A filha do louco
2 Nunca é como o esperado
Esquento a mamadeira do pequeno Billy no fogão a lenha. Depois pingo uma gota em meu braço. Temperatura perfeita, nem muito quente, nem muito fria. E levo até o berço cama do mais novo da turma, o qual agarra o objeto em minhas mãos como se a vida dependesse disso.
– Bem, fominha, que história você quer ouvir hoje? – falo enquanto arrasto uma cadeira pintada de verde até perto dele
O alojamento de Damian é o maior de todos, com quatro camas postas lado a lado, sendo uma de casal, caso alguma criança queira se sentir mais segura, e uma cama berço no canto somente para o Billy. Fora o que todos os outros alojamentos têm, um fogão a lenha, um grande armário, um freezer pequeno e um criado mudo com três livros e material para estudos. Nesse local também se encontra algo diferente, que só tem aqui e no alojamento de Thomas, material para desenho, Allie ama desenhar, assim como Cafira. Eu também desenho, porém, não faço disso um hobby.
– Trouxe da biblioteca o livro do patinho feio, da branca de neve...
– Eu quero uma história real – me surpreende o garoto.
– Hum... – Pensa Milena, pensa — Era uma vez dois garotinhos.
– Como eu? – Já começou a interromper.
– Não. Eram dois. Continuando... esses pequeninos vagavam perdidos como andarilhos.
– Você quer dizer Zumbis.
– É, zumbis, eles eram zumbis – vejo um pouco de emoção de mais na reação de um garoto que vive em um apocalipse – e vagavam pela escuridão da noite. Sempre juntos, pois o laço de sangue deles era mais forte do que qualquer mau.
– Mas se eles eram os mortos, o mau não era eles?
– Cala a boca moleque! – Me acalmo, ele parece já estar acostumado – Billy, eles não eram maus, apenas não tinham tanta sorte quanto nós.
– E agora eles têm? – sussurra ele, meio com medo.
– Tem sim, e sabe por quê? – ele balança a cabeça em negativo – porque um cientista, maluco, mas que no fundo tem bom coração os salvou e deu a cura a eles. – Três anos depois de indiretamente os matar.
– AH! Eu sei de quem é essa história, é do Sebastiam e do Arthur, os gêmeos loirinhos.
– É, esses mesmos – sorrio, guardando os livros que trouxera da biblioteca.
– Ei! Só isso?
– Sim, agora dorme.
Guardo os livros dentro do criado mudo e vou até o pequeno, o qual permanece com olhos bem mais aberto do que os meus. Então começo contar a ele a história de uma garotinha, filha de pais separados, uma advogada e um cientista louco, que pensa em criar um mundo novo, na qual a garotinha e sua irmã nunca mais teriam que presenciar a morte de seus parentes e amigos por câncer, doenças pulmonares, e radiação. E que consequentemente, não teria corrupção, ladrões, assassinos... nem os seus amigos.
Ele dorme, seu pai ainda está fechando a padaria, e seus irmãos acabando seus afazeres. Acabo pegando no sono também.
– Milena, querida – minha mãe me acorda. Depois de um dia cansativo acabei dormindo no chão ao lado da cama berço
– Mãe? Eu dormi aqui?
Ela balança a cabeça confirmando, depois diz que Cafira vai em mais uma expedição, com Thomas, e Adrien, e pergunta se eu quero ir junto. Levanto-me em um salto e corro para meu alojamento, para preparar minha mochila.
Um revólver, uma lança, uma espada, água e suprimentos.
– Não se esqueça da lanterna e dos fósforos – adverti minha irmã
Completo minha bagagem e aposto uma corrida com Cafira até o Jipe. Sheiji corre até nós e nos abraça, uma de cada vez. Depois é a vez de minha mãe, a qual me dá o abraço mais apertado que já senti em toda minha vida e repete a mesma frase que ele disse.
– Tomem cuidado – Seus olhos castanhos se encontram com os meus cor de mel, depois com os castanhos de minha irmã dois anos mais velha e voltam para mim. Ela envolve meu rosto com suas mãos
– O que foi mãe?
– Nada, só um pressentimento, mas... já passou – ela beija minha testa, assim como havia feito com minha irmã, e se afasta – eu amo vocês
– Também te amo – Eu e Cafira dizemos ao mesmo tempo. E entramos no Jipe.
Todos acenam para nós, até mesmo os gêmeos, sempre calados e misteriosamente fofos com seus sete anos. Marjorie parece diferente, talvez quando voltarmos já possamos conhecer o Adrien Jr.
Me sento no banco de trás, relaxada como minha irmã, ambas bem diferente de Allie. Thomas diz algo sobre “poderiam pelo menos sentar igual a ela”. Os olhos verdes claros de minha prima brilham junto ao sol, e seus cabelos voam como fogo na direção do vento. Entre aqueles ruivos fios, vejo um zumbi, de aproximadamente nove anos. Ou não, na verdade vejo apenas um risco no deserto, o qual parece ser uma criança de nove anos.
Aviso ao meu pai e aponto para o que procurávamos. O Jipe segue pelo deserto atrás do garoto.
– Pai... – digo ao nos aproximarmos. Centenas de zumbis se encontram a não muitos metros do solitário, achamos que fossem pequenas árvores.
Allie abre a boca, tendo-a fechada pelas mãos de Cafira antes mesmo que pudesse sair algum som. O veículo estava em uma velocidade razoável quando eu e Thomas, com seus óculos de grau, avistamos o zumbi, entretanto, pela distância enorme com aquele menino, aceleramos muito para chegar mais rápido. Péssima ideia, não há mais como parar.
Os zumbis começam a andar mais rápido em nossa direção, viramos para a direita e aceleramos. Tudo está sobre controle, temos gasolina suficiente, um automóvel. Mas... algo que meu pai nunca previra, o erro de quase todo inventor. A sua criação, pode não ser mais a mesma após três anos.
Um zumbi acinzentado corre em meio aos demais, empurrando-os, desmembrando-os com um simples toque. Ele se parece mais com apenas um carcaça humana, tendo muito mais ossos e carne expostos do que pele. Não sei o que é aquilo, nunca o havia visto, mas é rápido, forte, e...
– Estamos fudidos – Cafira retira dos meus pensamentos
Meu pai continua a acelerar cada vez mais, porém, o monstro pula sobre o Jipe, e como é aberto, não encontra dificuldade nenhuma de rasgar a jugular de Allie aos tiros do policial. Apesar de o fato daquilo não morrer com um tiro na cabeça me assustar um pouco, não consigo parar de olhar para o sangue em que a assistente de meu pai se engasga, ele tem exatamente a mesma cor de seus cabelos, os quais se fundem, enquanto ela....
Os gritos de Cafira me devolvem à realidade
O que estou fazendo?! Allie está morta!
Cafira decepa a criatura com a lamina afiada de sua espada, a qual parece cortar juntamente o ar em um som estridente. Minha irmã se vira para mim e me abraça, ainda ofegante ela pergunta se todos estão bem. Provavelmente ela pensa que sua irmã caçula estava em estado de choque.
Paramos o Jipe por alguns minutos, já estamos longe dos demais zumbis. Entretanto, um fio de medo percorre-nos.
– O que era aquilo? – ofega o amigo a Thomas, esperando que o cientista tivesse uma resposta muito bem detalhada
– Eu não sei – se limita a responder.
– Como assim não sabe? – Pergunto a ele, calmamente.
– Vi que se manteve em estado de choque o tempo todo, mas Milena, como pode estar tão fria agora? – A garota de cabelos arruivados ainda ofega. Nosso pai responde por mim, dizendo que cada um reage de uma maneira.
– E... Milena – Seus verdes olhos têm a atenção voltada totalmente a mim – Eu realmente não sei o que era aquilo.
Andamos em círculos e zigue-zagues para mantermos nulas quaisquer probabilidades daquela multidão de mortos nos seguirem até o refúgio. Até que o veículo quebra.
A noite caí como uma cortina nova, nunca havia visto o céu do deserto, é como se não fosse o mesmo, a lua tão perto, como se pudesse tocá-la a qualquer momento. E as estrelas, elas parecem pequenos anjos, vestidos do mais puro branco, tentando nos alcançar, talvez, elas saibam o que está acontecendo. Com o mundo, e comigo.
Fale com o autor