de onde nossa água vem. — Aurora ouviu tudo, enquanto mantinha os olhos no bosque desenhado na montanha.

O homem, permitiu que eles ficassem na vila o tempo que desejassem. Aurora foi convidada a seguir com algumas mulheres, até um campo arenoso que um dia foi uma plantação. Com o cair da noite, as mulheres tentavam colher e salvar o que era possível, ela as ajudava, mas a maioria das plantas já estavam mortas.

Aurora parou para enxugar o suor da testa, e notou que sentada no chão perto das pedras, estava uma garotinha, ela brincava com um boneca de trapo. Ela sorriu ao ver em tanta desgraça um fio de alegria, uma menininha com sua pequena bonequinha.

– Qual é o nome da sua boneca? — Questionou ela para a menina mais ao longe.

– Eu não sei, ela é um princesa, filha do rei da Cidade Dourada, e minha mãe não contou seu nome, acho que ela também não sabe, mas sempre diz que essa princesa vai voltar para nos salvar. — Aquelas simples palavras, feriram como espadas sua alma.

Pensou consigo, como podia estar sendo tão insensível com aquela gente, seu povo, seus irmãos. Ela correu, correu até Lirái, viu que ele mantinha uma recatada conversa com algumas pessoas. Aurora puxou-o para longe dos que estavam ali, ele não entendeu nada, então manteve o rosto encrespado com a atitude da jovem.

– Porque fez isso? — Ele afastou seu braço muito rápido.

– Temos que ajuda-los, não consigo ver meu povo dessa maneira. — Aurora desviou o olhar para o centro da vila decadente.

– Não é tão fácil derrubar, muito menos matar um troll Aurora, e você acha que esses aldeões teriam chance contra um monstro como aqueles? — Os dois se encararam, Aurora mais determinada e Lirái mais severo quanto ao assunto. — Eu odeio isso... Quer fazer tudo bem, mas se morrermos a culpa será sua.

Ela foi tomada por um satisfatório sorriso de vitoria, Lirái já imaginava quanto de sua força e convicção seriam perdidas nessa peleja. Os dois seguiram para falar com o ancião da vila, ele se encontrava em sua humilde cabana de madeira, forrada com muitos tecidos e tapetes, todos bem coloridos.

Agora formalmente os dois se apresentaram como quem realmente eram, o ancião duvidou em primeira instância, mas depois foi convencido. Ele ficou deveras feliz, com o fato de que sua vila seria salva do monstro e seu povo finalmente livre.

Ele levou os dois para o centro da vila, e sobre um pequeno palco de madeira, que era utilizado para dar avisos ou breves informações, ele apresentou os dois (mas omitiu a verdadeira linhagem de Aurora, decidiu que só revelaria se a missão fosse realmente cumprida) e contou entre caras emburradas, e faces que demonstravam irrelevância, que eles haviam se comprometido à salvar a vila do troll.

Então todos explodiram em vivas e urros, aquelas salvas aumentaram mais ainda o ambito de Aurora em salvar todos, Lirái também se empolgou, mas com os pés no chão, sabia que não era uma simples missão. Em menos de vinte minutos os dois já estavam dentro do bosque.

– Só você para me fazer sair a noite para matar um troll. — Lirái falou com um sorriso sarcástico. Ela não respondeu ao leve desdem.

Os dois continuaram seguindo, rumando bosque a dentro na encosta da montanha. A noite se elevando e o frio se tornando cada vez mais forte, a escuridão começava a cortar os seus sentidos. Lirái se apoiou em uma enorme pedra e tentou olhar para o céu, mas a copa das árvores tornava isso impossível.
Aurora ainda tinha as coordenadas frescas na memória, então começou a caminhar em frente, deixando seu companheiro para trás. Lirái demorou para perceber que estava sendo deixado, quando voltou o olhar para ela, já não estava mais ali, virou para trás de si e viu que Aurora seguia em frente sozinha.

Ele correu uma curta distância e alcançou-a, mas ela não deu importância para sua presença, e continuou seu caminho solitário. Os dois caminhavam quietos, só se seguiam, quando um virava à esquerda o outro acompanhava, e assim em todas as direções, sem dizer ou proferir uma só palavra. Lirái já cansado daquela quietude que se seguia (habito que até agora pertencia só a Aurora) resolveu expor o que estava sentindo no momento em questão.

– Por que está irritada comigo? — Suas palavras eram suaves mas fortes, como sempre.

– Não estou irritada com você. — Aurora manteve-se centrada em frente, sem exibir emoção alguma.

– Vejo que está mentindo, não falou comigo desde que chegamos até o Reino de Fogo. — Aurora parrou e voltou-se para ele.

Agora ela sentia-se irritada, pensava em como ele ousava dizer algo como aquilo, se ele mesmo não dissera uma só palavra perante sua pessoa, passou os dias todos ao lado da nobre Rainha.

– Eu não falei com você Lirái? — Ela podia ser mais baixinha comparada a ele, mas naquele momento sua ira a tornava maior. — Se você mesmo passou o tempo todo ao lado de vossa eminência. — Aurora curvou-se com uma expressão de nojo segurando o que seria a barra imaginaria de uma saia.

Lirái voltou o olhar para o outro lado enquanto um sorriso afetado invadia seu rosto. Ele não conseguia imaginar que Aurora pudesse estar com inveja da Rainha Macärya, as duas eram totalmente divergentes, não conseguia compreender algo como aquilo, só conseguia sorrir.

– Está com ciúmes dela? — Ele a fitou intrigado, enquanto suas expressões se encrespavam.

– Jamais sentiria ciúmes de alguém como ela — Sua expressão podia transpor certeza, mas suas palavras não.

Lirái se aproximou mais dela e os dois começaram a se fitar com rostos fechados, tentando ver quem perdia primeiro, mas denhum sedeu e a briga regressou, mais rápido que os dois previam. Um se acusava daqui e outro se acusava de lá, era impressionante como eles pareciam ter coisas ruins vindas um do outro.

– Eu deveria ter trazido o Cyd comigo, pelo menos jamais ele falaria comigo dese jeito. — Lirái riu ao ouvir aquilo, foi como um severa piada.

– O problema é que Cydhriüm nunca seguiria você, ele é um covarde que não consegue proteger nem a si mesmo e nem quem ama. — Ele falou irredutível. Aquilo feriu Aurora, porque por um lado ela sabia que era verdade e por outro ela não queria acreditar em algo como aquilo.

– E você consegue muito bem salvar todo mundo. — Lirái sorriu com a resposta na ponta da língua.

– Salvei você muitas vezes até agora, se não está lembrada.

– Mas quem me trouxe para cá a principio foi você. — Ela sorriu seca e saiu, dando-lhe as costas.

Lirái fechou o rosto, ela tinha razão, tudo aquilo só aconteceu porque ele a trouxe para cá, se ele não tivesse se metido a atacar os drikënëis, aquilo não estaria acontecendo, mas se ele não a tivesse salvado, se arrependeria e sua esperança estaria morta.
Ele a seguiu mais para dentro do bosque, Aurora estava centrada em continuar, perseverante de que conseguiria completar com exito sua proposta. Lirái parou perto dela, o único barulho perceptível, era o dos galhos secos pisados por ele e as folhas das árvores balançando ao vento.

Aurora tinha tanta coisa a incomodando, gostaria de por tudo para fora de uma só vez, mas algo parecia impedir isso, coisa que a transtornava muito e a deixava impaciente. Imaginava como estariam as coisas em casa, o que tia Lúcia estaria pensando a respeito de seu sumiço, será que estaria chorando ou não teria se importado com a real situação.
Então ouviu os passos de Lirái atrás de si, na primeira instância quis virar e proferir mais alguma injúria, mas respirou fundo e se conteve, se fosse dizer algo, seria só uma coisa, uma pequena coisa, que podia passar despercebida, mas não passaria perante Aurora.

Ela se virou e com os poucos raios da luz da lua pode ver nitidamente o rosto de Lirái, seus cabelos loiros, e seus belos olhos azuis sérios. Calmamente as palavras saíram de sua boca.

– No final de tudo... Vai voltar pra cá? — As palavras podiam ser simples, mas seus efeitos eram diversos, doloridos para ambos.

– Por que acha isso?

– Eu vi, você e a rainha conversando, ficaram muito juntos. — Lirái a fitou com indiferença a questão, não parecia ser relevante.

– E o que isso importa, não tem nada a ver com esse assunto, com você. — suas palavras fizeram Aurora se sentir uma estranha, intrometida em um romance não compartilhado.

– Como... Como ousa falar desse jeito comigo! Passa mais de dois dias sem proferir à mim uma só palavra e agora me trata com indiferença — Ela começava a se exaltar, coisa que não parecia afetar o príncipe. — Sou sua amiga Lirái, não pedi para vir junto comigo, e também não pedi para me deixar de fora de tudo. Acha que não o vi ontem a noite, se retirando nos aposentos da Rainha, não sou cega, sei que passou a noite junto a ela. Posso ser um pouco desligada, mas não cega.

Lirái riu da jovem, riu como se aquilo não passa-se de uma ilusão, ria como um criança. Ela não entendia, mas não achava graça também, só a deixou mais irritada e confusa. Teve vontade de chorar, porque sentiu que estava sendo humilhada, mas não era nada disso. Lirái ria porque não tinha notado como suas atitudes tinham sido suspeitas, e como agiu grosseiro.

– Não é nada disso o que aconteceu — Ele deixou de rir, só estampava um sorriso ardiloso. — Tem uma saleta que antecede os aposentos reais, é onde a rainha fica com os convidados mais íntimos, não dormi com ela. Ela só desejou conversar comigo. Não está sendo fácil para ela, o pai morreu recentemente e foi ela quem assumiu seu lugar, é tão complicado para ela ser rainha, como é para você, Macärya acha que não aguentará por mais muito tempo. Ela sofre muito por isso, chora noites inteiras, só a confortei aquela noite.

Aurora sentou-se em uma pedra e fitou seus pés, bufou como que confusa. Foi um choque, dizer tudo aquilo e saber que, o que realmente estava acontecendo com a rainha era o mesmo que com ela, as duas não sabiam o que fazer e mesmo assim eram obrigadas a fazer.

– Então por que não me disse? Parecia que estava elaborando um complô ou algo do tipo, era algo tão importante e interessante que não podia ao menos me contar, para que eu não acha-se que estava tendo um caso com ela. — Ela o olhou com um misto de frustração e arrependimento. Lirái só sorriu.

Ele se abaixou e ficou com os olhos no mesmo nível do dela, colocou a mão no bolso e tirou de lá uma pulseira de prata, muito bela. Quando Aurora a viu tudo pareceu se acalmar e foi impossível segurar as lágrimas nos olhos, elas despencaram rapidamente.
Lirái secou-lhe as lágrimas e colocou a pulseira em seu pulso, era como um verdadeiro pedido de desculpas, e um modo de dizer que a amizade permaneceria junta. Na verdade aquilo foi o gesto mais humilde que Lirái já teve, colocou os seus próprios sentimentos de lado, para faze-la feliz, entregou-lhe de volta o simbolo do curto amor de Aurora e Cyd.

– Cydhriüm ficaria triste e desapontado em saber que perdeu o seu presente — Aurora deixou de chorar e passou a sorrir, agradecida por ter o seu adorado presente de volta. — Pertenceu a avó dele, achei inusitado ele lhe dar isso. Quer dizer que a ama muito.

– Obrigada... Obrigada — Ela se jogou contra seu corpo em um frenético abraço, e lentamente sussurrou. — Não sei onde estaria sem você Lirái.

Com a noite no auge os dois voltaram a seguir, caminhavam mais não pareciam avançar muito, era incomodo, não conseguir chegar até onde precisavam. Mas Aurora não desistia, tornara-se uma questão de honra matar aquele monstro.
Quando achavam que nunca chegariam, Lirái viu o que parecia uma clareira, com o desenho de um córrego no chão, não havia água ali, só o trajeto marcado no solo. Ali as árvores eram muito mais secas no que nas outras partes, o chão era mais arenoso e desmoronava com facilidade.

Um pouco ao longe podia se ver o contorno de uma ponte totalmente quebrada na escuridão, os dois constataram que era ali onde o troll se escondia. Aurora ameaçou dar um passo na direção da ponte , mas Lirái estendeu a mão sobre seu peito impedindo a passagem. Os dois se olharam, ela sem entender, era a hora de se aproximar, não teria momento melhor.

– Por que me parou? deveríamos seguir.

– Não está ouvindo? — Ela balançou a cabeça em negativa.

– Na verdade não ouço ou vejo nada. — Lirái franziu o cenho, os seus sentidos não eram nada apurados.

– Tem que treinar mais seus sentidos — Aurora desviou o olhar, sentia-se envergonhada, era uma péssima elfa.

Lirái levou as mãos ao chão, e trouxe um pouco da terra para perto do nariz, cheirou e identificou o odor, era ótimo rastreador por natureza. Levantou-se, ia proferir algo, quando um estrondoso barulho o interrompeu, era o monstro que acabava de acordar para se espreguiçar.

O ser era grande, deveria ter cerca de uns três metros de altura, totalmente feito de pedras, seu corpo tinha como uma manta de musgo que vinha da cabeça até os pés, seu rosto era achatado, como se tivesse sido esmagado, seus olhos eram apenas negras orbitas vazias, e causavam uma visão perturbadora, era como fitar o eterno vazio do mundo.

Agora Lirái tinha certeza de sua intuição sobre o ser. Ele agarrou o braço de Aurora e puxou-a para de trás de uma árvore, o movimento súbito a agitou, sua respiração estava ofegante, fitar os olhos negros do monstro a tinha deixado paralisada.

– Que droga é aquilo? — Ela sussurrava apressada.

– Eu sabia que não era um troll — Ele virou a cabeça de trás da árvore na direção do monstro, deu uma breve espiada e voltou-se para Aurora novamente. — Aquilo é um golem de pedra. Eu imaginei que fosse, porque trolls não escoam regatos para sim, não se alimentam dos nutrientes das plantas e solo, e foram mortos a muito mais tempo do que eu e você existimos. O problema é que não é comum eles descerem das montanhas para tão perto de um vilarejo como esses.

– Tehöa — Ela sussurou quase para si, mas Lirái pode ouvi-la. Veio como um lampejo na mente. — Foi ela quem mando-o para cá.

– Concordo, os golens já lutaram ao lado dos elfos na guerra humano-élfica, mas aliam-se a qualquer um que exerça muita influencia, e como Tehöa é quem atualmente manda na terra, eles a obedeceriam. — Como da última vez, outro lampejo explodiu na mente de aurora.

– Um monstro para aterrorizar a vila, deteriorando-a aos poucos, até ruir, elfos negros atacando para destruir. Um martírio para a Rainha atingir, sofrendo mais e mais, por não conseguir defender o seu povo, uma vila perdida um novo posto de comando e depois um reino decadente, mais uma posição para Drakenus, até ele ter tudo.

seus olhos tomados pela luz dourada, a deixavam muito aterrorizadora e misteriosa sobre a negritude da noite. Lirái a olhou, ele não entendia, como ela conseguira formular tudo aquilo tão rápido, parecia uma feiticeira vendo o que o futuro revelava. Em uma queda subita ela voltou a si, ele a segurou para que não se machuca-se.

– Eu estou bem — Ela levou a mão à cabeça, a visão embaralhada.

– Pelo menos um golem é mais fácil de matar que um troll, pode acreditar. — Lirái sorriu, mostrando coragem diante a situação.

A noite já passava um pouco do seu age, e os dois ainda não tinha um plano formado, não sabiam como derrotar o monstro. Pensaram em milhares de coisas, mas nenhuma delas parecia que daria realmente certo, então Aurora formulou algo que achou adequado no momento.

Ela convenceu Lirái a usar o elemento surpresa, ela iria distrair o monstro enquanto ele o atacaria pelas costas, ele não se agradou com a ideia, mas no momento era a única coisa que tinham, então usariam isso mesmo.
Aurora foi sorrateiramente em direção ao monstro, enquanto lirái seguia por trás, na direção que correspondia as costas do ser. Aurora se segurava por dentro, tentava fazer com que os batimentos não ficassem tão perceptíveis, pois estava muito, mas muito amedrontada.

O monstro estava sentado, com um pedaço de raiz na boca, sugava a raiz como se fosse uma fruta, fazia uma cara de satisfação durante o ato. Aurora parou atrás de uma árvore, estava a uns quatro ou cinco passos do golem, respirou fundo e seguiu para a frente dele.
Ela parou na frente do monstro, a cerca de três passos de distância e chamou-lhe a atenção, deu um grito e balançou os braços, o golem largou o que tinha nas mão e virou-se para Aurora pensativo, não sabia o que ela era. Aurora segurava o nervosismo e continuava chamando a atenção do monstro.

Lirái se posicionou em cima de uma enorme pedra, abaixo dele estava o resto da antiga ponte por onde o regato passava, ele tentava controlar a respiração, ver Aurora se arriscando daquele jeito, pensou que deveria ser dele, não conseguia se concentrar.

O golem se ergueu e ficou parado na frente de Aurora, do nada sua postura mudou e ele agiu como em ataque, partiu para dar um golpe certeiro nela. Ao ver o movimento do monstro ela paralisou por um instante, só então conseguiu gritar para alertar Lirái.

Ao ouviu seu grito ele partiu para o ataque, da pedra pulou para um grosso galho de árvore que se projetava a sua frente, depois para as costas do golem, ficou de pé se equilibrando no pescoço de pedra do monstro, procurava o ponto vital do ser, sabia que todo golem tinha um, mas o daquele estava encoberto pela capa de musgo.
O monstro debatia os braços na altura da cabeça tentando atingi-lo, mas não teve exito, então ignorando Lirái ele partiu em direção à Aurora, ela engoliu em seco, sentiu um liquido gelado descer pelas suas costas e depois gelou totalmente, paralisou de medo.

Lirái ainda equilibrado no golem, assitia a tudo, foi quando decidiu que não deixaria acontecer, espetou a espada no concavo do pescoço e das costas, fez o monstro urrar, o monstro levou o braço até o local onde Lirái se mantinha em pé, com o mão pegou em desequilíbrio e o apertou, levou-o até o rosto e fitou-o com suas orbitas negras e infinitas.
Aurora voltou a si, viu o amigo em apuros e resolveu agir, com as péssimas habilidades que tinha, mas agiu. Pegou um grosso galho de árvore podre, que era quase maior que ela e bateu o contra o tornozelo do golem, ele desviou o olhar de Lirái para Aurora, pegou o jovem príncipe e jogou-o contra a grande pedra, e seguiu de encontro a Aurora.

Lirái viu tudo ficar negro e em um curto suspiro desmaiou. Aurora lutava em zig-zag com o ser, tentando afasta-lo de onde Lirái estava. Ela correu até onde duas árvores se juntavam deixando uma fresta que parecia fácil de ultrapassar, mas o que o golem não contava era que Aurora era boa em raciocínio, e notou que entre o espaço das árvores e o tamanho do golem, havia uma grande diferença.
Ela correu para entre as árvores e o monstro a seguiu, ela transpôs com facilidade, já o golem ficou preso. Com essa vantagem, ela correu para Lirái, para constatar se o amigo estava bem, agachou ao lado do corpo inerte dele, quis poder ver se os batimentos cardíacos estavam normais, mas não conseguiu.

O monstro usando toda sua força se desprendeu das duas árvores partindo-as no meio, Aurora fitou o monstro se aproximando e respirou fundo, naquela clareira dava perfeitamente para ver as estrela, e a lua um pouco encoberta pelas nuvens.
O golem estava bem perto dos dois, Aurora viu que seria o fim deles, Abraçou Lirái com o corpo, ficando a sua frente, olhou para o céu e em uma prece silenciosa, fechou os olhos. O golem chegou a frente dos dois e ergueu o enorme braço de pedra contra eles, em um gesto desesperado, Aurora esticou a palma da mão em direção ao golpe certeiro do monstro.

Em segundos o braço de pedra desceu contra eles, foi rápido, como em um suspiro, Aurora abriu os olhos, jurou estar morta, mas quando as imagens se projetaram em sua mente, ela viu o braço do monstro suspenso, não conseguiu descer, ele fazia força mas algo o barrava, então começou a bater com os dois braços, mas nada aconteceu.

Ela olhou para o cristal e o mesmo estava levitando, emanava uma luz amarela florescente, que iluminava toda volta, no gesto do monstro, ele mantinha o peito bem aberto, cuidando os detalhes Aurora pode notar entre o manto de musco algo que parecia uma abertura, dentro dessa abertura algo como uma pedra de cristal rosa, do tamanho de um punho pulsava forte.
Aurora focou a visão no cristal, concentrou o que podia, mentalizou aquele cristal se partindo, então ergueu a mão aberta, mentalizou fúria e poder, seus olhos irradiaram um brilho que cobriu toda sua órbita, o dourado virou sua cor.

Então em último gesto, com o pensamento em foco, fechou a mão em punho, o cristal se esfarelou no dorso do monstro, ele caiu como uma legitima avalanche, fazendo um barulho estrondoso. Aurora então baixou a mão e suavizou a mente, o campo de força que estava na volta deles se dissipou.
Agora aliviada, ela respirou fundo e voltou-se para o amigo ferido, ele estava com os braços arranhados e o cabelo totalmente bagunçado, suas tranças estavam soltas e largadas no rosto, sua expressão era de dor.

Aurora temeu que ele estivesse em coma, ou algo do tipo, xagualhou-o de um lado para o outro, e nada, o desespero começou a tomar-lhe conta, gritou para que ele a ouvisse, mas ainda dormia. Aurora respirava ofegante, tudo que podia fazer estava tentando, tentou até pousar a mão sobre o coração de Lirái e concentrar seu poder para cura-lo, mas nada aconteceu.

– Acorda seu idiota — Ela parecia sentir a dor da perda sobre si, não queria vê-lo ficar assim para sempre. Achegou o rosto mais perto do dele e suspirou — Por favor Lirái, acorde, não posso viver essa maldita viagem sem você.

Nada aconteceu, uma lágrima desprendeu-se dos olhos de Aurora e foi de encontro a face de Lirái, ela suspirou e o fitou, virou o rosto em outra direção, chorava sem entender o porque, era tudo caindo em cima dela agora. Em súbito Lirái puxou todo ar que podia para dentro de seus pulmões, Aurora ouviu a respiração dele voltar e animou-se.
Virou-se para ele novamente, ele meio que se sentou e fitou Aurora sem entender, ela sorria contente, ele voltou o olhar para o chão e notou um amontoado de pedras, constatou que deveria ser o golem, ficou deveras surpreso, não acreditava que Aurora podia ter feito aquilo.

– Foi você — Ele perguntou apontando paras a pilha de pedra, com uma das mãos apoiadas nas costas. Ela assentiu sorrindo, e pulou nele em um longo abraço. — Acalme-se eu não morri... Mas você tem uma história longa para me contar ainda mocinha.

Eles esperaram um pouco para partir, a dor nas costas de Lirái era lacinante, por isso ele não conseguia se por totalmente de pé. Poucas horas antes do amanhecer, os dois decidiram descer a encosta de volta à vila, Aurora levou como prova e suvenir a cabeça do golem.
O sol já havia despontado no céu quando eles chegaram a vila, muitos aldeões os aguardavam, ansiosos e impacientes. Em meio as árvores duas silhuetas começavam a aparecer, então sob a luz fraca do sol, dois corpos puderam ser vistos.

Lirái caminhava com o braço apoiados nos ombros de Aurora, ela vinha puxando algo atrás de si, quando já estavam quase dentro da vila, ela deu um forte puxão na corda, arremessando o conteúdo que estava na ponta, aos pés dos aldeões, que com perplexidade os olhavam.
Era a cabeça do golem, todos a olharam com espanto, mães tampavam o rosto de seus filhos, homens levam a mão a boca com grande surpresa. Aurora respirava pesadamente, contemplava os múltiplos rostos que a fitavam na multidão.

– Ai está o seu monstro. — Sua voz soou forte, e ecoou por toda vila.

– Grandes vivas, a filha de Aristhy, que nos salvou do monstro. — A fala do ancião retumbou por todas as montanhas.

Um homem veio e a levantou, sentou-a em seu ombro e caminhou para o centro da multidão, o ancião foi o primeiro a se ajoelhar a frente dela, logo todos em sua volta estavam ajoelhados. Ela sorria sem jeito, desviou o olhar para Lirái, ele também a olhou e sorriu docemente, colocou a mão sobre o peito e curvou-se para frente. Agora em todas as razões ela se sentia uma verdadeira princesa, agora se achava digna de respeito, salvou uma vila da decadência.

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