A humanidade de Renesmee

7 Primeiro Dia Simulado


Acordei ao som de um apito de polícia misturado com buzina de caminhão.

— LEVANTA, NESSIE! MOLEZA ACABOU! — gritava Emmett da janela, pendurado como um gorila saltitante. — Na escola os humanos acordam cedo, dormem cedo, reclamam muito e ainda têm que correr na aula de educação física. Privilegiados são os vampiros que não sentem cansaço... mas você? Meio a meio, baby. Vai ter que encarar o BO!

Desci com o cabelo desgrenhado e olhos semiabertos.

— Bom dia pra você também, Tio Enxaqueca — murmurei.

Na cozinha, Esme me esperava sorridente com uma tigela de cereal e panquecas empilhadas com morangos.

— Não começa o treino antes de comer. Saco vazio não para em pé, minha menina. E vocês todos — ela se virou para a família já reunida — lembrem que, por mais que a Nessie seja especial, ela ainda precisa se alimentar como qualquer adolescente. Isso vale também pra hora do almoço na escola simulada. Nada de desculpas.

— Vai ter hora do almoço? — perguntei, incrédula.

— E fila do refeitório — acrescentou Alice, animada.

No jardim, tudo estava montado como um verdadeiro colégio:

Um quadro branco pendurado.Cadeiras escolares.Rosalie era a “colega popular”.Emmett era o “valentão”.Alice era a “líder de torcida”.Jasper fazia o “professor substituto de história”.Carlisle seria o diretor (óbvio).Bella era a zeladora literária da biblioteca.Edward… bem, ele era o "pai que levava a filha no primeiro dia e não conseguia largar o portão da escola".

Quando me aproximei da “entrada”, Edward me puxou de lado.

— Está com tudo preparado? As respostas prontas? Lembra de manter sua respiração natural?

— Pai…

— Evite contato visual intenso. Se alguém se machucar perto de você, mantenha distância. E por favor, sem super velocidade nem saltos.

Bella se aproximou, de braços cruzados.

— E se alguém a insultar, finja que não ouviu. Não quero nenhum incidente estilo "ela quebrou a porta do armário com um soco".

— Vai dar tudo certo, vocês estão exagerando!

Emmett apareceu atrás de mim com uma jaqueta de couro e um sorriso torto.

— Vamos ver como você lida com bullying leve. Pronta, novata?

— Só se estiver pronto para ser ignorado como todo valentão genérico — respondi.

Todos riram. Até Jasper.

— Silêncio na sala! — gritou ele, batendo o apagador na mesa. — Hoje vamos falar sobre a Guerra Fria… e sobre como não congelar emocionalmente quando estão sendo testados.

A aula seguiu entre piadas, provocações, simulações de chamadas orais e até uma “emergência no banheiro”, cortesia de Alice para testar minha improvisação.

No intervalo, Carlisle reuniu todos em uma roda de feedback.

— Então, o que aprenderam?

— Que Emmett jamais pode interpretar um adolescente. Ele é mais animado que todos os humanos juntos — eu disse.

— Que Bella como bibliotecária faria os alunos dormirem em pé — zombou Emmett.

— Que Nessie se saiu melhor do que imaginávamos — disse Jasper. — Ela controlou até quando eu puxei um comentário passivo-agressivo sobre o cabelo dela.

Edward cruzou os braços.

— Ainda estou inseguro. Mas... admito que ela está se saindo melhor do que eu esperava.

Bella completou:

— Vai dar certo. Porque ela quer que dê certo. E está tentando do jeito dela.

Rosalie, por fim, concluiu com um sorriso:

— Se ela conseguir sobreviver à “escola Cullen de treinamento humano”, vai tirar de letra qualquer coisa lá fora.

Rimos. Juntos. Como uma família. Disfuncional? Talvez. Perfeita para mim? Com certeza.

Capítulo: Aula, Confusão e Buzinas

No segundo dia de simulação, Carlisle reuniu todos na sala de estar e anunciou:

— A partir de agora, cada aula da Nessie será acompanhada por um de vocês. Vamos variar as duplas a cada disciplina. Precisamos prepará-la para lidar com todos os tipos de interações: amizade, rivalidade, professores e, claro... irmãos.

Alice vibrou.

— Eu começo com artes! Já separei lápis, tinta e umas ideias de como fingir que não sou boa em tudo!

Nessie, sentada no sofá com um caderno no colo, ergueu a mão como em uma sala de aula real.

— Posso fazer uma sugestão? — Todos a olharam. — Acho que preciso da ajuda de vocês pra lembrar... de não chamar ninguém de “tio”, “tia”, “mãe” ou “pai”. Eu sei que parece bobo, mas é automático.

Edward deu um risinho contido.

— Sim, principalmente porque toda vez que você chama alguém de "pai", vamos ter que apertar a buzina.

Bella completou, com uma sobrancelha arqueada:

— Aquela buzina absurdamente alta que Emmett instalou na cozinha. Um alerta sonoro contra deslizes familiares.

— Ah, então é isso que é amor parental? Um trauma auditivo coletivo? — ironizei, arrancando risadas até de Jasper.

A primeira aula do dia foi biologia, com Carlisle como professor e Jasper como “colega de classe”.

Enquanto Carlisle falava sobre células, Jasper cochichava:

— Você está muito reta na cadeira. Humanos se mexem. Espreguiça, anota algo... finge tédio.

— E você está muito sério. Parece que vai fazer hipnose em alguém.

Quando Carlisle chamou Nessie para responder algo no quadro, ela tropeçou de propósito, tentando parecer desajeitada. A queda foi perfeitamente executada... até demais. Ela caiu, girou, e se levantou com a elegância de uma ginasta olímpica.

— Hum... humano tropeçando não gira no ar — disse Alice da porta, anotando no caderno: “Revisar quedas naturais”.

Na aula de educação física com Emmett, a situação saiu um pouco do controle.

Ele propôs uma corrida ao redor do jardim transformado em pista.

— Vai, Nessie! Mostra que você aguenta!

Ela respirou fundo, controlando o impulso. Mas ao ver Emmett acelerar, algo em seu instinto competitivo acendeu. Em um segundo, disparou. Em dois segundos, já estava no outro lado da casa.

Todos pararam.

Bella soltou um “Nãoooo!” dramático.

Edward apertou a buzina da cozinha.

Carlisle apareceu na varanda com os braços cruzados. Jasper, do alto da árvore, murmurou:

— E a gente achando que o treino de arte era o mais perigoso…

Mais tarde, todos se reuniram para conversar.

— Eu só corri! — disse Nessie, frustrada. — Por reflexo!

— Foi assim que eu quebrei uma parede— comentou Emmett. — Quis pegar a bola de vôlei antes de todo mundo. Acabei atravessando a quadra. Literalmente.

— Eu fugi de uma briga e acabei alcançando o ônibus da escola... a pé — acrescentou Alice.

— E eu me ofereci pra ajudar na limpeza do laboratório em 1995 e desmontei metade da sala de química com força demais — disse Rosalie, revirando os olhos. — Fiquei conhecida como “a garota Hulk”.

— Ou seja, você está indo bem — concluiu Carlisle. — Mas precisa lembrar: o que para você é instinto, para os outros será algo estranho, curioso... ou perigoso.

Durante o treino de sociologia com Bella, Nessie cometeu outro deslize.

— Mãe, você viu o que a Alice... — começou ela.

A buzina tocou.

Bella cruzou os braços.

— De novo?

— Desculpa... é difícil fingir que você é minha... colega. Você parece tão minha mãe com essa cara de “vou cortar sua internet se não se comportar”.

— Nem tenho internet, mocinha.

— Exatamente! — riu Nessie.

Na hora do almoço, todos se sentaram juntos em mesas divididas como num refeitório real. Nessie encarava sua comida, mastigando lentamente.

— Se eu fosse humana, isso teria gosto de sofrimento — ela resmungou.

Esme apareceu com uma garrafinha de suco natural e beijou a testa dela.

— Ninguém disse que o treinamento seria gostoso. Mas você está indo bem. Melhor do que todos nós na primeira tentativa.

No fim do dia, Carlisle fez uma última observação, reunindo todos no jardim:

— Ver o mundo pelos olhos dela nos fez lembrar de nossos próprios tropeços. E agora temos a chance de guiá-la, não com rigidez, mas com empatia. Só assim ela poderá aprender sem medo.

Nessie sorriu, cansada mas satisfeita.

— Amanhã tem mais?

— Tem — disseram todos em uníssono.

— Ótimo. Mas, por favor, sem buzina antes das oito da manhã?

Emmett piscou com malícia.

— Sem promessas.