A lenda continua

2 Conflito de interesses


Notas iniciais
É uma história antiga, uma rixa cuja história fica para outro dia. Duas pessoas que não se batem terão que unir forças para desvendar um segredo de família.

As nuvens ralas no céu claro e os raios fortes do sol foram pouco a pouco substituídos por um dia nublado e nevoento, a vegetação esparsa, por uma grama alta e seca. Tudo se passava rápido demais do lado de fora da janela do ônibus, mas sua parada nunca parecia chegar. Lea tamborilou os dedos no braço da poltrona. Estava impaciente.

Seu ponto só aproximou-se pouco mais de duas horas depois. Não havia nada que servisse como ponto de referência para localizá-lo. Só a grama alta e a estrada asfaltada pela qual o ônibus percorria.

— Disse que quer descer aqui? – o cobrador olhou para a mulher carregando uma mochila enorme que parecia ter o dobro de seu peso. Tinha altura mediana, cabelo negro cortado na altura do pescoço e usava grandes óculos de sol, apesar do tempo nublado.

A garota confirmou.

— Mas não há nada aqui.

— Vou precisar andar um pouco – ela deu de ombros.

— Mas...

— Na próxima curva, por favor.

O cobrador não pôde dizer mais nada. Aquela moça provavelmente era louca.

Lea desceu do trem. Suas botas afundaram na grande poça de lama, mas ela não pareceu ligar. Ainda teria doze quilômetros pela frente.

Depois de uma longa caminhada, Lea deparou-se com uma longa muralha, que se estendia por todo o campo visível, e mais um pouco. Era incrível que tão pouca gente soubesse daquele lugar. Lea parou em frente ao grande portão.

— Identificação. – alguém pediu, do alto de uma das torres da muralha.

Isso é realmente necessário?, bufou Lea. Ela virou-se na direção da torre e gritou:

— Lea Murakami.

Houve uma breve pausa, quando ninguém disse nada por dez minutos. Finalmente, Lea detectou um ruído. O portão estava sendo aberto.

Quatro guardas sugiram pela fresta deslocada do portão.

— É impossível. – Lea ouviu um deles falar baixinho. Eles aproximaram-se.

— Eu sei que faz muito tempo, mas eu não devo ter mudado tanto assim. – Lea tirou os óculos. Os soldados recuaram quando ela abriu os olhos. As cores de nebulosa eliminaram todas as suas dúvidas.

As terras do clã Murakami ocupavam todo um bairro no centro da cidade. A construção principal, um grande prédio de três andares, localizava-se no centro de uma praça muito arborizada, e nenhuma outra construção equivalia àquela. Mas não foi para lá que Lea se dirigiu.

O patrulheiro da mansão Murakami observou a recém-chegada passar direto, até uma espaçosa casa no fim da rua. Ela bateu à porta e esperou com a cabeça baixa. Podia sentir o olhar distante do patrulheiro na nuca.

— Não acredito. – Lea abriu um meio sorriso ao vê-la novamente. Analise tinha agora os cabelos castanhos longos, o oposto do que a própria garota decidira fazer com os seus, e algumas rugas de preocupação começavam a aparecer em seu rosto. Estava ainda mais bonita do que Lea se lembrava.

— Eu disse que ela viria. – soou uma voz de dentro da sala, e ela ouviu passos se aproximando.

Um abraço de Analise a pegou de surpresa e por um momento, ela viu um brilho prateado da corrente de compromisso. Da última vez que a vira, Analise ainda estava solteira.

— Podiam ter me chamado para a festa – comentou Lea, quando um rosto mais que familiar apareceu em sua frente, envolvendo Analise pela cintura.

Mais que Analise, seu irmão parecia ter envelhecido. E amadurecido, também. Os olhos negros pareciam ter afundado, uma barba por fazer despontava do queixo quadrado e usava o cabelo preso em um rabo de cavalo. Max sorriu.

— É bom que esteja de volta.

— Desde quando ficou tão formal? – Lea o envolveu em um abraço apertado e demorado. Quando afastou-se, seus olhos cruzaram com os de Max por algum momento e ele pôde perceber um lampejo de preocupação.

— Espero que não tenham mudado muito as coisas. – Lea entrou e contemplou o lugar, e se deu conta de que não se lembrava de como a casa era originalmente.

— Duvido que ela saiba onde ficava a cozinha. – cochichou Max, o que fez Analise rir. Ela conhecia muito bem a cunhada.

Lea deixou os sapatos em um canto antes e entrar na casa, e colocou a mochila no chão. Recusou todas as ofertas de descanso e evitou falar sobre suas andanças, até que Max finalmente perguntou o que ela esperava:

— Quer vê-lo?

A moça assentiu. Ela acompanhou o irmão até o andar superior e o seguiu até o último quarto do corredor limpo e lustroso. Lea hesitou ao tocar na maçaneta. Fechou os olhos e respirou fundo.

O quarto estava impregnado com um cheiro de desespero e suor. As janelas estavam fechadas e o termostato mantinha-se numa temperatura baixa. Um homem deitado para cima ocupava a cama, sob lençóis claros. Seus olhos semicerrados encaravam o teto, como se aquilo fosse uma coisa muito divertida de se fazer. Lea aproximou-se até ficar ao seu lado.

— Não vai achar nenhuma mancha aí em cima, pai. Analise tem TOC por limpeza.

Ele virou a cabeça e conseguiu localizar um corpo turvo com o pouco dos sentidos que lhe restavam. Lea ajoelhou-se ao lado da cama para ficar em seu campo de visão. Max fechou a porta e saiu silenciosamente.

— Você não é tão irrastreável quanto pensa.

— Eu posso ter deixado algumas pistas. – sorriu Lea.

— Bem, – ele tossiu, fazendo gotas de sangue pousarem sobre o lençol, e voltou a fitar o teto – eu precisava dizer isto antes de morrer. É algo em que você tem que trabalhar.

Lea não encontrou resposta, e o homem voltou a olhar em sua direção.

— Não invente de chorar. Um Murakami não deve...

— Expor seus sentimentos. – ela o interrompeu – Eu sei. E é claro que não vou chorar.

— Melhor assim. – o pai contraiu o canto da boca, quase num sorriso e depois não disse mais nada. Lea aproximou-se e percebeu que estava inconsciente. Seu rosto estava molhado e quente, mas ele parecia tremer. Lea correu até a porta para chamar o irmão.

O prédio do ficava no alto de uma pequena colina, no centro da cidade. Era uma construção antiga de base circular. No topo, era possível ver tudo o que acontecia ao redor, e havia sempre dois ou três homens patrulhando dali. Aquele era o prédio do Hokage, o qual todos nos quatro cantos do Mundo Ninja já ouviram falar.

Lea Murakami ignorou os protocolos de recepção e escalou até o último andar.

O aposento era grande, claro e bem ventilado, graças às grandes janelas que o Hokage mantinha abertas. Ele deixou a leitura do documento de lado ao perceber o movimento na janela. Murakami mordiscava a ponta da unha.

— Você nunca usa a porta?

— E passar por toda aquela burocracia? Não, obrigada. – ela pulou da janela para sentar-se na cadeira em frente ao Hokage.

— Já que está aqui, devo considerar que vai retomar o cargo?

Lea assentiu, quando alguém precipitou-se pela porta entreaberta.

— Senti de longe o cheiro de um Murakami. – um homem aproximou-se.

Ela torceu o nariz.

— Rattou. – o rapaz ajeitou a badana de ninja amarrada na testa, empurrando os dreads do cabelo para trás, e depositou um relatório sobre a mesa do Administrador. Lea voltou ao Hokage – Então, eu tenho uma missão?

O Hokage a encarou. Essa garota não gosta de perder tempo. Ele examinou os papéis sobre sua mesa e entregou-lhe um que era mantido um tanto escondido. Lea virou o papel carimbado e leu seu conteúdo. Ficou em silêncio por uns minutos, e então ergueu a sobrancelha.

— Babá de criança? Você deve estar brincando comigo.

— O correto é treinadora. Você não esperava receber uma missão nível A depois de desaparecer por cinco anos, não é?

Lea ia falar alguma coisa, mas parou. Encarou novamente o papel e virou-se para o Hokage.

— Tudo bem, mas onde encontro essa hã... Equipe 13?

— Eles estarão aqui amanhã às dez. – Murakami assentiu, preparando-se para sair. Rattou também já estava de saída, quando o Administrador os chamou. – Esperem um minuto, vocês dois. – ele juntou as pontas dos dedos, algo que sempre fazia quando estava prestes a contar algo muito sério. – É sobre Ariano Murakami.

Lea não deu mais um passo, e Rattou voltou a fechar a porta.

— Eu tenho motivos para acreditar que... ele foi envenenado.

Rattou estava pasmo. Nunca lhe passou pela cabeça que o Hokage se interessava por questões do falido clã Murakami; muito menos que faria uma revelação tão abrupta, em frente à filha do homem que estava prestes a morrer. Lea estava de costas, mas dava para perceber de longe os músculos de seu corpo tensionados.

— Envenenado? – Rattou ergueu uma sobrancelha. O Hokage assentiu.

— Não são sintomas de uma doença comum. Eu pedi que um exame fosse feito, e detectaram rastros de deglunina, um veneno comum na Aldeia da Terra.

O canto da boca de Lea tremeu. Mesmo alguém cinco anos afastado tinha conhecimento da longa rivalidade entre as duas cidades, afinal já era uma história antiga.

— Como poderia ter acontecido? – Rattou sabia que o Murakami mais velho não tinha realizado missões ultimamente, e que nenhum desconhecido entrara na cidade nos últimos dias. Além disso, qual o motivo do envenenamento de um homem, que nem à família principal dos Murakami pertencia?

— É isso o que vocês devem descobrir.

— Com vocês, não quer dizer eu e a Murakami, certo?

— É claro. Suspeito que alguém esteja traindo a cidade. Suas habilidades como espião são honoráveis, Rattou. Como filha de Ariano, Lea está em boa posição para uma investigação. Jamais pediria isso se fosse outra pessoa, mas ela é uma Murakami, afinal. É uma missão secreta e extraoficial, então ninguém mais deve saber sobre isso.

— A proximidade de Murakami não poderia trazer nenhuma objetividade à missão.

— Isto não vai afetar em nada meu trabalho – ela disse, encarando o Hokage, que assentiu, encerrando o assunto.

Rattou mordeu o canto da boca.

— O quanto meu irmão sabe sobre isso? – Lea quebrou o silêncio. Nem Rattou pôde perceber algum indício de perturbação.

— Nada além do que já é de conhecimento público. – o Hokage ficou contente em deixar aquilo claro. – Devem descobrir o mais rápido possível. Estão dispensados.

Lea e Rattou se dispersaram para lados opostos, deixando apenas um rastro de poeira levantada onde estavam. Cada um tinha suas próprias suspeitas a respeito do envenenamento de Ariano Murakami.