A garota perdida em azul
1 Prólogo: o dia em que meu pescosço ficou azul
Notas iniciais
Essa história está em construção. Já há um "esqueleto" do enredo, mas a trama esta sendo trabalhada.
Tão rápido quanto minhas pernas permitiam, cruzei aquele terminal sem se quer olhar para os lados. Meu único foco estava estacionado na plataforma com um aglomerado de pessoas à porta. Eu gostava de andar de ônibus, percorrer as ruas observando as pessoas que entravam e saiam do transporte, a paisagem passando em alta velocidade sempre fez com que eu me perdesse em pensamentos e refletisse. As melhores ideias e conclusões vieram dentro do transporte público.
O lugar era barulhento e parecia-me aconchegante naquele dia frio de outono. Ver tantos rostos fazia-me sorrir. A vida é tão bela e os humanos tão únicos que é impossível não se sentir compelido a admirar o cotidiano. Os adultos de cara fechada para o vento frio, os adolescentes de riso frouxo e as crianças- ah! As crianças! – Que são minha parte favorita quando me engajo a examinar os aspectos da vida.
Muito peculiares aqueles pequeninos, estão sempre explorando e questionando-se. Lembro-me de vê-los passando embaixo dos bancos do terminal, perseguindo pombas e mirando aqueles olhos grandes de curiosidade infantil para os transeuntes. Minhas experiências com crianças sempre foram boas, quero dizer, elas sempre pareceram gostar de mim. Não sei dizer se são minhas roupas ou cabelo, mas elas sempre me encaram e muitas vezes, quando estou de bom humor, acabo por mostra-las como é bom aproveitar as criancices que elas podem fazer.
Havia também as senhoras e senhores de idade. Pessoas idosas lembravam-me conforto e nunca ficavam sem assunto. Não importa onde estejam, quem esteja a seu lado, seja conhecido ou alguém que não mais iriam ver. Eles têm assunto a tratar com todo e qualquer um que estiver disposto a ouvi-los por tempo suficiente. É impressionante a facilidade com que expõe suas vidas- chega até a ser corajoso-, pergunto-me se um dia serei assim.
Em dias cinza como aquele eu enxergo cores envolvendo os que passam por mim. É como se fosse uma forma involuntária de tentar adicionar cor a minha vida. Lembro-me de ver senhoras em um laranja pálido e então conferir meu celular. Os jovens inconsequentes em vermelho de pura agitação e então uma mensagem. As crianças embaladas em rosa claro e uma notificação que piscava. Os adultos, em seu mal humor, expiravam amarelo e era como se uma nuvem negra pairasse sobre suas cabeças e então uma conferida na vida social compactada em minhas mãos.
Foi um choque quando ao levantar meus olhos da tela uma última vez pude aponta-lo em meio à multidão sorrindo e vindo na minha direção. Não consegui identificar que cor que ele radiava, o azul de seus olhos eram um polo magnético me atraindo, me puxando, me seduzindo...
Os óculos eram mantidos em posição periodicamente de forma inconsciente, o sorriso era incerto ao reconhecer alguém em meio a tanta gente e o andar desengonçado mostrava o malabarismo que ele fazia com a mochila em uma alça só. Meu sorriso era automático ao reconhecer o quão fofo era seu receio em me interceptar.
Sabe aquele momento em que você quer gritar por ter sido interrompido e ao mesmo tempo dar um beijo em quem o interrompeu por faze-lo parecer requisitado? No momento em que o cumprimentei meu celular tocou. Naquela hora eu mal sabia meu nome, atônita demais pelo impacto que aqueles traços adoráveis do ser que tentava não parecer estar me dando espaço para atender a ligação sem um telespectador causava em mim. A única certeza era a de que meu sorriso refletiria mais que a lua caso houvesse um sol para o iluminar.
Quando me perco no meu limbo desanuviado, sinto-me radiante. Não consigo dizer se ele repara ou se minha mudança é diminuta e imperceptível a quem observa, contudo sinto como se tivesse uma placa de neon acima da minha cabeça com os dizeres “ Amei te ver” piscando.
Patética como sou, mantive minha pose altiva e desencadeei uma conversa fácil. Obviamente as forças do universo conspiram contra mim, assim como conspiram contra toda garota adolescente e logo fomos interrompidos pelo telefone dele. Um fato curioso é que toda vez que o celular dele toca eu me sinto tensa. O motivo para tanto? O motivo tinha nome, sobrenome e era uma das criaturas mais bonitas que eu já vi. Os azuis para os quais eu me derretia já pertenciam à outra.
Apenas soube sobre ela quando fui atrás de mais informações sobre ele em todos os meios em que ele expunha sua vida. Ele não fala dela para mim, mas ela está lá. Toda vez que permito-me ser sugada para o vazio que minha mente se tornar perante ele, os sussurros traiçoeiros da razão me lembram que no mar no qual estou à deriva já tem o sol para ilumina-lo. Não estou no intocado e desconhecido. Estou testemunhando o beijo constante entre mar e Sol e ao mesmo tempo que acho isso algo lindo, meu peito chora e tenta forçar que meus olhos façam o mesmo.
O status de mar em minha vida foi primeiramente devido a cor de seus olhos, porém foi com a convivência que essa comparação ganhou força. Ele não se revelava por completo, podia apostar que ele não foi totalmente desbravado. Assim como o mar ele era de uma beleza única ao mesmo tempo em que era perigoso quando alguém de aprofundava de mais. Os humanos só aguentam até certa pressão em um mergulho no mar e por isso ele é um mistério em seus confins, ao olha-lo eu quebrava a cabeça me perguntando: eu aguentaria a pressão se fosse até o fundo do meu mar?
Oscilando conforme a brisa, meu barco perdia-se em meio a imensidão. Receoso, com medo de queimar-se com o Sol ou afundar e ser esquecido. Há dias em que sua calmaria me atiça e eu não resisto e acabo por roçar meus dedos na superfície. Quantas vezes não pensei em me jogar de cabeça e, claro, a razão estava ali para lembrar-me que toda ação tem uma reação. Como ele reagiria à minha impulsividade?
Ao estudar a forma com que a tensão superficial impedia meus dedos de se aprofundar, mesmo que suavemente, eu percebia meus limites. Ele estava muito além dos meus domínios.
Entreouvindo a sua ligação pude notar que alguém lhe oferecia uma carona. Preparada para me despedir, memorizei aquela figura despojada de lábios vermelhos em seus jeans, arrumando os óculos mais uma vez. A despedida pesava-me na boca, que amargava por não conseguir me expressar dignamente durante o tempo em que estava a seu lado quando ouço-o dizer que estava acompanhado.
Acompanhado por uma amiga.
Não sei se consigo realmente descrever o que eu senti com exatidão, foi algo como ficar eufórica enquanto alguém apertava meu coração. Ele me incluiu. Fui inclusa como amiga. Era apenas uma carona. O que era ser amigo? A partir dali eu passei a pensar bastante sobre meus amigos e o que uma amizade significava para mim.
Obviamente uma amizade começa por afinidades. Vocês gostam das mesmas músicas, mesmos programas, estilos de roupas e então quando se dá conta... BUM! Vocês estão compartilhando momentos importantes e sabem que não importa o que digam ou façam nunca se abandonariam. Para mim, com um amigo não há necessidade de mentir ou ocultar nada.
A intimidade e a confiança em um laço de amizade podem levar a situações inusitadas e até constrangedoras, mas se estamos entre amigos por que se importar? Com os amigos mais próximos quero compartilhar tudo. Com os amigos mais distantes quero que se sintam parte da minha vida. A todos eles quero que se sintam especiais, cuidados e amados.
Por que com ele eu insistia em ser egoísta?
Eu ocultava parte de mim para não o assustar. Eu temia perde-lo e não conseguia ser plena a seu lado. Eu o queria só para mim .
Assim como usar uma tira de papel para suspender um carro, minha amizade com ele não parecia natural ou fluida. Por diversas vezes questionei meus princípios baseada na pequena chama de esperança que se acendia toda vez que eu descobria algo em comum com ele. “Nós somos amigos. Nós somos amigos” eu repetia e repetia incessantemente tentando me convencer.
Desbravamos a multidão do horário de almoço cruzando o centro da cidade comigo sempre ditando nossos passos, mesmo que eu não fizesse ideia de para onde ir. Isto foi uma das coisas que me deixou a sua mercê, a sua gentileza e cavalheirismo eram tão marcadas que chegava a ser cartoonizado.
Foi naquele carro, o carro de um completo estranho, sentada entre ele e uma cadeirinha de criança que meu pescoço ficou azul. A partir daquela carona nossas conversas tomaram um caráter mais intimista tanto em teor quanto visualmente. O que é ser intimista visualmente? Eu podia sentir sua respiração contra a curva de meu pescoço, acariciando meu rosto e me deixando rubra. Todas as vezes que sentávamos lado a lado eu me deliciava com suas palavras sopradas.
A forma lenta em seu tom de voz baixo conseguia transformar qualquer assunto em algo que me aquecia. Era impossível não ficar tensa a cada vez que eu o sentia próximo. Tentava encaixa-lo em meu círculo de amizades, mas a cada vez que ele acariciava meu ego ou me olhava como a única pessoa capaz de entende-lo meu interior se agitava.
Durante meus anos escolares não fui avisada que o mar podia colorir as pessoas, por isso minha surpresa ao reparar na marca azul. O tom de azul em meu pescoço era quente como uma chama. Aquele tom de azul, o qual só eu enxergava, ardeu por semanas me fazendo acordar nas madrugadas. Não posso negar que foi algo bom.
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