A lenda do lobo albino
2 Sherry
“Kyuri se ajoelhou de frente para o lobo, reclamando um pouco ao encostar o joelho no chão, e o encarando perguntou: — Por que o senhor matou aqueles aldeões?”
— Você é um menino estranho. — disse o lobo com sua voz grave que acariciava os ouvidos do pequenos menino a sua frente, que se via um tanto surpreso com a habilidade de fala do animal. — Em primeiro lugar, você não correu, ao contrário, você tentou se aproximar. Em segundo lugar, “por quê”?! Me diz, o que eles dizem na sua aldeia? — o menino, ainda surpreso, contou para o lobo a lenda que cresceu ouvindo da anciã e o lobo riu debochadamente ao final da lenda. — Para proteger o corpo?! Que corpo?! Por culpa daqueles aldeões ingratos não tinha corpo algum pra proteger.
— Como assim? — perguntou Kyuri com curiosidade em seu olhar.
— Bem, já que você não correu vou contar a minha história. — disse o lobo se transformando em um homem de 1, 80 m de altura, cabelos brancos e sedosos, os olhos dourados, vestindo apenas uma calça jeans preta e um camisa branca de manga. — Senta aqui, moleque. — chamou o homem dando leve batidas no chão ao seu lado.
“Há muitos anos atrás existia uma raça diferente de lobos, eram chamados lobos mestiços. Esses lobos eram descendentes dos lobisomens, mas diferente dos seus antepassados esses lobos conseguiam assumir 100% da forma humana e 100% da forma canina. Eram muito comuns nas cidades e nas montanhas, mas tais lobos foram condenados por humanos ignorantes. Esses humanos alegavam que os lobos mestiços estavam de conluio com as bruxas para dominarem o mundo por meio de pragas e feitiços. Muito lobos foram mortos a facadas, a flechadas, afogados, em fogueiras e por vários outros métodos cruéis. Eu sou um desses lobos e quando ainda era um pequeno filhote, menos de 2 meses de vida, vi toda a minha família ser queimada por humanos ignorantes. Eu consegui fugir e fui para muito longe de casa, foi quando o velho me achou. Ele me pegou e me levou para casa dele, no inicio eu não confiava nele nem um pouco, mas ele parecia saber o porquê e por isso não se aproximava mais que o necessário. Aos poucos eu fui me aproximando dele por vontade própria e ele me recebia sempre com um sorriso meigo. Mesmo eu sendo um lobo mestiço, ele me criou como seu filho. Mas mesmo eu podendo me transformar, não conseguia controlar o meu corpo humano ainda e por esse motivo eu não podia sair da casa. Só depois de 3 anos que eu saí de casa pela primeira vez e fui descobrir no que aquele velho trabalhava. Ele era o curandeiro da aldeia, ajudava as pessoas sem cobrar uma única moeda. Claro que as pessoas agradeciam da forma que podiam, a maioria dava pães e leite, tinha alguns que davam carnes e outros que apenas diziam um dia ainda iriam lhe retribuir. Ele me contou que não cobrava nada porque se sentia feliz de poder ajudar as pessoas já que não conseguiu ajudar sua esposa e seu filho que morreram na peste. E foi quando completei 6 anos que descobri os poderes de cura da minha saliva, eu mostrei a ele e, mesmo contrariado, ele começou a usar o poder da minha saliva. Parecia que tudo estava bem, que nós dois iríamos ser felizes para um sempre, mas humanos ignorantes existem em toda parte e em todas as eras. Um bando de aldeões começaram a dizer que ele era um bruxo e que a peste havia sido culpa dele, e também começaram a dizer que a minha saliva que ele usava nos doentes era um tipo de poção maldita. E um dia todos se voltaram para a porta da casa em que vivíamos e começaram a bater, chutar e gritar, o velho abriu a porta e, após ouvir as acusações, negou toda a história, mas os aldeões continuaram chamando ele de bruxo e eu cometi o maior erro da minha vida, me transformei em lobo na frente dos aldeões na tentativa de ajudar o velho, mas foi em vão. Eles pegaram o meu pai e o queimaram na fogueira e o pior, me seguraram para que eu visse aquilo. Ele sofreu muito antes de morrer, mas ficou parado, sem se debater, sem tentar sair daquilo, ele só chorou segurando sua voz. Mas antes de morrer, segundos antes dele morrer, eu pude ouvir ele me chamando ‘Sherry, me perdoa’. Foi isso que me atiçou, eu fiquei com uma raiva descomunal e tentei bater naqueles aldeões, mas eles eram fortes demais para mim, foi quando ela apareceu, a bruxa da montanha, Rivona. Ela me fez uma proposta, ela me concederia poder para me vingar e em troca eu protegeria a montanha de humanos ignorantes.”
— Bem, o resto você conhece. Eu matei todos os aldeões, transformei a aldeia em pó e deixei a casa do velho inteira porque ela me traz boas lembranças.
— Senhor Sherry, eu não sou um humano ignorante. Na verdade eu me sinto melhor agora. — disse Kyuri colocando a mão sobre o peito. — Tinha algo me incomodando aqui. Como se aquela história que a anciã contava fosse um peso aqui. Eu sentia que era errada...
— Você é mesmo um garoto estranho. — riu Sherry.
— Me perdoe senhor Sherry...
— Só Sherry está bom.
— Sherry, eu não gosto de ser chamado de estranho. Na aldeia todos me chamam de estranho e até me perseguem... — disse o menino cabisbaixo.
— Por que te perseguem?
— Eu acho errado essa costume de queimar bruxas. Eu acho errado essa história de condenar mulheres por nada.
— Hã? Você acha errado?! — questionou Sherry um tanto intrigado.
— Minha avó quase já foi parar numa fogueira por causa de uma mancha que ela tem no pescoço... eu acho isso errado. Bruxas são pessoas que nem todas as outras, só são mais sabias. Eu não entendo pra que queima-las... eu sou contra esse costume! — exclamou Kyuri com o olhar raivoso. — E é por isso que me chamam de estranho na minha aldeia.
— Mas realmente é estranho. Você é um humano, não é?!
— Acho que sim.
— Acha?
— Eu não conheci meus pais e nem sei nada sobre a minha família, além da minha avó. Muitos dizem que minha mãe era uma bruxa e muitos dizem que minha avó também é.
— Bem... se sua avó for, sua mãe também...
— Minha avó é a mãe do meu pai. — disse o menino interrompendo o lobo. — A família da minha mãe ninguém conhece.
— Resumindo, você é um menino estranho com uma família estranha. — riu Sherry mostrando seus caninos pontiagudos mesmo em sua forma humana.
— Por favor, não ria! — reclamou Kyuri se levantando, mas logo caiu sentindo uma fisgada no joelho.
— Seu joelho. Deixa que eu cuido. — Sherry pegou o joelho do menino por trás e lambeu a ferida. O menino protestou com o rosto enrubescido, chamando a atenção de Sherry, que continuou lambendo a ferida enquanto encarava o pequeno.
— Chega... não precis...
— Falta pouco. — disse Sherry interrompendo o menino, segurando a pequena mão que tentava alcançar seus cabelos brancos.
— Mas o que é isso? — perguntou uma menina de cabelos negros, que surgiu de repente de trás da moita, estranhando a cena.
Fale com o autor