A garota da tribo de Bharani
2 Zoya: A mentora da paz.
Notas iniciais
— 45 anos atrás, quando eu ainda era jovem, houve um tempo em que a magia era manifesta entre nós. Corellyh era lar de paz, onde algumas poucas pessoas tinham a oportunidade de ser agraciado por Zoya, o espiríto fundador da magia. Zoya selecionava cautelosamente os seus herdeiros, avaliando-os de acordo com suas atitudes. Era indiferente à idade, sexo e quaisquer restrições para lhe conceder esse dom. Tudo o que Zoya buscava, era corações puros e dispostos a lutar pela paz. Essas pessoas escolhidas eram intituladas de guardiões e acreditava-se que eles eram os responsáveis por manter a ordem do mundo. Foram porquíssimas as pessoas escolhidas. E por sorte, eu fui uma delas. Eu costumava ter uma vida tranquila, vivendo em uma pequena aldeia ao Norte de Corellyh. Onde orientada por Zoya, praticava da magia benevolente a fim de aperfeiçoar minhas habilidades e de proteger àqueles que necessitavam de socorro.
— M-mas...o que exatamente é essa magia? está me dizendo que você ficou cara a cara com um espírito?!! – indagou Aghata boquiaberta .
— Acalme-se, querida. Eu vou lhe explicar – fez uma pequena pausa – A magia, nada mais é que uma energia natural, a qual pode ser manipulada tanto na forma física, quanto na forma etérea, cuja principal fonte provém de Zoya aliada às forças já existentes na natureza. E não, eu não fiquei cara a cara com ela, mas eu podia sentir o que fazer e quando fazer.
— Uauu! Que incrível!...
— Certamente tudo isso era um privilégio. Mas acontece que, grande parte desses guardiões deixaram-se levar pela ambição. Em tempos de guerra, foram induzidos pela liderança de suas tribos a atacar com magia as tribos inimigas, assim desrespeitando toda conduta de paz e quebrando o pacto de fidelidade com Zoya. Tudo virou um caos, resultando em muito sangue inocente derramado. Foram tempos de muita agonia, onde eu observava impotente, o desespero de muitas famílias. Eram órfãos, viúvas e feridos por toda parte que me imploravam por socorro, e eu não tive escolha e... pelejei na guerra.
— E o que aconteceu depois?
— Foram semanas de guerra árdua. Com a dominação dos elementos da Terra, fomos submetidos a varias catástrofes! Furacões, terremotos, tempestades, ondas de calor e tudo de ruim que se possa imaginar. A guerra foi saindo fora do controle de todos, e acredite querida, muita, mas muita gente inocente foi morta por conta dela — disse com amargura — Enfurecida com a perversidade humana, Zoya se rebelou contra os guardiões e arrancou-lhe à força toda a magia outrora concedida, selando-a dentro de si e desaparecendo pra sempre. Antes de partir ela sussurrou ao ouvido de cada guardião: ''Eu amaldiçoo vocês e a esse mundo miserável o qual vocês edificaram ''. E numa fração de segundos todos nós guardiões perdemos nossas habilidades e desde então... nunca mais ouviu-se falar sobre algum praticante de magia. Mas eu não a culpo. Zoya sempre fora um espírito nobre, que apostou sua confiança na bondade humana...mas que infelizmente, não recebeu de nós uma indenização tão honrosa quanto a sua causa.
Embasbacada, Aghata observava o pesar nos olhos de Erin. Tentava imaginar o quão difícil devia ter sido para ela durante todos esses anos manter esse segredo guardado para si. Era difícil de se acreditar que, por trás de um sorriso tão cândido, Erin acobertava uma força colossal, a força de uma guerreira. Uma guardiã.
— E-eu sinto muito vóvó... – disse tentando relevar enquanto lhe contornava um abraço.
— Oh, está tudo bem querida. Tudo bem. Eu já esqueci toda essa história, só achei necessário que você soubesse... – respondeu enquanto recebia o afago- Agora vamos dormir? Já está tarde, não se esqueça que amanhã cedo você e seu irmão terão de recolher mais algumas ervas. Céus! O nosso estoque de Arnicas está cada vez mais escasso.
— Tá bom, tá bom... Estou indo. Boa noite,vó. Que os deuses lhe protejam.
— Boa noite, meu amor! Que eles estejam contigo também.
À medida que observava a jovem caminhar até seus aposentos, Erin relembrava sua juventude, quando era só um pouco mais velha do que Aghata, as lembranças de quando era uma guardiã, das vidas que salvou e a imensa felicidade que sentira quando percebeu que fora uma escolhida de Zoya. – Tempos que jamais voltarão...- sussurrou pra si enquanto limpava as lágrimas quase formadas em seus olhos.
E foi dormir.
Na manhã seguinte, Aghata foi despertada pelos feixes de luz solar que invadiam a janela do seu quarto. Abriu precariamente os olhos semicerrados, enquanto observava a bagunça que seu irmão fazia no aposento.
— O que... O que você está fazendo, Toneri?
— Estou me preparando para pescar! – bradou.
— Pescar?
— Sim, a vóvó disse para irmos na cachoeira pegar alguns peixinhos hoje porque o Jackson vai estar ocupado com sei lá o que!
— Ah...mas e as arnicas? A gente não tinha que p---
— Vamos! Levanta logo e come alguma coisa!! – disse puxando-a pelo braço
— Ai, Toneri! Calma! Já estou indo.
Já com as costumeiras vestes, Aghata sentou-se à frente de sua avó na mesinha de sempre. Comia desalentadamente um pedaço de pão preto embebido de leite, enquanto observava Erin descascar alguns legumes.
— Porque eu vou ter que ir pescar hoje? O que aconteceu com Jackson? Você sabe que eu odeio pescar, vó. – disse esboçando tédio.
— Houve boatos de que alguns inimigos estão pelas redondezas e tencionam localizar nosso pessoal. Querem nos invadir para recolher informações sobre o exercito do seu pai... Como se soubéssemos de alguma coisa...
— Tá, mas e o Jackson?
— Ele partiu ontem à noite para ver se está tudo bem. Provavelmente essa situação não nos apresenta grandes riscos. É quase impossível encontrar essa aldeia. –gracejou- Só por hoje, querida. Amanhã mesmo ele está de volta... Ah, e não se esqueça de seguir o rio para o lado leste, pode ser perigoso para vocês ir para o oeste. Nunca se sabe se eles podem conseguir nos encontrar...É improvável, mas melhor a gente não abusar.
— Se você diz... Vamos lá, Toneri! Já acabei. – disse recolhendo sua vara de pesca.
Era um trajeto um pouco longo a ser percorrido. Todos dos peixes do lago mais próximo à aldeia foram mortos por conta das desventuras da guerra e por isso, tinham de caminhar cerca de uma hora até chegarem ao novo local de pesca.
Ao chegarem, foram recebidos fervorosamente pelo sonoro despencar da queda d’água. Havia uma cachoeira enorme, tão alta que parte de suas águas evaporavam antes mesmo de concluir o percurso. Sua venustidade era enriquecida com a beleza dos pinheiros anexados pouco mais de cinco metros a margem do rio que por sinal estava cheio de peixes, que podiam facilmente ser visto através das águas cristalinas.
— Uauuu! Porque nunca viemos aqui antes, Agh?
— Acho que porque geralmente esse trabalho é feito por Jackson e os homens, talvez seja por causa da correnteza que é muito forte. Imagina só cair de uma altura dessas?! Vamos pescar mais praquele lado ali – disse apontando para uma pedra- lá me parece mais seguro.
— Ei! Eu sou um homem, tá?
— Você ainda é criança, Toneri. Criança que vai segurar a minha mão agora e subir com muito cuidado naquela pedra.
— Chata! – disse mostrando a língua.
— Eu sei. – devolveu a pirraça.
Foi uma pesca tranquila, munida de muitas risadas e brincadeiras. Pegaram bastantes peixes até. Tantos que nem viram a hora passar... Só souberam que estavam atrasados para o almoço quando o estômago do rapazinho denunciou seu apetite.
— Soltou um bufo ai, Toneri? Que horror! – gracejou – Eu vou contar para todos os seus coleguinhas essas coisas que você faz – tampou o nariz em atuação.
— Claro que não, sua besta. Foi minha barriga!
— Ah é? Me chamou de que?! – rebateu sorrindo.
— Eu te chamei d---
E fora interrompida por um estranho barulho que procedia das árvores.
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