Notas iniciais
Nada é o que parece, digo apenas isso a você que está lendo essa One! Tenha uma boa leitura e espero que gostem ♥

Ela estava parada no canto do meu quarto, perto da janela, como fazia todas as noites. Encarava-me com seus enormes olhos vazios, seu cabelo preto como petróleo tapava metade de sua face.

Sua boca era um borrão, e dela saia infinitos murmúrios inaudíveis. Ela parecia se esforçar para dizer algo, mas a voz teimava em não sair. Eu podia sentir sua angústia, seu medo, sua raiva, da cama onde eu estava deitado.

Por um tempo, tudo ficou em silêncio, ela parecia finalmente ter se cansado de tentar falar. Enfim, tentei me mover, até gritar para chamar por ajuda, mas meu corpo não me obedecia.

É estranho porque depois de tantas visitas que recebo dessa estranha parece que de alguma forma estamos conectados. Consigo sentir tudo o que ela sente e parece que acontece a mesma coisa com ela.

No inicio, eu tentava a todo custo fugir das aparições, chegava até a passar noites em claro para não ser obrigado a ter que vê-la. Mas chegou um momento que o cansaço me venceu e tive que deixar o medo de lado e dormir. Mas cada vez que fecho meus olhos, não demora muito e essa estranha aparece.

Já contei para vários conhecidos, uns falam que é o demônio e que tenho que procurar uma igreja e só assim ele me deixará em paz. Outros dizem que é um espirito tentando se comunicar comigo e que eu deveria procurar um centro espirita para receber a mensagem.

E o que fazer quando você já foi a todos os lugares inimagináveis e nada adiantou? As coisas continuam iguais, e às vezes até pioravam.

Teve uma noite em que as luzes da casa começaram a piscar, até que uma delas desligou. E na manhã seguinte, quando fui conferir, as lâmpadas estavam normais, nenhuma sequer havia queimado. Achei que podia estar delirando ou que havia sonhado, mas passados alguns dias, aconteceu novamente.

E na última semana uma nova aparição veio acompanhar a garota dos olhos vazios. Quando a vi pela primeira vez achei que fosse meu gato que havia conseguido entrar de algum modo no meu quarto e subido em cima da minha cama para me acordar, como sempre faz quando queria comida. Mas ao olhá-lo atentamente, percebi que a forma era maior, negra e com garras e dentes afiadíssimos.

Além que, meu gato jamais faria as coisas que esse ser fez comigo, Já na primeira vez que o vi, ele agiu de forma bem mais agressiva do que a garota. Primeiro me paralisou como sempre acontece, depois me estrangulou até quase me deixar ser ar. Como se isso não bastasse, senti suas garras em meu corpo, mas não sentia dor e nem machucados, somente uma sensação terrivelmente ruim e agonizante.

Hoje, felizmente ele não está aqui, um tormento a menos. Mas a garota está começando a me assustar. Faz tempo que não luto mais contra ela, só aceito que tenho que passar por isso e deu. Mas hoje não teve jeito, a adrenalina tomou conta do meu corpo e em vão tentei fazer alguma coisa.

Depois do silêncio perturbador, ela começa a se virar lentamente para mim- sim, a cabeça dela estava do lado contrário do corpo- me encarando com seus enormes e inexpressíveis olhos. Ela começou meio a caminhar, meio a rastejar para cima da minha cama. Então, pela primeira vez desde que apareceu em meu quarto, ela despejou sua fúria em cima de mim.

Eu achando que o gato medonho era ruim, porque não havia visto do que ela era capaz. Ela rastejou lentamente por cima de mim, cada parte do meu corpo em que sua névoa tocava, eu podia sentir aquela sensação agonizante mil vezes pior do que já havia sentido. Suas garras chegaram a meu pescoço, e novamente perdi o ar, esse tempo todo tentando fechar meus olhos sem sucesso. Fui obrigado a ver sugando cada gota de vida que havia em mim, e nesse momento eu jurava: nessa noite eu não sairia vivo.

Foi nessa hora que meu despertador tocou, então abri os olhos – eu achei que eles estavam abertos o tempo todo, mas me enganei – e fitei o relógio, eram 8:00 horas da manhã, e eu estava atrasado para minha primeira consulta com o psiquiatra. O que um psiquiatra tem a ver com tudo isso? Eu não sei! Mas uma amiga me disse que talvez ele pudesse me ajudar, pois ela desconfiava do que eu tinha só não me falava porque não tinha certeza.

Levantei da cama, receoso de que qualquer movimento que eu pudesse fazer traria a menina de volta e com ela os pesadelos da noite passada. Quando finalmente consegui colocar todo meu corpo para fora da cama, fui até meu armário pegar algo para vestir. No caminho parei em frente ao espelho de corpo todo que fica próximo da janela. Eu parecia exatamente o mesmo de quando fui dormir ontem à noite, e ao mesmo tempo com uma aparência tão cansada, que eu jamais havia me visto dessa forma.

Meus cabelos castanhos estavam bagunçados, e uma olheira gigante tomava conta dos meus olhos. Mas fora isso, não havia nada de errado, nada de marcas ou machucados pelo corpo como eu lembrava que havia sofrido durante a madrugada.

Desci, tomei um copo de suco correndo e fui para a garagem pegar meu carro e ir na maldita consulta.

O trânsito estava tranquilo, ainda bem, pois do jeito que eu estava não teria condições de dirigir em ruas movimentadas.

— E então, desde quando tem essas visões? – perguntou o doutor Ben, depois que lhe contei o motivo de eu estar ali.

— Bom, já faz mais ou menos um ano. – digo

— E na primeira vez que isso aconteceu você não passou por nada traumatizante, não estava ansioso demais ou algo do tipo?

— Bom, não consigo me lembrar direito. Mas eu estava tendo uns problemas familiares.

— E você ainda enfrenta esse problema? – pergunta ele, anotando tudo em sua caderneta.

— Não mais.

— Sofre de ansiedade, depressão ou algo assim?

— Que eu saiba só de ansiedade.

— Antes de isso acontecer, você dormia direito à noite? Alimenta-se bem e faz exercícios físicos regularmente?

— Nunca tive o sono regulado, sempre dormi muito tarde e acordava muito cedo. Além de eu comer muita besteira, mas exercício eu pratico todo o dia.

—Huum... ok. – disse ele. – Acho que já tenho o suficiente para saber o que você tem.

— Então, o que é? – pergunto ansioso.

— Já ouviu falar da paralisia do sono?

— Já! Mas não sei ao certo o que é.

— Bom, a paralisia do sono ocorre quando se está consciente, mas incapaz de se mover, como você me descreveu. Você consegue sentir tudo o que ocorre ao eu redor, mas não tem controle sobre seu corpo, logo não consegue se mover. Resumindo, o cérebro age como se estivesse dormindo, por isso em alguns casos como o seu, por exemplo, quando a pessoa abre os olhos enxerga fantasmas, bruxas ou demônios andando ou até interagindo consigo (geralmente essas interações são sensações de pressão ou asfixia). O cérebro mistura realidade com sonhos.

— E tem remédio para isso? – pergunto aliviado, pois diferente do que todos me diziam, não tem nada de sobrenatural nisso, e sim uma questão psicológica.

— Infelizmente ainda não existe! Mas tem métodos que se você seguir pode parar completamente com isso.

— E quais são?

— Exercícios físicos diariamente, alimentação saudável, melhores hábitos de sonos, e tratar sua ansiedade com um profissional são exemplos.

— Eu nunca achei que pudesse ser isso.

— Pois é! Muitas pessoas sofrem desse mal e não tratam por falta de informação. Mas agora tudo o que você precisa é seguir essas coisas que eu lhe disse. Se quiser deixar sua próxima consulta marcada para começarmos a tratar sua ansiedade, pode fazer ao sair.

—Ok! E mais uma vez, obrigado.

— De nada Nathan! Tchau.

— Tchau.

Sai da sala do psiquiatra com um pensamento totalmente diferente do que entrei. Sempre pensara que problemas psicológicos eram besteira, até hoje nunca havia dado bola para o que uma doutora havia me dito anos atrás, que eu tinha ansiedade. Mas de agora em diante levarei mais a sério, pois a saúde mental é tão importante quanto a saúde física e todos deveriam saber disso.

Nem acredito que daqui pra frente poderia levar uma vida normal, sem medo de dormir, sem que as pessoas achassem que eu era um louco. Perdi tanto tempo da minha vida com isso que não sabia mais como era dormir direito, mas essa noite eu reaprenderia.

Notas finais
E ai? Era o que vocês achavam? Gostaram?
Então deixem seus comentários para que haja mais Ones entre outras histórias.
Bjs e até a próxima :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!