A graça da vida
5 Uma festa dentro de mim
Notas iniciais
A festa havia começado às sete horas, e uma hora depois, já estava lotada.
Era uma chácara enorme, com uma piscina maior que a sala da minha casa. Havia várias luzes piscando e tocava Katy Perry. Garçons iam e vinham com uísque, vodka, cerveja e tequila. Algumas pessoas dançavam, outras nadavam, se pegavam... Tinha gente de todo o tipo. A parte coberta era mais incrível ainda, pois a decoração era feita com pranchas de surf. Rolava ao mesmo tempo uma balada e uma festa na piscina.
Era uma festa incrível, sem dúvida.
Não demorou muito para que Marcos aparecesse. Ele era tão bonito que sempre me deixava sem fôlego.
“Que bom que vocês vieram!” Ele sorriu.
Cumprimentou-me com um beijo na bochecha e fez o mesmo com Yasmin. Entreguei-lhe o presente, sem graça.
“Ei, valeu!” Ele disse, sem abri-lo. Logo após ele agarrou minha prima pelo punho, puxou-a, e falou “Vem comigo que quero te mostrar algo”.
Ela olhou para mim e disse que já voltava. Supus que demoraria.
Sozinha e um tanto perdida, arranjei uma mesa para me sentar, onde eu via a piscina, mas longe o suficiente para que eu não me molhasse, e fiquei ali pensando em como Yasmin era sortuda. Dezesseis anos morando naquela rua e eu nunca fora convidada para uma festa de Marcos. Quer dizer, eu frequentava as festinhas dele quando ambos éramos crianças, mas depois que viramos adolescentes, nunca mais. Já ela, em sua segunda visita para cá, já havia sido convidada e mais do que isso, iria conseguir tirar algumas casquinhas do dono da festa.
Um garçom passou por mim e eu pedi que ele me trouxesse um suco de laranja e alguns salgados. Pouco tempo depois ele voltou com um copo bem grande e pequenas coxinhas.
A festa seria só isso? Já estava ficando frustada, pois eu não estava me divertindo. Todos riam e dançavam e se beijavam e eu ali, sentada como uma mulher rancorosa. Por falta do que fazer, comecei a reparar em todos os convidados. Havia uma mulher com uma cicatriz na perna direita que parecia uma maça; o cara brincando de briga de galo tinha um cabelo verde esquisito o qual eu nunca vira antes; e tinha também aquele garoto sentado sozinho em uma mesa, do outro lado da piscina, que... EI! NÃO, NÃO PODIA SER. ERA O...
Você acredita em destino? Bom, eu não, mas às vezes assumo que ocorrem certas coisas em nossa vida que não podem ser apenas coincidência. Por exemplo, o cara que eu acabara de ver era ninguém mais e ninguém menos do que... José Costa.
Olhei para ele surpresa, pensando que diabos ele fazia aqui. Foi quando seus olhos encontraram com os meus e em sua face criou-se a mesma expressão de indagação. Depois ele sorriu e veio andando em minha direção.
Imaginando que ele viria sentar comigo, e sem saber o que fazer, arrumei meu vestido e conferi se eu estava com mau hálito (ufaa, não estava!).
Ele usava uma calça larga, tênis all star vermelho e uma camiseta preta com palavras aleatórias em inglês, na com branca.
“Posso sentar aqui?” Ele disse.
Fiquei constrangida. Eu fora tão tola, quando, no começo, quis ser ‘amiga’ dele, com todo aquele papo sobre “O velho pássaro”...
“Claro”.
“É... Maria Catarina, né? A gente estuda na mesma escola.”
“É sim.”
Sorrimos um para o outro e eu pensei porque ele estava sendo... Tão simpático. Nem parecia aquele garoto de dois capítulos atrás! Houve alguns segundos de silêncio até ele soltar:
“Então... Você conhece meu primo da onde?”
“Uau... Eu não sabia que o Marcos é seu primo. A gente mora na mesma rua. Vocês são tão... diferentes!” Deixei escapar minha surpresa.
Ele riu.
“É, eu sei... Temos um diferente grau de beleza. Como pode ver, eu fiquei com a boa aparência e ele com a inteligência.”
Ri, um pouco sem graça.
Não tínhamos muito assunto, mas eu queria conversar com ele, então disse:
“Ahn... você gosta de Oasis?”
“Tá brincando?! São os melhores!” Ele respondeu “Me diz uma coisa: Você estava na escola quando a professora Judite fez xixi nas calças?”.
Dei uma gargalhada imediata ao me lembrar desse dia. Sim, eu estava. Aquele dia fora hilário.
Estávamos rindo bastante, relembrando dos diversos casos que já tinham acontecido em nossa escola, quando apareceram dois jovens de minha idade, um garoto e uma garota, ambos bem animados, que se sentaram em nossa mesa.
“Vocês! Uau, pensei que não viriam!” – Disse José, cumprimentando todos.
“Tá zuando, cara? A gente não ia perder essa festa por nada!” Respondeu a moça.
José, vendo que eu estava um pouco excluída, disse:
“Ei, pessoal, essa aqui é a Maria Cataria” NÃÃO, NÃO PRECISAVA FALAR MEU NOME INTEIRO! “Ela é da minha escola e talvez seja a única de lá que valha a pena”.
Com este elogio, corei um pouco, e resolvi que pensava o mesmo sobre ele. Então lembrei que aquele grupo era o tal que eu vira na praça.
“Oi. Eu sou a Julia” Disse a garota, que era negra e tinha um belo cabelo afro, que estava solto.
“E eu sou o Felipe” Disse o menino, que era bem bonito e usava uma camiseta do Chaves.
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Os três começaram a conversar compulsivamente, sem parar. Então lá na Balada, o DJ soltou a música Planetary Go, coisa que a muito tempo eu não ouvia. No primeiro toque, os três paralisaram instantaneamente. Julia gritou, sem se incomodar com os outros convidados:
“MEU DEUS, É A NOSSA MÚSICA! TEMOS QUE IR DANÇAR!”
Ela agarrou o punho de Felipe e o puxou para a pista de dança. Este levou consigo o José, que por sua vez, pegou em minha mão. Fomos todos para o centro da pista e os três começaram a cantar e a dançar loucamente, como se estivessem dando chutes no ar ou matando alguma mosca invisível.
Julia pulava e dava socos no ar; Felipe cantava autenticamente alto; José rodava, com a cabeça pra cima. E eu apenas observava aquelas pessoas tão diferentes e extraordinárias.
Em determinado momento, nos demos as mãos e ficamos girando, sem parar. Algumas pessoas na pista olhavam-nos como se fossemos outra espécie de seres vivos.
Era incrível estar ali, se divertindo tanto.
Entreguei-me ao momento e quando dei por mim, estava assim como eles, de corpo entregue a dança. Eu não pensava em nada, apenas curtia a música e dava pulos e chutes. Pela primeira vez na vida, me senti livre, solta, como se nada pudesse me impedir. Como se eu fosse a rainha do mundo.
E naquele momento, observando àquelas pessoas que eu havia acabado de conhecer e que eram tão excêntricas, eu entendi tudo.
Havia encontrado meu lugar no mundo.
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