A iniciação
3 Capitulo dois
Notas iniciais
Antes da chegada do carro a mansão Frontin, dois jovens passavam conversando animadamente, bom pelo menos um dos jovens, sobre o novo curso integrado ao ensino médio da escola. Ambos pararam no pequeno campo que ficava ali. O mesmo era composto por uma figueira, a qual servia de sombra nos dias de verão, e por um banco de concreto recentemente colocado já que o de madeira encontrava-se no seu limite.
—Desencana Simon! – disse a loira entediada. – Nunca que vou fazer isso! Esse curso é uma droga, já me basta às aulas de historia normais que temos, por que raios que eu me inscreveria no de historia avançada?
— Para aprender mais? – Disse o moreno sorridente. –Poxa Ana, você nunca teve curiosidade em saber o porquê da origem da cidade? Ou porque Clint Hill é a mais procurada por pessoas cheias da grana como os Frontin... Por exemplo. – a menina o encarou esperando alguma reação do mesmo, já que esse nome era extremamente proibido em seu vocabulário rebuscado, mas tudo o que recebeu foi um silencio acompanhado do vento que batia em seus rostos pálidos pela falta do sol, fazendo também os curtos cabelos de ambos balançarem levemente.
—Simon... – Ana começou mais logo foi cortada por um suspiro cansado.
—Já se faz cinco anos loira, não tenho o direito de me abalar com isso... Não mais!- o silêncio novamente se fez presente e os dois ficaram apenas aproveitando a brisa gélida. Minutos se passaram e a atenção dos jovens foi chamada para um barulho no asfalto da estrada, o conhecido barulho de rodas passando por cascalhos derrubados do caminhão de jardinagem daquela manhã.
—Ué quem chegou? Pelo o que eu saiba só moram os Frontin aqui por perto. – Ana se levantou do banco se colocando de joelhos para o lado oposto do mesmo, a fim de observar melhor a chegada do carro, os olhos azuis brilhavam de tão vidrados.
—Deve ser algum médico, lembra-se que são as velhas que moram aqui! – o menino falou ainda sentado normalmente sem nem ao menos mexer um músculo.
—Então o médico esta de mudança. –Simon se virou rapidamente causando em si mesmo uma leve tontura passageira e se ajeito na mesma posição que a loira, assim os dois passaram a observar. Ambos prestaram atenção em cada movimente, em cada misero detalhe, Simon prestou atenção ate mesmo no barulho esquisito que saia do automóvel que denunciava um problema sério no amortecedor. Viram quando o motorista desceu, quando o mesmo ajeito as luvas e o terno ambos impecavelmente alinhados e limpos (até mesmo quando o homem colocou o chapéu esquisito).
—Que chapéu engraçado! – Ana deu uma singela risada. O homem de chapéu engraçado se aproximou do porta-malas e começou a retirar malas do mesmo, enfileirando-as perfeitamente perto do enorme portão de ferro e cobre logo após terminar a tarefa se aproximou da porta traseira do veiculo e em um movimento rápido e delicado a abriu dando passagem ao novo “hospede” da casa. E foi nesse momento que Simon perdeu o ar de seus pulmões.
Os cabelos ruivos estavam maiores do que há cinco anos, a cor para o moreno estava mais vibrante, intensa como se fosse um grande farol que o fazia querer se aproximar cada vez mais. Simon sempre achara que o que diferenciava Eliza da morbidez imposta na família fora os cabelos cor fogo e as bochechas rosadas... Ele nunca esteve tão certo.
—Não creio! – Ana sibilou espantada, logo depois murmurou um palavrão. – Não pode ser ela, ela não pode se atrever a voltar!
Simon a encarou como se a loira fosse burra a menina o olhava ainda indignada.
—Você é burra ou se faz?- a voz do rapaz ecoou enquanto coçava a têmpora a menina se calou e o olhou nervosamente. – A família dela mora aqui ela pode se atrever a voltar a qualquer hora Ana!
—Não precisa ser tão ignorante!
—Às vezes você se faz de tonta! Não tem quem suporte seus pitacos. — a menina percebeu o tom irritado na voz dele ela sabia que ele estava abalado com essa enxurrada de informações, então ambos apenas se encararam e voltaram a observar a cena da mansão com sua nova, mas não tão nova habitante. Simon analisou tudo desde a aparência ate os gestos que a ruiva fazia. Viu quando os pulmões da mesma se inflaram com o ar puro do campo e quando os mesmos se esvaziaram, seus passos hesitantes até o portão, que fez um barulho estridente quando aberto, e o abraço que nas duas idosas que o moreno não fazia idéia de quando apareceram. Seus olhos castanhos só se desgrudaram quando as três figuras femininas sumiram de suas vistas, com vários empregados carregando as malas da filha mais nova dos Frontin.
—Simon! Acorda, vamos para casa aqui já esta começando a me dar calafrios. – o rapaz apenas concordou com a cabeça e logo começou a ser arrastado pelo braço.
—Ela não queria voltar!- Simon afirmou fazendo a loira ao seu lado dar um tranco e parar de andar somente para encará-lo. Os dois jovens já estavam longe da mansão.
—Tanta coisa para você falar e tu me fala isso?! Pelo menos descobri que não ficou mudo pelo susto. – a menina disse ainda parada, mas logo voltou a andar suspirando.
—Ela não veio porque quis Ana! – o moreno insistiu em trazer a ruiva como assunto novamente, sua voz era suplicante e tristonha. Ana se irritou. – Por que esta com essa cara?
—Por quê? Porque Simon, ela foi embora e te deixou sozinho aqui! Será que você não entende que aquela riquinha nunca se importou com você de verdade?! E pelo visto você ainda não entendeu e fica falando dela, preocupado se ela veio porque quis ou não. Por favor, Simon já deu! – a loira elevou a voz três oitavos que o normal. – ESQUECE ESSA GAROTA!
O rapaz não disse mais nada apenas adquiriu uma feição fechada e viu a garota ir à frente com raiva. Ana estava perplexa como ele poderia ainda se importar com a sonsa dos Frontin depois de tudo? Ela não queria ouvir Simon comentando nem mais um segundo sobre a volta de Eliza. O moreno antes de começar o caminho já conhecido para sua moradia virou-se para trás a fim de ver uma ultima vez ao dia à casa da ruiva. No topo da colina a mansão Frontin se destacava das demais, tanto pelo fato de que aquela casa já estivera de pé antes mesmo de Clint Hill assumir-se como cidade, quanto pelo fato de que a neblina que ficava ao redor no inverno era assustadora, mas que sempre deu um ar tenebroso e incrível no Halloween. Mas o que sempre deixava a casa bonita, na concepção de Simon, era o verão. Quando o sol batia tudo se iluminava e ali parecia mais um parque de diversões do que moradia. E foi em um desses verões que Simon se sentiu vazio.
20 de agosto de 2006
O dia tinha amanhecido quente, o verão sempre começava assim em Clint Hill, ótimo para as crianças que acordavam logo cedo e já iam pra fora de casa aproveitar o máximo dos dias longos que só o verão lhes proporcionava. Simon estava em uma felicidade que não cabia dentro do peito, seu sorriso era maior que o rosto, era nesse mesmo dia em que completava 3 anos de amizade com a pequena ruiva Frontin, uma amizade que o garoto não fazia ideia de como continuou já que a família da garota era de uma extrema, como podia dizer, uma extrema esquisitice. As ruas da cidade estavam movimentadas, como o de costume nessa época o ano, várias pessoas sentadas na calçada e nos bancos distribuídos uniformemente pela cidade. Os gritos animados das crianças preenchiam o silencio que sempre se fez presente no interior, carrinhos de sorvete espalhados por quase todas as esquinas, por um momento pensou se deveria levar um picolé de limão para Eliza – já que era seu sabor predileto – Mas achou melhor comprar junto da mesma, ate chegar no topo da colina Frontin já teria derretido metade e suas mãos estariam uma nojeira. Não tardou muito a chegar na mansão, mas toda a felicidade se tornou curiosidade a partir do momento em que viu caminhões de mudança enfrente ao portão.
Com certa dificuldade passou por todo aquele amontoado de pessoas e caixas parando ao lado da ruiva mais nova que se encontrava parada a porta de entrada, seu semblante era neutro.
—Que bagunça! Aconteceu algo Liza?- A voz do garoto de 12 anos se fez presente aos ouvidos da menina que sentiu um arrepio subir pela espinha. Os olhos cor mel se fixaram no moreno ao lado e por um momento Simon pode ver uma hesitação.
—Nada muito grave Caramelinho. – o menino revirou os olhos ao ouvir o apelido que ganharam em um dos seus passeios com a amiga, tudo graças a um caramelo que grudou no céu da boca e o deixou com uma voz engraçada – vovó só esta mandado embora algumas coisas e...
—E...?! – o moreno segurou a mão dela. Eliza sentiu suas bochechas esquentarem e deu um mínimo sorriso, mas quando levantou o olhar viu seus pais a encarando, como se falassem silenciosamente para ela fazer o que era certo. A menina recolheu a mão de forma bruta fazendo com que Simon se assustasse. – Liza?
—Não posso mais ser sua amiga Simon!- ela encarava o vazio a frente, não se atreveria olhar para os olhos dele. O menino prendeu a respiração.
— O-o que? – o coração jovem errou duas batidas e aquela dorzinha incomodante se alastrava junto de um vazio perturbador.
—Não quero mais ser sua amiga! Estou indo embora Delano e não podemos continuar com essa farsa. Você não faz parte do meu mundo e eu nunca deveria ter permitido sua entrada em minha vida. Só estou concertando o erro que cometi.
Simon não sabia o que falar as palavras simplesmente não existiam e nada se compararia a dor que sentia em seu peito. Eliza ainda o evitava, os olhos não encaravam de jeito algum o rosto do moreno, se o fizesse acabaria chorando assim como Simon já estava fazendo.
—EU ODEIO VOCÊ! – se Eliza já se sentia mal pelo que fizera ao ouvir essas três palavras em conjunto se sentiu uma miserável. As lagrimas se acumularam nos cantos dos olhos assim que viu o menino sair correndo por dentre as coisas. O sol forte fazia a pele já morena de Simon arder, e assim que cruzou os grandes portões de ferro sentiu uma tontura e tudo ficou escuro.
Quando acordou se encontrava em sua cama, não fazia a mínima ideia de como fora parar em casa e muito menos de quem o deixou lá. Então deduziu que tudo não passara de um pesadelo e que quando chegasse à mansão Eliza o estaria esperando na porta com um sorriso encantador para enfim os dois brincarem, todavia suas esperanças morreram assim que colocou os pés perto do grande portão de ferro novamente, os únicos que ficaram para cuidar da casa foram os empregados e Simon teve plena certeza que tudo fora verdade quando lhe disseram que a família tinha realmente ido embora.
Após 2 anos as matriarcas da família voltaram a residência, mas Simon não tinha animo algum para procurar por Eliza e deduziu que depois de tudo o que ela dissera, que não deveria procurá-la de modo algum.
3 horas depois do ocorrido.
Morar com sua melhor amiga deveria ser o sonho de qualquer adolescente, mas para Simon tudo se passava como um pesadelo. Após o ocorrido na colina teve que ouvir um belo sermão da loira, que soltava fogo pelos olhos de tão irada que ficou, assim que chegaram dentro da residência. Discutir era inevitável, isso até o pai de ambos apartar a briga e mandar cada um para seus respectivos quartos antes que aquilo virasse uma briga de MMA. Agora antes que me pergunte como assim pai de ambos? O senhor Delano sempre foi um cara muito mulherengo, dando deixas e indiretas para varias mulheres mesmo casado. Com a mãe de Ana não foi diferente que caiu de amores pelo mulato. Quando a mãe de Simon descobriu que seu marido tinha outra filha fora do casamento ainda mais com a idade do filho dos dois, pediu o divorcio e deixou o filho com o homem, Ana só se juntou a família depois de sua mãe falecer. Então além de serem amigos eram irmãos, o que para o rapaz era algo incrível e assustador ao mesmo tempo.
Eliza suspirou de aliviou assim que entrou no antigo quarto, a sensação de estar sendo observada já tinha passado mas algo ainda a incomodava, encarou a cama nova – já que a antiga era pequena demais – os lençóis brancos estendidos milimetricamente perfeitos na enorme cama kingsize, vários travesseiros sobrepostos, as malas estavam enfileiradas por ordem de tamanho ao lado da escrivaninha marrom. O closet ainda continha algumas mudas de roupa de quando tinha seus 11 anos eram poucas, mas estavam lá. As cortinhas pretas balançando fracamente, sendo levadas pelo vento gélido que entrava no quarto, se aproximou da janela meio cambaleante. O cheiro de terra molhada invadiu suas narinas, o céu que ate então estava limpo e aberto fechou rapidamente. Nuvens carregadas apareceram rodeando todo o horizonte e não tardou muito para o céu começar a chorar, o clima estava perfeito para alguns, mas para Eliza tudo aquilo não se passava de um auto descontrole emocional.
Na enorme sala de estar da mansão Frontin, as duas progenitoras se encontravam observando o fogo crepitante da lareira, ambas em silêncio, escutando os pingos de água no telhado e no balançar constante do pendulo do enorme relógio cuco encostado na conta da parede.
Eugênia Frontin era a única bisavó viva da família. Com seus quase um século de vida Eugênia já vira de tudo, inclusive de quando as bruxas tiveram de se esconder novamente a fim de proteger seus segredos. Ao seu lado se encontrava a filha mais velha avó paterna de Eliza. Elizabeth Frontin é a progenitora de 5 filhos, sendo cada um deles espalhados pelo mundo mantendo o legado da família, era meio raro encontrar a família completa a ultima vez foi na iniciação da irmã de Eliza. Os gritos da neta ainda ecoavam na mente de Elizabeth.
—Sabemos que isso só ira piorar!- Eugênia começou assim que pegou o copo de vinho repousado na mesinha que estava ao lado de sua poltrona de couro negro, atrás de si estava o servo, já presente há séculos na família, ereto com a garrafa de um vinho antigo. – Sabe que será difícil controlá-la.
—Sim eu sei, mas prometi a Margo que o faria e o farei!- A mulher encarou o retrato do filho ao lado da esposa que se encontrava ao alto da lareira. – A chuva tem que parar, está em uma época de seca precisamos manter as aparências.
—Exato... Mas por enquanto deixe. Os mangatas iram pensar que foi apenas um erro meteorológico. Quando for o momento ela ira o fazer parar!
—Já viu alguma coisa dessas antes?- perguntou Beth se ajoelhando aos pés da mãe.
—Em grande escala?- a grisalha suspirou e bebericou o vinho da taça. –Nunca!
Um raio passou pelo céu iluminando a face das duas senhoras. Ambas perdidas na confusão de pensamentos sobre a neta mais nova.
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