Notas iniciais
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Estávamos sentados numa das mesas de fora do barzinho, já que lá dentro estava impossível.

Tomar vinho em pleno verão era realmente uma ideia muito idiota. E se tornava mais ainda quando você era o único que sabia beber socialmente.

— Não vai beber mais, não? — o colega de trabalho do meu marido perguntou e era difícil entendê-lo falando arrastado daquele jeito.

— Eu não gosto muito de beber — respondi tentando ser educado, mas era difícil. Aquele cara era desagradável demais.

Queria dizer que eu não bebo muito porque, de acordo com o meu marido, eu pareço um boneco de Olinda quando bebo. Mas isso seria esticar assunto, e do jeito que ele estava bêbado, quando eu terminasse de explicar, ele já teria esquecido tudo.

— Motorista da rodada! — ele vibrou, chamando a atenção das outras pessoas no bar.

Senti meu rosto queimando e Daisuke, meu marido japonês do Paraguai, também sentiria se estivesse sóbrio. Mas como estava mais pra lá do que pra cá, ele se limitou a levantar o copo e concordar.

— Kampai! — falou e entornou o copo, voltando a sua expressão taciturna.’

Pelo menos o Dai não é um daqueles bêbados chatos que ficam enchendo o saco. Quando ele enche a cara, o que é muitíssimo raro, ele fica sério e pensativo.

E isso aparentemente irritava o colega dele.

— Malditos asiáticos! — ele reclamou. — Até quando o assunto é beber, eles fazem melhor que a gente — continuou com os olhos cheios de lágrimas.

Eu ri. O Daisuke tinha acabado de ser promovido no serviço, e esse colega, o Paulo, estava meio injuriado já que ele tinha mais tempo de casa. Quem mandou ser um funcionário horrível?

A mulher dele, Loreta, ficou sem graça.

— Não ligue para ele — ela me disse —, só ignore-o como eu faço.

Quando percebeu que foi em voz alta e eu ouvi, ela corou e riu.

— Oops — ela disse, tampando a boca com uma mão.

Nós rimos e começamos a conversar, já que o marido dela começou a chorar e o meu encarava uma garrafa, provavelmente tentando quebrá-la com seu poder Jedi. Nerd bêbado é fogo.

— Vocês parecem se dar bem. — Ela comentou sorrindo, quando o Daisuke encostou sua cabeça no meu ombro e se enroscou no meu braço — Saudades do começo do casamento. — Ela suspirou.

— Casados no papel mesmo faz pouco tempo. Mas moramos juntos há mais de dez anos — eu falei despreocupado —, e estamos juntos há uns quinze. — Eu disse sorrindo e fazendo cafuné nele. Ele se encolheu. Tinha cócegas.

Ela arregalou os olhos e me encarou com uma expressão sonhadora.

— Ah, que fofo! — ela praticamente pulou na mesa e segurou minhas bochechas. — Foi amor à primeira vista?

— Quase isso — eu disse sem graça, enquanto tentava afastá-la de mim. Daisuke a olhava com os olhos apertados.

Ela, com certeza, não percebeu seu olhar letal. Talvez nem tivesse notado que ele estava com olhos abertos. Era difícil dizer. Ele já tinha os olhos puxados devido à sua ascendência nipônica. Com eles apertados assim, pareciam mais dois risquinhos do que olhos.

— Conta — ela pediu, com um sorriso enorme, enquanto voltava a se sentar em sua própria cadeira.

— Bem, tudo começou quando eu me mudei de escola.

Fim do prólogo