A garota dos olhos violeta
6 Truques muito sem graça de mágica
Notas iniciais
Acordei no dia seguinte com alguém me chamando, meu irmão, imaginei.
Eu costumava não ter que precisar de ajuda para levantar da cama, mas hoje era diferente. Não queria sair. E o fato de minha cama, dura por causa do colchão barato, parecer mais confortável, como se o fosse recheada de pétalas de flores, não ajudava. Queria voltar para aquele sonho tremendamente absurdo, muitíssimo maluco, e, por motivos que eu mesma não conseguia entender, estranhamente bom.
Fui chamada novamente.
– Já vou levantar! Dan, você não vai acreditar no sonho que eu tive...
– Quase. Pan, não Dan, minha querida. E, por mais que eu pareça ser um, não foi um sonho.
Sentei-me rapidamente e abri os olhos.
Lá estava ele, apoiado na cômoda em frente à cama. Cabelos loiro-escuros, olhos verdes enegrecidos e um sorriso convencido. E aquela não era minha cama, e sim a dele, embora eu não pudesse explicar como havia parado ali. Em resumo, não havia sido um sonho.
– Pan. – falei, com desprezo.
– Peter, por favor, minha querida. – ele disse, aumentando ainda mais seu sorriso.
– Peter, que seja, você pode ir tratando de me explicar o que raios eu estou fazendo na sua cama! – falei, entre dentes.
– Sabe, ontem eu deixei você dormir na minha poltrona, mas no meio da noite você acordou e implorou para dormir comigo na minha cama, dizendo que já não aguentava mais todo aquele fingimento, e eu, gentilmente, atendi seu pedido. – Ele me encarava com aqueles olhos verdes e misteriosos, cintilando olhando para mim.
– Se isso for verdade, flores vão cair do céu. – falei, balançando a cabeça, não acreditando nem um pouquinho em sua história.
Ele alargou ainda mais o sorriso e estalou os dedos.
Uma tiara de flores caiu sobre minha cabeça.
– HÁ. Muito engraçado, senhor mágico. Qual é o próximo truque? Tirar uma moeda de trás da minha orelha?- falei, tentando parecer o menos impressionada possível, embora a tiara fosse realmente bonita.
Ele riu.
– Não, não. Mas, sabe – o sorriso dele mudou de convencido para malicioso – eu posso fazer coisas desaparecerem e reaparecerem em outros lugares também. Quer ver?
Sem esperar resposta alguma da minha parte, ele estalou os dedos novamente, e algo branco e de rendas apareceu na mão dele.
Meu sutiã.
Senti minhas bochechas queimarem.
– Olhe aqui, seu moleque atrevido... – falei, enquanto me levantava e ia em sua direção.
– Calma! Só estou brincando! Não vou tirar sua blusa também! Bem... – Ele começou a andar em minha volta, seus olhos faiscando em malícia. — A não ser que queira.
Em vez de voar no pescoço dele, o que era minha vontade, optei por colocar o pé na frente dele, que estava distraído e por isso tropeçou e caiu na cama. Comecei a gargalhar, então ele me puxou também.
Agora quem ria era ele. Tentei lhe dar um tapa, porém ele segurou meus pulsos. Em seguida, ele se colocou por cima do meu corpo, entrelaçando suas pernas com as minhas e me imobilizando.
Ele me olhava tão profundamente que eu sentia como se ele estivesse vasculhando cada canto da minha alma. Ele foi diminuindo a distância entre nós, até ter menos de três centímetros entre nossos lábios.
– Acho melhor – ele sussurrou – você trocar de roupa.
Ele então se levantou, virando-se para o outro lado.
“Wow, o que foi aquilo, Iara?” Pensei, atordoada.
Olhei para minha roupa. Droga, ele estava certo. O estado da minha linda camiseta branca e meu adorável shorts preto era deplorável. Estavam rasgados em alguns pontos, com algumas folhas presas e com manchas de terra. Levantei-me, pegando a tiara de flores.
– E onde tem outra roupa?- perguntei, tentando fazer parecer que o que havia acontecido não me afetara nem um pouco (o que, acho que não preciso dizer, era mentira. Quero dizer, não era por causa do Peter... PAN! Era só que não era todo dia que garotos bonitos me imobilizavam na sua própria cama e quase me beijavam. Quero dizer, não é que eu achasse o Peter... PAN, bonito, é só que... Ah, quer saber? Eu só estou me complicando mais. Melhor parar antes que escreva algo realmente comprometedor. Quero dizer... AH!).
– Ali, no closet. Separei antes de você acordar. Era de uma... – ele hesitou – Antiga amiga.
Comecei a andar em direção ao closet.
– Iara, espere!
Virei-me na direção dele.
Ele me encarou, com um sorriso malicioso.
– Esqueceu isso. – ele jogou meu sutiã para mim.
Peguei-o, olhando Pan com desprezo e entrando no closet.
Lá dentro, havia um vestido creme e sandálias de couro marrom-claras. Não faziam meu estilo, mas que outra opção eu tinha?
Coloquei a roupa, pensando no que havia acontecido alguns minutos atrás. Eu deixei. Eu cedi. O que havia de errado comigo?
Tirei esses pensamentos da cabeça e me foquei no grande espelho que havia lá. Não poderia ter ficado tão ruim...
– PAN!!!
Eu saí do closet, extremamente irritada.
– QUE RAIOS DE ROUPA É ESSA?!
O vestido (que, em minha opinião, não passava de um pequeno pedaço de pano cortado), batia na metade da minha coxa e tinha um decote muito maior do que eu aprovava.
Pan se virou e apenas abriu um sorriso. Em seguida, ele rodou em minha volta, me olhando de cima a baixo, alargando mais e mais o sorriso, enquanto eu ficava mais e mais irritada (e constrangida) com aquela situação. Por fim, ele voltou a me encarar.
– Não vejo nada de errado. Para falar a verdade – Ele se aproximou um passo de mim. – acho que ficou muito bem em você, — Ele se aproximou mais um passo de mim. – minha querida.
Espetei o dedo no nariz dele.
– Não. Chame-me. De. Querida.
Ele, que estava perto da porta aberta, deu um grande passo para trás e caiu.
– Peter! – gritei, indo em direção à porta e olhando para baixo, mais desesperada do que gostaria de admitir.
Ouvi sua gargalhada.
– Não precisa se preocupar, querida. – ele, que estava são e salvo no chão, fez questão de dar ênfase à última palavra – Lembra? Eu sei alguns truques. Por que não desce aqui? Tenho um dia mágico preparado para nós dois.
Apreensiva, fiz menção de ir para trás. Porém, com um estalar de dedos, entrei em uma nuvem de fumaça verde e apareci ao lado dele. Ele sorriu, e, contra a minha vontade, entrelaçou sua mão na minha e começou a me conduzir em direção ao acampamento.
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