Há um tempo para partir, mesmo quando não há um lugar certo para ir. (Tennessee Williams)

Os pássaros já cantavam. A luz da manhã invadia o chalé de Atena, penetrando pelas as cortinas pesadas. Ela iluminava bagunça das malas abertas, da cômoda ao lado do beliche e o rosto já descansado de Maria Loli. Dormia pesadamente, devido à exaustão que passara. Quando chegou no quarto, a primeira coisa que fez foi se jogar na cama e dormir do jeito que estava, nem sequer conversou com Sabrina para decidirem seus lugares no beliche. Atravessara meio mundo e teve sua vida ameaçada diversas vezes; não tinha tempo para burocracias. Estava no Acampamento Meio-Sangue, o lugar mais seguro para um semideus, pelo menos é o que dizem. Desde que chegou no acampamento, depois de muito custo e dezenas de mortes certas que esta conseguiu evitar (graças ao sátiro que à acompanhou de São Paulo até Long Island), aconteceram ataques o suficiente para que questionasse o quão seguro o lugar realmente é. Preguiçosamente, Maria acordou, mas demorou para realmente levantar. Antes de sair da cama, chutou o colchão de Sabrina, que dormia em cima. Ela rosnou. Não queria acorda-la. Escovou os dentes, trocou de roupa foi para fora do quarto, silenciosamente para que ninguém notasse. Felizmente, não viu nenhum de seus meios-irmãos no chalé, então supôs que já estavam tomando café da manhã. Saiu de lá. Por um instante, ficou parada observando os campistas. Alguns saíam lentamente, esfregando os olhos sonolentos; já outros saiam animados e sorridentes, carregando arcos e aljavas nas costas. Havia pessoa de todas as idades. Viu um garotinho musculoso, de apenas oito anos saindo do chalé de Hefesto junto com seus irmãos. Aquilo a deixou esperançosa sobre a segurança daquele lugar. Dirigiu-se ao refeitório, seguindo o fluxo das crianças barulhentas de camisetas laranjas. Procurou Quíron com os olhos, mas felizmente não o encontrou (e não estava lá muito afim de encontrar). Se enfiou discretamente na multidão de crianças loiras do seu chalé e se sentou, puxando conversa com um dos campistas. Ele estava um pouco paranoico e falava sem parar sobre um terremoto feio que houve em Ohio. Gesticulava muito, explicando que sua família era de lá e que nunca teve um terremoto naquela área. Ficou apreensiva por isso, mas decidiu deixar pra lá e dizer um breve “sinto muito”.

Começou a se servir de panquecas fartas quando viu de relance Sabrina de mau-humor, acompanhada pelo centauro. “Ele a acordou”, pensou Maria, “Com toda certeza, ele a acordou”. Apostava tudo o que tinha que, se Quíron não fosse metade cavalo, sua irmã daria um chilique. Pouco depois, desanimou pelo fato de ele estar lá. Significava que ele queria saber a sua versão dos fatos. Queria saber como as duas chegaram ao Acampamento Meio sangue. O centauro entrou no refeitório e, ao contrário do que esperava, a barulheira não cessou. Todos continuaram brincando e comendo, pelo menos até ele bater palmas e puxar toda a atenção para si. – Bom dia, campistas. Queria avisar-lhes que por hoje, não teremos atividades oficiais, a não ser os treinamentos. – Disse, com um olhar preocupado. – Por favor, semideuses do chalé 9, peço-lhes que consertem a parede de escalada. E queiram cumprimentar as mais novas campistas que ficarão conosco de agora em diante, Maria e Sabrina, pertencentes ao chalé 6. – E forçou um sorriso. O pessoal não pareceu perceber o olhar preocupado de Quíron. Eles se aglomeraram em volta das duas garotas e as enchiam de perguntas. Afinal, elas eram muito mais velhas do que a maioria que chegava. Normalmente, semideuses chegavam ao acampamento com onze ou doze anos. E Maria estava para completar seus vinte. A algazarra não durou muito, pois o centauro se intrometeu e pediu para que as duas o acompanhassem até sua sala. Sem muito animo, ela levantou e o seguiu. Se sentia um pouco tensa, não estava muito afim de contar e reviver àquela experiência. Durante todo o trajeto, andou olhando para o chão e sentia a tensão que também saia de Sabrina. Ela olhou para a irmã e deu um suspiro. Como resposta, recebeu um suspiro irritado.

Entraram no que chamavam de Casa Grande e se direcionaram até uma sala grande e confortável, com decorações antigas. Quíron as pediu que sentassem em um sofá ao lado da janela, enquanto guardava seu corpo de cavalo em uma estranha cadeira de rodas. – Desculpe-me por tirar vocês, meninas, do refeitório. – Ele suspirou. – O sátiro me contou sobre sua chegada aqui, mas acho que devo ouvir de vocês. Ele estava sério, e isso incomodou um pouco as duas. Maria se encolheu no assento e Sabrina mudou sua postura. Elas não queriam falar sobre isso. Mas que escolha tinham, não é? Começaram então a explicar. Quando saiu de seu país natal e começou a longa jornada até o acampamento Meio-Sangue acompanhada somente de sua melhor amiga. Mais tarde descobriu que era sua meia-irmã. Felizmente, não foi tão difícil de aceitar que era filha de uma Deusa. Graças a todos os monstros e mortes horrendas que teve de encarar, se acostumara com o anormal. O Brasil estava perigoso, fenômenos como furacões e terremotos começaram a acontecer. Mortes inexplicáveis ocorriam e relatos de animais de grande porte nas cidades já estavam na primeira página dos jornais. O caos se instaurou no país. Pessoas já não saiam de casa, as escolas cessaram as aulas e os hospitais estavam lotados. Maria e Sabrina não tinham mais motivos para continuar no país. Receberam uma boa oportunidade de sair de lá, então foram sem hesitar. Seu destino era Nova Iorque, mas por conta de alguns problemas, foram parar na Califórnia. Encontraram o Acampamento Júpiter, fugiram de uma hidra, encontraram um Pônei de Festa e um sátiro bêbado. Realmente não era a história mais sensata do mundo mas foi o que aconteceu.

— Sátiro bêbado? Realmente esperam que eu acredite nisso?- disse o centauro bufando.

As irmãs se entreolharam e suspiraram — Sabíamos que não ia acreditar, mas estamos aqui não? Sobrevivemos por quase 20 anos sem monstros e de repente somos perseguidas por todo o continente. Um sátiro bêbado foi o melhor que pudemos fazer.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.